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quinta-feira, 28 de março de 2019

O RESGATE DE UMA VIDA / LUTADOR DE PAPELÃO / CARDBOARD BOXER (2016) - ESTADOS UNIDOS



A AMÉRICA QUE VOCÊ NÃO VÊ NAS TVS

Willie (Thomas Haden Church) é um dos milhares que vivem nas ruas de Los Angeles a procura de um pedaço de pão para se alimentar e um trocado para poder dormir em um local que lhe abrigue do frio. Remexe lixos e dorme dentro de uma caixa de papelão.  Willie é um homem solitário, sem amigos e sem alguém que se importe com ele. Dois eventos, porém, mudarão sua vida: a chegada no bairro de dois adolescentes que oferecem dinheiro para que Willie faça lutas com seus amigos de sofrimento e o diário de uma menina, encontrado em uma caçamba de lixo, que o sem teto passa a ler e a traçar um paralelo com sua vida.



Vez por outra uma produção "cai" na nossa frente e resolvemos dar uma conferida e nos surpreendemos. "Cardboard Boxer" é uma delas. Literalmente traduzido seria "o lutador da caixa de papelão", aliás o apelido que ganha nas ruas ao lutar. Mas a sinopse acima pouco atrativa, guarda uma pérola escondida: é um filme surpreendentemente bem escrito, dirigido e com interpretações inspiradas.  O diretor  Knate Lee (que também escreveu a estória), foi o produtor executivo de "O Sequestro" com Halle Berry, estreou na direção com o pé direito. Talvez o fato de em 2005 ter perdido o passaporte e ficado "preso" na  Índia por cinco dias, sem conhecer ninguém nem a língua, tenha sido um grande fator de inspiração .


O filme não descortina o passado de Willie. Sabemos mais sobre aqueles que vivem no seu meio do que algo de sua vida pregressa. Não sabemos se era uma pessoa boa ou má, ou o que o levou a tal estado (mas em uma cena poderemos até ter uma ideia). É através dos olhos desse protagonista, que nos é revelada a vida dessas pessoas e como o mundo os veem, os tratam e os cercam. Não há muitas expectativas na vida de Willie. Invisível à sociedade, a catar as migalhas que lhe dão diariamente, sem perspectiva de vida, semi analfabeto, solitário. Mas as coisas começam a mudar quando encontra, em um cesto de lixo, um diário de uma garotinha, escrito em letra cursiva (a letra manuscrita que aprendemos no caderno de caligrafia e escrevíamos na escola), mais complexa para quem lê apenas as letras tipográficas dos livros e jornais e tem dificuldade de escrever corretamente (a cena do cartaz comprova).


Há várias críticas ao "way of life" americano que você não assiste na tevê e nos filmes americanos. A América dos esquecidos, onde se misturam os órfãos, os derrotados pelas drogas, os veteranos de guerra (que voltam mutilados e ignorados por seu governo), os que já nem se lembram como e porquê foram parar ali, aqueles cujos os anos minaram suas mentes.  Não há como não refletir na cena em que ex-soldado paraplégico tenta vender sua medalha de bravura, que lhe custou as pernas, e o gerente da casa de penhor (um paquistanês) lhe diz não ter valor algum. Há muitas reflexões nessa cena.  Ou no rapaz que distribui bíblias, mas é insensível ao pedido de apenas um favor. Críticas sutis mais poderosas, onde cada cena revela uma faceta: a do mini-mercado, a do ônibus, a do cemitério. Um filme cuja reflexão permanece depois de terminada a projeção. E perguntas não faltam: Por que um homem bom aceita ganhar dinheiro machucando outras pessoas? O ambiente muda as pessoas?  Por que alguns se transformam e outros mantém sua  essência?  Por que há pessoas que se solidarizam e outras que preferem simplesmente ignorá-los? Por que a dor em uns destrói e em outros transforma? Por que essas pessoas não conseguem sair da teia que se embaraçaram? Por que pessoas tiram proveito de pessoas que já perderam tudo? Há tantas perguntas que surgem após o final da projeção.



Quanto ao elenco, cabe destacar a poderosa atuação de Thomas Haden Church (o "Homem Areia" do terceiro filme da franquia "Homem Aranha"). Seu ar melancólico e sem esperança norteiam o filme, ajudado por  bons atores como Terrence Howard (o taxista Pope), Boyd Holbrook (como o paraplégico Pinky) e Rhys Wakefield (como J.J). O restante do elenco não desafina e está em sintonia com que foi proposto


 
O Resgate de Uma Vida é um drama sensível. No mundo agitado e violento de hoje, filmes agitados e violentos fazem mais sentido e obras como essa ficam relegadas a poucos. É cinema reflexão e que nos agrega algo ao final de sua projeção. Pode mudar um pouquinho o modo como vemos essas pessoas, mas mudar nosso comportamento diante de suas realidades é algo bem mais complexo.  

Trailer: (contém um importante spoiler):





Curiosidades:
Orçamento: $ 10 Milhões 

Durante a realização deste filme Thomas Hayden Church foi disfarçado de sem-teto em Los Angeles. Quando as câmeras não estavam por perto, as pessoas agiam como se ele fosse realmente uma pessoa sem teto.


Cartazes do Filme:



 
Trilha Sonora:
Blood Red Orange - Devics
Rest Of The Night - The Puscie Jones Revue
La Adelita -  Carlos Periguez
I'm Gettin' Money - DJ Screw Up
Time To Go Home - Otis Johnson
Goodbye My Friend - Guido De Angelis and Maurizio De Angelis
Grave Griever - Sleeping Forest
For Agent 13 - The Besnard Lakes
Who Don't Know - NY77
Keep Your Eye On That Lady - NY77


Filmografia Parcial:
Thomas Haden Church

 









Tombstone: A Justiça Está Chegando (1993); Os Demônios da Noite (1995); George, o Rei da Floresta (1997); Por Uma Noite Apenas (1997); 3000 Milhas para o Inferno (2001); Dinheiro e Má Companhia (2002); Sideways - Entre Umas e Outras (2004); Espanglês (2004); Homem-Aranha 3 (2007); Jogo de Mentiras (2009); A Mentira (2010); Bastidores de um Casamento (2011); Compramos Um Zoológico (2011); O Céu É de Verdade (2014); Pai em Dose Dupla (2015); O Resgate de Uma Vida (2016); Divorce  (seriado 2016 a 2019); Hellboy (2019).

Terrence Howard
 











The O.J. Simpson Story (1995); Mr. Holland - Adorável Professor (1995); Vovó... Zona (2000); Glitter: O Brilho de uma Estrela (2001); A Guerra de Hart (2002); Corridas Clandestinas (2003); Crash: No Limite (2004); Ray (2004); Quatro Irmãos (2005); Animal  (2005); Fique Rico ou Morra Tentando (2005); A Caçada (2007); Valente (2007); O Som do Coração (2007); Homem de Ferro (2008); Veia de Lutador (2009); A Tentação (2011); Esquadrão Red Tails (2012); Os Suspeitos (2013); Sabotagem (2014); Tempo Contado (2016); O Resgate de uma Vida (2016); Empire: Fama e Poder (seriado 2015 a 2019)


Boyd Holbrook
 












Milk: A Voz da Igualdade (2008); Em Busca da Fé (2011); A Filha do Meu Melhor Amigo (2011); O Reencontro (2012); A Hospedeira (2013);  Irmãos Desastre (2014); Garota Exemplar (2014); Em Busca da Justiça (2015); Morgan: A Evolução (2016); o Resgate de uma Vida (2016); Logan (2017); O Predador (2018); In the Shadow of the Moon (2019)


Rhys Wakefield
 











Sei Que Vou Te Amar (2008); Home and Away (seriado 2005 a 2008); Santuário (2011); Caminho Para o Coração (2012); Uma Noite de Crime (2013); Amor sem Fim (2014); O Resgate de uma Vida (2016); Fica Comigo (2017); Berserk  (2019); Bliss (2019)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

DOIS DIAS, UMA NOITE / DEUX JOURS, UNE NUIT (2014) - BÉLGICA/ FRANÇA / ITÁLIA




A SOLIDARIEDADE É UTÓPICA ?

Sandra (Marion Cotilard) é uma empregada de fábrica que, ao voltar de licença médica, descobre-se desempregada. E mais: houve uma votação por sua saída em troca de um abono de 1000,00 euros no final do ano. Sandra fica perplexa com a atitude da empresa, mas uma amiga consegue encorajá-la a agendar uma nova votação onde, se a maioria aceitar abrir mão do abono, seu chefe a aceitará de volta. Sandra inicia sua peregrinação de dois dias e uma noite (ou seja, o final de semana) para se encontrar com seus colegas de trabalho e convencê-los a voltarem atrás.


Produção belga, "Dois Dias e Uma Noite" tem uma temática, a princípio muito singela, e aparenta que pouco poderá ser extraído de algo tão básico, mas a saga da mãe de família, com dois filhos pequenos, que ajuda o marido no orçamento da família, e luta contra a competição voraz que assola as empresas, vai numa crescente que conecta o espectador ao drama de Sandra.


E sentimentos começam a aflorar: raiva daqueles que se negam pela ganância, compreensão daqueles cujo valor ajudará no sustento da família e alegria com os que  abrem mão de um bem que poderiam lhes aliviar o orçamento. Sandra baterá de porta em porta e cada um de seus colegas terá um motivo para aceitar ou não. Tem que ser maioria, só esse resultado interessa e outros fatores contribuem para a cruzada de Sandra se tornar ainda  mais difícil.



A força do filme está na interpretação de Marion Cotilard. Ainda que a gama de coadjuvantes tenha ajudado e muito o filme a funcionar é Marion que prende o espectador: alegria, dor, revolta, resignação, esperança. Despida de maquiagem, a atriz entrega uma atuação tão forte que sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz tornou-se mais do que justificada. E ao lado de Sandra, o marido Manu (Fabrizio Rongione) que tenta lhe dar força. Sabe os motivos do afastamento da esposa e tenta empurrá-la a não desistir, mesmo com a saúde abalada. E o tom realista que os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne  imprimem à narrativa funciona com diálogos diretos, aliado a um painel do drama social europeu que a globalização trouxe, além de um dilema que Sandra carrega durante todo o longa .
 


Dois dias e uma noite levanta questões acerca do comportamento humano e social. A humanidade vive numa solidariedade utópica? Ainda há lugar para pessoas pensarem e se sacrificarem em prol do próximo? O dinheiro fala mais alto? A carência da maioria sobrepõe-se a de uma única pessoa ou de minorias? As empresas se tornaram frias e indiferentes? A responsabilidade social de uma empresa só existe nos bancos universitários? No final talvez seja apenas um retrato pungente de uma trabalhadora que deseja apenas um pouco de empatia e solidariedade nesse mundo tão frio.

Trailer:




Curiosidades:
O filme foi o representante belga pré-indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015 , mas não entrou na corrida. O prêmio da Academia ficou para o longa "Ida" (Polônia)

O Oscar de Melhor Atriz ficou para Julianne Moore por "Para Sempre Alice"  ´

Marion Cotillard aceitou estrelar o filme antes de ler o roteiro.

A ideia original do filme surgiu no início dos anos 2000, quando os irmãos Dardenne leram sobre um caso real em uma grande fábrica francesa. Havia um trabalhador cuja produção não era boa o suficiente e para os outros trabalhadores receberem seus bônus, essa pessoa foi liberada. Eles ouviram falar de casos semelhantes na Bélgica, Itália e EUA, e todos levantaram a questão da solidariedade.

Filmado em ordem cronológica.  

Em uma entrevista para a Indiewire, Jean-Pierre e Luc Dardenne afirmaram que estavam pensando em "Doze Homens e uma Setença", porque é um processo de observar pessoas tentando mudar suas idéias. Quando perguntados sobre as semelhanças com "Matar ou Morrer" (1952), eles disseram que você poderia dizer que o personagem de Marion Cotillard é um pouco como Grace Kelly no filme, embora eles não pensassem nisso enquanto escreviam.

Na Espanha, Pedro Almodóvar fez uma lista dos melhores filmes e performances de 2014 e incluiu a atuação de Marion Cotillard neste filme em sua lista de melhores atrizes estrangeiras.

Marion Cotillard  e Gary Oldman participaram do clip de David Bowie: "The Next Day"

Trilha Sonora:
La Nuit n'en Finit plus  -  Petula Clark
Gloria  - Van Morrison
Kili Watch - The Cousins
Lunch pop - Olibwoy  

Filmografia Parcial:
Marion Cotilard
Turista Espacial (1996);  Táxi - Velocidade nas Ruas (1998); La guerre dans le Haut Pays (1998); Furia (1999); Táxi 2 (2000); Lisa (2001); Táxi 3 (2003); Amor ou Consequência (2003); Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas (2003); Inocência (2004); O Amor Está no Ar (2005); Você e Eu (2006); Fair Play (2006); Um Bom Ano (2006); Piaf, um Hino ao Amor (2007); Inimigos Públicos (2009); A Origem (2010); Até a Eternidade (2010); Meia-Noite em Paris (2011); Contágio (2011); Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012); Era Uma Vez em Nova York (2013); Dois Dias, Uma Noite (2014); Macbeth: Ambição e Guerra (2015); Assassin's Creed (2016); Rock'n Roll: Por Trás da Fama (2017); Os Fantasmas de Ismael (2017);           


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

EU, DANIEL BLAKE / I, DANIEL BLAKE (2016) - REINO UNIDO





"O ESTADO, O MAIS FRIO DOS MONSTROS" (Friedrich Nietzsche)

Daniel Blake é um cidadão, de 59 anos,  como tantos outros nesse mundo: trabalhava como carpinteiro, a esposa faleceu e acabou sendo acometido de um infarto que o impossibilita exercer sua profissão. Sua médica lhe adverte que sua saúde, começa a dar sinais de melhora, mas trabalhar, no momento, está completamente fora de cogitação.


Blake precisa pagar suas contas, precisa se alimentar, logo, ir atrás dos direitos que o seu duro trabalho, ao longo dos anos, lhe garantiu é algo absolutamente normal. Ou deveria ser. O que Blake começa a perceber é que caiu numa teia da aranha. Sua teia tem uma cola poderosa e vai imobilizá-lo. Essa teia se chama governo e a cola se chama burocracia. Pode até ser que o espectador esteja pensando: já assisti a esse tipo de filme. E provavelmente seja verdade. Mas de tempos em tempos o cinema nos brinda com algo diferente, algo que nos comove, nos indigna e nos faz refletir mesmo depois do final de sua projeção. Eu, Daniel Blake é um desses momentos.



Cabe ao espectador, assim como o personagem, assistir a tudo de forma impotente e com perplexidade. Vemos Blake ficar 48 minutos escutando aquela musiquinha chata para descobrir que um mecanizado operador de atendimento apenas lhe dirige frases prontas e vazias, no típico "isso não é comigo". Blake vai atrás do benefício na previdência. Na entrevista lhe perguntam se pode caminhar, se pode se expressar com clareza e se pode levantar e movimentar os braços. Sua resposta é: "meu problema é no coração". Mas se você consegue se mover e outras coisas mais, pode trabalhar. E se pode trabalhar, deve requerer, na visão do Estado, o seguro desemprego. Ah mas tem laudo médico? Então aguarde (sem uma data estipulada) que alguém ligará para agendar uma revisão no seu pedido. Enquanto isso procure emprego e prove que você não é um peso ao sistema. Não, esse filme não é um filme brasileiro. É inglês e mostra como são tratados por lá aqueles que foram produtivos a vida inteira, mas se confrontam com um estado falido em cuidar de seus cidadãos.
 


Mas o filme não fica apenas em Daniel. Em paralelo temos Katie (Hayley Squires) uma recém-chegada ao bairro, mãe solteira, com dois filhos pequenos que foi expulsa pelo proprietário do antigo apartamento em que morava. Moraram dois anos em um abrigo e agora ela tenta começar uma nova vida, conseguir emprego e cursar a faculdade.  Ela conhece Daniel e uma verdadeira amizade surge com este tentando ajudar sua amiga e até fazer às vezes de pai (e ainda bem que não foi feito em Hollywood, senão teríamos um relacionamento sentimental no filme). Dois estranhos que se encontram praticamente na mesma situação: apenas precisam de uma ajuda momentânea para garantirem suas dignidades. O senso de dever moral e humano, de se ajudarem de alguma maneira, sobrepõem o individualismo tão perene atualmente no coração das pessoas. Dois seres humanos que apenas querem algo fundamental a todos: direito e dignidade.
 

 
E as sutilezas desse diretor, de mais de 80 anos, com seu roteirista de longa data, Paul Laverty, nos brinda com vários momentos emocionantes e reflexivos: em um mundo cada vez mais digital, Daniel, um "analfabeto", nesse novo mundo escuta: "Nós somos digitais por padrão!" e replica: "É? Bem, eu sou lápis por padrão!", apesar de certo humor em algumas situações  há uma denúncia de um mundo frio que não se importa com quem não se adapta ou se enquadra  a ele. Daniel é tratado na agência com frieza, indiferença e hostilidade disfarçada. Não concorda com algo? Registre sua queixa em um número de telefone e aguarde uma resposta. Não concorda com essa atitude? Bem, será convidado a deixar o local por atrapalhar o trabalho dos que ali estão para lhe ajudar. Um Estado frio, com funcionários frios, que não querem se envolver, ou não tem tempo, ou não se importam. Daniel é direcionado a procurar emprego, fazer por conta própria um currículo no computador e provar que está buscando emprego (mesmo proibido pela médica), para mostrar que não é um sanguessuga atrás apenas de ganhar um benefício sem esforço.



A performance dos atores é algo a se elogiar. O ator cômico Dave Johns, pouco conhecido por aqui, oriundo da tv, em sua estreia no cinema, traz uma atuação soberba carregada de humor, frustração e revolta que se identifica imediatamente com o espectador.  Seu início irônico, kafkiano, quanto a surreal situação em que se encontra, vai se transformando em incredulidade e sofrimento, de acordo com que percebe que não tem mais forças nem saúde para enfrentar o mais frio dos monstros: O Estado. Sua indignação se transforma em um ato, um grito de socorro, para que o escutem. Hayley Squires é outra que traz momentos marcantes, como na cena em que pega uma lata de feijão e leva à boca, diante do desespero da fome. Sua Katie é uma mãe carinhosa, uma batalhadora que luta para tentar dar os seus filhos dignidade. Não há como não sentir um aperto no coração quando sua filha fala de bullying na escola por ter "roupas pobres", nem quando toma  uma atitude desesperadora para dar comida aos filhos. O filme mostra que, mesmo nesse ambiente de insensibilidade, há pessoas prontas a dar uma ajuda momentânea, como a assistente social que se apieda da situação de Daniel e resolve ter uma iniciativa diante do caos burocrático. Seu prêmio? O espectador descobrirá como um Estado desumano trata aqueles que ainda são humanos. Para finalizar temos o ator Kema Sikazwe (como "China"), um afrodescendente, imigrante, que se insere em um tipo de empregabilidade: o famoso "contrato zero", um modelo onde os empregados não têm obrigação de cumprir um determinado número de horas, mas devem estar disponíveis para quando a empresa necessitar, cuja remuneração poderá ser boa ou extremamente desfavorável. Menos direitos e menos dinheiro.



Produção britânico-franco-belga, ganhadora da Palma de Ouro em Cannes, "Eu, Daniel Blake" é um drama de dois seres humanos com estórias de vidas diferentes que se encontram praticamente numa mesma situação desesperadora diante de um abismo social. Um sensível painel de uma sociedade que evolui tecnologicamente contra um Estado "pelo povo e para o povo" (a grande ironia) que se torna um monstro frio auxiliado por representantes frios.

Trailer:

Curiosidades:

O filme foi filmado em ordem cronológica. A atriz Hayley Squires não recebeu o roteiro inteiro para ler antes de filmar. 

Na estreia de Cannes, Ken Loach e sua equipe foram recebidos com aplausos arrebatadores de 15 minutos após a exibição oficial.

O diretor Ken Loach é o mais velho vencedor da Palma de Ouro de todos os tempos. Quando venceu, no dia 22 de maio de 2016, ele tinha 79 anos.

Esta é a segunda Palma de Ouro de Ken Loach; ele ganhou seu primeiro em 2006 com "Ventos da Liberdade" (2006).

Incluído entre os "1001 filmes que você deve ver antes de morrer", editado por Steven Schneider.

Todas as mulheres que trabalham para as agências públicas têm o mesmo corte de cabelo: franja com um corte reto de comprimento médio.

A mulher que ajudou a personagem de Hayley Squires, Katie, na tão discutida cena do banco de alimentos, não era uma atriz - ela trabalhava no banco de alimentos e não sabia o que iria acontecer na cena.  

Principais Premiações em Festivais:

BAFTA Awards 2017
British Independent Film Awards 2016
Cannes Film Festival 2016
CinEuphoria Awards 2017
Denver International Film Festival 2016
Dublin Film Critics Circle Awards 2016
Empire Awards, UK 2017
European Film Awards 2016
Evening Standard British Film Awards 2017
Locarno International Film Festival 2016
New York Film Critics, Online 2016
San Sebastián International Film Festival 2016
Stockholm Film Festival 2016
Turia Awards 2017
Vancouver International Film Festival 2016  
 
 

Fontes:
The Guardian
NY Times
O Globo
IMDB