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sexta-feira, 24 de novembro de 2023

A COR DO PARAÍSO / RANG-E KHODA / THE COLOR OF PARADISE (1999) - IRÃ


PARÁBOLA ESPIRITUAL

Mohammad (Mohsen Ramezani) é um menino cego de oito anos, que frequenta uma escola de deficientes visuais em Teerã e seu relacionamento com o pai Hashem (Hossein Mahjoub) não é nada bom. Este tem uma vida difícil: perdeu a esposa há 5 anos, trabalha como caixeiro viajante e faz serviços esporádicos para sobreviver.

Com o início das férias escolares e a negativa quanto a sua solicitação de deixar o menino permanentemente na escola, resolve levar seu filho para o vilarejo onde vive suas duas outras filhas cuidadas por sua mãe idosa (Salameh Feyzi). Hashem pretende tirar Mohammad da escola por considerá-lo incapaz para a vida, (apesar do garoto mostrar ser mais inteligente que as crianças de sua idade) e por considerar a escola muito longe, atrapalhando seus planos. Para o menino seus sentidos ganham vida em contato com a natureza. A vida é vista com os olhos do coração e Deus sentido com a ponta dos dedos por toda parte. Ele tem paixão por explorar e conhecer o mundo ao seu redor. Enquanto o pai se nega a lhe dar carinho, percebemos que Deus se mostra presente, como na cena em que  Mohammad ajuda passarinho a voltar para o seu  ninho. A forma como a  cena nos é mostrada revela extrema sensibilidade.


A avó de Mohammad tenta lhe mostrar que, apesar de cego, ele pode ser capaz de ser o que desejar na vida, enquanto o pai tenta encontrar uma nova esposa, em uma família próspera local, mas precisa ocultar a presença do filho, numa cultura onde deficiências não são bem aceitas. A avó e o pai têm opiniões opostas quanto ao futuro de Mohammad, bem como, o tratamento que dão ao garoto. Enquanto o pai o renega, a avó lhe dá carinho, mas o pai leva-o para trabalhar com um carpinteiro cego, esperando que o menino se adapte a essa nova realidade.

Filme que se desenvolve em sua maior parte de forma bem sensível, até chegar ao final ambíguo, sujeito a interpretações. É um belo exemplo de filme iraniano, não aconselhável para quem gosta do estilo americano de conduzir estórias. Um filme com poucos recursos, sem efeitos, falado em farsi e com interpretações simples e poderosas. Fala sobre solidão, perda, infelicidade, rejeição, espiritualidade e redescoberta do amor, tudo permeado de muita sutileza. O diretor Majid Majidi teve o seu filme anterior, “Filhos do Paraíso” (Bacheha-Ye aseman - 1997), indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (em 1999)

Selecionado pela revista Time como uma das melhores produções do ano 2000 é endereçado para quem gosta de filmes simples e para quem gosta de se emocionar. Uma das partes mais emocionantes do filme, é o desabafo de Mohammad ao carpinteiro cego a respeito de Deus e sua deficiência visual. A tradução correta do filme  seria " A Cor de Deus".

Trailer:



Cartaz: 








quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A SEPARAÇÃO / JODAEIYE NADER AZ SIMIN (2011) - IRÃ / FRANÇA





TODA HISTÓRIA TEM DOIS LADOS

Esse é um daqueles filmes que se inicia, aparentemente, como uma entediante crise de casamento que atormentará os protagonistas e espectadores durante sua projeção. Só que não será bem assim. É apenas um pequeno detalhe para introduzir a estória. A partir da separação do casal Nader (Peyman Moaadi) e Simin (Leila Hatami), no Irã, a vida do marido vira de cabeça para baixo. Cuidando de um pai com Alzheimer avançado e com a guarda da filha adolescente, contrata uma cuidadora que não lhe informa estar grávida. Razieh (Sareh Bayat) precisa do emprego, pois o marido Hodjat (Shahab Hosseini) está desempregado e com credores à porta. Nader precisa de alguém que cuide de seu pai, que piora cada dia, agora que sua esposa não está a seu lado. Um acontecimento coloca Nader e Razieh em lados opostos em um pequeno tribunal e tudo só vai piorando, em uma crescente espiral, quando Simin e o marido Razieh acabam por se envolverem também na questão.


O diretor Asghar Farhadi (de “Procurando Elly”)  fez um filme que prende atenção até daqueles que não admiram produções vindas de países de cultura persa. A produção tem um quê de oriental e seu tema universal ajuda muito. O roteiro não complica e facilita a compreensão da transposição da estória de uma maneira crível. Nada daqueles filmes que devemos entender a estória do país. E por esse e tantos outros motivos que o filme ganhou três prêmios no Festival Internacional de Berlim, um Globo de Ouro e tornou-se o primeiro filme iraniano a ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ainda conseguindo uma indicação de Melhor Roteiro. Não foi por acaso. O filme realmente tem um conteúdo dramático forte que deixa o espectador indeciso sobre a qual lado dos protagonistas tomar parte. Ambos tem seus motivos, ambos cometeram erros, ambos estão mentido ou ocultando informações e a justiça é rígida. A questão do Alzheimer é muito bem abordada de uma forma que não visa  chocar e sim refletir sobre aqueles que dedicam sua vida a cuidar de seus parentes nesse estado.
 


Há várias camadas por baixo da estória que contribuem para o filme funcionar: há uma descrição do modo mais progressista de Nader em lidar com a esposa e situações (nada daqueles estereótipos comuns que vemos em filme americanos); há uma rara descrição do Alzheimer que não afeta apenas o doente, mas toda a família; a relação patrão empregada; a mentira e suas consequências; a percepção de que sempre há dois lados de uma história e Asghar Farhadi que optou por não delinear para o espectador heróis ou vilões. Todos são vitimas das circunstâncias, mas que se embaraçam em uma história cheia de revelações. O caráter de realidade talvez seja um dos pontos mais altos do filme, pois o que foi transposto para as telas pode ocorrer em qualquer lugar do mundo.



Os atores estão ótimos, com uma fotografia que impressiona e uma montagem dinâmica que impede o espectador de se desviar de uma narrativa, onde os detalhes podem ser decisivos para entendermos aquilo que o diretor optou por não nos mostrar (a questão do dinheiro, sutilmente, revela-se no início). Um filme acima da média, um verdadeiro merecedor do Oscar. Simples em sua forma e poderoso na mensagem que coloca nas telas, com um final aberto, onde a ótica pessoal de cada um definirá a conclusão, mas que nem todos se agradarão, algo a se acostumar nessas produções que tentam fazer o espectador refletir e conjecturar hipóteses. 

Trailer:




Curiosidades:
Sarina Farhadi, a atriz que interpreta Termeh, é filha do diretor do filme. Ela ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival Internacional de Berlim.



Primeiro filme iraniano a receber o Globo de Ouro.

A maior parte do filme foi filmado usando uma câmera de mão.

O filme não tem partitura musical, exceto durante os créditos finais.

Nos créditos de abertura, os dois cartões de identificação fotocopiados pertencem a Hediyeh Tehrani e Hamid Farokhnezhad, os dois atores que interpretaram um casal se dirigindo para o divórcio no filme anterior de Farhadi, Chaharshanbe-soori (2006).



O segundo filme iraniano indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O primeiro foi "Filhos do Paraíso" (1997).

O filme de Woody Allen "Meia-Noite em Paris" ganhou o Oscar de melhor roteiro original enfrentando este filme. Allen disse que "A Separação" foi o melhor filme de 2011. 

Jake Gyllenhaal disse que ama muito este filme e que Asghar Farhadi é um dos diretores mais influentes dos últimos 20 anos. 

Incluído entre os "1001 filmes que você deve ver antes de morrer", editado por Steven Schneider.

Classificado em 9º na lista "100 Melhores Filmes do Século XXI" da BBC em 2015.

O filme foi elogiado por Meryl Streep e Brad Pitt.      

Considerado pela revista "Sight & Sound" como o segundo melhor filme de 2011.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

PROCURANDO ELLY / À PROCURA DE ELLY / DARNAREYE ELLY / ABOUT ELLY (2009) - IRÃ / FRANÇA


DILEMA MORAL

Ótimo filme iraniano de 2009 que mostra um grupo de famílias iranianas muçulmanas que resolvem fazer uma comemoração de três dias nos arredores de Teerã. Como convidada levam a jovem professora Elly (Taraneh Alidoosti), simpática e introvertida. O grupo percebe o interesse do jovem, recém-divorciado, Ahmad (Shahab Hosseini) em Elly e, aos poucos, tentam estimular Ahmad a colocar à tona a sua atração, que parece ser correspondido de uma forma muito sutil e reservada por Elly.


No dia seguinte, Elly informa que deseja partir, pois fora o acordado com Sepideh (Golshifteh Farahani) que a conhecera, como professora de seus filhos, na escola em que estudavam. Apesar da insistência da jovem os demais convidados recusam-se graciosamente a aceitarem a sua partida, já que se afeiçoaram e gostaram de sua presença.


É solicitado a Elly que vigie três crianças que brincam perto da água. Algum tempo depois uma das crianças informa que o irmão está se afogando. Depois de um esforço conjunto para salvar o menino, percebem que Elly desaparecera.



A princípio pensam que se afogou. Depois que teria, na verdade,  partido. De acordo com o passar das horas vários fatos vão surgindo e o convite feito a Elly por Sepideh pode ter sido uma escolha errada, devido a fatores culturais. A tensão vai aumentando gradativamente entre o grupo que não sabe o que realmente possa ter acontecido a jovem, já que o corpo não aparece.



O filme no início passa a impressão de ser uma produção bem comum, sem grandes atrativos, mas com 10 minutos de filme já percebemos que estamos diante de uma produção bem cuidada, com um diretor (Asghar Farhadi, também diretor do filme "A Separação" vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2012) que soube conduzir uma narrativa de forma impecável fugindo, astutamente de temas como conflitos políticos. Percebe-se que poucos recursos foram usados: carros, uma casa na praia e ótimos atores. Temos aqui um grande exemplo de como se fazer um filme de primeira.

 


O cinema iraniano normalmente é muito bom, com produções modestas, porém de gosto refinado. O conhecimento de uma cultura com pouca entrada em nosso país é o grande chamariz desta produção que mostra o papel da mulher nesta conjuntura, dominada pelos homens. Os rígidos códigos morais e comportamentais são expostos ao longo do filme, revelando uma sociedade que tem outra perspectiva quanto a participação do indivíduo e que, fora isso, são pessoas absolutamente normais como qualquer um de nós, com seus desejos, passatempos, diversões, medos e anseios. As pessoas normalmente são parecidas em qualquer parte do mundo: elas mentem, elas se amam, se respeitam, se desrespeitam, sentem remorso e culpa. E é isso que o filme tem para mostrar, tudo isso dentro de um drama que se transforma em suspense a partir do evento e, com o surgimento de um novo indivíduo, a trama mostrará que mesmo com boas intenções podemos causar problemas a terceiros.



A citar também a escolha do ótimo elenco em que todos, sem exceção, tem desempenhos elogiáveis, com atuações contidas sem exageros ou estrelismos. Uma pequena obra-prima. Ponto para o cinema iraniano 

Trailer (legendas em inglês):





Curiosidades:

Asghar Farhadi ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim por este filme 

O filme em português aparece com o título alternativo "À Procura de Elly"

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

TARTARUGAS PODEM VOAR / LAKPOSTHHA PARVAZ MIKONAND / TURTLES CAN FLY (2004) - IRÃ / FRANÇA / IRAQUE






O MUNDO QUE A TV NÃO TEM INTERESSE EM MOSTRAR E QUE AS PESSOAS NÃO TEM INTERESSE EM VER


Órfão curdos vivem refugiados num acampamento, situado no Curdistão, próximo à fronteira do Iraque com a Turquia, recolhendo minas que são vendidas no comércio local, às vésperas da chegada das tropas americanas ao Iraque (em 2003) e a posterior deposição do ditador Sadam Hussein.
O filme é visto pelos olhos de Satellite (Soran Ebrahim), que aguarda ansiosamente notícias da guerra, enquanto encontra o seu primeiro amor em meio a uma vida pouco digna. Satellite é o responsável por cuidar das crianças órfãs. Seu estilo é direto. Ele determina o que as crianças devem ou não fazer. Diz quando trabalhar, no que trabalhar. Mas ele é um garoto justo, apesar de muitas vezes impor suas vontades no grito (influência do ambiente ditatorial em que vive) 



O cineasta apresenta Satellite como uma criança quase entrando na adolescência, mais mental do que física. O menino tem esse apelido por instalar antenas comuns e parabólicas, sendo o mais procurado, pelos mais ávidos por notícias sobre a eminente chegada das tropas americanas. Ele entendeu de certa maneira como é o mundo: manda, faz acordo de preços, vende e funciona como tradutor americano. Aprendeu que ter um conhecimento globalizado o coloca acima dos demais. Mas Satellite não entende inglês, apenas algumas frases, palavras e expressões, mas numa terra em que ninguém praticamente compreende o idioma, qualquer coisa que invente será considerada como verdadeira. Uma realidade dessa situação fica bem visível quando os anciões da aldeia colocam-se em frente da TV e pedem que Satellite traduza as notícias do canal CNN. Aparece a figura de Bush falando sobre a guerra que se aproximava. Ele fala que Bush está falando que vai chover. Diante da incredulidade do que ali estão ele repete que o presidente americano está falando de chuva, mas que é um código e inventa uma desculpa para se desviar do assunto. Em outra situação, ele pede que uma pessoa se passe por estrangeiro, enquanto fala poucas palavras como se estivesse dialogando. Sua explicação é simples: as pessoas dão mais valor se você conhece outro idioma e muito mais se este for americano. Essa cena é reflexiva: se você não quer aprender, será governado por aqueles que querem e adaptar-se as mudanças é essencial para se viver num mundo de mudanças políticas




Satellite tem um grande culto a tudo que vem dos Estados Unidos: produtos tem mais valor, as pessoas, armas, qualquer utensílio vale mais como objeto de troca. Há uma cena em que o menino conversa no caminhão sobe o filme Titanic, mostrando até onde o sucesso americano atingiu. O que Satellite vai perceber a duras penas é que ele e seus comandados são aleijados por minas, as mesmas que eles veem como fonte de lucro. Escolhem colher as minas americanas (pelo melhor valor da mercadoria) e as revendem a míseros valores, seja através de um negociante ou num mercado para conseguirem comida e utensílios. Minas que aparentemente voltarão para as mãos dos americanos a um custo baixíssimo.  




O diretor Bahman Ghobadi utilizou pessoas do dia-a-dia daquela realidade. Aqui não temos radicais, pessoas contra o regime americano, agitadores. Temos pessoas comuns que vivem praticamente em uma tenda e um cobertor para dormirem. Usando, na maioria das vezes, as mesmas vestes. As crianças não brincam: acordam, correm atrás de trabalho e conseguem um mísero dinheiro. O dia termina, dormem e levantam cedo novamente para recolher minas ativas. E o processo se repete todos os dias. Combate ao trabalho infantil? Isso aqui não existe. Não há lugar para isso.


O diretor permeia o filme com uma critica a invasão americana na cultura: as parabólicas passam os canais de reportagem e os proibidos: sexo e dança. Todos obedecem e não assistem os que não são permitidos.  Saber palavras americanas dá status. Utensílios americanos são ouro. Filmes mostram uma vida completamente diferente do contexto em que vivem. A chegada dos soldados é considerada salvação, a ideia de um futuro melhor. Quando os soldados chegam à aldeia, distribuem panfletos, exaltam a liberdade e levam os habitantes para verem os canais proibidos (uma referência clara a imposição de uma nova cultura, atropelando a antiga). Não há um posicionamento político por parte do diretor, há uma crítica a absorção de outra cultura e a perda de uma identidade histórica.




Satellite gosta de uma jovem (que parece uma menina), refugiada, chamada Agrin (Avaz Latif) que vive com seu irmão Hengov (Hiresh Feysal Rahman), que não possui as mãos, além de uma criança pequena que cuidam. Agrin demonstra por Satellite, no mínimo curiosidade e este a vê como seu primeiro amor. Enquanto Satellite cultua os EUA, Agrin, uma menina em torno de seus 14 anos, tem outros problemas a lidar. A criança pequena que carrega é seu filho, vítima de estupro de soldados das tropas que massacram curdos na região e que mataram seus pais num ataque a sua aldeia. Enquanto Hengov faz de tudo para cuidar como pode da criança, Agrin só deseja se livrar dela. Na sua cultura uma jovem com um filho, não sendo casada, da forma como foi concebido, é uma vergonha até o fim da vida e, provavelmente, sem pretendentes. A menina entende que vê-lo é relembrar diariamente seu tormento, algo que não lhe sai da cabeça e que a leva a desejar até mesmo o suicídio. Podemos entender que o diretor fez um paralelo à chegada americana: agrada a Satellite, afinal é um dos poucos que compreendem o idioma, logo sua interação nesse mundo lhe será benéfica, além do fim da opressão ao seu povo, enquanto para Agrin é um mundo onde não a aceitarão pela desonra sofrida.



O temor de um ataque químico mostra o que essas pessoas já passaram. Em determinado momento de suas vidas são oferecidas máscaras contra gás, para um membro de cada família, orientando que a máscara é para determinado gás identificável através da cor.  


Apesar de certa crítica aos EUA, podemos perceber que as mazelas da guerra não só causadas por um lado. Aqueles que fomentam a guerra e impõe suas vontades, colocam seus peões no tabuleiro. Quando a guerra começa, as peças menos importantes a serem sacrificadas são estes peões. O Rei sempre cai por último.


Tartarugas Podem Voar não é um primor de montagem, ritmo e outras especialidades do cinema convencional. Ghobadi resolveu centrar na discussão do papel da guerra e suas vítimas que são as verdadeiras afetadas. Seu relato é mais cru e sua visão do jogo de poder é muito bem elaborada, ainda que alguns reclamem de que o filme tenha certa morosidade. O elenco é amador, colhido entre os habitantes, mas a impressão passada é de que são atores. É a guerra que você não vê na TV. Nada de explosões, através lentes com visão noturna, exibidas em noticiários. Um trunfo que torna o filme ainda mais merecedor de aplausos.



Mas não é um filme para todos os públicos. É direcionado aqueles que gostam de ter uma visão do mundo do ponto de vista de aonde as coisas acontecem. A ideia é mostrar que aquelas pessoas são seres humanos como nós, vivendo em condições absurdas, enquanto o resto do mundo vira seus olhos para a vida de culto a personalidades (algumas delas completamente fúteis), programas vazios, viagens a ótimos lugares e discussões em site de relacionamentos. O mundo tem essas duas faces, não há como negar. Enquanto uns riem, outros choram. Aqui é sobre os que choram, mas não são ouvidos.  Um mundo que a mídia prefere não mostrar. A realidade é feia e suja e ninguém quer ficar chateado ao ligar a TV ao acordar ou ao dormir. A sensação de inércia e impotência é algo que o espectador rejeita. Trocar de canal e sorrir, esquecendo de um mundo que não faz parte da realidade, é o caminho mais prático e, para muitos, o mais certo.




Por isso filmes como as Tartarugas Podem Voar chocam. Muitos críticos dizem que é um soco no estômago. Mas o soco no estômago é para quem vive em outro mundo e, possivelmente, o caso de muitos críticos. Não há nada que uma pessoa que esteja ciente do que acontece no mundo real, não tenha visto ou lido. Para aqueles que já leem o mundo da forma como ele é, verão um filme que conta uma realidade cruel como tantas outras, não evitando aquela sensação de indignação, mas sabendo que em muitos lugares do planeta o tema deste filme foi, é, ou será, um relato crível de uma realidade. Multidão de crianças órfãs, fome, miséria, falta de educação (porque a situação não permite ou porque não é interessante). Faltam médicos, remédios, além da imposição de crenças e/ou valores (seja pelos atuais representantes que os mantém no cabresto ou pelos que surgirão). Tudo isso pode ser observado neste filme, mas depende muito de como os seus olhos estão abertos em relação ao mundo que você vive: o real ou mundo de “Matrix” ? 



O título é uma alusão as minas terrestres que tem um formato de carapaça igual as das tartarugas, que ao serem ativadas, explodem voando aos pedaços.




Conforme o Wikipédia: “Curdistão é uma região com cerca de 500.000 km² distribuídos em sua maior parte na Turquia e o restante no Iraque, Irão, Síria, Armênia e Azerbeijão. Seu nome, que vem do persa e significa "terra dos curdos", foi cunhado em 1150 pelo sultão Seljúcida Sanjar para designar uma parte do Irã ocidental”


Trailer:





Curiosidades:
O diretor Bahman Ghobadi dirigiu também "Tempo de Embebedar Cavalos

Principais Premiações:
Sundance Selection, 2005
San Sebastián International Film Festival, 2004 - Golden Seashell, Best Film
Chicago International Film Festival, 2004 -  Special Jury Award
Berlin International Film Festival, 2005 -  Peace Film Award
Rotterdam International Film Festival, 2005 -  Audience Award