sábado, 9 de maio de 2026

OS LEGENDÁRIOS VIKINGS / THE LONG SHIPS (1964) - REINO UNIDO / IUGOSLÁVIA

VIKINGS E MOUROS

Em uma cidade no Oriente Médio, um homem, em troca de alguns trocados, narra a história da “Mãe das Vozes”, um sino lendário com a altura de três homens, feito com “metade do ouro do mundo” colhido em várias partes do globo e fundido por cristãos. Após um naufrágio no qual foi o único sobrevivente, ele teria sido salvo por monges e descoberto a lenda em um mural de um mosteiro. Sua narrativa não passa despercebida pelo príncipe mouro Aly Mansuh (Sidney Poitier), obcecado pela relíquia. Levado à sua presença, o forasteiro revela-se um viking chamado Rolfe (Richard Widmark) que, antes de ser torturado para revelar a localização do Sino de Ouro de St. James, consegue fugir da torre mergulhando nas águas profundas do local.

Em uma aldeia da Escandinávia, o construtor Krok (Oskar Homolka) termina a construção de um barco funerário para o Rei Harald (Clifford Evans). Em troca do trabalho, ele deveria receber uma quantia combinada, mas recebe apenas duas moedas de ouro em detrimento de uma antiga dívida de tributos. Rolfe retorna à aldeia viking na mesma noite e convence seu irmão Orm (Russ Tamblyn) a roubar o barco construído por seu pai, recrutar um grupo de homens e raptar a filha do rei, a princesa Gerda (Beba Loncar), como parte de um plano para recuperar o sino. Contudo, o navio naufraga e o grupo acaba capturado pelo exército de Mansuh, que os transforma em escravos, obrigando-os a consertar o barco viking para guiá-lo em busca do lendário artefato.

Produção anglo-iugoslava, filmada em Techniscope e dirigida por Jack Cardiff (indicado ao Oscar por Filhos e Amantes (1960)). Seu trabalho anterior como diretor de fotografia em Vikings, os Conquistadores (1958) o credenciou para dirigir este longa, produzido por Irving Allen (da série Matt Helm com Dean Martin), não confundir com Irwin Allen. O longa foi baseado no romance do escritor sueco Frans Bengtsson, “The Long Ships, mas a adaptação pouco seguiu o livro, optando por um caminho mais comercial focado na aventura.

Ao contrário de Os Vikings, cuja influência é perceptível, Os Legendários Vikings não recebeu o mesmo cuidado que a produção de Kirk Douglas e Tony Curtis. O filme funciona como uma aventura leve e descompromissada sobre a rivalidade entre vikings e mouros, agradando parte da crítica, mas frustrando outra. O roteiro, por vezes confuso, de Berkely Mather (007 Contra o Satânico Dr. No) e Beverley Cross ("Jasão e o Velo de Ouro" e "Fúria de Titãs"), não desenvolveu personagens sólidos. Os vikings são retratados como farristas, beberrões e violadores (a cena do harém é amenizada em tom de comédia, mas o subtexto permanece evidente para o espectador mais atento). Há alguns bons confrontos de espada, típicos dos anos 60, com uma música em tom marcial a cargo do compositor Dusan Radic, que por vezes destoa do clima das cenas. A curiosa “Égua de Aço” acaba subaproveitada, provavelmente limitada pelas restrições da época quanto à representação explícita da violência em produções voltadas ao público familiar.

Podemos perceber que o roteiro centra em Mansuh e Rolfe ilustrando bem a “idolatria do efêmero'”: ambos arriscam seus reinos e a vida de seus homens não por um propósito elevado, mas por uma relíquia que simboliza apenas o poder bruto e a riqueza. O “destino dos personagens”' que se desenha não é uma glória épica, mas uma perseguição frenética por um fantasma de ouro, mostrando que, quando a liderança perde sua bússola moral, o  desfecho inevitável é o naufrágio, literal e simbólico." Ainda que o roteiro conceda um “final feliz” para um dos lados, talvez um final pessimista trouxesse a obra o peso que lhe faltava, ampliando sua reflexão sobre moralidade, obsessão e busca por riquezas

Quanto ao elenco, o personagem de Richard Widmark (que recusou o papel quatro vezes) foi retratado como um contador de histórias pouco confiável, que consegue naufragar dois navios, mas ao menos poupa seus homens de confrontos sem chances. A crítica da época o considerou velho para o papel. Já Sidney Poitier (que não era o preferido do diretor, mas foi uma exigência de Widmark) curiosamente interpretou um vilão: um homem obstinado que larga seu reino e sua esposa à mercê de invasores para embarcar em uma viagem baseada em uma possível lenda. Poitier detestou filmar no clima da Iugoslávia. É interessante notar que Robert Taylor foi cogitado para o papel de Widmark e Ernest Borgnine recusou o papel que foi para Poitier. Rosanna Schiaffino interpretou Aminah, a bela esposa do imperador mouro. Igualmente bela estava Beba Loncar como a princesa Gerda. Russ Tamblyn fez algumas acrobacias em cena tentando defender a honra viking. O restante do elenco pouco influenciou e muitos funcionaram apenas como alívio cômico para evitar a violência explícita.

Os Legendários Vikings, apesar de vir na onda de sucessos como "Vikings, os Conquistadores" (1958) e "Simbad e a Princesa" (1958), é perceptivelmente inferior a estes em ambição e execução. Na TV dos anos 70, funcionava a contento; hoje, sobrevive, para alguns, pelo charme e nostalgia, mas o público jovem possivelmente terá uma percepção de filme envelhecido e pouco atraente. Vale como curiosidade para quem viveu essa época e para entusiastas do gênero de aventura clássico.


Trailer:

 

Curiosidades:

Estreou na teve aberta em 10 de março de 1974

Widmark e Poitier repetiriam a parceria em “O Caso Bedford” (The Bedford Incident) de 1965

A armadura de couro usada por Russ Tamblyn (Orm) é um dos figurinos mais reciclados da história do cinema. Foi usado por Russell Crowe em “Gladiador” (2000), bem como “Vikings” (2013), “A Última Tentação de Cristo” (1988) e muitos mais.

Após a era viking, os noruegueses lutaram nas Cruzadas de 1107 a 1110, sob o comando do rei Sigurd I. Obtiveram vitórias em Portugal, Sidon e Beirute.

Quando a Égua de Aço é demonstrada por um soldado mouro descendo suas costas, alguns segundos depois, Rolfe é informado de que é sua vez e ele é levado às escadas da Égua. No fundo, o leito de pontas na parte inferior do escorregador está limpo e sem corpo ou sangue. Um erro de continuidade

O diretor Jack Cardiff quis Ursula Andress como sua protagonista.


Cartaz:













Filmografias Parciais

Richard Widmark (1914-2008)






O Beijo da Morte (1947);  Capitães do Mar (1949); Sombras do Mal (1950); Pânico nas Ruas (1950); Almas Desesperadas (1952); Anjo do Mal (1953); Tormenta Sob os Mares (1954); Jardim do Pecado (1954); Santa Joana (1957); Minha Vontade é Lei (1959); O Álamo (1960); Os Legendários Vikings (1964); Crepúsculo de uma Raça (1964); O Caso Bedford (1965); Desbravando o Oeste (1967); Quando Morrem as Lendas Red Dillon  (1972); Assassinato no Expresso Oriente (1974); Uma Filha para o Diabo (1976); O Último Brilho do Crepúsculo (1977); Terror na Montanha Russa (1977); O Enxame (1978); A Invasão dos Cães de Guerra (1982); Paixões Violentas (1984); Blackout (1985); Lincoln (1992).


Sidney Poitier (1927-2022)






O Ódio é Cego (1950);  Sementes de Violência (1955);  Cruel Dilema (1956); Sangue Sobre a Terra (1957); Acorrentados (1958); O Sol Tornará a Brilhar (1961); Paris Vive à Noite (1961);  Uma Voz nas Sombras (1963);  Os Legendários Vikings (1964);  A Maior História de Todos os Tempos (1965); Ao Mestre, com Carinho (1967); No Calor da Noite (1967); Adivinhe Quem vem para Jantar (1967); Um Homem para Ivy (1968); Noite Sem Fim (1970); O Estranho John Kane (1971); A Organização (1971); Conspiração Violenta (1975); Atirando para Matar (1988); Espiões sem Rosto (1988); Quebra de Sigilo (1992); Ao Mestre, com Carinho 2  (1996); Mandela e De Klerk  (1997); O Chacal (1997); Rumo à Liberdade  (1998);  Construindo um Sonho (2001)


Rosanna Schiaffino (1939-2009)






Os Paladinos de França (1956), Um Pedaço de Céu (1958), A Provocação (1958), O Vingador (1959), A Longa Noite das Loucuras (1959), Teseu e o Minotauro (1960), O Milagre dos Lobos (1961), O Rapto das Sabinas (1961), Legenda Histórica (1961), Epopéia de Bravos (1962), A Cidade dos Desiludidos (1962), Os Vitoriosos (1963), A Corrupção (1963), Os Legendários Vikings (1964), Hong-Kong, Onde o Amor e a Morte Se Encontram (1965), A Mandragora (1965), O Mundo Jovem (1966), A Feiticeira no Amor (1966), Um Marido de Morte (1966), O Heróico Lobo do Mar (1967), O Preço de uma Missão (1967), Caprichos de uma Deusa do Amor (1969), Ettore, O Machão (1972), Os Heróis (1973), O Magnata (1973), Um Homem Chamado Noon (1973), O Assassino Reservou Nove Lugares (1974), Cagliostro (1975)


Beba Loncar (1943)






Quando Passa o Amor (1961), Mandragola (1962), Os Legendários Vikings (1964), La donna è una cosa meravigliosa (1964), O Trouxa (1965), Casanova 70 (1965), A Doce Vida de Giovanni (1965), As Aventuras Imprevisíveis do 7º Homem (1965), Confusões à la Italiana (1966), Desejos Amargos (1967), Massacre na Floresta Negra (1967), Desculpe, Façamos o Amor (1968), Sharon vestida de rojo (1969), Uma Gatinha por Dia (1970), Brancaleone nas Cruzadas (1970), A Máfia Sempre Mata! (1972), Aquelas Estranhas Ocasiões (1976), Amantes Sensuais (1980)


terça-feira, 5 de maio de 2026

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES / "WUTHERING HEIGHTS" (2026)


NOVA PERSPECTIVA SOBRE UM CLÁSSICO

No final do século XVIII, o patriarca da família Earnshaw (Martin Clunes) retorna para casa acompanhado de um pequeno órfão, Heathcliff (Owen Cooper). Logo uma amizade se inicia com a pequena Cathy (Charlotte Mellington). O casal cresce e um forte elo começa a se estabelecer, até que Cathy (Margot Robbie) conhece seus novos vizinhos: Edgar (Shazad Latif) e Isabella (Alison Oliver), após sofrer um acidente na entrada da residência de Edgar sendo acolhida até sua recuperação. Ao retornar, mostra-se deslumbrada pela vida de seus ricos vizinhos. Edgar logo lhe faz uma proposta de casamento, deixando-a indecisa. Heathcliff, após ouvir uma conversa pela metade, parte sem rumo e desaparece na noite. Cinco anos depois, o até então pobre e maltratado Heathcliff, retorna rico, jurando se vingar de todos que lhe deram uma vida miserável e o afastaram de seu amor, enquanto Cathy, agora casada, não consegue mais esconder seus sentimentos por aquele que sempre amou. 

Se o espectador, que leu a obra, que originou dezenas de versões para o cinema e a televisão, espera uma adaptação fiel, poderá ter uma surpresa: ainda que o filme proponha uma atmosfera semelhante a O Morro dos Ventos Uivantes, é difícil, considerar que estamos diante de "O Morro dos Ventos Uivantes". Personagens como o irmão de Cathy, são suprimidos sem cerimônia enquanto o pai, que morre no início do livro, permanece vivo em boa parte da trama. Se isso já é um problema, visto que o irmão é, no livro, o grande algoz de Heathcliff, durante uma fase crucial de sua vida, e o livro transfere essa característica para o pai (originalmente um homem respeitável), preciso avisar que a segunda parte do livro é completamente ignorada. A diretora Emerald Fennell optou por uma releitura livre, buscando oferecer algo novo à obra, uma reinterpretação. Não por acaso, o título foi emoldurado com aspas no cartaz para indicar que o filme não seria uma adaptação fiel.



Centrar a trama no amor físico dos personagens, em detrimento do livro, na qual não há consumação desse amor, acrescentada de muitas pitadas de erotização (leia-se sexualização), pode fazer sentido no cinema contemporâneo (o sucesso de bilheteria sugere isso), ainda que em alguns momentos o filme possa parecer um videoclipe estilizado com figurinos extravagantes, pouco condizentes com a ambientação de transição entre o período georgiano tardio e o início da era vitoriana; paisagens deslumbrantes; design de produção caprichado, além de um forte apelo sensorial e dramático. A música do compositor Anthony Willis e as canções originais de Charli XCX colhem merecidos elogios.


No romance original, porém, a proposta é muito mais ampla e complexa. A obra de Emily Brontë articula múltiplas camadas que se entrelaçam: a crítica à divisão de classes, que impede a união entre Catherine e Heathcliff; o ciclo de vingança, que se estende para além da primeira geração; e a dinâmica entre pais e filhos, que revela como traumas são herdados e, eventualmente, transformados. Soma-se a isso o contraste entre natureza e civilização (representado pelos ambientes opostos das propriedades) e uma profunda investigação sobre identidade, expressa na fusão entre os protagonistas. O romance não trata apenas de uma história de amor, mas de um estudo sobre pertencimento, exclusão e destruição emocional.


A adaptação cinematográfica, opta por minimizar essa estrutura ao eliminar elementos fundamentais da narrativa original. A ausência do narrador inicial e da construção em camadas (com destaque para o papel de Nelly Dean como mediadora) transforma a história em uma linha direta de acontecimentos, reduzindo o mistério e a ambiguidade. Além disso, a famosa cena inicial envolvendo o visitante e a presença sobrenatural de Catherine é suprimida, retirando do filme a atmosfera gótica e simbólica que marca o início da obra literária.

No caso de adaptações como O Morro dos Ventos Uivantes, quando mudamos aspectos do livro na transposição às telas há uma mudança nas motivações, até no rumo dos acontecimentos. Vejamos a personagem Nelly. No livro ela é vista como falha, mas não manipuladora. No filme Nelly vira figura ativa no erro. Com isso, no livro a tragédia nasce de um mal-entendido, impulsividade e até o timing errado, ninguém controla a situação. Mas ao colocar Nelly como figura central e modificadora da realidade (ao só avisar Cathy no dia seguinte), Nelly vira peça ativa no erro numa tragédia que poderia ser parcialmente evitável.


Quanto ao elenco, Margott Robbie (de Barbie) entrega uma Cathy dividida entre dois mundos, conflito que a consome enquanto Jacob Elord (o Frankenstein de Gulhermo del Toro) possui uma forte química com sua parceira de cena, o que torna o filme atraente para parte do público, ainda que este Heathcliff seja simplificado em suas intenções e emoções. A atriz vietnamita-americana Hong Chau (“A Baleia”) se destaca como Nelly. Shazad Latif (O Exótico Hotel Marigold 2), de ascendência paquistanesa, interpreta um Edgar consistente; e Alison Oliver traz uma Isabella bastante distinta da versão literária. Martin Clunes interpreta um Mr. Earnshaw amplificado em sua existência e modificado em sua essência. Owen Cooper (da minissérie Adolescência) como o jovem Heathcliff, está muito bem, assim como seu par em cena, a atriz mirim Charlotte Mellington. Outro bem modificado é o mordomo, interpretado por Ewan Mitchell (da série “A Casa do Dragão”)


O Morro dos Ventos Uivantes parece privilegiar a intensidade emocional imediata e a centralidade dos personagens em detrimento das camadas estruturais e simbólicas que definem o romance. Essa escolha aproxima a obra de um drama romântico contemporâneo, mais acessível e direto, porém menos ambíguo e complexo em suas implicações. Não é necessariamente o melhor, nem o pior, mas é certamente o mais distante do livro.

 

Trailer:

 


 

Curiosidades:

Quanto  a Jacob Elordi, seu Heathcliff gerou um debate entre os fãs literários porque o romance sugere que o personagem tem origens não inglesas. Emily Brontë descreveu Heathcliff em diferentes pontos como um “cigano de pele escura”, mas em outros momentos se refere a ele como pálido, deixando sua ascendência puramente ambígua.

Os estúdios se envolveram em uma guerra de licitações pelo filme no final de 2024. Embora a Netflix tenha oferecido uma quantia maior, prevista em cerca de 150 milhões de dólares, Emerald Fennell e Margot Robbie finalmente escolheram a Warner Bros., que prometeu um lançamento completo nos cinemas apesar de uma oferta menor

O filme foi rodado em grande parte no VistaVision, tornando-se uma das poucas produções do século 21 para usar o formato revivido.

Quarta colaboração ente Margot Robbie  e Emerald Fennell . Robbie já havia produzido os filmes de Fennell como Bela Vingança (2020) e Saltburn (2023) , e as duas também apareceram juntas em Barbie (2023)

O filme foi rodado na Inglaterra do final de janeiro ao início de abril de 2025. As filmagens foram realizadas em Yorkshire Dales, incluindo o Parque Nacional de Yorkshire Dales, os vales de Arkengarthdale e Swaledale e a vila de Low Row, enquanto a filmagem em estúdio ocorreu no Sky Studios Elstree, em Borehamwood, Hertfordshire.

Durante eventos publicitários, Margot Robbie usou uma réplica de uma pulseira vitoriana feita de cabelos reais pertencentes a Emily Brontë e Anne Brontë.

O vestido vermelho de “látex” de Cathy não foi feito de látex verdadeiro. Em vez disso, foi construído com um tecido sintético brilhante projetado para combinar visualmente com o piso vermelho do Thrushcross Grange.

O elenco do filme inclui três indicados ao Oscar: Margot Robbie, Jacob Elordi e Hong Chau.

Esses dois parágrafos contêm spoliers:

Em “Wuthering Heights”, a história não começa com Cathy nem com Heathcliff. Ela começa com Mr. Lockwood, (inquilino de Thrushcross Grange); Lockwood chega à propriedade; vai até Heathcliff; passa a noite na casa e ocorre o famoso episódio: o fantasma de Catherine Earnshaw na janela. Esse acontecimento que mistura realidade e sobrenatural, nos mostra que o passado ainda “vive” ali e desencadeia uma reação desesperada de Heathcliff. A supressão desses acontecimentos cria uma perda do mistério. O filme começa com um enforcamento e Heathcliff como “quase animal doméstico”. Trata da desigualdade e relação de poder desde o início, mas perde a construção lenta do vínculo entre eles que o livro faz. O livro não quer que apenas vejamos a história, mas quando o filme remove isso transforma uma obra ambígua e perturbadora em algo mais emocional e acessível, porém menos profundo. Ao transformar a morte inicial de Cathy em “revelação final”, o roteiro enfraquece o elemento quase sobrenatural e aproxima a história de um romance trágico tradicional. Com isso, o filme “esconde a morte” para criar um impacto final, no que no livro nos deixa claro que o foco é na obsessão de Heathcliff após a morte de Cathy.

Há outros três elementos fundamentais modificados nesta versão cinematográfica que pode desagradar aos mais exigentes: a ausência de Hindley, irmão de Cathy, a manutenção do pai de Cathy na história (ele morre no início do livro) e a “segunda geração” que teria sua história retratada. Por que a presença de Hindley é importante? Porque ele e Heathcliff são dois homens moldados pelo mesmo ambiente, reagindo de formas opostas. Hindley se destrói (através do álcool e do jogo), perde tudo e entra em uma ruína pessoal, Heathcliff, se endurece (vingança), conquista tudo, mas entra em uma ruína emocional. Hindley é nobre (filho da casa), perde o afeto do pai e seu trauma se dará com o ciúme e a perda da esposa Frances.   Já   Heathcliff, recebe o afeto do pai (enquanto este vivo -  no livro); e ódio, desprezo e crueldade de Hindley que passará a administrar a fazenda (o filme incorpora as características de Hindley ao pai). Seu trauma se dará com a humilhação e a perda de Cathy. Sem Hindley não há a vingança de Heathcliff pela humilhação sofrida. Não há o filho de Hindley nas mãos de Heathcliff. Sem a filha de Cathy e o filho de Hindley não há todo um arco de vingança, ódio e redenção. Cabe destacar que o relacionamento entre Heathcliff e Cathy não é carnal, nem movido a traições. E Isabella é uma mulher bem mais contida no livro.

 

Cartaz:









 






Filmografias Parciais:

Margott Robbie






Vigilante (2008), Questão de Tempo (2013), O Lobo de Wall Street (2013), Suite Francesa (2014), Os Últimos na Terra (2015), Golpe Duplo (2015), A Grande Aposta (2015), Uma Repórter em Apuros (2016), A Lenda de Tarzan (2016), Esquadrão Suicida (2016), Eu, Tonya (2017), Pedro Coelho (2018), A Vingança Perfeita (2018), Escola da Morte (2018). Duas Rainhas (2018), Dreamland: Sonhos e Ilusões (2019), Era Uma Vez em... Hollywood (2019), O Escândalo (2019), Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (2020), Pedro Coelho 2: O Fugitivo (2021), O Esquadrão Suicida (2021), Amsterdam (2022), Babilônia (2022), Barbie (2023), A Grande Viagem da Sua Vida (2025), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Jacob Elord






A Barraca do Beijo (2018), A Barraca do Beijo 2 (2020), 2 Corações (2020), A Barraca do Beijo 3 (2021), Águas Profundas (2022), Apostas & Segredos (2024), O Caminho Estreito para os Confins do Norte (2025 -5 episódios), Frankenstein (2025), O Morro dos Ventos Uivantes (2026), Euphoria (2019–2026 - 20 episódios)


Hong Chau




 



Pequena Grande Vida (2017), Vício Inerente (2014), Intimidade Forçada (2018), Driveways: Uma Amizade Inesperada (2019), American Woman (2019), Watchmen (2019 - 4 episódios), Homecoming: De Volta à Pátria (2018–2020 - 11 episódios), Artemis Fowl: O Mundo Secreto (2020), Esculturas da Vida (2022), A Baleia (2022), O Menu (2022), O Agente Noturno (2023 - 10 episódios), Asteroid City (2023), Tipos de Gentileza (2024), Os Provocadores (2024), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Shazad Latif





 

Dupla Identidade (2002-2011 - 17 Episódios), Europa: A Trajetória de Worricker (2014), O Exótico Hotel Marigold 2 (2015), O Homem que viu o Infinito (2015), O Passageiro (2018), Perfil (2018), Star Trek: Discovery (2017–2019 - 25 episódios), Departure - A Investigação (2019 -episódios), O Cristal Encantado: A Era da Resistência (2019 - narração), Procurando Fígaro (2020), Minha Família Quer que Eu Case (2022), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Alison Oliver





 

Conversas entre Amigos (2022), Saltburn (2023), A Ordem (2024), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Martin Clunes






A Casa da Rússia (1990), Os Últimos Rebeldes (1993), Doce Vingança (1998), Shakespeare Apaixonado (1998), O Barato de Grace (2000), Aladdin (2000), Quebrando Todas as Regras (2002), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Owen Cooper






Adolescência (2025), O Morro dos Ventos Uivantes (2026) 


Charlotte Mellington




 


O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Ewan Mitchell






Simplesmente Charlie (2017), O Último Reino (2017–2022 - 28 episódios), Mundo em Chamas (2019–2023 - 8 episódios), Saltburn (2023), A Casa do Dragão (2022–2024 - 11 Episódios), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

quarta-feira, 25 de março de 2026

O TANQUE DE GUERRA / DER TIGER (2025) - ALEMANHA

 

UM AVISO SOBRE A RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL

1943. Em meio à retirada alemã na Frente Oriental, um moderno tanque de guerra nazista Tiger se encontra no cerco de Stalingrado em uma situação que rapidamente foge ao controle e transforma a missão em um desastre iminente. Após escapar milagrosamente de um ataque aéreo em uma ponte sob o rio Dnieper, os cinco soldados da tripulação recebem uma nova missão, agora secreta, cujo real objetivo apenas o seu comandante Philip parece conhecer em sua plenitude: atravessar as linhas inimigas, em um território hostil, para localizar um oficial de alta patente que estaria planejando desertar, levando consigo segredos que o comando alemão deseja evitar que caiam em mãos soviéticas a qualquer custo. 

Confinados em um espaço de metal sufocante e isolados em campo inimigo, os soldados começam a presenciar situações inexplicáveis, como a presença de um poderoso blindado adversário que parece estar em seu encalço. A paranoia crescente envolve o grupo enquanto dilemas morais vêm à tona: o desejo de sobrevivência entra em conflito com uma máquina de guerra que se transforma, simultaneamente, em escudo e tumba. O isolamento dentro da blindagem começa a corroer a sanidade do grupo, sugerindo a presença de uma força sobrenatural que parece permear cada quilômetro avançado. 

Produção Alemã, distribuída pela Amazon, Der Tiger (que no Brasil recebeu o título de “O Tanque de Guerra”) pode, à primeira vista,  parecer um filme de guerra confuso. E essa sensação pode ser até certo ponto verdadeira dado ao roteiro que insere um forte componente sobrenatural à trama, utilizando uma grande quantidade de alegorias e pistas que convidam o espectador a decifrar seu enigma. O fato é que, infelizmente, os espectadores mais atentos ou com “anos de estrada” poderão antever a proposta da obra logo no início, o que talvez mitigue o impacto do final, que é mais sugestivo do que explícito. Contudo, como na vida, o encanto não está apenas no destino, mas na jornada, sendo a trajetória desses cinco homens que sustenta o interesse, ao utilizar o realismo fantástico para abordar o trauma profundo da guerra. 


Para um melhor aproveitamento da obra, é necessário dissecar suas analogias. Não me atererei a todos os aspectos, mas aos principais, deixando para quem lê essas linhas o deleite de descobrir outras camadas. Atenção: os três próximos parágrafos contêm spoilers inevitáveis.

A bússola enlouquecida sugere que a realidade geográfica já não se aplica; a aparição espectral do cervo, símbolo de guia espiritual em várias culturas, indica que a tripulação navega por um limbo. A interpretação de que os protagonistas já estão mortos é reforçada pela "combustão espontânea" do temido tanque inimigo SU-100 e pelo fato de terem sobrevivido a situações que seriam fatalmente letais. O Tiger torna-se um caixão de aço navegando pelo purgatório, imagem reforçada quando o veículo submerge nas águas (uma analogia à travessia do Estige, o rio dos mortos na mitologia). A fala da namorada de um dos protagonistas mencionando “espíritos” é o que os roteiristas chamam de foreshadowing (prenúncio). O filme deixa a resposta na cara do público, mas a gente só entende quando junta as peças. A narrativa deixa de ser sobre vencer a batalha e passa a ser sobre aceitar o próprio fim. Esses aspectos já são uma forte sugestão de que a missão possui um caráter metafísico. As transmissões de missas católicas em latim pelo rádio de comunicação, seriam um réquiem para os mortos ou uma liturgia fúnebre para os que ali estão, presos no limbo? 

Há outro momento muito interessante. Philip chega a um vilarejo e encontra um oficial que encurralou pessoas em um celeiro e ateou fogo. Ele observa, questiona, mas um de seus soldados diz que eles não podem interferir, pois são ordens. Talvez a cerne do filme seja essa submissão à autoridade na qual pessoas realizam (ou permitem) atos contrários aos seus princípios em nome de autoridade superior, no caso o Estado nazista. O filme “I Comme Icaro” trata sobre esse tema ao apresentar o "Experimento Milgram".

Para mim, Philip podia ter rejeitado a ordem ou impedido o massacre, mas preferiu apenas assistir assombrado. Esse ato o condenou ao inferno. Essa conexão explica por que o protagonista morreu moralmente ao se tornar um espectador passivo do horror. Ao aceitar que a "autoridade" (o Estado / a Ordem reinante) está acima da sua humanidade, ele abdica da sua alma, tornando-se um agente passivo do mal. O celeiro em chamas parece funcionar como o portal do inferno para eles. O fato de ele estar "assombrado", mas imóvel, é o que transforma o tanque em um caixão. No Direito e na Ética, isso é a "banalidade do mal" de Hannah Arendt em pleno campo de batalha. Indo um pouco mais além, eu poderia pensar que o massacre no vilarejo não é apenas um evento histórico na trama; é o julgamento espiritual do protagonista. O "caixão de aço" (o tanque) é a punição por ter assistido ao fogo sem usar o poder que tinha para apagá-lo. No final, apesar de toda a sua blindagem pesada, o Tiger não consegue protegê-lo da própria consciência. O tanque não está mais cruzando fronteiras geográficas, mas sim navegando pela eternidade de um trauma que não pode ser superado enquanto a culpa não for assumida. O rastro de cinzas deixado pelo tanque é o símbolo de uma geração que, ao escolher não interferir, transformou sua própria existência em um silêncio eterno. FIM DOS SPOILERS 

O elenco centrado em cinco personagens funciona muito bem. Temos o tenente (David Schütter); motorista (Leonard Kunz); o artilheiro e segundo em comando (Laurence Rupp); o dedicado operador de rádio e usando uma metralhadora (Sebastian Urzendowsky ) ; o jovem carregador de canhão (Yoran Leicher) . Todos confinados e lutando para conter o pânico, obedecendo às ordens na esperança de voltarem para suas vidas simples antes de uma guerra que os cooptou ao caos.

No cômputo final, “O Tanque” posiciona-se menos como um filme de guerra tradicional e mais como um estudo brutal sobre a desumanização no combate moderno, um verdadeiro laboratório de decomposição moral.  Sua premissa inicial, poderá remeter ao filme “O Resgate do Soldado Ryan”, mas o roteiro retira imediatamente o filme do campo do entretenimento militar e o coloca no campo da ética e da filosofia. O filme deixa de ser apenas um drama de combate moderno, e se consolida como um aviso sombrio sobre o peso das escolhas individuais. A obra sobrevive pela sua crueza e pelo incômodo que causa ao lembrar que o mal não reside apenas no ditador que ordena, mas no soldado que assiste. Não é, portanto, um entretenimento para todos os públicos. Seu principal problema talvez resida no fato de que muitos preverão o rumo da história cedo demais, destruindo parte do plot twist final. Infelizmente, há uma onda na indústria do cinema em que os roteiristas e cineastas sentem a necessidade de explicar o final em detalhes, algo que não acontecia com tanta frequência no passado. A indústria passou a explicar demais… ou se adaptou a um novo tipo de espectador?


Trailer:


Curiosidades:

O tanque Tiger apresentado no filme é uma réplica construída em um chassi soviético T-55. Para as filmagens, ele foi equipado com réplicas de rodas entrelaçadas para se assemelhar a um Tiger I, embora o espaçamento entre as rodas ainda revele a suspensão T-55 subjacente. O veículo está baseado no Museu da Linha de Demarcação em Rokycany, República Tcheca.

Historicamente, as equipes de tanques da Wehrmacht usavam jaquetas Panzer pretas adornadas com a insígnia do crânio Totenkopf. O design do crânio usado pela Wehrmacht diferia da versão SS, e o filme retrata com precisão a insígnia no estilo da Wehrmacht, não o design da SS

O diretor Dennis Gansel já dirigiu 11 episódios da série de televisão Das Boot. O filme também emprega uma tensão claustrofóbica prolongada, traduzindo o suspense submarino de Das Boot (O Barco) em um tanque Tiger preso em um ambiente fluvial.

As missas em latim pode ter o significado de uma extrema-unção antecipada.

Os primeiros tanques Tiger I (produzidos entre 1942 e 1943) possuíam uma capacidade rara para a época: o Deep Wading (vau profundo). Diferente de outros tanques que apenas atravessavam rios rasos, o Tiger foi projetado para submergir completamente em águas de até 4 metros de profundidade.

Em termos de poder de destruição, o SU-100 (lançado pelos soviéticos no final de 1944) foi projetado com um único objetivo: destruir a nova geração de tanques pesados alemães (Tiger e Panther). Enquanto o Tiger era um tanque de uso geral (com torre giratória), o SU-100 era um caça-tanques (sem torre, o canhão era fixo no chassi). O canhão de 100mm do soviético era devastador. Ele conseguia perfurar a blindagem frontal do Tiger I a uma distância de até 1.000 metros.

Por não ter torre e ser mais baixo que o Tiger, o SU-100 conseguia se esconder facilmente na vegetação ou na neve (as "estepes" que  mencionei). Ele não foi feito para lutar "limpo". Sua finalidade era esperar o Tiger aparecer e disparar um único tiro que atravessasse a blindagem frontal, geralmente incinerando a tripulação instantaneamente.


Cartaz: