domingo, 27 de setembro de 2026

SUPERMAN – O FILME / SUPERMAN (1978) - ESTADOS UNIDOS / REINO UNIDO

"VOCÊ VAI ACREDITAR QUE UM HOMEM PODE VOAR"

O planeta Krypton está em seus últimos momentos de vida frente à iminente destruição de seu núcleo atômico. O cientista Jor-El (Marlon Brando) toma uma drástica decisão:  ele coloca o bebê, Kal-El, seu único filho, em uma pequena nave espacial moldada em cristais e o envia em direção ao planeta Terra, antes da fatídica explosão. A nave atravessa o espaço durante anos até chegar no Kansas, em uma cidade chamada Smallville (Pequenópolis na tradução).  A agora criança é adotada pelos fazendeiros Jonathan (Glenn Ford) e Martha Kent (Phyllis Thaxter), que o batizam de Clark Kent. Sob a radiação do nosso sol amarelo da Terra (o de Kripton era vermelho), o jovem descobre possuir poderes extraordinários: força monumental, velocidade estupenda e a capacidade de desafiar a gravidade.

Após a morte trágica de Jonathan, o jovem Clark viaja para o Polo Norte, onde o cristal verde que encontrara em sua nave projetará a Fortaleza da Solidão e o holograma de seu pai biológico o educará sobre a história do universo. Já adulto, ele vai para a agitada Metropolis,  trabalhar como um tímido e desajeitado repórter no jornal Planeta Diário, onde esconde sua identidade sob óculos de armação e ternos largos (observem que os cabelos de Clark Kent e “Superman” se separam em lados opostos). Clark conhece a intempestiva jornalista Lois Lane (Margot Kidder) que junto com os demais desconhece sua dupla identidade enquanto assume a vestimenta do Superman. Seu primeiro grande desafio é enfrentar o egocêntrico vilão Lex Luthor (Gene Hackman), que pretende desviar mísseis militares para provocar um terremoto catastrófico na falha de San Andreas e lucrar com o mercado imobiliário. Enquanto isso, Lois tenta obter uma entrevista exclusiva com o enigmático herói de Metropolis.

Dirigido por Richard Donner, que vinha do sucesso de “A Profecia” (1976), da qual chamara a atenção dos produtores, “Superman – O Filme” (1978) estabeleceu uma espécie de “pedra fundamental” do gênero de super-heróis no cinema moderno, ditando as regras estéticas que Hollywood tenta imitar (com raro sucesso) até os dias atuais. Podemos dizer que Superman só não deu muito errado por causa de Donner, ele bateu o pé contra o tom de deboche, a comédia caricata que marcava as adaptações de quadrinhos na televisão dos anos 1960 e que os produtores lhe apresentaram como sendo o produto que desejavam ver nos cinemas. Donner queria um conceito de "verossimilhança" como espinha dorsal da produção, exigindo que cada detalhe da Fortaleza da Solidão, dos diálogos e dos efeitos físicos fossem tratados com o rigor dramático. O desejo de Donner após convencer os produtores da bobagem que pediam, era fazer com que o espectador realmente acreditasse de que um homem podia voar, mas até então era algo ainda não feito com maestria, havia uma barreira técnica intransponível que exigia que os truques de câmera fossem invisíveis para que a magia não se dissolvesse em tela. O resultado foi um espetáculo que equilibrou perfeitamente o tom científico de seu início no espaço com aquele lirismo bucólico que Smallville pedia, além de introduzir um tom de comédia mais refinado no período do herói em Metropolis.

Hollywood encarava produções baseadas em quadrinhos como "piadas infantis" ou matinês de baixo custo, algo infantilizado, e que já nasceria condenado nas bilheterias enterreirando a carreira de seu protagonista antes de começar. O roteiro inicial que os produtores Alexander e Ilya Salkind entregaram a Donner (encomendado originalmente ao escritor Mario Puzo com reescritas de David e Leslie Newman) era uma paródia ridícula que tratava a mitologia dos quadrinhos com completo desdém. Naquele calhamaço de mais de quinhentas páginas, que Donner recebeu para ler e saber se aceitaria o projeto, a ideia era filmar os dois primeiros filmes simultaneamente, num tom completamente infantilizado e um tanto ridículo: o Superman perseguia criminosos em um estilo pastelão e Lex Luthor era um vilão caricato saído dos velhos seriados (bem ao estilo Batman anos 60). A revolta de Donner deu-se ao ler uma cena absurda na qual o Homem de Aço, ao voar pelos céus de Metropolis em busca de pistas, avistava o ator Telly Savalas caracterizado como o detetive “Kojak” (sim, aquele da série) dentro de uma cabine, parando seu voo apenas para que o herói lhe pedisse um pirulito (!!!???). Conseguem imaginar essa cena ? Acho que muitos leitores sairiam dos cinemas no meio da projeção e hoje estaríamos aqui falando de uma das piores adaptações do personagem, e provavelmente esse fracasso sepultaria qualquer chance de vermos heróis dos quadrinhos nos anos seguintes. Horrorizado com o que chamou de "assassinato do mito", Donner travou uma batalha feroz de bastidores contra os Salkind, batendo o pé e ameaçando abandonar a produção caso o roteiro não fosse inteiramente reescrito do zero. Para isso, ele exigiu a contratação do consultor Tom Mankiewicz que limparia toda a estética “camp” (visto no seriado Batman), que reestruturaria a história de forma que o público levasse a sério toda a trajetória do personagem

Para que o mercado aceitasse algo até então arriscadíssimo, os Salkind traçaram uma estratégia comercial muito interessante: utilizar um ator completamente desconhecido e anônimo para interpretar Superman, mas rechear cada núcleo e papeis secundários do filme com astros e veteranos de fama mundial, criando um verdadeiro portifólio de astros consagrados no cartaz. O primeiro grande alvo foi Marlon Brando, cuja escalação como Jor-El garantiu o selo imediato de respeitabilidade. Brando, era tido como maior ator de sua época. Ele, no entanto, não possuía o menor apego ao projeto e falava abertamente que para ele não passava de um ótimo cachê (Reeve chegou a dizer que ele só lhe dera um “oi”); em suas reuniões com Donner, chegando a sugerir de forma bizarra que a raça kryptoniana não deveria ter forma humana, propondo usar sua voz numa malha de luzes para não precisar aparecer fisicamente. Donner precisou de longas conversas e até certa adulação para convencê-lo do contrário. Para o papel de Lara, a mãe biológica do Superman em Krypton, a produção trouxe a atriz britânica Susannah York (Indicada ao Oscar por "A Noite dos Desesperados” -1970). Para o papel de Lex Luthor, convidaram Gene Hackman, que temia manchar sua reputação após ter conquistado o Oscar por Operação França, mas cedeu diante de um salário astronômico e da promessa de que seu vilão seria um gênio do crime refinado, arrogante e sarcástico. Para dar vida ao desastrado Otis, o assistente cômico de Luthor, os produtores escalaram Ned Beatty (“Amargo Pesadelo” e indicado ao Oscar por “Rede de Intrigas” - 1977), cujas trapalhadas equilibravam a frieza arrogante de Luthor. A namorada e assistente afetiva de Luthor, Miss Eve Teschmacher, foi feita por Valerie Perrine, cujo destino comovente deixei para o segundo filme.

Para interpretar Jonathan Kent, o pai adotivo que ensina a Clark os valores que revestiria sua personalidade, a produção trouxe Glenn Ford, veterano de clássicos do cinema anos 40 a 60. Ford entregou uma atuação contida e emocionante, cuja morte súbita serviu como o verdadeiro divisor de águas na maturidade do herói. Ao seu lado, como Martha Kent, estava a atriz Phyllis Thaxter, que trouxe uma doçura maternal a personagem. Na frenética redação do jornal Planeta Diário, o editor-chefe Perry White comandava Clark e Lois sob rajadas de broncas. Foi interpretado pelo ator e outrora astro mirim Jackie Cooper (da primeira versão de “O Campeão” -1931). Já o posto do jovem e entusiasmado fotógrafo Jimmy Olsen, sempre com a “câmera em prontidão”, foi feito por Marc McClure (Sexta-Feira Muito Louca). O ator participou dos 4 filmes da franquia, teve uma participação no seriado “Smallville” e no filme “Liga da Justiça”, versão Zack Snyder.

Foi no meio desse oceano de atores consagrados que a produção lançou o desconhecido Christopher Reeve (que vinha dos palcos do teatro de Nova York e havia sido expressamente desaconselhado a aceitar o papel por seu colega de cena, o ator Jeff Daniels, que temia que Reeve destruísse sua carreira promissora em um subproduto comercial). A escolha de Lois Lane foi resolvida após testes malsucedidos de atrizes famosas, abrindo espaço para Margot Kidder, que conquistou Donner ao ler suas linhas com uma energia caótica, elétrica e atrapalhada, perfeitamente adequada para a jornalista da cidade grande. O romantismo sutil e a química imediata que surgiu entre Reeve e Kidder tornou-se o motor humano do filme. Aquele brilho dos olhos de Lois, durante o voo romântico sobre Metropolis, cativou os espectadores; a química funcionara e se os atores não combinassem em cena, o filme teria sido apenas mais uma produção a tentar trazer o personagem às telas.

Christopher Reeve nos estúdios britânicos de Pinewood quase ultrapassou os limites do suportável, num verdadeiro calvário. Donner recusou o uso de animações (se lembram do antigo seriado do Superman do Kirk Alyn?) ou fundos pintados artificiais nas sequências de voo, o que obrigou Reeve a passar meses suspenso no ar para trazer veracidade aos movimentos. O ator passava de seis a sete horas diárias suspenso a mais de dez metros de altura, com o corpo inteiramente acoplado a uma pesada barra mecânica de aço moldada sob medida para sua silhueta por baixo do colante azul. Essa barra era controlada por um braço hidráulico que girava e inclinava o corpo do ator diante das imensas telas reflexivas do sistema chamado “Projeção Frontal Zoptic”. O esforço muscular exigido ao ator era devastador: para que o voo parecesse natural, ele não podia relaxar o tronco, sendo obrigado a manter as pernas esticadas, o abdômen tensionado e o pescoço erguido contra a força da gravidade enquanto imensos ventiladores industriais jogavam rajadas de vento em seu rosto. O peso da barra de metal pressionava suas costelas e quadris de tal forma que ele terminava as sessões de gravação com o corpo com hematomas e dores musculares intensas na coluna lombar. Reeve comentou em entrevista que o desgaste mental era severo, já que precisava atuar, sorrir e transmitir leveza enquanto seus músculos retraíam de exaustão e cãibras surgiam devido às horas que pareciam intermináveis imobilizado naquela armação de ferro.

Superman se mostrou mais que um filme de herói, foi um esforço conjunto desde a sua concepção, foi uma revolução técnica, uma mudança de paradigma, uma luta diária para entregar um produto de qualidade que não caísse no ridículo.  Os Estados Unidos vinham de feridas provocadas pela Guerra do Vietnã e pelo escândalo político de Watergate, numa severa crise de inflação e no crescimento dos índices de criminalidade urbana. Muitos alegam que o surgimento de um herói de comportamento honesto, que salvava um ônibus escolar ou emendava os trilhos de um trem em disparada afirmando estar ali "para defender a verdade, a justiça", funcionava como um bálsamo para um público ávido por integridade moral.

A forma de mostrar ingenuidade com tragédia atingiu seu ápice no clímax do filme, através do polêmico e inesquecível recurso da viagem no tempo. Superman ignora a advertência que Jor-El lhe dera de interferir na história humana. Movido por uma dor avassaladora e pela recusa em confrontar a perda de seu grande amor, ele rasga os céus com aquele semblante de dor, orbitando o planeta com uma velocidade tão absurda que força o planeta a girar ao contrário, invertendo a rota da Terra para retroceder o próprio tempo. A destacar a hilariante sequência em que o ator Larry Hagman (o Major Anthony Nelson da série “Jeannie é um Gênio” e o vilão J.R. de “Dallas”) surge numa rápida aparição como um oficial do exército que é seduzido por Miss Teschmacher para que Luthor possa desviar a rota dos comboios militares.


Indicado a 3 Oscars, Melhor Trilha Sonora Original (inesquecível e atemporal composta por John Williams); Montagem (Edição) e Melhor Som, o filme permanece como o maior exemplo clássico de como transpor a inocência dos quadrinhos para a tela grande com alma, dignidade e respeito. O início da franquia foi um marco que dividiu a história de Hollywood em antes e depois, pavimentando o caminho para franquias bilionárias que dominam os cinemas hoje.
Reeve alterando a postura, o tom de voz e os ombros caídos para diferenciar o herói do desajeitado Clark Kent, é uma aula de atuação que dita as regras do gênero até hoje

Trailer:



Curiosidades:

O filme foi um sucesso estrondoso de bilheteria e ajudou a recuperar as finanças da Warner Bros na época, tornando-se uma das maiores receitas da história do cinema até o fim dos anos 1970.

Marlon Brando recebeu o cachê astronômico de US$ 3,7 milhões de dólares por apenas 12 dias de trabalho nos estúdios da Inglaterra, o que correspondia a uma quantia absurda de dólares por segundo em tela. Brando também exigiu ler suas falas em cartazes espalhados pelo set, alegando que isso mantinha a sua interpretação mais espontânea.

O pai de Christopher Reeve era um professor de línguas. Quando o filho ligou entusiasmado para contar que havia ganho o papel principal em Superman, o pai comemorou orgulhoso achando que o ator havia sido contratado para a sofisticada peça de teatro literária “Man and Superman”, do dramaturgo George Bernard Shaw. Ao descobrir que era o herói de quadrinhos de capa e malha, o pai ficou profundamente decepcionado.

Os criadores originais do personagem nas histórias em quadrinhos, Jerry Siegel e Joe Shuster, não receberam créditos na apresentação original do filme em 1978 devido aos antigos contratos de cessão de direitos autorais assinados com a DC Comics na década de 1930.

O designer de produção John Barry utilizou toneladas de acrílico moldado para construir os imensos cenários das cavernas de cristais de Krypton e da Fortaleza da Solidão nos estúdios britânicos da Shepperton, recusando o uso de fundos pintados.

Os atores Kirk Alyn (o primeiro Superman dos seriados de cinema de 1948) e Noel Neill (a Lois Lane clássica dos anos 1950) fizeram uma aparição especial interpretando Sam e Ella Lane, os pais de Lois Lane na sequência em que a menina observa o jovem Clark Kent correr ao lado do trem.

Devido a complicações contratuais de direitos de distribuição internacional no mercado brasileiro de Home Video, o primeiro filme de 1978 demorou impressionantes dez anos para chegar oficialmente às locadoras nacionais em fita VHS pela Warner Home Video, fazendo com que o público brasileiro tivesse acesso oficial às sequências Superman III e IV muito antes do lançamento do filme original.

Para obter a musculatura necessária para interpretar o Superman de forma convincente, Christopher Reeve foi submetido a um regime de musculação supervisionado por David Prowse, o homem que interpretou Darth Vader na trilogia original de “Star Wars”. Embora inicialmente tenham se dado muito bem, Reeve demitiu Prowse depois que o fisiculturista deixou o país repentinamente por dez dias sem aviso ou explicação. Prowse também fez testes para Superman

A cena do helicóptero deveria ser filmada no topo do então prédio da Pan Am, até que um acidente real no heliporto matou vários passageiros e um pedestre devido à queda da pá de um helicóptero em 16 de maio de 1977

Grande parte da filmagem do que viria a ser Superman II: A Aventura Continua (1980) foi escrito e filmado simultaneamente com o original. Antes de as filmagens serem concluídas para a sequência, no entanto, Richard Donner foi demitido e substituído por Richard Lester, que refilmou a maioria das filmagens dirigidas por Donner

De acordo com Jeff East, que interpretou o jovem Clark Kent, durante a cena em que o jovem Clark pula na frente do trem, ele quase foi atingido por ele. No entanto, dublê Richard Hackman agarrou-o bem a tempo e East evitou se machucar.

Inicialmente, Gene Hackman se recusou a raspar o bigode para interpretar Lex Luthor. Nas primeiras folhas do filme, seu rosto aparece com um bigode. Antes Richard Donner e Hackman se encontrou cara a cara, Donner propôs a Hackman que, se ele raspasse o bigode, Donner também depilaria o dele, e Hackman concordou. Mais tarde, descobriu-se que Donner não tinha nenhum bigode. Ele usava um bigode falso que tirou no último momento. Percebendo que estava preso, Hackman riu de tanto rir e, a partir de então, ficou do lado de Donner durante toda a tumultuada produção

Em uma entrevista com o apresentador David Letterman, Reeve criticou Marlon Brando por sua atuação em Superman. Ele acusou a lenda da atuação de “não se importar” para sua atuação em Superman; de realmente não tentar nem se importar com a sua própria atuação. Em uma entrevista de março de 1982 na NBC Late Night with David Letterman (1982), descoberto pela Heat Vision, o falecido ator do Superman disse que ficou decepcionado com sua experiência com Brando, dizendo que o ator vencedor do Oscar que interpretou seu pai na tela, Jor-El, só estava nisso pelo dinheiro — e apareceu. “Não digo isso para ser cruel, mas não adoro no altar de Marlon Brando, porque sinto que ele saiu de uma certa forma”, disse Reeve a Letterman. “O que aconteceu é que a imprensa o amava, fosse ele bom, mau ou indiferente; que as pessoas simplesmente pensavam que ele era uma instituição, não importa o que ele fizesse, então ele não se importa mais.” Reeve disse, em sua opinião, que Brando poderia ter sido um grande farol para atores mais jovens, como ele, mas ele jogou a toalha. “Acho que seria triste ter 53 anos, ou o que quer que ele seja, e não dar a mínima, só isso”, disse Reeve a Letterman.

Marlon Brando processou a Salkind e a Warner Bros. em 50 milhões de dólares, porque ele se sentiu enganado com os consideráveis lucros de bilheteria do filme. Esta é a principal razão pela qual as imagens de Brando não aparecem em Superman II: A Aventura Continua (1980)

Na cena em que Brando coloca o bebê Kal-El na cápsula de fuga, ele estava realmente lendo suas falas na fralda do bebê. Ele disse ao diretor Richard Donner que a única maneira de manter sua performance atualizada, e não ensaiada demais, era gravar a primeira vez que ele leu as falas. Donner admitiu que foi melhor assim, como depois de Donner gritar 'Corta! ' a equipe aplaudiu o desempenho de Brando.

Foi de Marlon Brando a ideia de fazer com que Jor-El usasse o mesmo símbolo “S” em suas roupas que Kal-El usaria mais tarde como Superman.

Aaron Smolinski, que interpretou a criança Kal-El, mais tarde apareceria sem créditos em Superman III (1983) como um garotinho esperando do lado de fora de uma cabine fotográfica enquanto Clark Kent se transforma em Superman. Ele também atuou como oficial de comunicação em O Homem de Aço (2013).

Por sua interpretação de Clark Kent, Christopher Reeve baseou o desempenho em Cary Grant, o personagem em “Levada da Breca” (1938).

Jeff East, que interpretou Clark Kent quando adolescente, fez o teste para interpretá-lo quando adulto. Ele também fez o teste para o papel de Jimmy Olsen

Este foi o segundo filme de maior bilheteria de 1978, atrás de "Grease: Nos Tempos da Brilhantina" (1978)

Christopher Lee recusou o papel do general Zod porque tinha acabado de se mudar para Hollywood como exilado fiscal e não queria voltar para a Inglaterra para filmar. Ele acabou interpretando um vilão em outro filme de quadrinhos, “Capitão América II” (1979)

A Steven Spielberg foi oferecida a chance de dirigir este filme. Os produtores recusaram o salário que ele pediu. Eles decidiram ver como Tubarão (1975), que ele acabara de concluir, se sairia nas bilheterias. O filme foi um grande sucesso e Spielberg seguiu em outros projetos

A Paul Newman foi oferecida a opção de interpretar Superman, Lex Luthor ou Jor-El pelo valor de $4 milhões. Newman não estava interessado em nenhum dos papéis.

Em 1978, Christopher Reeve compareceu a um evento beneficente da Special Olympics na casa de Arnold Schwarzenegger para celebrar a estreia de Superman: O Filme. Curiosamente, Reeve chegou a receber (mas recusou) as propostas para protagonizar “O Sobrevivente” (1987) e “O Vingador do Futuro’ (1990), papéis que acabaram indo para Schwarzenegger. Anos mais tarde, o próprio Schwarzenegger entraria para o universo dos super-heróis ao interpretar o vilão Mr. Freeze no criticado “Batman & Robin” (1997).

Robert Redford, Clint Eastwood e James Caan todos foram convidados para o papel principal do filme. Todos os três recusaram: Redford queria muito dinheiro, Eastwood disse que estava muito ocupado e Caan disse: ”Mario Puzo escreveu um roteiro histérico

Christopher Reeve manteve um carinho pelo público brasileiro desde que esteve no Rio de Janeiro para promover a estreia de Superman – O Filme. Na época, o jovem ator demonstrou imensa sensibilidade social ao gastar horas de suas coletivas fazendo perguntas profundas aos jornalistas cariocas sobre o padrão de vida das favelas e as manifestações culturais dos sambistas locais.



Bastidores:








































Cartazes:
























Filmografias Parciais:

Christopher Reeve (1952–2004)






S.O.S. - Submarino Nuclear (1978); Superman – O Filme (1978); Em Algum Lugar do Passado (1980); Superman II (1980); Armadilha Mortal (1982); Monsenhor (1982); Superman III (1983); Um Triângulo Diferente (1984); O Aviador (1985); Anna Karenina (1985); O Aviador (1985); Armação Perigosa ou Malandros de Rua (1987); Superman IV: Em Busca da Paz (1987); Troca de Maridos (1988); Fugindo do Inferno 2: A História Verdadeira (1988); Guerra de Paixões (1990); Busca Desesperada (1981);  Sonhos Inacabados (1991); Segredos Mortais (1992); O Lobo do Mar (1993); Vestígios do Dia (1993); A Cidade dos Amaldiçoados (1995); Sem Suspeita (1995); Raposa Negra (1995); Raposa Negra 2 (19950; Raposa Negra 3 (1995); Janela Indiscreta (1998); Smallville (seriado - 2 episódios 2003–2004).

 

Margot Kidder (1948–2018)






Uma Certa Casa em Chicago (1969); Kinkad - O Caçador de Recompensas (1972); Irmãs Diabólicas (1973); Noite de Terror (1974); Quando as Águias se Encontram (1975); A Reencarnação de Peter Proud (1975); 92 Graus a Sombra (1975); Superman – O Filme (1978); Terror em Amityville (1979); Superman II (1980); Corações Íntimos (1981); Um Heróis Diferente (1982); Superman III (1983); Morte no Cinema (1984); Trama Fatal (1986); Perseguição Mortal (1986); Superman IV: Em Busca da Paz (1987); O Quase Poderoso Chefão (1989);  Uma Mulher de Coragem  (1994); Maverick (1994); A Desconhecida (1995); Berço Silencioso  (1997); Palhaço Assassino (1998); Forças Diabólicas (2000); Alguém na Escuridão (2000); Smallville (seriado - 2 episódios 2003–2004); Gritos do Além (2005); Halloween II (2009); Os X-Mercenários (2014); Amor em Quatro Patas (2019) 

 

Gene Hackman (1930-2025)






Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas (1967); Meu pai, um Estranho (1969); Operação França (1971); O Destino do Poseidon (1972); A Conversação (1974); Operação França II (1975); Um Lance no Escuro (1975); Superman: O Filme (1978); Superman II - A Aventura Continua (1980); Sob Fogo Cerrado (1983); De Volta Para o Inferno (1983); Superman IV: Em Busca da Paz (1987); Inimigo do Estado (1988), Entrega Mortal (1989); Mississipi em Chamas (1989); De Frente Para o Perigo (1990); Os Imperdoáveis (1992); A Firma (1993); Geronimo - Uma Lenda Americana (1993); Rápida e Mortal (1995); Maré Vermelha (1995); Medidas Extremas (1996); Poder Absoluto (1997); Os Excêntricos Tenenbaums (2001); Atrás das Linhas Inimigas (2001); O Júri (2003).

 

Marlon Brando (1924–2004)






Spirit of Youth (1941); Espíritos Indômitos (1950) (1950); Uma Rua Chamada Pecado (1951); Viva Zapata! (1952); Júlio César (1953); O Selvagem (1953); Sindicato de Ladrões (1954); Desirée, o Amor de Napoleão (1954); Eles e Elas (1955); Casa de Chá do Luar de Agosto (1956); Sayonara (1957); Os Deuses Vencidos (1958); A Face Oculta (1961); O Grande Motim (1962); Quando Irmãos se Defrontam (1963); Dois Farristas Irresistíveis (1964); Caçada Humana (1966); Sangue em Sonora (1966); A Condessa de Hong Kong (1967); Os Pecados de Todos Nós (1967); A Noite do Dia Seguinte (1969); Queimada! (1969); Os Que Chegam com a Noite (1971); O Poderoso Chefão (1972); Último Tango em Paris (1972);  Duelo de Gigantes (1976); Superman – O Filme (1978); Apocalypse Now (1979); A Fórmula (1980); Assassinato sob Custódia (1989); Um Novato na Máfia (1990); Cristóvão Colombo: A Aventura do Descobrimento (1992); Don Juan DeMarco (1994); A Ilha do Dr. Moreau (1996); O Bravo (1997); A Cartada Final (2001).

 

Glenn Ford (1916–2006)






Cupido Perigoso (1940); Náufragos (1941); Sacrifício de Pai (1942); Gilda (1946); Carmen (1948); O Czar Negro (1949); Escravos da Ambição (1949); Neve e Sangue (1950); Sangue Por Sangue (1953); Almas Selvagens (1953); Melodia Interrompida (1955); Sementes da Violência (1955), Galante e Sanguinário (1957); Não Caia n'Água, Marujo (1957);  Como Nasce um Bravo (1958); Uma Certa Casa de Chá em Kyoto (1961); Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (1962); Papai Precisa Casar (1963); Paris Está em Chamas? (1966); 48 Horas para Morrer (1966); A Grande Cilada (1967); O Pistoleiro do Rio Vermelho (1967); A Irmandade do Sino (1970); Santee - O Caçador de Recompensas (1973); Superman: O Filme (1978); Virus (1980); Feliz Aniversário Para Mim (1981) 


Phyllis Thaxter (1919–2012)






Trinta Segundos Sobre Tóquio (1944), Mundo de Sombras (1945), Aqui Começa a Vida (1945), Mar Verde (1947), Vida à Larga (1947), Rua dos Sonhos (1948), O Signo de Aries (1948), Sangue na Lua (1948), Ato de Violência (1948), Casei-me com um Morto (1950), Redenção Sangrenta (1950), Domador de Motins (1951), O Homem de Bronze (1951), Degradação Humana (1951), O Professor e a Corista (1952), Renegado Heróico (1952), Um Segredo em Cada Sombra (1952), Mulheres Condenadas (1955), Alucinado pela Vingança (1957), O Mundo de Henry Orient (1964), 83 Horas de Desespero (1972), Superman: O Filme (1978)

 

Susannah York (1939–2011)






Freud - Além da Alma (1962);  As Aventuras de Tom Jones (1963); Caleidoscópio (1966); O Homem que Não Vendeu sua Alma (1966); A Noite dos Desesperados (1969); Fortaleza Proibida (1976); Superman: O Filme (1978); Reencarnação (1980); Superman II: A Aventura Continua (1980); Um Conto de Natal (1984); Querida Assassina (1987); Uma História de Amor (1988);  Visitors - Nas Profundezas do Medo (2003); O Justiceiro Mascarado (2008)


Jackie Cooper (1922–2011)






O Sonho que Viveu (1929), O Filho Adotivo (1931), O Campeão (1931), Sooky (1931), Quando Faz Falta um Amigo (1932), Divórcio na Família (1932), Da Broadway a Hollywood (1933), O Cabaré dos Turunas (1933), Um Homenzinho Valente (1933), A Ilha do Tesouro (1934), Mágoas de Criança (1934), Coração de Filho (1935), Devoção de Pai (1935), O Bom Inimigo (1936), O Diabo é um Poltrão (1936), O Garoto das Ruas (1937), Novos Horizontes (1938), Idade Perigosa (1938), O Pequeno Gangster (1938); A Casa do Jornaleiro (1938); A Vida Começa aos 14 (1939); O Traidor (1939); Loucuras da Mocidade (1940); A Volta de Frank James (1940); O Mundo é um Teatro (1941); Amor de Primavera (1941); A Volta do Garoto (1941); Cavalgada de Melodias (1942); Onde Estarão Nossos Filhos (1943); A Cegonha e o Papai (1947); Herói em Apuros (1947); Dois Marujos e um Pato (1961); A Máquina do Amor (1971); O Dia que a Terra Tremeu (1974); Superman: O Filme (1978); Superman II: A Aventura Continua (1980); Superman III (1983); Superman IV: Em Busca da Paz (1987); Ensina-me a Querer (1987),  A Repossuída (1990); Ed e sua Mãe Morta (1993); O Anjo da Guarda (2004); Atirador (2007); Jogos do Poder (2007); Voando para o Amor (2013) 

 

Ned Beatty (1937–2021)






Amargo Pesadelo (1972); Roy Bean - O Homem da Lei! (1972); A Execução do Soldado Slovik (1974); Nashville (1975); Todos os Homens do Presidente (1976); As Incríveis Peripécias do Ônibus Atômico (1976); Rede de Intrigas (1976); O Expresso de Chicago (1976); O Exorcista II: O Herege (1977); S.O.S. - Submarino Nuclear (1978); Superman: O Filme (1978); 1941: Uma Guerra Muito Louca (1979); Jim Jones: A Tragédia da Guyana (1980); O Espião Trapalhão (1980); Superman II: A Aventura Continua (1980); A Incrível Mulher que Encolheu (1981); O Brinquedo (1982); O Imbatível (1983); De Volta às Aulas (1986); Acerto de Contas (1986); Troca de Maridos (1988); Um Grito na Noite (1988); Álibi para um Suspeito (1989); Assassinato no Tenessee (1989); A Repossuída (1990); Capitão América (1990),; Ed e sua Mãe Morta (1993); O Anjo da Guarda (2004); Atirador (2007); Jogos do Poder (2007); Voando para o Amor (2013)

 

Marc McClure (1957)






Se Eu Fosse Minha Mãe (1976), Uma Vez uma Águia (1976), Amargo Regresso (1978), Febre de Juventude (1978), Superman: O Filme (1978), Carros Usados (1980), Superman II: A Aventura Continua (1980), Massacre Brutal (1981), Superman III (1983), Supergirl (1984), De Volta para o Futuro (1985). Superman IV: Em Busca da Paz (1987), As Amazonas na Lua (1987), O Céu se Enganou (1989), Depois da Meia-Noite (1989), De Volta para o Futuro: Parte II (1989), Noite de Histórias e de Terror (1990), De Volta para o Futuro: Parte III (1990), Psicose Mortal (1992), Sleepstalker - O Homem de Areia (1995), Apollo 13: Do Desastre ao Triunfo (1995), The Wonders: O Sonho Não Acabou! (1996), Turbulência em Alto-Mar (1999), Catástrofe (2000), Python, a Cobra Assassina (2000), Desastre na Linha 7 (2000), Portal da Morte (2001), Veneno Mortal (2001). Superando Limites (2002), Sexta-Feira Muito Louca (2003), Coach Carter: Treino para a Vida (2005), Smallville: As Aventuras do Superboy (2001 - 1 episódio), Frost/Nixon (2008), Amigo Imaginário (2012), Liga da Justiça de Zack Snyder (2021)



Fontes:

Revista Starlog

Revista Starbust

Fantastic Films

Superman: The Big Book of Trivia!

L'Écran Fantastique

The Powers of Kal-El (1978)

Revista Set

Jornal O Globo

Jornal do Brasil

Correio Brasiliense

Revista Manchete

terça-feira, 7 de julho de 2026

UM ROSTO NA MULTIDÃO / A FACE IN THE CROWN (1957) - ESTADOS UNIDOS


O PODER MUDA DE PLATAFORMA. NUNCA DE NATUREZA.

Marcia Jeffries (Patricia Neal), uma jornalista de rádio do interior do Arkansas, visita uma cadeia local para entrevistar detentos e descobre Larry "Lonesome" Rhodes (Andy Griffith), um andarilho carismático que canta e filosofa com sarcasmo. O sucesso imediato de sua participação no programa transforma-o em uma celebridade local, e inicia uma trajetória que converterá popularidade em influência, influência em riqueza e riqueza em poder sobre a própria sociedade e a atenção de executivos da televisão de Nova York. Rapidamente, ele é moldado por publicitários, empresários e patrocinadores, tornando-se o astro de um programa de rede nacional, onde sua postura aparentemente simples, seu humor ferino e seus apelos emocionais conquistam a devoção de milhões de telespectadores. À medida que sua influência cresce, Rhodes ultrapassa o entretenimento e passa a interferir na política, aliando-se a um senador para influenciar a opinião pública. Nos bastidores, porém, revela-se um homem megalomaníaco, manipulador e profundamente cínico, que despreza justamente o público responsável por sua ascensão. Mais do que a ascensão de um homem, Um Rosto na Multidão acompanha o nascimento de um novo tipo de poder.

Dirigido por Elia Kazan (1909-2003) que vinha de dois sucessos, Sindicato de Ladrões (1954) e Vidas Amagas (1955), e tendo Budd Schulberg (1914-2009) como roteirista e oscarizado pelo filme de 1954, Um Rosto na Multidão revela-se um dos filmes mais visionários dos anos 1950, ao nos mostrar um estudo sobre comunicação de massas que antecipou fenômenos como celebridades midiáticas, marketing político, cultura dos influenciadores e a personalização do poder, além da facilidade com que uma democracia pode entregar enorme poder a um comunicador carismático. O filme praticamente antecipa como nasce um "influenciador digital", cinquenta anos antes da internet.

A dupla Kazan e Schulberg não condenam a televisão, esta é apenas o instrumento. Eles condenam a idolatria, nos mostrando que a tecnologia pode mudar constantemente, mas o comportamento humano permanece. E que o problema não é apenas do manipulador, é também da necessidade coletiva de encontrar alguém que pense por nós. Isso faz com que o verdadeiro protagonista talvez não seja Rhodes e sim a própria multidão (como no título que nos diz “...The Crown” – “Multidão”).

Kazan não filmou o futuro da televisão. Filmou o futuro da influência. E lembremos que em 1957, Hollywood vivia uma crise profunda. Depois da Segunda Guerra Mundial, a televisão entrou rapidamente nos lares americanos. Milhões de pessoas deixaram de frequentar o cinema com a regularidade dos anos 1940. Os grandes estúdios perderam público e dinheiro. Mas aqui a televisão não cria o problema. Ela o amplifica. Vejamos: Marcia utiliza a TV para dar voz ao povo. Rhodes utiliza a TV para alimentar seu ego. Os patrocinadores utilizam a TV para vender. Os políticos utilizam a TV para conquistar votos. É uma crítica ao nascimento de uma sociedade na qual tudo pode ser vendido, inclusive pessoas, candidatos e opiniões. Você pode dizer que o cinema não escaparia dessa lógica. Hollywood também fabricava estrelas, construía imagens públicas, escondia escândalos, transformava pessoas em mercadorias. Só que se o cinema criava estrelas, a televisão criava presença diária. Um astro do cinema aparecia algumas vezes por ano. Rhodes entra na casa das pessoas todos os dias, quase como um membro da família. Essa diferença é gigantesca.

Outra pergunta que o roteiro nos deixa e que é de suma importância para reflexão é: Por que milhões de pessoas querem tanto acreditar nesse homem? O fato é que Rhodes se torna famoso, passa a opinar sobre política, economia, comportamento e moral. E milhões passam a acreditar nele simplesmente porque ele é famoso (vejam o quanto esse filme é atual). Essa talvez seja a crítica mais visionária do filme, um filme de 1957, na qual Kazan e Schulberg já enxergavam esse fenômeno, que hoje poderíamos chamar de "autoridade por celebridade". Quando Rhodes se torna muito famoso, muitas pessoas passam a dar peso às suas opiniões sobre qualquer assunto. É como se a fama criasse uma falsa impressão de que aquela pessoa é competente em tudo. Sua competência em entreter passa a ser confundida com competência para orientar a sociedade. O filme pontua de uma forma bem coesa como uma sociedade fabrica seus ídolos, os transforma em deuses e, quando finalmente percebe quem eles realmente são, os destrói com a mesma velocidade com que os construiu. É um ciclo. E esse ciclo continua acontecendo até hoje.

Quanto ao elenco, Andy Griffith, em sua estreia, fez um personagem que, no início, se apresenta como uma pessoa sem passado definido, espontânea, engraçada, próxima do povo . Rhodes não entra oficialmente para a política, mas por ser um apresentador popular, controlando a percepção pública, passa a possuir mais influência que políticos tradicionais. Os índices crescentes de audiência lhe dão um imenso poder e acesso a um círculo social poderoso. O problema é que, na frente das câmeras, ele realmente possui carisma (carisma sem caráter se torna uma arma). Ele realmente fala o que as pessoas comuns querem ouvir. Ele realmente sabe improvisar. Outro problema é que ele é um homem sem princípios, percebido pelos que estão atrás das câmeras. E ele descobre que pode usar esse talento para dominar ou descartar quem o contrarie. E como seria o nosso Rhodes nos dias atuais? Provavelmente Rhodes surgiria: fazendo lives espontâneas; gravando vídeos curtos; comentando acontecimentos do dia; usando humor agressivo; ridicularizando figuras públicas. E sabemos que os algoritmos premiam emoção; indignação; polêmica; conflito; frases curtas ... certezas absolutas . E o nosso Rhodes moderno compreenderia isso intuitivamente. Hoje ele poderia transmitir durante horas sem qualquer editor. No início do filme, Rhodes é apresentado como "a voz do povo". No final, ele já não consegue ouvir o povo, ele ouve apenas a própria voz. Rhodes não mudou. O que mudou foi a nossa (leia-se o público do filme) percepção dele

Já Patricia Neal interpreta Marcia Jeffries, outro personagem bem complexo. Ela se apaixona de imediato por Rhodes, o que faz com que ela ajude a criar o fenômeno. Ela acompanha a ascensão meteórica do que achava ser seu pupilo, suporta suas explosões de temperamento e justifica seus excessos. Mas “Lonesone” não segue regras, não segue conselhos, não demonstra empatia com problemas alheios, nem se importa de magoar Marcia. Talvez ela nunca tenha conhecido Rhodes de verdade. Esta percebe que perdeu completamente o controle sobre sua criação, num quase paralelo com o mito de Frankenstein: ela construiu um monstro midiático e já não consegue detê-lo.  Quando ele finalmente revela arrogância e desprezo pelo público, muitos ficam chocados. Na verdade, ele apenas parou de representar. Márcia é sua criadora e, ao mesmo tempo, sua consciência moral.

Fechando a trinca de atores, temos Walter Matthau como Mel Miller, um roteirista cínico, mas sua importância talvez seja maior. Ele observa, comenta e compreende a tragédia antes dos demais personagens. Ele sabe quem é “Lonesone”. Só falta os outros descobrirem. Marcia enxerga Rhodes pelo prisma do amor. Os patrocinadores o enxergam pelo dinheiro. Os políticos o enxergam pelos votos. O público o enxerga pelo carisma. Miller é praticamente o único que o enxerga como um homem comum, cheio de vaidade. Ele conhece a máquina, o que o torna um observador privilegiado. Ele sabe que a publicidade vende ilusões; que a televisão fabrica personagens; que os patrocinadores compram influência e que a audiência compra poder. Ele vive dentro desse sistema e por isso há sempre um cinismo em suas falas. É um cinismo de quem já viu aquilo acontecer outras vezes. Talvez, para Miller, Rhodes seja apenas o caso mais extremo. A destacar, a estreia da jovem Lee Remick (A Profecia).

O filme faz outra pergunta muito atual: Por que alguém que é bom em entreter (ou comunicar), até mesmo fora da esfera televisiva, deveria saber em quem devemos votar ou como devemos pensar? Essa é uma crítica fortíssima, se percebermos, hipoteticamente, que um ator famoso pode falar sobre política; um cantor pode opinar sobre economia; um influenciador pode comentar sobre medicina. As pessoas muitas vezes acreditam neles não porque sejam especialistas, mas porque já gostam deles. Esse é o mecanismo que o filme antecipa. Outro fator seria que muitas pessoas preferem receber respostas prontas a enfrentar a responsabilidade de pensar por si mesmas. O ser humano tem uma tendência a confiar em figuras que lhe transmitam segurança, identidade ou esperança. Se realizado hoje, o final talvez fosse bem diferente. Se no filme um microfone aberto determina a derrocada, em tempos atuais talvez um vídeo vazado não bastasse. Parte do público diria que o vídeo foi tirado de contexto, que seria uma perseguição. Muitos diriam: "ainda assim continuo apoiando". Isso talvez tornasse o Rhodes atual ainda mais resistente, pois se no filme, ele precisava conquistar milhões para sobreviver, hoje ele poderia sobreviver com uma minoria extremamente fiel. "Lonesome" Rhodes realmente desapareceu ou apenas mudou de plataforma? 

Um Rosto na Multidão, em 1957, focou no rádio e televisão. Se realizado nos dias atuais, elegeria para seu alvo as redes sociais alicerceadas pelos algoritmos, influenciadores, deep fakes e a inteligência artificial. Hoje, a velocidade com que uma pessoa alcança milhares é quase instantânea. Celebridades são criadas da noite para o dia e muitas ditam o que as pessoas devem pensar; em quem acreditar; qual caminho seguir; quem é o inimigo; qual é a verdade... o que consumir ... A reflexão que lhes deixo é: Quem cria um ídolo? Quem transforma um apresentador em autoridade política? Quem entrega poder a alguém apenas porque ele é carismático? Hannah Arendt nos disse que o problema político não reside apenas no tirano, mas na estrutura que torna possível sua ascensão ... O mecanismo permanece. Só muda o meio. A reputação continua sendo construída e destruída pela exposição pública. Quem depende da aclamação coletiva vive igualmente sujeito à rejeição coletiva. Em tese, em 1957, o filme parecia dizer: “cuidado, a televisão pode criar e destruir pessoas." Em 2026, poderíamos atualizar essa frase para: ”cuidado, qualquer câmera ligada à internet pode criar e destruir pessoas”.


Trailer:



Curiosidades:

Elia Kazan e Budd Schulberg passaram meses pesquisando o mundo da publicidade, até mesmo tendo acesso a reuniões de agências de publicidade, a fim de entender a forma como a Madison Avenue abordava e moldava o pensamento do público americano.

Lee Remick, fazendo sua estreia no cinema como a sexy giradora de bastões, apareceu no set três semanas antes, para poder treinar com as majorettes da escola secundária local

O personagem Lonesome Rhodes foi baseado em várias personalidades da vida real, incluindo Arthur Godfrey, Huey Long, Will Rogers e até Billy Graham.

Marlon Brando recusou o papel de Lonesome Rhodes.

R.G. Armstrong, que interpretou o operador de teleprompter no filme, foi colega de classe de Andy Griffith na Universidade da Carolina do Norte e eles permaneceram bons amigos pelo resto de suas vidas. Armstrong apareceu em um episódio de The Andy Griffith Show (1960) e um episódio de duas partes de Matlock (1986).

O elenco inclui três vencedores do Oscar: Patricia Neal, Burl Ives e Walter Matthau; e quatro indicados ao Oscar: Anthony Franciosa, Lee Remick, Kay Medford e Rip Torn.

Lonesome Rhodes disse ao senador Worthington Fuller que 65 milhões de americanos assistem ao programa de Rhodes toda semana. Em 1957, esse público representava quase 40% da população dos EUA

Lee Remick tinha 21 anos na época da estreia deste filme. Sua personagem tinha 17 anos.

Patricia Neal (1926-2010) foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por A História de Três Estranhos (1969) e Venceu o Oscar de Melhor Atriz por  O Indomado (1963)

Anthony Franciosa (1928-2006) foi Indicado ao Oscar por Carcere Sem Grades (1957) e indicado 3 vezes ao Globo de Ouro

Walter Matthau venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Uma Loura por um Milhão (1966). Também foi Indicado ao Oscar de Melhor Ator por Ainda Há Fogo Sob as Cinzas (1971)  e Melhor Ator Coadjuvante por Uma Dupla Desajustada (1975)

Lee Remick foi indicada ao Oscar por Vício Maldito (1962)


Cartazes:






Andy Griffith no seriado Operação Resgate / Salvage 1 (1979)









Filmografias Parciais:

Andy Griffith (1926-2012)






Um Rosto na Multidão (1957); Esse Sargento é de Morte (1958); Mau Tempo pela Proa (1958); Furacão de Saias (1961); The Andy Griffith Show (1960-1968); Um Anjo no Meu Bolso (1969); Pergunte a Alice (1973); Rezemos pelos Audazes (1974); Sangue na Neve (1974); Savages (1974); Do Oeste para a Fama (1975); A Sósia (1977); Jogo Mortal (1977); Raízes II (1979); Operação Resgate (seriado 1979); Assassinato no Texas (1981); O Exorcista do Demônio (1983); O Vaqueiro Cantador (1985); Crime da Inocência (1985); Aparências (1986); Matlock (1986–1995); Inesperado Reencontro (1995); Duro de Espiar (1996); O Último Pedido (1998); Uma Canção para Dois (1999); Tudo em Família (2001); Um Avô Sedutor (2009)


Patricia Neal (1926-2010) 






Cupido Faz das Suas (1949); Vontade Indômita (1949); Coração Amargurado (1949); Cinzas ao Vento (1950); Três Segredos (1950); Redenção Sangrenta (1950); Águas Traiçoeiras (1951); Escrava da Cobiça (1951); O Dia em que a Terra Parou (1951); Feitiço de Amor (1951); Missão Perigosa em Trieste (1952); A Indiscreta (1952); Falsa Verdade (1952); Um Rosto na Multidão (1957); Bonequinha de Luxo (1961); O Indomado (1963); Cega de Amor (1964); A Primeira Vitória (1965); A História de Três Estranhos (1968); Paixão e Crime (1971); O Estranho Mundo de Baxter (1973); A Love Affair: The Eleanor and Lou Gehrig Story (1977); Passageiros do Inferno (1979); Nada de Novo no Front (1979); A História de Patricia Neal (1981); Histórias de Fantasmas (1981); O Amor Mostra o Caminho (1984); Votos Quebrados (1984); Traída Pela Justiça (1992); A Fortuna de Cookie (1999)


Walter Matthau (1920-2000)






Homem Até o Fim (1955); A Um Passo da Morte (1955); Delírio de Loucura (1956); Um Rosto na Multidão (1957); Assassinato na 10ª Avenida (1957); Balada Sangrenta (1958); Párias da Vida (1958); Mau Tempo pela Proa (1958); Na Rota dos Proscritos (1958); O Nono Mandamento (1960); Sua Última Façanha (1962); Adorável Trapaceiro (1963); Charada (1963); O Barco do Desespero (1964); Limite de Segurança (1964); Um Amor do Outro Mundo (1964); Miragem (1965); Loura por um Milhão (1966); Maridos em Férias (1967); Um Estranho Casal (1968); Diário Íntimo de uma Mulher (1968); Alô, Dolly! (1969); Flor de Cacto (1969); O Caçador de Dotes (1971); O Hotel das Ilusões (1971); Ainda Há Fogo Sob as Cinzas (1971); Reencontro do Amor (1972); O Homem que Burlou a Máfia (1973); Matança em São Francisco (1973); O Sequestro do Metrô (1974); Terremoto (1974); A Primeira Página (1974); Uma Dupla Desajustada (1975); Garotos em Ponto de Bala (1976); Unidos por um Ideal (1978); Um Viúvo Trapalhão (1978); A Garotinha que Caiu do Céu (1980); O Espião Trapalhão (1980); Um Juiz Muito Louco (1981); Amigos, Amigos, Negócios à Parte (1981); Sonhando com a Fama (1982); O Negócio é Sobreviver (1983); Promessa é Dívida (1985); Piratas (1986); Uma Alucinante Viagem (1988); O Pequeno Diabo (1988); A Justiça Fala mais Alto (1990); O Cavalheiro de Branco (1991); JFK: A Pergunta que Não Quer Calar (1991); Dennis, o Pimentinha (1993); Dois Velhos Rabugentos (1993); A Teoria do Amor (1994); Ensina-me a Viver (1995); Dois Velhos Mais Rabugentos (1995); Rabugentos & Mentirosos (1996); Dois Parceiros em Apuros (1997); Meu Melhor Inimigo (1998); Amor Após a Morte (1998); Linhas Cruzadas (2000)


Anthony Franciosa (1928-2006) 






Esta Noite ou Nunca (1957); Um Rosto na Multidão (1957); Cárcere Sem Grades (1957); A Fúria da Carne (1957); O Mercador de Almas (1958); Calvário da Glória (1959); Drama na Página Um (1959); Nua no Mundo (1961); Desejo que Atormenta (1962); Contramarcha Nupcial (1962); Em Busca do Prazer (1964); Passaporte para o Perigo (1966); Assalto a um Transatlântico (1966); A Falsa Libertina (1966); Jogo Perigoso (1966); A Espiã que Veio do Céu (1967); Oferece-se Pistoleiro (1968); A Praia dos Desejos (1968); Os Audaciosos (seriado 1968–1970); Na Teia da Aranha (1971); Terra 2 (1971); A Máfia Nunca Perdoa (1972); Controle Remoto (seriado 1972–1973); O Fantasma do Sol de Meio-Dia (1974); A Piscina Mortal (1975); Matt Helm (seriado 1975–1976); A Maldição da Viúva Negra (1977); Poder de Fogo (1979); A Cigarra (1980); Desejo de Matar 2 (1982); Anjo ou Demônio? (1982); A Última Diligência (1986); Promessa de Sangue (1987); Corredor da Morte (1988); Backstreet - Sonhos de um Rebelde (1990); Dupla Ameaça (1992); City Hall: Conspiração no Alto Escalão (1996)


Lee Remick (1935–1991)






O Mercador de Almas (1958); Anatomia de um Crime (1959); Fama a Qualqur Preço (1959); Anatomia de um Crime (1959); Rio Violento (1960); Santuário (1961); Escravas do medo (1962); Vício Maldito (1962); A Sombra de uma Fraude (1963); Simpático, Rico e Feliz (1963); O Gênio do Mal (1965); O Mundo Marcha Para o Fim (1965); Nas Trilhas da Aventura (1965); Um Face Para Cada Crime (1968); O Crime Sem Perdão (1968); Sou Pago Para Matar (1969); Escondendo a Grana (1970); Amantes Infiéis (1971)); Uma Lição Para não Esquecer (1971); Um Equilíbrio Delicado (1973); Corações Atormentados (1975);   O Dia Fatal (1975); A Profecia (1976); O Telefone (1977); O Toque da Medusa (1978); Os Europeus (1979); A Competição (1980); Tributo (1980); A Carta Acusadora (1982);O Poder do Amor (195);  De Puro Sangue (1986); Conflitos Intímos (1987); Prática Ilegal (1988); Ponte do Silêncio (1989);Passaporte Para o Inferno (1989)