Adam
Cramer (William Shatner) é um homem chegando de ônibus à cidade (fictícia) de Caxton,
no Missouri, sul dos Estados Unidos. Vestindo um terno branco impecável e
mostrando-se uma pessoa bem articulada, ele se regozija por encontrar um local
onde poderá espalhar seu ódio, seu preconceito e sua intolerância contra a
integração racial nas escolas. Grande parte não está feliz com a lei, mas aceitam que
ela existe. Cramer alega representar uma organização social chamada "Patrick Henry", que contesta a decisão do governo e acredita que os cidadãos bem orientados
podem opor resistência. E o modo como Cramer acredita que possa influenciar as
pessoas é tudo menos democrático como alardeia. E é através de Verne Shipman
(Robert Emhardt), um empresário rico e influente, que Cramer vê a chance de
colocar seu nefasto plano em andamento.
Para entendermos o contexto na qual o filme se insere, precisamos entender que a integração foi aprovada em 17 de maio de 1954, quando a Suprema Corte dos EUA decidiu, no caso “Brown v. Board of Education”, que a segregação em escolas públicas era inconstitucional. Essa decisão derrubou a doutrina do "separados, mas iguais" que vinha desde 1896. Notemos a data do filme: 1962. Existe um intervalo de 8 anos entre a lei e a obra dirigida por Corman. O filme se passa justamente no período da "Resistência Massiva". Embora a lei existisse, muitos estados do Sul (como o Missouri, onde o filme foi rodado) se recusavam a cumpri-la ou faziam de tudo para atrasar o processo. E é aí que Adam Cramer se insere: exatamente nesse vácuo entre a lei e a aceitação social.
Em
1962, Roger Corman abandonou momentaneamente seus monstros ficcionais para realizar
um dos filmes americanos mais corajosos e ousados de todos os tempos,
entregando em "O Intruso" um
estudo cirúrgico sobre a engenharia do ódio. Através da chegada de Adam Cramer,
o filme desmascara o demagogo não como um fanático cego, mas como um técnico da
manipulação que utiliza a retórica como ferramenta de ascensão. Ao evocar
figuras como Sócrates, Hitler e Lênin tenta apresentar uma “genealogia
intelectual”: ele possui o verniz dos letrados, a técnica de mobilização das
massas e o pragmatismo amoral de quem sacrifica vidas, como a do padre ou a
visão do editor local, em nome de uma narrativa de poder. É um vilão moderno,
cujo ego inflado é alimentado pela capacidade de transformar o preconceito
latente em uma arma política de destruição em massa. Corman resolveu mostrar
que monstros podem ser de carne e osso e morarem ao seu lado (como em “Tiros em
Ruanda”, na qual o vizinho que você cumprimenta todas as manhãs, sob a
influência certa, pode se tornar seu carrasco).
Filmado em um preto e branco pelo talentoso Taylor Byars, a força da obra reside na interpretação de Shatner, que encarna uma serpente de terno e gravata, cuja sedução é proporcional à sua covardia. Bebendo diretamente da fonte de clássicos como "Consciências Mortas", o filme subverte a psicologia das massas ao mostrar que o "linchamento" não precisa de uma “causa justa”, apenas de um catalisador bem articulado. O confronto de Cramer com o personagem de Leo Gordon desmascara essa fragilidade: o demagogo é um parasita que murcha diante da integridade individual, provando que sua força não reside em convicções reais, mas na proteção que a turba lhe oferece. Ele olha para as plantações de algodão não com olhar nostalgico, mas com a frieza de um general que mapeia o combustível necessário para um incêndio social.
O curioso é que o filme, um drama inovador sobre os direitos civis, anos à frente de seu tempo, mas totalmente dentro de sua época, não encontrou ressonância do público em 1962. O filme foi o maior fracasso comercial de Corman, pois não deu lucro. Um dos motivos talvez resida no fato que, na época que o filme foi lançado, a América (principalmente a sulista) não queria abordar o racismo no Sul dos Estados Unidos. Já, "No Calor da Noite"(com Sidnei Poitier), com a temática “racismo sulista”, obteve um enorme sucesso de público apenas cinco anos depois. Quem não se lembra de “Mississipi em Chamas” abordado décadas depois. Só que O Intruso abordou essa temática no “olho do furacão”, época cujos direitos civis ainda gerariam diversas contendas.
Corman usou um artifício interessante para gravar seu projeto: distribuiu uma versão de roteiro suavizada (com outros diálogos), o que trouxe outra percepção aos moradores locais que ele colocou no filme, muitos realmente eram contra a decisão do governo, contra a integração. Quando o conteúdo real do filme foi descoberto, Corman e os envolvidos foram “convidados” a “se retirarem” rapidamente pelas forças policiais, recebendo até ameaças de grupos de ódio. O relançamento, mais de 40 anos depois, no mercado de vídeo doméstico na Inglaterra, trouxe algo inesperado: o investimento no filme foi recuperado. Um tema ainda relevante nos tempos atuais, pois o problema foi parcialmente resolvido, mas não completamente. Considerando o que está acontecendo nos EUA atualmente, este filme (passado na tevê brasileira) apenas reforça a mensagem e a necessidade de sua redescoberta. A destacar a trilha sonora pontuada nos momentos certos de Herman Stein, que não deixa o espectador relaxar, mesmo nas cenas de diálogo.
As
analogias são bem interessantes quando vemos o filme com um olhar mais apurado:
Adam Cramer é retratado como um oportunista ideológico. Ele não chega à cidade
com armas; ele chega com retórica. Ele não cria o racismo na cidade; ele
simplesmente dá permissão para que o preconceito latente dos cidadãos se
transforme em ação violenta. O perigo do personagem não está nos gritos, mas no
sorriso. Ele é um "vendedor de ódio”. Para Cramer, a verdade não importa;
o que importa é a narrativa. Ele sabe que a prisão o transforma em um símbolo. O tema central pode ser interpretado como a
facilidade com que um estranho articulado pode manipular a psicologia das
massas; o foco não é o crime em si, mas a velocidade com que a racionalidade
humana evapora quando o grupo se torna uma massa uniforme. Podemos até conjecturar
se o filme critica os racistas ou critica a incapacidade das "pessoas de
bem" em silenciar um demagogo antes que a violência comece? O espancamento
de Tom (o editor) seria uma crítica de que a civilização (representada pela
imprensa e pela lei) é extremamente frágil diante da força bruta. Quando o
editor perde o olho, o filme está dizendo literalmente que a cidade
"perdeu a visão" ou a perspectiva. Uma metáfora visual poderosa sobre
a cegueira coletiva. Cramer é um homem de palavras. Ele domina quem ele pode
seduzir ou intimidar intelectualmente. Quando ele encontra a força física bruta
e a convicção moral de Griffin sem uma massa para protegê-lo, ele percebe que
não é nada. O final é abrupto porque a vida real estava ameaçando a produção. O
ódio que Adam Cramer semeava na tela estava começando a cercar a equipe de
filmagem fora dela. Ele não cita Hitler
pelo antissemitismo, mas pela técnica. Ele admira a capacidade de transformar
um "zé ninguém" em uma divindade através do palanque; ao citar Aristóteles,
ele usa a filosofia clássica para dizer àquela população rural: "Eu sou a
elite intelectual que veio validar o preconceito de vocês". Ele dá um ar
de "ciência" e "ética" ao que seria apenas barbárie. Quanto
a Lênin, seria a aceitação do método: "os fins justificam os meios". Se for
preciso explodir uma igreja para manter latente o ódio, ele o fará. No final, podemos conjecturar se o preconceito permanecerá, dormente, esperando o próximo
Adam Cramer (ou algo pior) chegar.
O desfecho do filme, muitas vezes criticado como um “deus ex-machina” apressado pelas limitações orçamentárias de Corman, revela, sob um olhar mais atento, uma ironia perversa sobre a natureza humana. Quando a mentira que sustentava a fúria da cidade é desmascarada, a população não passa por uma catarse moral ou um arrependimento genuíno; eles simplesmente se dispersam em um silêncio covarde. A resolução abrupta serve como um espelho da conveniência social: as pessoas preferem fingir que foram "manipuladas" por um estranho do que enfrentar o fato de que as ideias de Cramer ecoavam perfeitamente em seus próprios corações. O palanque vazio onde Adam termina sozinho não simboliza a vitória da justiça, mas a solidão momentânea de um método que, em breve, poderá encontrar novos ouvidos em uma outra cidade, por exemplo. E o pior: em 1962, Cramer precisava de um ônibus e um terno; hoje, ele precisaria apenas de um algoritmo e um perfil verificado.
Quanto ao elenco, Shatner tinha 31 anos quando o filme estreou e já tinha trabalhos no cinema: "Os Irmãos Karamazov", "O Julgamento de Nuremberg" e "Geração Violenta", além de trabalhos na tevê e teatro. Sua atuação visceral deu uma força ao roteiro de Charles Beaumont, (cujo livro foi escrito e publicado em 1958. Beaumont escreveu também vários episódios do seriado “Além da Imaginação” / Twilight Zone) interpretando um personagem oportunista (um “forasteiro profissional’), inflamando o ódio e o ressentimento que já existiam naquela cidade, naquele Estado (não por acaso em um terno branco , cor da pureza, enquanto semeia a escuridão). Ironicamente, Shatner participou do primeiro beijo inter-racial da televisão aberta americana, quando beijou a Tenente Uhura em "Jornada nas Estrelas" no episódio “Os Senhores de Triskelion”. Assim como é irônico também seu personagem acusar Sam Griffin (Leo Gordon) de beijar uma afrodescendente já no final do filme. E, continuando com as ironias, vemos uma inversão de papéis entre o quase sempre mocinho Shatner e o quase sempre vilão Leo Gordon. O bom elenco deu o suporte que o filme necessitava e o uso de atores não profissionais (moradores locais desavisados misturados nas cenas) deu um ar de autenticidade a esse filme independente realizado por Corman. Beaumont fez uma participação especial interpretando o Sr. Paton (ele faleceria seis anos depois). Tom McDaniel (Frank Maxwell) interpretou o editor do jornal local, que se opõe à integração, lutando contra o movimento com inúmeros artigos. Ele não gosta da nova lei, mas não quer que sua filha adolescente seja exposta a esse tipo de ódio que Cramer começa a espalhar freneticamente a quem lhe dê ouvidos. E isso lhe custará caro. Charles Brown interpretou Joey é um dos estudantes afrodescendentes que se mostra determinado a frequentar o ensino médio, mesmo diante dos protestos contundentes dos que ali vivem.
O Intruso se recusa a oferecer a
redenção fácil que o público de drive-in da época poderia esperar, deixando as
cicatrizes da violência expostas e sem cura. O editor continua cego e o racismo
estrutural permanece intacto sob o tapete de uma suposta normalidade retomada
pela cidade. Ao contrário de uma tragédia grega, onde o erro leva ao
aprendizado, aqui o erro leva apenas ao constrangimento, sugerindo que o mal é
cíclico e aguarda apenas o próximo "Adam" para despertar. É uma obra
que sobrevive ao tempo por sua crueza independente, lembrando-nos de que,
embora os manipuladores possam ser desmascarados, ainda há terrenos férteis para
a ignorância e para o preconceito que raramente são arados.
Trailer:
Curiosidades:
Até a data desta postagem, dsiponivel no YouTube com legendas automáticas
Beverly Lunsford (1945-2019) que interpretou Ella, a filha do editor, participou de algumas séries de tevê . Sua carreira nos cinemas terminou em 1969. faleceu aos 74 anos de causas não reveladas
Robert Emhardt (1914-1994) faleceu de falência cardíaca aos 80 anos
Leo Gordon (1922-2000) faleceu de falência cardíaca aos 78 anos
Jeanne Cooper (1928-2013) faleceu aos 84 anos em decorrência de problemas pulmonares . Participou de diversos seriados ao longo da carreira
Depois que a equipe de filmagem foi expulsa de East Prairie, Missouri, pelo chefe de polícia da cidade (supostamente por serem "comunistas"), o produtor/diretor do filme, Roger Corman , percebeu que precisava de mais uma tomada panorâmica da escola. Ele e um assistente voltaram à cidade e filmaram a cena às pressas. O chefe de polícia, de alguma forma, deve ter descoberto a presença dos dois, pois Corman o viu dirigindo ao longe. Corman e seu assistente jogaram rapidamente a câmera e os equipamentos no carro e partiram na direção oposta, ilesos.
Em seu livro "Boldly Go" (2022), William Shatner relata que moradores locais foram contratados como figurantes durante a filmagem do discurso racista de Adam Cramer nos degraus do tribunal. Como Shatner havia gritado bastante no dia anterior, precisou poupar a voz durante a maior parte das filmagens. O produtor e diretor Roger Corman instruiu-o a mímica do discurso enquanto orientava a plateia sobre como reagir, filmando por cima do ombro de Shatner. Ao final do dia, a voz de Shatner havia se recuperado o suficiente para que ele interpretasse o discurso em seus closes. A essa altura, a maioria dos figurantes já havia deixado o set por conta própria. No dia seguinte, um jornalista local abordou Corman e Shatner e disse-lhes que haviam sido espertos em não recitar o diálogo do discurso diante da plateia. Ele explicou-lhes que uma árvore no pátio do tribunal havia sido usada para linchamentos pelo menos 20 anos antes, e que alguns dos figurantes na multidão haviam participado desses linchamentos. Se tivessem ouvido o discurso, não se sabia como teriam reagido.
O filme foi inteiramente rodado em locações no sudeste do Missouri, com moradores locais atuando como figurantes. Sabendo o quão incendiário era o roteiro, o produtor/diretor, Roger Corman , fez questão de não mostrá-lo na íntegra para eles, por medo de ser expulso da cidade à força.
William Shatner afirmou que, durante a produção deste filme, tanto a vida do elenco quanto da equipe de filmagem foram ameaçadas, os equipamentos foram sabotados e a permissão para filmar no pátio de uma escola local foi revogada.
O filme estreou em Londres, Inglaterra, na semana do assassinato do presidente John F. Kennedy, com o título "The Stranger". Foi então relançado nos EUA com o título "Shame" e, posteriormente, relançado novamente nos EUA com outro título, "I Hate Your Guts!".
O produtor/diretor do filme, Roger Corman , disse que ele mudou muito sua visão sobre cinema. O filme foi exibido em festivais e recebeu ótimas críticas, mas foi o primeiro filme que ele fez a dar prejuízo. Depois de analisar o motivo, ele percebeu que a lição que tentava transmitir ao público era excessiva. A partir daquele momento, ele se concentrou mais em entreter o público. Ele disse que sempre tentou inserir uma moral em seus filmes depois disso, mas de forma sutil, sem martelá-la na cabeça do público, porque esse não era o motivo pelo qual as pessoas iam ao cinema.
Filmado com um orçamento de US$ 100.000,00 em locações em Charleston, Missouri.
Cartaz:
Filmografias Parciais:
William Shatner
Os Irmãos Karamazov (1958); Julgamento em Nuremberg (1961); Geração em Conflito / Geração Violenta (1961); O Intruso (1962); Alexandre, O Grande (1963); As Quatro Confições (1964); Incubus (1966); O Ódio é Minha Lei (1968); Jornada nas Estrelas (seriado 1966-1969); O Único Sobrevivente (1970); O Cão do Inferno (1971): Incidente em um Rua Escura (1972) Batismo de Fogo (1974); A Mulher da Metralhadora / Grande Mamãe (1974); Acusado e Condenado / Indiciado e Condenado (1974); Suprema Decisão (1975); A Chuva do Diabo (1975); A Costa de São Francisco (1975); A Maldição das Aranhas (1977); Jornada nas Estrelas: O Filme (1979); Horário de Visitas (1982); Jornada nas Estrelas II - A Ira de Khan (1982); Jornada nas Estrelas III - À Procura de Spock (1984); Confissões de um Homem Casado (1984); Jornada nas Estrelas IV - A Volta para Casa (1986); Carro Comando (seriado 1982-1986); Jornada nas Estrelas V - A Última Fronteira (1989); Jornada nas Estrelas VI - A Terra Desconhecida (1991); Máquina Quase Mortífera (1993); Jornada nas Estrelas: Generations (1994); Miss Simpatia (2000); American Psycho II: All American Girl (2002); Miss Simpatia 2: Armada e Poderosa (2005); Everest: Um Desafio à Vida ( Minissérie 2007); Justiça Sem Limites (seriado 2004-2008); $#*! My Dad Says (seriado 2010-2011); Horrorween (2011); A Christmas Horror Story (2015); Baby, Baby, Baby (2015); Bem a Tempo Para o Natal (2015); Área 15 (2016); Inseparáveis (2016); Creators: The Past (2019); Devil's Revenge (2019) Acelerando Para o Amor (2021);
Leo Gordon (1922- 2000)
Átila, o Rei dos Hunos (1954); Sangue de Bárbaros (1956); O Homem Que Sabia Demais (1956); Tarzan Vai à Índia (1962); O Intruso (1962); Quando um Homem É Homem (1963); Os Reis do Sol (1963); Beau Geste (1966); Alienator - A Exterminadora Indestrutível (1990); Maverick (1994).
Charles Barnes (1924-2005)
O Intruso (1962), Ídolo Dourado (1951), Papai Foi um Craque (1949)
Robert Emhardt (1914-1994)
Vingança Forçada (1982), O Instituto da Vingança (1979), Aconteceu no Natal (1977), Alex e a Cigana (1976). Nasce um Monstro (1974), Jogo Sujo (1973), Mato em Nome da Lei (1971), Vamos Fazer a Guerra? (1970), Ele e as Três Noviças (1969), Rascal, o Amiguinho Travesso (1969), Onde Estavas Quando as Luzes Se Apagaram? (1968), Gatilhos do Ódio (1967), O Canhoneiro do Yang-Tsé (1966), Talhado para Campeão (1962), O Intruso (1962), A Lei dos Marginais (1961), Quartel não é Hotel (1960), Homens das Terras Bravas (1958). Galante e Sanguinário (1957), A Grande Chantagem (1955), Nenhuma Mulher Vale Tanto (1952)
Jeanne Cooper (1928-2013)
A Rainha dos Renegados (1953), O Vale do Medo (1953), O Salário do Pecado (1955), Bandoleiros de Houston (1956), Os Salteadores de Estradas (1957), A Loucura de Mimi (1958), Algemas Partidas (1960), Clamor de Vingança (1962), Prisão de Mulheres (1962), O Intruso (1962), Feras Sanguinárias (1963), Assim Morrem os Bravos (1965), O Homem Que Odiava as Mulheres (1968), Ninho de Cobras (1970), Brutal Beleza (1972), Doce Refém (1975), Encontro com a Morte (1993), O Sequestro (2002), Ouro Negro (2003)












































