O HOMEM DA TERRA / THE MAN FROM EARTH (2007) - ESTADOS UNIDOS
SURPREENDENTE E REFLEXIVO CONTO DE
FICÇÃO CIENTÍFICA
O
professor de história John Oldman, em sua festa de despedida, revela a seus
amigos, especialistas de diferentes áreas, ser um real representante do Homem
do Alto Paleolítico, o homem das cavernas moderno, que teria evoluído durante
14.000 anos ao ser humano que seria hoje. Entre piadas e chacotas por parte
do grupo, cria-se, aos poucos, uma atmosfera de seriedade devido a posição
mantida por John. Após um a um dos questionamentos serem inicialmente
respondidos, alguns resolvem "entrar na brincadeira" e levar o caso
para a área filosófica, arqueológica e religiosa. Diante da contínua afirmação
de John de que realmente é um homem "eterno", as pessoas começam a
duvidar de seus conceitos de vida e terão que descobrir se a história é real ou
produto de uma farsa.
O
diretor Richard Schenkman habilmente construiu um filme de ficção científica
que não se parece como tal. Tem efeitos especiais? Não. Tem um grupo de atores,
uma cabana, poucos móveis, pois John está de mudança, e uma lareira. Se não tem
efeitos, tem o que afinal? Diálogos científicos e filosóficos e uma aula sobre
a evolução humana com direito a explicações e desconstruções de ideias e
conceitos.
Schenkman
pegou a história escrita por Jerome Bixby (1923–1998), roteirista de filmes
como "Viagem Fantástica" (1966);" No Limite da Realidade" (1983) e,
para a Televisão, episódios de "Além da imaginação" e "Jornada
nas Estrelas" (1966), transformando O Homem da Terra em um filme de
diálogos. E não há diálogos longos. Apenas questionamentos com respostas
rápidas, astutamente feitas para o fácil entendimento do grande público. Não há
longas explanações filosóficas, apenas a construção de uma teoria que vai sendo
adicionada com informações pelos personagens que ali estão: um antropologista;
um arqueólogo e sua aluna; uma professora de arte e devota cristã, um
psiquiatra, um biólogo e uma historiadora que é apaixonada por John. O
motivo pela qual O Homem da Terra não seja conhecido é devido não ter sido
lançado comercialmente na época. No Brasil não existe dublado. O filme pode ser
encontrado na internet e na Amazon. O diretor resolveu liberar sua divulgação
que fez com que muitos tomassem conhecimento da obra.
A medida que a
história avança as pessoas tentam entender o que há por trás do relato do
“Homem das Cavernas” que alega ter viajado com Colombo, ter contraído a Peste
Negra (Peste Bubônica) e ter tido lições com Buda. O antigo e o novo testamento
são postos à prova com suas revisões através do tempo. O grupo acha a história
de John fascinante: uns passam a crer que faz sentido, uma anomalia genética
poderia ter criado um ser humano imortal, outros entendem que John está criando
um personagem para um livro, que os está fazendo de idiotas ou que apresenta
uma doença avançada que alterou sua lógica.
Os questionamentos são muito interessantes, como na passagem de um dos
personagens que revela que se este “ser” existisse ele levantaria pelo menos
dois sentimentos: admiração e ódio. Ódio pela inveja de não morrer, de poder
viver várias vidas, desaparecendo durante alguns anos e reaparecendo como outra
pessoa. John alega ter dez doutorados, mas que nunca vai viver com a pessoa que
ama até o fim. Verá todos os seus filhos falecerem por acidentes, doenças ou
velhice e nunca poderá ter amigos duradouros, pois com o passar dos anos sua
aparência (sempre na casa dos 30) o denunciará. Uma vida nômade, condenado a
viver, esperando uma morte que talvez nunca venha. John não sabe se é imortal.
Sabe que não adquire cicatrizes, mas acredita que uma arma de fogo pode matá-lo
(logo, seria amortal). Delírio, verdade ou apenas um passatempo despretensioso
que se transformou em discussão e que John levou longe demais e agora não sabe
como terminar sem ofender seus amigos? O espectador descobrirá no fim.
O
elenco é muito bom. David Lee Smith, ator oriundo de filmografia televisiva,
saiu-se muito bem na pele do homem que conta uma história fantástica como
pretexto para sua partida. Curiosamente, em alguns momentos, ele lembra o ator
Michael Weiss da ótima série The Pretender. Para quem gosta de caras famosas
temos Tony Todd (Candyman, Território Inimigo e Premonição), William Katt (do
seriado da década de 90 - O Super Herói Americano) e Richard Riehle, veterano
em participações na tv e cinema como Chuva Negra e Tempo de Glória.
Filme bastante intrigante onde a questão real é a confrontação da história do
mundo como o conhecemos. Se ela é realmente verdadeira ou se, em muitos
aspectos, foram, ao longo dos anos, criados fatos para preencherem algumas
lacunas vazias. Filmes que questionam ensinamentos religiosos suscitam sempre
discussões calorosas e os mais fervorosos podem não gostar da visão que John
tem para revelar no filme. Talvez esta seja a parte mais emblemática e o
diretor poderia ter evitado a discussão, que certamente afastará o filme de uma
grande parcela que possui firmes crenças religiosas. Corajosamente, resolveu
“tocar na ferida” de um assunto muito particular. O personagem Edith é a
personificação dos que contestarão a revelação de John e o motivo pela qual sua
história sofre uma mudança de curso.
O filme é um grande e especulativo conto de ficção científica que se passa na
mente do espectador que vai criando o mundo relatado por John. A produção
poderia ter colocado o personagem nas diversas situações que narra e ter
incrementado o figurino e os efeitos, criando cenários digitais, mas muito em
parte por não ter um orçamento viável em mãos preferiu que, cada um que o
assistisse, concebesse o filme à sua maneira, o que dá esse tom especial a quem
o vê.
Pode ser visto como uma analogia ao famoso “Mito da Caverna” de Platão. Sua
função é a reflexão sobre o que faríamos com tanto tempo, sobre como são nossas
crenças e credulidades, como o ser humano reage quando as regras imutáveis que
conhece apresentam divergências e como aproveitamos nossa (curta) vida.
Esqueça os dogmas religiosos e pense como o mundo evoluiu até hoje.
SPOILER (ao final da postagem)
O
espectador não deve entender John como um personagem real. Ele é um conjunto de
ideias e doutrinas (em sua maioria) que divergem do pensamento atual. Não quer
dizer que seja ou certo ou errado. É apenas uma visão proposta do filme, materializada
em um personagem, acrescentado de elementos, que tornem a história
compreensível.
O grande mérito deste filme independente foi ter sido filmado em uma cabana
com uma trama em tempo real em seus 90 minutos de projeção e prender a atenção
do início ao fim de uma forma inteligente.
É
um filme mais indicado para aqueles que gostam de “pensar fora do aquário”, que
podem receber determinadas informações sem que isso abale suas convicções. É
aceitar que nem todos veem o mundo como nós e que isso não é uma ofensa
ou uma confrontação. É, antes de tudo, um amadurecimento. Vale a pena dar uma
conferida neste subestimado filme que tem, como a cereja do bolo, um final
surpresa.
Foi a última obra do roteirista Jerome Bixby, falecido em 1998. O diretor
conseguiu a história através de um amigo que conhecia o filho de Bixby.
Jerome Bixby escreveu para Jornada nas Estrelas os episódios Mirror, Mirror
(entre os 10 melhores da série), "Day of the Dove", "Requiem for
Methuselah", e "By Any Other Name .
No site oficial do filme há informações sobre as diversas premiações em
festivais que o filme angariou como o “Rio de Janeiro International Fantastic
Film Festival (RioFan)” e várias seleções como no “Mostra Curta Fantástico of
São Paulo” e “Festival Cinema de Salvador”
O diretor revelou em seu site ter buscado inspiração no filme “12 Homens e uma Sentença” que trabalha na mesma perspectiva: pessoas confinadas em um recinto
em tempo real
O filme foi considerado pelo site IMDB como o 298º melhor filme de todos os
tempos e o 43º melhor filme independente de todos os tempos
Site oficial do filme :
http://www.manfromearth.com/index.php Filmografia Parcial:
David
Lee Smith:
Clube da Luta (1999); Um Amor Para Recordar (2002);
Mistérios da Carne (2004); Zodíaco (2007); O Homem da Terra (2007); Crimson
Winter (2013);e participações em
seriados
William
Katt:
Doc Savage: O Homem de Bronze (1975); Carrie,
a Estranha (1976); O Super-Herói Americano (1981 -1983); A Casa do Espanto
(1986); A Casa do Espanto IV(1992);
Cyborg 3: A Criação (1994); O Pestinha 3 (1995); Rastro de Pavor (1996); Amor
em Dobro (1999); Cobras (2002); O Homem da Terra (2007); Espelhos do Medo 2
(2010); Homem da Terra: Holoceno (2017)
Tony
Todd (1954-2024)
Platoon
(1986); Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (1987); Território Inimigo (1987); As Cores
da Violência (1988); Bird (1988); A Noite dos Mortos-Vivos (1990); O Mistério
de Candyman (1992); O Corvo (1994); Candyman 2 - A Vingança (1995); A Rocha
(1996); Prova de Fogo (1997); O Mestre dos Desejos (1997); Premonição
(2000);Premonição 2 (2003); O Homem da
Terra (2007); Premonição 5 (2011); Agoraphobia (2015)
Richard Riehle:
Chuva Negra (1989); Tempo de Glória (1989); Neblina e Sombras (1991); Herói por
Acidente (1992); Corpo em Evidência (1993); Free Willy (1993); O Fugitivo (1993);
Cassino (1995); Momento Crítico (1996); Estranha Obsessão (1996); 187: O Código
(1987); Código Para o Inferno (1998); Gigolô Por Acidente (1999); O Homem da
Terra (2007); Big Stan: Arrebentando na Prisão (2007); H2: Halloween 2 (2009;
Transformers: A Era da Extinção (2014); Os 3 Cães Mosqueteiros (2014), Amnésia (2014), Larry Gaye: O Comissário de Bordo Renegado (2015), Muito Mais Que o Esperado (2015), Demência (2015), Meninas Brutais (2018), Pup Star: Feliz Natal (2018), Um Maluco no Natal (2018), O Último Homem (2018), Limbo: Entre o céu e o inferno (2019), Os 3 Infernais (2019), Muito Mais que o Esperado (2021), Segredos Não Podem Ser Enterrados (2021)
SPOILER (não leia este parágrafo se você ainda não assistiu o filme):
A
questão de John ser ou não Jesus não é a ideia central do filme. Antes de tudo, é um filme de ficção científica, uma criação da mente dos autores, sem nenhuma base que o sustente. John, na
verdade, pode ser visto aqui como uma personificação da visão dos roteiristas sob possíveis textos considerados apócrifos e de correntes do
gnosticismo que apontam um outro Jesus que não teria, supostamente, sido incluído no Concílio
de Trento pela Igreja Católica ente 1545 e 1563, sob a regência papal
de Paulo III (ainda assim jamais seria um "homem das cavernas" evoluído - haja criatividade !!!.) Para os personagens, John apresenta-se como tal. Para quem
assiste deve ser visto como uma conceptualização daqueles que acreditam que os textos
bíblicos oficiais poderiam omitir passagens que os outros manuscritos rejeitados
revelariam. Essa é a sutileza que deve ser percebida por quem assiste e em nenhum momento o filme deve ser tomado como algo que traga alguma informação verídica, por isso é uma obra de ficção. E é preciso ter um bom conhecimento de história da humanidade para compreendermos totalmente o
filme. De acordo com que adquirimos mais conhecimentos ao longo da
vida, mais informações que o filme transmite tornam-se perceptíveis. >>>>> FIM DO SPOILER
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Entrei aqui pra saber mais sobre esse filme, vlw!
ResponderExcluirBoa Noite (você esqueceu de citar o seu nome)
ExcluirQue bom que o texto agradou. Obrigado por deixar um comentário. Volte sempre e um grande abraço!