1943. Em meio à retirada alemã na Frente Oriental, um moderno tanque de guerra nazista Tiger se encontra no cerco de Stalingrado em uma situação que rapidamente foge ao controle e transforma a missão em um desastre iminente. Após escapar milagrosamente de um ataque aéreo em uma ponte sob o rio Dnieper, os cinco soldados da tripulação recebem uma nova missão, agora secreta, cujo real objetivo apenas o seu comandante Philip parece conhecer em sua plenitude: atravessar as linhas inimigas, em um território hostil, para localizar um oficial de alta patente que estaria planejando desertar, levando consigo segredos que o comando alemão deseja evitar que caiam em mãos soviéticas a qualquer custo.
Confinados em um espaço de metal sufocante e isolados em campo inimigo, os soldados começam a presenciar situações inexplicáveis, como a presença de um poderoso blindado adversário que parece estar em seu encalço. A paranoia crescente envolve o grupo enquanto dilemas morais vêm à tona: o desejo de sobrevivência entra em conflito com uma máquina de guerra que se transforma, simultaneamente, em escudo e tumba. O isolamento dentro da blindagem começa a corroer a sanidade do grupo, sugerindo a presença de uma força sobrenatural que parece permear cada quilômetro avançado.
Produção Alemã, distribuída pela Amazon, Der Tiger (que no Brasil recebeu o título de “O Tanque de Guerra”) pode, à primeira vista, parecer um filme de guerra confuso. E essa sensação pode ser até certo ponto verdadeira dado ao roteiro que insere um forte componente sobrenatural à trama, utilizando uma grande quantidade de alegorias e pistas que convidam o espectador a decifrar seu enigma. O fato é que, infelizmente, os espectadores mais atentos ou com “anos de estrada” poderão antever a proposta da obra logo no início, o que talvez mitigue o impacto do final, que é mais sugestivo do que explícito. Contudo, como na vida, o encanto não está apenas no destino, mas na jornada, sendo a trajetória desses cinco homens que sustenta o interesse, ao utilizar o realismo fantástico para abordar o trauma profundo da guerra.
Para um melhor aproveitamento
da obra, é necessário dissecar suas analogias. Não me atererei a todos os
aspectos, mas aos principais, deixando para quem lê essas linhas o deleite de
descobrir outras camadas. Atenção: os três próximos parágrafos contêm spoilers inevitáveis.
A bússola enlouquecida sugere que a realidade geográfica já não se aplica; a aparição espectral do cervo, símbolo de guia espiritual em várias culturas, indica que a tripulação navega por um limbo. A interpretação de que os protagonistas já estão mortos é reforçada pela "combustão espontânea" do temido tanque inimigo SU-100 e pelo fato de terem sobrevivido a situações que seriam fatalmente letais. O Tiger torna-se um caixão de aço navegando pelo purgatório, imagem reforçada quando o veículo submerge nas águas (uma analogia à travessia do Estige, o rio dos mortos na mitologia). A fala da namorada de um dos protagonistas mencionando “espíritos” é o que os roteiristas chamam de foreshadowing (prenúncio). O filme deixa a resposta na cara do público, mas a gente só entende quando junta as peças. A narrativa deixa de ser sobre vencer a batalha e passa a ser sobre aceitar o próprio fim. Esses aspectos já são uma forte sugestão de que a missão possui um caráter metafísico. As transmissões de missas católicas em latim pelo rádio de comunicação, seriam um réquiem para os mortos ou uma liturgia fúnebre para os que ali estão, presos no limbo?
Há outro momento muito interessante. Philip chega a um vilarejo e encontra um oficial que encurralou pessoas em um celeiro e ateou fogo. Ele observa, questiona, mas um de seus soldados diz que eles não podem interferir, pois são ordens. Talvez a cerne do filme seja essa submissão à autoridade na qual pessoas realizam (ou permitem) atos contrários aos seus princípios em nome de autoridade superior, no caso o Estado nazista. O filme “I Comme Icaro” trata sobre esse tema ao apresentar o "Experimento Milgram".
Para mim, Philip podia ter rejeitado a ordem ou impedido o massacre, mas preferiu apenas assistir assombrado. Esse ato o condenou ao inferno. Essa conexão explica por que o protagonista morreu moralmente ao se tornar um espectador passivo do horror. Ao aceitar que a "autoridade" (o Estado / a Ordem reinante) está acima da sua humanidade, ele abdica da sua alma, tornando-se um agente passivo do mal. O celeiro em chamas parece funcionar como o portal do inferno para eles. O fato de ele estar "assombrado", mas imóvel, é o que transforma o tanque em um caixão. No Direito e na Ética, isso é a "banalidade do mal" de Hannah Arendt em pleno campo de batalha. Indo um pouco mais além, eu poderia pensar que o massacre no vilarejo não é apenas um evento histórico na trama; é o julgamento espiritual do protagonista. O "caixão de aço" (o tanque) é a punição por ter assistido ao fogo sem usar o poder que tinha para apagá-lo. No final, apesar de toda a sua blindagem pesada, o Tiger não consegue protegê-lo da própria consciência. O tanque não está mais cruzando fronteiras geográficas, mas sim navegando pela eternidade de um trauma que não pode ser superado enquanto a culpa não for assumida. O rastro de cinzas deixado pelo tanque é o símbolo de uma geração que, ao escolher não interferir, transformou sua própria existência em um silêncio eterno. FIM DOS SPOILERS
O elenco centrado em cinco personagens funciona muito bem. Temos o tenente (David Schütter); motorista (Leonard Kunz); o artilheiro e segundo em comando (Laurence Rupp); o dedicado operador de rádio e usando uma metralhadora (Sebastian Urzendowsky ) ; o jovem carregador de canhão (Yoran Leicher) . Todos confinados e lutando para conter o pânico, obedecendo às ordens na esperança de voltarem para suas vidas simples antes de uma guerra que os cooptou ao caos.
No cômputo final, “O Tanque” posiciona-se
menos como um filme de guerra tradicional e mais como um estudo brutal sobre a
desumanização no combate moderno, um verdadeiro laboratório de decomposição
moral. Sua premissa inicial, poderá
remeter ao filme “O Resgate do Soldado Ryan”, mas o roteiro retira imediatamente o filme do
campo do entretenimento militar e o coloca no campo da ética e da filosofia. O
filme deixa de ser apenas um drama de combate moderno, e se consolida como um
aviso sombrio sobre o peso das escolhas individuais. A obra sobrevive pela sua
crueza e pelo incômodo que causa ao lembrar que o mal não reside apenas no
ditador que ordena, mas no soldado que assiste. Não é, portanto, um
entretenimento para todos os públicos. Seu principal problema talvez resida no
fato de que muitos preverão o rumo da história cedo demais, destruindo parte do
plot twist final. Infelizmente, há uma onda na indústria do cinema em que os roteiristas
e cineastas sentem a necessidade de explicar o final em detalhes, algo que não
acontecia com tanta frequência no passado. A indústria passou a explicar
demais… ou se adaptou a um novo tipo de espectador?
Trailer:
Curiosidades:
O tanque Tiger apresentado no filme é uma réplica construída em um chassi soviético T-55. Para as filmagens, ele foi equipado com réplicas de rodas entrelaçadas para se assemelhar a um Tiger I, embora o espaçamento entre as rodas ainda revele a suspensão T-55 subjacente. O veículo está baseado no Museu da Linha de Demarcação em Rokycany, República Tcheca.
Historicamente, as equipes de tanques da Wehrmacht usavam jaquetas Panzer pretas adornadas com a insígnia do crânio Totenkopf. O design do crânio usado pela Wehrmacht diferia da versão SS, e o filme retrata com precisão a insígnia no estilo da Wehrmacht, não o design da SS
O diretor Dennis Gansel já dirigiu 11 episódios da série de televisão Das Boot. O filme também emprega uma tensão claustrofóbica prolongada, traduzindo o suspense submarino de Das Boot (O Barco) em um tanque Tiger preso em um ambiente fluvial.
As missas em latim pode ter o significado de uma extrema-unção antecipada.
Os primeiros tanques Tiger I (produzidos entre 1942 e 1943) possuíam uma capacidade rara para a época: o Deep Wading (vau profundo). Diferente de outros tanques que apenas atravessavam rios rasos, o Tiger foi projetado para submergir completamente em águas de até 4 metros de profundidade.
Em termos de poder de destruição, o SU-100 (lançado pelos soviéticos no final de 1944) foi projetado com um único objetivo: destruir a nova geração de tanques pesados alemães (Tiger e Panther). Enquanto o Tiger era um tanque de uso geral (com torre giratória), o SU-100 era um caça-tanques (sem torre, o canhão era fixo no chassi). O canhão de 100mm do soviético era devastador. Ele conseguia perfurar a blindagem frontal do Tiger I a uma distância de até 1.000 metros.
Por não ter torre e ser mais baixo que o Tiger, o SU-100 conseguia se esconder facilmente na vegetação ou na neve (as "estepes" que mencionei). Ele não foi feito para lutar "limpo". Sua finalidade era esperar o Tiger aparecer e disparar um único tiro que atravessasse a blindagem frontal, geralmente incinerando a tripulação instantaneamente.
Cartaz:








































