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segunda-feira, 9 de agosto de 2021

RASTROS DE UM SEQUESTRO / GI-EOK-UI BAM /FORGOTEN (2017) - CORÉIA DO SUL

HISTÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA

Jin-Seok (Kang Ha-Neul) está mudando para a sua casa nova, perto de Seul (na qual sente estranha familiaridade) com os pais (Moon Sung-Keun e Na Young-hee) e o irmão mais velho, Yoo-Seok (Kim Mu-yeol) que tanto admira. Jin é um jovem que não se sente tão inteligente quanto seu irmão, que tirava as melhores notas nas escolas e era um atleta nato que, devido um acidente, sofreu uma lesão na perna esquerda que o deixou com sequelas para sempre. Ainda assim, Jin percebe a forma como seu irmão demostra carinho por ele. A mudança para a nova casa faz com que, temporariamente, os irmãos tenham que dividir o mesmo quarto, uma vez que o antigo proprietário requisitou um dos quartos para guardar seus pertences até conseguir um lugar para levá-los em definitivo. Só há um pedido: que não entrem no quarto nesse período, que permanecerá trancado.

Jin começa a se sentir incomodado com  o que parece ser um som vindo do quarto vazio, mas sua família não consegue escutar nada e acredita que os problemas que o filho carrega, como o uso de ansiolíticos, podem estar afetando sua mente e que o jovem pode estar negligenciando o uso de tais medicamentos, o que pode ser o motivo também de seus constantes pesadelos. No dia seguinte algo estranho acontece: Jin vê o irmão ser sequestrado perto de casa, mas não consegue chegar a tempo de socorrê-lo. Ele conseguiu memorizar a placa da van, mas não há pedidos de resgates e a polícia diz não haver  carros registrados no país que possuam as iniciais da placa que alega ter visto. Dezenove dias depois,  Seok retorna para casa sem se lembrar de nada que ocorrera durante o seu cativeiro, mas aparenta estar psicologicamente e fisicamente bem.  Durante uma manhã,  Jin fala a Seok que ele parece estar mancando da perna errada, mas o irmão diz que ele está imaginando coisas, mas este começa a desconfiar de que há algo errado na volta do irmão. Certa noite, quando Jin adormece na cadeira, este sente o irmão ao seu lado de forma ameaçadora. Seok então sai para passear. Jin o segue e fica estarrecido: o irmão não está mancando de nenhuma das pernas e está se encontrado com pessoas aparentemente perigosas. Jin é descoberto,  passa a ser perseguido e é capturado. Mas quando acorda está dentro de seu quarto, na mesma cadeira que dormira, com o irmão dormindo na cama. Ilusão ou realidade?

Desde que "Parasita" (2019) ganhou o Oscar de Melhor filme, o grande público passou a receber mais filmes da Coréia do Sul, descobrindo que o país abriga boas produções como o recente “A Ligação” (2020). Rastros de um Sequestro apesar de ser um filme de 2017, atraiu atenção suficiente por ser uma produção da Netflix, nos trazendo um filme bem interessante em sua proposta da qual muitos espectadores não descobrirão com facilidades. Repletos de reviravoltas (os chamados "plost twist") no roteiro, quando pesamos acreditar para onde o filme se encaminhará, já nos encontraremos em uma mudança de rumo na história, que irá nos surpreender tanto quanto ao confuso Jin, que começará a fechar as peças desse intricado quebra-cabeças, na qual suspeitará de todos e de sua própria sanidade. Não se deve revelar muito do filme após o momento que descrevi, pois a partir desse momento muitas das situações começarão a ser reveladas em um roteiro bem original, que recebeu pouco investimento: atores, uma locação fixa, algumas cenas de ruas, alguns flashbacks  e muita eficiência.

Kang Ha-Neul nos mostra uma atuação sólida nos vários momentos que seu personagem requer uma mudança de comportamento ou credulidade. Mu-Yeol Kim é outro que nos traz um personagem bem interessante, que prende o espectador ao seu mistério  e segredos. Moon Sung-Keun e Na Young-hee (pai e mãe respectivamente) tem seus próprios momentos quando o roteiro lhes exige uma atuação mais densa.

Em seu terceiro filme, o diretor Hang-jun Jang nos entrega um thriller psicológico que poderia ser feito em nosso país ou qualquer outro,  pois não precede de altos investimentos, tudo parte de uma narrativa muito bem estruturada, nada óbvia, bem equilibrada entre revelação e suspense, que surge dentro de uma história e que deixará algumas pessoas um pouco confusas em certa altura, mas que não se omitirá de explicar, de maneira bem prática, seus segredos. É uma produção que garante uma boa diversão e quanto menos você souber sobre o filme, melhor será sua experiência. Só não façam um remake americano.

 

Trailer (contém spoilers):



 

Curiosidades:

O diretor explicou sua inspiração para Forgotten em uma entrevista de 2018. Um amigo mencionou a ele que seu primo havia saído de casa por cerca de um mês e depois voltou. Mas o primo parecia um estranho depois disso.


Trilha Sonora:

Blue Christmas -  David Thibault





 

Cartaz:



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

A LIGAÇÃO / KOL / THE CALL (2020) - CORÉIA DO SUL


CONECTADAS EM UM VÓRTICE DE INFORTÚNIOS

(O texto contém alguns spoilers)

Seo-yeon (Park Shin-Hye) retorna para sua cidade natal e se muda para a antiga casa de sua família, há muito abandonada, após descobrir que sua mãe recebera o diagnostico de câncer. Seo-yeon considera  a mãe principal responsável por um incêndio causado na sua casa com a consequente morte de seu pai e sua atual infelicidade. Para piorar a situação, Seo-yeon esqueceu seu celular no trem e a pessoa que o encontrou deseja uma recompensa para sua devolução. Tendo que recorrer a um velho telefone fixo residencial,  ligações misteriosas começam surgir e, do outro lado da linha, se apresenta Young-sook (Jong-seo Jun), uma mulher de 28 anos, em estado de pânico, implorando por ajuda, por medo de ser  morta pela madrasta (Lee El).

Os dias se passam e Seo-yeon continua recendo ligações da assustada Young-sook, mas há algo inusitado: o telefone parece ter criado uma brecha na linha do tempo que permite conectar Young-sook em 1999 a Seo-yeon em 2019. Uma insólita amizade se estabelece entre as duas quando Seo-yeon tem uma ideia: como Young-sook vive na mesma época do acidente com sua família, ela solicita que sua amiga tente fugir das garras da madrasta e impeça que o incêndio aconteça e talvez suas ações possam afetar a realidade.

Dito e feito, Seo-yeon tem o tempo reescrito para uma realidade feliz ao lado de seu pai vivo e sua mãe saudável.  Só que Seo-yeon deixou seu relacionamento com Young-sook cair no esquecimento do passado e nas mãos de uma madrasta xamã que a tortura fisicamente acreditando que pode retirar o mal que habita em sua enteada.  Quando Seo-yeon estabelece um novo contato da irritada amiga resolve pesquisar o que teria acontecido na vida de  Young-sook, vindo a descobrir que esta fora morta em um ritual de exorcismo e que a madrasta terminou presa. Ao avisar Young-sook de seu destino a realidade muda drasticamente:  Seo-yeon descobre que abriu a “caixa de pandora” e que Young-sook não era quem pensava ser.  Passado e presente colidem e Seo-yeon descobre que as leis da realidade não deveriam ser afetadas. 

Thrillers de viagem no tempo e paradoxos temporais não são exatamente novos (apesar de que aqui o tema não seja viagem no tempo, mas mudanças nas linhas do tempo), muitos são um grande quebra-cabeças, mas se você é alguém que precisa de respostas para todas as perguntas talvez este filme possa causar certa decepção, porém ao aceitarmos a supressão de algumas informações propositadamente omitidas pelo roteiro (não há, por exemplo, uma explicação lógica de como as personagens são capazes de se conectarem por um telefone com décadas de diferença ou da personagem principal estar sempre num mesmo lugar físico enquanto mudanças significativas acontecem) o filme cresce em interesse. E essa premissa relativamente simples, mas incomum,  começa a se contorcer de uma forma surpreendentemente sombria e inegavelmente inesperada, mas em nenhum momento entediante. 

Em sua estreia em longas, o diretor e co-roteirista Lee Chung-hyun adiciona tons sombrios, descortina rapidamente como a tradição coreana lida com o exorcismo (não esqueçamos que é um filme, ou seja, fatos fictícios), brinca com ficção-científica adicionando a este  um poderoso thriller num vaivém temporal, que, ao contrário de filmes como “Predestinado” ou “Coerência”, o espectador só precisa manter-se atento para compreender como essa crescente atmosfera de indução ao pavor se concluirá, numa realidade que muda constantemente dependendo das ações de cada um dos dois lados. E, claro, o prévio desenvolvimento de uma amizade crescente, atemporal, no início, se transformará em um cruel confronto que trará muitas mortes. E quem conseguir impedir o outro de mudar as linhas do tempo será o vitorioso, mas como Seo-yeon pode enfrentar alguém que pode modificar o passado e sua vida? E como Young-sook pode enfrentar uma oponente que já possui as informações do que ocorrerá? Mas a dúvida é: o que se sabe sobre paradoxos temporais é o que realmente acontece? Como enfrentar uma serial killer, em outra época, disposta a tudo para manter-se viva? No final o filme funciona como um jogo de xadrez onde um movimento errado pode determinar o resultado do confronto. 


Um dos grandes motivos do filme funcionar está na intensa interpretação das atrizes. Elas realmente entregam atuações de alto nível e a alternância de atitudes entre as personagens evita que o filme fique no famoso “já sei como termina”. Aliás, dentre as várias reviravoltas do filme, a parte final, após os créditos, deve ser bem observada, pois nos revela o que realmente aconteceu. E, conforme entrevista do diretor, que diz ter se inspirado no filme “The Caller” (2011), não há nenhuma intenção de se filmar uma continuação. Podemos também destacar a fotografia do filme que, para cada época, cria uma palheta de cores diferente.

 

A Ligação (título de duplo sentido) é uma produção da Netflix que voltou suas lentes acertadamente para o cinema asiático, pouco conhecido do grande público por aqui, mas que possui bastante relevância, principalmente, no Oriente e na Europa. Um conto de terror bem interessante que parece ter elementos de “O Efeito Borboleta”, “Alta Frequência”, “Sr Ninguém” e até uma possível discussão sobre “paradoxo da predestinação”, mas que possui sua própria originalidade


Trailer Dublado:



Curiosidades:

Em 1999, Young-sook diz que nasceu em 1972 e tem 28 anos. Na Coreia do Sul, diferente do resto do mundo, quando uma pessoa nasce já contabiliza um ano de idade. E, após esse nascimento, a pessoa passa a comemorar mais um ano de vida no dia do réveillon. Isso quer dizer que quem nascer no último dia do ano (31 de dezembro), mesmo com pouco menos de 24 horas, automaticamente já estará mais velha na manhã seguinte, completando, assim, 2 anos de vida. A "idade coreana" tem sua origem na China. Foi adotada no passado em alguns países asiáticos, mas só permanece nesse país.

Segundo filme da atriz Jong-seo Jun 

As filmagens ocorreram entre 03 de janeiro de 2019 a 02 de abril de 2019

 

Cartazes:













Trilha Sonora:






quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

PARASITA / GISAENGCHUNG / PARASITE (2019) - COREIA DO SUL




DIFÍCIL DE SE CLASSIFICAR, MAS FÁCIL DE SE ADMIRAR
(o texto contém spoilers)

Kim Ki-woo (Choi Woo-sik) e sua família vivem bem perto da pobreza, em uma casa abaixo da linha da rua, em um bairro sul coreano. Dobram caixas de pizzas para uma empresa, percorrem a pequena casa a procura de um sinal de wi-fi disponível e deixam abertas as janelas quando o bairro está sendo fumigado para assim acabar com seus próprios problemas com insetos. A vida da família está prestes a ser transformada quando um amigo do jovem viaja para os Estados Unidos a estudos e o indica para substituí-lo como professor de inglês de uma jovem de quem se apaixonara. Sem possuir os requisitos básicos, Kim muda o nome para Kevin, forja um diploma e convence a dona da casa, Sra Park (Jo Yeo-jeong), de que possui habilidades na língua começando a dar aulas para Park Da-hye (Jung Ziso) que imediatamente se apaixona por ele.



Kim percebe uma maneira de tirar sua família da incômoda situação financeira que se encontra: ele indica a irmã como se fora uma amiga, que passa a usar o nome de Jessica (Park So-dam), para ser tutora do pequeno filho de Sra Park: Da-song (Jung Hyeon-jun). Em pouco tempo a dupla consegue treinar seus pais em gestos e atitudes e estes também são empregados sem revelarem seus verdadeiros parentescos. A família parece enfim ter encontrado um paraíso, mas as coisas começam a dar terrivelmente errado.


Parasita é um filme difícil de ser classificado: começa com uma comédia / sátira, passa para uma crítica social evoluindo para o trágico, tudo de uma forma bem linear em um roteiro muito bem escrito e uma fotografia (por Kyung-pyo Hong) muito inspirada. Temos uma família que vive quase abaixo do limite da pobreza, talvez a analogia de morarem abaixo da rua. Kim Ki-woo consegue o emprego se passando por algo e alguém que não é. Ele é sorridente, bajulador, manipulador... sabe o que a Sra Park quer do novo professor e sabe dizer as palavras certas que ela deseja ouvir. Ele consegue um emprego para a irmã, ótima falsificadora de diplomas como o pai mesmo elogiara, que se passa por uma professora de artes convencendo a dona da casa  de que seu filho é um talento para as artes (qual mãe não quer ouvir isso). A Sra Park, ingenuamente,  não confere as credenciais dos jovens que astutamente conseguem mandar embora o motorista da família e colocar seu pai desempregado (o ator  Song Kang-ho) no lugar, além de mandarem a governanta (a atriz Lee Jung-eun) de anos com a família para a rua através de um vil ardil. Agora tempos filhos, pai e mãe infiltrados, parasitando aquela família para qual começaram a trabalhar. E Ki-woo & Cia conseguem cruzar o limiar para outro mundo.


O diretor Bong Joon Ho de filmes como "O Hospedeiro" e "Expresso do Amanhã" quer mostrar mais, seja através de diálogos ou situações: vemos a família rica acima, nas colinas, e a de Ki-woo vivendo em bairro pobre frente a inundações da chuva; os espaços limpos e vazios da casa do Sr Park contrastam com o apartamento sujo e apertado da família de Kim; vemos a família dobrar as enormes pilhas de caixas de pizza (em sua cozinha imunda) para ganhar uma ninharia do restaurante;   Sr Park elogia seu novo motorista por não "cruzar a linha", nesse momento podemos ver o distanciamento imposto pelas elites sociais;  os ricos sobrevivendo do trabalho dos pobres, aqui retratados na família de Kim; de certa maneira ao entregarem suas vidas a terceiros a família Park também parasita em torno da família de Kim virando quase uma simbiose, um dependendo do outro; o diretor trabalha muito bem os sentimentos que os contratados adquirem de seus contratantes: uma mistura de respeito e desprezo; outra lição que nos é mostrada é que  muitos creem que para subirem neste mundo, alguém precisa ser derrubado. Tudo para mostrar um sistema que cria, nutre e divide as pessoas em classes. E como esquecer o comentário do Sr Park quanto ao odor do pai de Kim ? - é o cheiro da pobreza em si, um comentário que dói mais na alma do que a infeliz condição social. Há muitos outros elementos contidos nessa obra e poucas linhas para dissecá-las. Interessante notarmos que numa nação mostrada como tendo excelência no ensino os jovens sonhem estudar e voltar com um diploma americano que os destaque dos demais, além de mostrar que a Coreia do Sul também possui seus contrastes sociais como qualquer outro país.


Parasita, que concorre a 6 Oscar, é um filme acima da média e não por acaso concorre ao Oscar de Melhor Filme. A história é muito interessante e os personagens envolventes. Enquanto assistimos temos a impressão de saber para a onde o filme se encaminha e o diretor  nos surpreende dando uma guinada na história ao apresentar um final bem diferente do tradicional e aí pode ser um problema: há os que gostarão e os que não se identificarão com a proposta mostrada, mas não há como ficar indiferente. Uma boa oportunidade para assistirmos a um bom filme fora do circuito hollywoodiano e europeu.

Trailer:



Curiosidades:
Primeiro filme coreano a vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

A ideia para Parasita existe desde 2015; o roteiro final foi escrito em três meses e meio.

Filmado em 77 dias.

Primeira produção coreana de Bong Joon Ho desde "Mother - A Busca Pela Verdade" (2009).

As "Pedras de Estudo" ou "Rochas da Paisagem" são conhecidas como "suseok" em coreano, têm uma história profunda no leste da Ásia. O pai do diretor os colecionou quando era mais jovem. A prática de coletar essas pedras de formas atraentes data de milhares de anos, mas elas se tornaram um elemento da sociedade coreana durante a dinastia Joseun (1392-1897), quando eram comumente exibidas nas mesas de escrita de estudiosos confucionistas - daí seu nome em inglês: "pedras de estudo".

Terceira colaboração do diretor Bong Joon Ho e do diretor de fotografia Kyung-pyo Hong. Hong também foi o diretor de fotografia do cinema coreano do ano passado em Cannes, "Em Chamas" (2018).

Para Joon-ho Bong, Parasita é uma tragicomédia que retrata o humor, o horror e a tristeza que surgem quando você deseja viver uma vida próspera juntos, mas depois se depara com a realidade de quão difícil isso pode ser.

Por causa de seu respeito e fascínio pela cinematografia em preto e branco, o diretor / escritor Bong anunciou que relançaria seu aclamado filme em apenas uma versão em preto e branco em janeiro de 2020. Esta apresentação especial de "Parasite" estava planejada para estrear em Roterdã. Film Festival, com exibição nos EUA em Nova York e Los Angeles.

Concorrendo ao Oscar nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte e Melhor Montagem. O elenco principal venceu  o principal prêmio do SAG Awards 2020.

Cometário de Joon-ho Bong para o filme: "Para pessoas de diferentes circunstâncias, viverem juntas no mesmo espaço não é fácil. É cada vez mais neste mundo triste que relacionamentos humanos baseados na coexistência ou simbiose não podem se sustentar, e um no meio desse mundo, quem pode apontar o dedo para uma família em dificuldades, travando uma luta pela sobrevivência e chamá-los de parasitas? Não é que eles eram parasitas desde o início. Eles são nossos vizinhos, amigos e colegas, que foram simplesmente empurrados à beira de um precipício.Como uma representação de pessoas comuns que caem em uma comoção inevitável, este filme é: uma comédia sem palhaços, uma tragédia sem vilões, todos os principais a um emaranhado violento e a mergulhar de cabeça nas escadas. Todos estão convidados para esta tragicomédia incontrolável e feroz ".

A música que toca em segundo plano quando os Kims se apossam da casa de Park é "In ginocchio da te", de Gianni Morandi. Na década de 1960, Morandi era uma estrela nos filmes italianos do "musicarello": geralmente era um gênero de comédia, focado nas diferenças entre classes pobres e ricas, assim como Parasite.

 
Cartazes: 



















sexta-feira, 16 de junho de 2017

EXPRESSO DO AMANHÃ / SNOWPIERCER (2013) - CORÉIA DO SUL / REPÚBLICA CHECA / ESTADOS UNIDOS / FRANÇA





O TREM DA VIDA

O Aquecimento Global tornou-se crítico. Cientistas lançam na atmosfera uma substância a fim de reverterem ou amenizarem esses efeitos. Algo dá muito errado e a terra entra em uma era glacial, erradicando quase todos os seres humanos. Alguns conseguem embarcar em um supertrem, que fora construído como uma espécie de arca que dá voltas em torno do planeta, à procura de vida ou alguma evidência de que pode-se habitá-lo novamente. A ação se inicia 17 anos depois com Curtis (Chris Evans) e  Gilliam (John Hurt),  que vivem na parte de trás do imenso trem, em condições sub-humanas, e sofrendo todo tipo de opressão junto com uma multidão de famintos. Mas a dupla planeja escapar do local para tentar chegar na parte da frente e confrontar Wilford, o homem que comanda a todos no trem.



Um grupo saindo da parte de trás de um trem para chegar na frente? Parece uma premissa ruim. Apenas parece. À medida que o filme evolui percebemos uma forte crítica ao sistema de classes ou, em outras culturas, ao sistema de castas. Baseado na Graphic Novel Francesa "Le Transperceneige", de Jacques Lob, “Expresso do Amanhã” nos traz uma reflexão bem interessante da sociedade em que vivemos. De acordo com que Curtis avança com seu grupo, tem que lidar com várias frentes: soldados treinados, exércitos de assassinos, pessoas vivendo tranquilamente, e até doutrinamento escolar. Tudo isso de uma forma bem exagerada, frente ao cinema americano, lembrando que estamos falando de uma produção Coreana.


As cenas de ação são muito bem feitas e o uso do slow montion (ou câmera lenta para alguns) acentua a violência (até excessiva) com direito a sangue em profusão, mas Curtis não conseguirá passar de fase (quero dizer, de vagão) sem perdas. E a cada etapa o espectador pode refletir sobre nossa sociedade, que trata os menos favorecidos de uma forma bem deplorável e segregadora. É a elite vivendo uma vida confortável e luxuosa, relegando a outros as tarefas pesadas sob parcas condições. Os brasileiros vão se identificar muito com esse filme, onde alguns não tem assistência médica, ensino e nem alimentos dignos (e essa última parte me lembrou muito o filme "No Mundo de 2020). Wilford é o Estado. Ele define o que é bom ou ruim. Quem fica atrás do vagão e quem fica nas partes posteriores com seus privilégios. E quem está em melhores condições não quer saber o que ocorre no fundo do vagão. Fundamental é ter uma vida confortável.


Enquanto dá quatro voltas no planeta ao ano (e sim, há ferrovias para tal no filme), as pessoas menos favorecidas nascem, morrem, sofrem e recebem sua horrível barra de cereal (cortesia do "Estado"), mas não veem a elite, somente soldados liderados por uma tirana e sádica mulher chamada Mason (Tilda Swinton irreconhecível) que vive conclamando que todos deve saber o seu lugar. Curtis resolve enfrentar o Status Quo. Chega de dominação, chega de viver em condições sub-humanas. Para conseguir seu intento, vai arriscar tudo. Mas será que Wilford é um homem despreparado? Por que será que ele criou tal sistema, tão bom para alguns e tão ruim para outros? O diretor Bong Joon Ho (que assinava Joon Ho Bong) nos mostra que segredos vão sendo revelados e tudo que deixava o espectador com a sensação de uma estória sem sentido, começa a se revelar e estar bem atento é primordial para se compreender alguns pontos. 


O elenco está ótimo. Chris Evans mais conhecido por ser o “Capitão América” nos atuais filmes da Marvel tem uma atuação sólida. Seu personagem vai criando um misto de revolta e incredulidade com que descobre. John Hurt (de filmes como “O Homem Elefante” e “1984”) tinha sempre aquela atuação sóbria e elegante e aqui não foi diferente. Coube a Tilda Swinton interpretar uma personagem irritante, odiosa e, ao mesmo tempo, engraçada, nos mostrando que todos tem um papel nessa sociedade sob os trilhos. Octavia Spencer (de “A Cabana” e “Estrelas Além do Tempo”), mostra que é uma ótima atriz que vem fazendo ótimos interpretações a cada ano. Ed Harris dispensa comentários. É um ator que consegue se impor em qualquer filme que atua, conseguindo roubar a maioria das cenas em que aparece. O restante do elenco dá conta do recado sem comprometer.


É um filme rodeado de metáforas, mas com uma originalidade ímpar. É para se pensar em como a humanidade está se fragmentando socialmente. Em como estamos degradando o meio ambiente com agentes poluentes. Expresso do Amanhã não é uma visão do que é o certo ou errado na sociedade, mas faz pensar através de sua visão sobre o assunto em meio a algumas situações bem absurdas (propositadamente exageradas). Filme para quem gosta de pensar após os créditos e não para quem quer um filme escapista de rápido esquecimento. Vale a olhada.

Trailer:


Curiosidades: 
Ed Harris já foi indicado 4 vezes ao Oscar: Apollo 13 - Do Desastre ao Triunfo (1995); O Show de Truman (1998); Pollock (2000); As Horas (2002).

John Hurt (1940–2017) teve indicações ao Oscar por O Expresso da Meia-Noite (1978) e O Homem Elefante (1980).

Tilda Swinton ganhou o Oscar de Melhor Ariz Coadjuvante por Conduta de Risco (2007)

Octavia Spencer ganhou o Oscar por Histórias Cruzadas (2011)

Há uma pequena animação criada contando como tudo começou




Filmografia Parcial:

Chris Evans

 











Não é Mais um Besteirol Americano (2001); Celular: Um Grito de Socorro (2004); Quarteto Fantástico (2005); Sunshine - Alerta Solar (2007); Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007); Os Reis da Rua (2008); Heróis (2009); Código de honra (2011); Capitão América: O Primeiro Vingador (2011); The Avengers: Os Vingadores (2012); O Homem de Gelo (2012); Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014); Vingadores: Era de Ultron (2015); Capitão América: Guerra Civil (2016); Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017); Vingadores - Guerra Infinita (2018)

Ed Harris

 









Coma (1978); A Fronteira (1980); Cavaleiros de Aço (1981); Creepshow: Show de Horrores (1982); Os Eleitos - Onde o Futuro Começa (1983); A Baía do Ódio (1985); Walker (1987); Paris Trout (1991); O Sucesso a Qualquer Preço (1992); A Firma (1993); Apollo 13 - Do Desastre ao Triunfo (1995); A Rocha (1996); Poder Absoluto (1997); O Show de Truman (1998); Círculo de Fogo (2001); Uma Mente Brilhante (2001); As Horas (2002); Meu Nome é Radio (2003); Marcas da Violência (2005); O Segredo de Beethoven (2006); Medo da Verdade (2007); A Lenda do Tesouro Perdido: Livro dos Segredos (2007); Appaloosa - Uma Cidade Sem Lei (2008); Caminho da Liberdade (2010) Sem Dor, Sem Ganho (2013); Expresso do Amanhã (2013); Tempestade: Planeta em Fúria (2017), Mãe (2017); Westworld (seriado 2016 a 2018) 

John Hurt

 









O Homem Que Não Vendeu Sua Alma (1966); A Lenda da Flauta Mágica (1972); O Expresso da Meia-Noite (1978); Alien, o Oitavo Passageiro (1979); O Homem Elefante (1980); O Casal Osterman (1983); 1984 (1984); S.O.S. - Tem um Louco Solto no Espaço (1987); Escândalo - A História que Seduziu o Mundo (1989); Frankenstein - O Monstro das Trevas (1990); Rei Por Acaso (1991); Rob Roy: A Saga de uma Paixão (1995); Contato (1997); Rota de Fuga (1999); O Capitão Corelli (2001); Hellboy (2004); A Chave Mestra (2005); Tiros em Ruanda (2005); V de Vingança (2005); Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008); Hellboy II: O Exército Dourado (2008); Outlander: Guerreiro vs Predador (2008); Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (2010); Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (2011); Imortais (2011); Expresso do Amanhã (2013); Hércules (2014).
 

Tilda Swinton

 










Caravaggio (1986); O Jardim (1990); Eduardo II (1991); Orlando - A Mulher Imortal (1992); Zona de Conflito (1999); A Praia (2000); Vanilla Sky (2001); A Confissão (2003); Constantine (2005); As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (2005); As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian (2008); O Curioso Caso de Benjamin Button (2008); As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada (2010); Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011); Expresso do Amanhã (2013); Doutor Estranho (2016); War Machine (2017); Suspiria (2017); Okja (2017)


Octavia Spencer

 









Tempo de Matar (1996); Nunca Fui Beijada (1999); Quero Ser John Malkovich (1999); Na Mira do Inimigo (2000); Homem-Aranha (2002); Coach Carter: Treino para a Vida (2005); Baila Comigo (2005); Miss Simpatia 2: Armada e Poderosa (2005); Arraste-me para o Inferno (2009); H2: Halloween 2 (2009); Um Jantar para Idiotas (2010);Histórias Cruzadas (2011); Expresso do Amanhã (2013); A Série Divergente: Insurgente (2015); A Série Divergente: Convergente (2016); Papai Noel às Avessas 2 (2016); Estrelas Além do Tempo (2016); A Cabana (2017); A Série Divergente: Ascendente (2017), A Forma da Água (2017).

Jamie Bell 










Billy Elliot (2000); Contra Corrente (2004); King Kong (2005); A Conquista da Honra (2006); Jumper (2008); Um Ato de Liberdade (2008); A Legião Perdida (2011); À Beira do Abismo (2012); Expresso do Amanhã (2013); Ninfomaníaca: Volume 2 (2013); Quarteto Fantástico (2015); 6 Days (2017); Estrelas de Cinema Nunca Morrem (2017); Skin (2018); Rocketman (2019); Without Remorse (2020)