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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O ANJO EXTERMINADOR / EL ANGEL EXTERMINADOR - MÉXICO (1962)



INCONGRUENTE À PRIMEIRA VISTA

Após uma apresentação em um teatro, um casal oferece um jantar em sua mansão. Quando a noite termina, perto de 20 convidados não conseguem ir embora e acabam por dormir em sofás, chão e cômodos. No dia seguinte, após tomarem o café da manhã, percebem “uma força invisível”, como se fosse um obstáculo, a lhes impedir de ultrapassar o umbral da sala de estar. Os dias transformam-se em semanas e o grupo continua preso enquanto os órgãos de segurança, do lado de fora, não conseguem, inexplicavelmente, entrar sequer no pátio da mansão e toda vez que resolvem tomar uma atitude, simplesmente desistem, tal como os convidados da casa.



O Anjo Exterminador é uma obra mexicana escrita e dirigida por Luis Buñuel, nascido espanhol e naturalizado mexicano, considerado um dos mestres do surrealismo com obras como "A Bela da Tarde" (1967) "O Discreto Charme da Burguesia" (1972), Um Cão Andaluz (1929) , Viridiana (1961), "Esse Obscuro Objeto do Desejo" (1977). Buñuel resolveu fazer um filme que critica a burguesia da pré- Espanha Guerra Civil fazendo um jogo de metáforas que se forma conscientemente ou sendo fruto da mente e dos valores do diretor. O filme se inicia com os empregados da casa, largando inexplicavelmente seus afazeres e deixando a casa ao passo que os convidados chegam. O único a não abandonar seus senhorios é Julio (Claudio Brook), que passa a tentar cobrir a ausência de seus amigos (se assim podemos considerá-los). 



Buñnel, um empedernido analista do comportamento humano, coloca o espectador, através de suas lentes providas de furiosa ojeriza, em uma posição privilegiada, onde este assiste os acontecimentos ao longo do filme. A ideia de utilizar uma linguagem não direta para narrar os fatos pode confundir uma grande parcela dos espectadores, principalmente, aqueles que não leram nada a respeito. É que o diretor, como o gênero diz, usa situações surreais (daí o termo surrealismo) para descrever o ambiente e atitudes dos personagens fazendo com que muitas situações passem despercebidas de quem os assiste. Mas o filme, que aparenta ser um longo e cansativo tema sobre malucos presos numa cela imaginária, demonstra-se um ensaio sobre como o diretor via a elite social (burguesa) da época.




Bruñnel (1900 - 1983) fez um filme em que cada um que o assistir terá uma reação: chato, cansativo, sem sentido, perda de tempo, profundo, genial, insólito, enigmático, incongruente, ou seja, cada espectador terá uma visão única baseado em seus gostos, crenças e valores. Na verdade, acredito que qualquer uma dessas sensações seja válida, pois não creio que o diretor quisesse unanimidade em seu trabalho, apenas que ele fosse visto e que cada um o julgasse com quisesse. Em uma de suas declarações Bruñnel, um anticonformista congênito, teria dito que a melhor explicação para o filme é que "não havia nenhuma"


Para os que procuram “pelo em ovo” como muitos críticos à época alegaram, existem alguns aspectos que poderão ser analisados. Este é o tipo de filme que por mais que sejam dissecados seus múltiplos significados, outros ficarão sem análise, pois como já dito, cada pessoa terá uma impressão própria e tal como a vida, sujeita a interpretações.




Podemos dizer que o filme não explica as causas dos acontecimentos, logo o espectador nunca saberá o que precipitou a situação. Intervenção divina, loucura? O filme se inicia com a saída abrupta dos empregados que não conseguem ficar nem mais um minuto na mansão, mesmo com a ameaça de demissão. A mensagem talvez seja a de que eles não fazem parte desse grupo burguês e a vingança não deverá recair sobre eles. O mordomo fica na casa servindo o jantar, o que pode significar sua aristocratização (acomodação) ao sistema burguês. Este já chegou ao ponto em que não lhe resta mais como escapar. Durante o jantar, um dos hóspedes faz uma homenagem à anfitriã propondo um brinde, a cena repete-se (parecendo um defeito no DVD) e agora percebemos que ninguém presta a atenção a solicitação de brinde. Seria a primeira cena apenas a hipocrisia e, na segunda, a verdadeiro estado de ânimo dos convidados?



De acordo com que o filme se desenrola vemos que: Lídia tem um amante que frequenta sua casa; as pessoas que até então se gostavam, passam a "se aturar" até começarem a perder seus modos polidos; palavras não são mais contidas; em determinado momento uma das protagonistas esbofeteia duas vezes um dos presentes. Difícil não imaginar uma metáfora do diretor esbofeteando os simbolismos da sociedade hipócrita. Começam a faltar alimentos, água, remédios... os conflitos não tardarão a surgir. Pose e educação dão lugar à grosseria, tranquilidade a desespero e instintos primitivos vem à tona; pseudo-valores e crenças são devassadas. Bruñnel costumava dizer que amava as pessoas, mas não a sociedade que elas criaram. Aí entendemos a vertente de sua crítica social inserida em seus filmes. A sociedade burguesa criando uma parede invisível frente as classes consideradas inferiores e presas em sua própria armadilha. 


Baseado em um conto de Jose Bergami "Los Naufragos de la Calle de la Provedencia" o filme recebeu o Prêmio Especial da Crítica em Cannes. No Brasil o filme, quando lançado, foi proibido em grande circuito por "não conter mensagem alguma" e ser um atentado a religião (um atentado? ... mas se não traz mensagem alguma ... uma contradição) sendo liberado, posteriormente, para salas / cinemas que exibissem filmes de arte. É um filme em preto e branco, mas citado em várias outras obras do cinema. Não é um filme que todo público se entreterá, visto que sua temática e datação são um forte indício de rejeição para boa parte do público

Trailer:




Curiosidades:
Luis Buñuel declarou publicamente que considerou o filme um fracasso e que, se o filmasse mais tarde em Paris, teria sido mais extremo 

Luis Buñuel afirmou que o filme contém mais de vinte peças de repetição. Na verdade, o filme contém 27 instâncias de repetição.

Foi proibido na Rússia porque a idéia de pessoas que não tinham permissão para "deixar uma festa" era considerada ofensiva e antigovernamental.

O título foi retirado de um amigo de Luis Buñuel, José Bergamín, que estava escrevendo uma peça com esse título, mas nunca o terminou. Quando Buñuel quis nomear seu filme, ele pediu os direitos do título ao amigo, mas este respondeu que não havia problemas, porque fora retirado da Bíblia, o Livro do Apocalipse.

Luis Buñuel expressou frustração em relação ao baixo orçamento do filme e à falta de comodidades disponíveis no set no México. Como exemplo dessas dificuldades, Buñuel lembrou que o filme funcionava com um orçamento tão austero que ele nem podia comprar guardanapos de mesa finos para as cenas dos jantares, nem poderiam ser facilmente obtidos no México na época. Ele só conseguiu comprar um guardanapo de pano para uma foto em close da mesa de jantar quando a maquiadora do filme trouxe um de sua casa.

A cena em que um urso e duas ovelhas aparecem durante o jantar foi baseada em um incidente real em um jantar que Luis Buñuel esteve em Nova York.

De todos os filmes do período mexicano / espanhol de Luis Buñuel, este é o único filme sobre o qual ele tinha controle criativo completo.

O roteiro do filme foi originalmente intitulado "Os Náufragos da Rua Providence" ("Los Náufragos da Calle Providencia).

Segundo Luis Buñuel, o título veio da Bíblia, mas também foi uma referência a um culto espanhol, aos apostólicos de 1828 e a um grupo de mórmons.

Na cena da igreja - a primeira cena do filme a ser filmada - Rita Macedo aparece como "Lucía de Nobile". Ela não conseguiu terminar o filme devido à gravidez.

Incluído entre os "1001 filmes que você deve ver antes de morrer", 

Filmografia Parcial:
Luis Buñuel (1900–1983)
Um Cão Andaluz (1929); A Idade do Ouro (1930); Os Esquecidos (1950); As Aventuras de Robinson Crusoé ; Nazarin (1959); Viridiana (1961); O Anjo Exterminador (1962); O Diário de uma Camareira  (1964); A Bela da Tarde  (1967); Tristana, Uma Paixão Mórbida (1970); O Discreto Charme da Burguesia (1972); O Fantasma da Liberdade (1974);  Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

MISS BALA / MISS BALA (2011) - MÉXICO / ESTADOS UNIDOS



OLHAR SOBRE A REALIDADE MEXICANA

Miss Bala conta a história de Laura Guerrero (Stephanie Sigman), uma jovem de 23 anos que sonha entrar para o concurso de Miss. Sua amiga Suzu Ramos (Lakshmi Picazo ) é sua parceira na empreitada. Ambas conseguem uma vaga para a entrevista. Vivendo com seu pai e irmão mais novo, Laura não conta seus desejos para a família. Ela prefere manter em segredo, pois acredita na reprovação de seu pai. 


Quando Laura encontra Suzu, em um nightclub, tudo começa a dar errado: o local é invadido por um dos grupos de carteis da drogas que  comandam a localidade. Laura, apesar de descoberta, consegue fugir em meio à matança que ocorreu. Por chegar atrasada ao concurso, perde a vaga, mas não conta a ninguém o ocorrido na noite passada. Até que resolve procurar a polícia para tentar obter notícias sobre o paradeiro de sua melhor amiga.



Laura acaba parando nas mãos do grupo que invadiu o clube. Seu líder, Lino (Noé Hernández), se interessa pela jovem e consegue recolocá-la no concurso (mostrando o poder local) sem questionamentos, mas Laura passará a ser uma espécie de refém que terá que ajudar a quadrilha em suas diversas atividades, sabendo que sua negativa porá em perigo sua família. Aceita aterrorizada e passa a ter sua vida ceceada por Lino e seus comparsas. 

  


De acordo com que o cerco vai se fechando a Lino, Laura passa a presenciar as atividades mais ocultas do grupo, desde planos de ataques até agentes infiltrados na polícia. Cada vez mais Laura percebe que suas opções estão se esgotando, enquanto avança (com uma ajudinha) no concurso de Miss Baja Califórnia.



Fime mexicano que se candidatou a representar o país no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012, mas perdeu para o filme iraniano “A Separação”. O filme leva o espectador a assistir o drama de Laura através de seus olhos. Em algumas cenas é possível ver exatamente aquilo que a protagonista vê, ou seja, os ângulos estreitos do campo de visão: pernas braços, vultos e pessoas. Outras parecem que assistimos pelos olhos de Lino até que o diretor coloca a visão da câmera numa perspectiva plena, para que entendamos a ação e os que nela se encontram.


Laura é uma personagem como muitas jovens, tímida, família de baixa renda e o sonho de fazer com que sua beleza possa lhe trazer dividendos, ou como ela mesmo fala à Suzu: "arranjar um marido rico". Lino é o chefão local de poucas palavras. Vê em  Laura ora um motivo de admiração, ora um objeto e, porque não, uma marionete a seu serviço. 


 
Apesar de ser centrado em Laura é em Lino que o filme ganha sua força. Quando o ator Noé Hernández entra em cena, tudo muda: as tensões aumentam, a atmosfera fica pesada. Noé compôs um personagem difícil de se prever. Isso se deve muito ao roteiro que transforma a calmaria em tormenta.


A produção passou muito rápido em algumas subtramas, como a do agente do governo, as propinas e até mesmo as cenas finais. Tudo isso para não perder o foco do que é o principal: a história de Laura. O restante é secundário. Os personagens que transitam na vida de Laura são poucos dissecados, como o pai e o irmão, o policial da DEA e o avanço de Laura no concurso, onde não aparece o comentário de nenhuma das candidatas. A informação divulgada no Wikipédia é de que o filme inspirou-se na história real de Laura Zúñiga e os elementos coincidentes seriam: a roupa que a personagem usou no concurso seria mesma de Zuniga; o primeiro nome Laura; a corrupção no concurso e a alegação de Zuniga de envolvimento forçado com o crime (onde a história mais se apoia). 


Enfim, Miss Bala não chega a ser uma obra prima. Apesar de ter recebido críticas favoráveis mundo afora,  pode ser visto como um belo olhar sobre a realidade mexicana, além de uma história contada de modo a prender o espectador, que fica aguardando o destino de Laura. O filme pega a carona em certas cenas de ação bem elaboradas, principalmente nos confrontos com a polícia. Peca por passar muito rápido (como já dito) nas questões policiais, no concurso e nas figuras do pai e irmão que em determinado momento viram figurativas (aonde o pai sequer questiona como tudo isso começou, ou que é tudo isso). Por essas e outras pequenas derrapadas, o filme talvez não tenha alcançado seu prêmio máximo. Mas para quem gosta de bom cinema, principalmente com uma estética mais inovadora e ousada é um filme que vale muito a pena dar uma conferida, pois não é motivo de decepção.




Trailer:





Curiosidades:
James Russo ("Seduzida ao Extremo" 1986 e "Não Somos Anjos" 1989) faz uma ponta no filme

O ator Gael García Bernal  foi o produtor executivo deste filme

O personagem de Kiki Câmara, o policial que pega o telefone de Laura, é baseado em Enrique S. "Kiki" Camarena Salazar (1947 - 1985). Camarena era um agente americano nascido no México da Administração de Repressão às Drogas dos Estados Unidos que foi sequestrado, torturado e assassinado enquanto estava em missão (trabalhando disfarçado) no México.

A personagem de Laura Guerrero foi vagamente baseada na modelo mexicana e rainha da beleza, Laura Zúñiga. Em 22 de dezembro de 2008, Laura Zúñiga e sete homens foram presos por ligações com o narcotráfico em Zapopan, Jalisco.

O pôster do filme é inspirado na capa do álbum homônimo de Janet Jackson de 1993, Janet, filmado por Patrick DeMarchelier.


Trilha Sonora:

Me Rio De Ti - Stephanie Sigman

Rica a Los Veinte - Santiago Cendejas

El Sondito - Hechizeros Band

Entre Perico y Perico - Santiago Cendejas

Estrellita - Los Reyes del Camino'

Tema MBC - Gerardo Naranjo and Santiago Cendejas

Amor a Primera Vista - Emilio Kauderer

MBC Backstage - Santiago Cendejas

La Diana - Banda la Furia

Bolero Marimba Jarocha - Ricardo Gallardo

Ave Maria -  Mario Lanza

Prélude, Fugue et Variation en Si Mineur, OP.18 - Pedro Martinez Arroya

Post Millennium -  Emilio Kauderer

Al Cien -  Emilio Kauderer

Sombra -  Emilio Kauderer

Canelita -  Emilio Kauderer

Batalla -  Emilio Kauderer

Desierto -  Emilio Kauderer

Hotel -  Emilio Kauderer


Stephanie Sigman em Annabelle 2









Cartazes:



Fimografia Parcial:
Stephanie Sigman






Miss Bala (2011); Mergulho Profundo (2013); 007 Contra Spectre (2015); Narcos (seriado 2015-2016);  Loucos e Perigosos (2017); Annabelle 2: A Criação do Mal (2017); S.W.A.T (seriado 2017 -2019).