terça-feira, 7 de julho de 2026

UM ROSTO NA MULTIDÃO / A FACE IN THE CROWN (1957) - ESTADOS UNIDOS


O PODER MUDA DE PLATAFORMA. NUNCA DE NATUREZA.

Marcia Jeffries (Patricia Neal), uma jornalista de rádio do interior do Arkansas, visita uma cadeia local para entrevistar detentos e descobre Larry "Lonesome" Rhodes (Andy Griffith), um andarilho carismático que canta e filosofa com sarcasmo. O sucesso imediato de sua participação no programa transforma-o em uma celebridade local, e inicia uma trajetória que converterá popularidade em influência, influência em riqueza e riqueza em poder sobre a própria sociedade e a atenção de executivos da televisão de Nova York. Rapidamente, ele é moldado por publicitários, empresários e patrocinadores, tornando-se o astro de um programa de rede nacional, onde sua postura aparentemente simples, seu humor ferino e seus apelos emocionais conquistam a devoção de milhões de telespectadores. À medida que sua influência cresce, Rhodes ultrapassa o entretenimento e passa a interferir na política, aliando-se a um senador para influenciar a opinião pública. Nos bastidores, porém, revela-se um homem megalomaníaco, manipulador e profundamente cínico, que despreza justamente o público responsável por sua ascensão. Mais do que a ascensão de um homem, Um Rosto na Multidão acompanha o nascimento de um novo tipo de poder.

Dirigido por Elia Kazan (1909-2003) que vinha de dois sucessos, Sindicato de Ladrões (1954) e Vidas Amagas (1955), e tendo Budd Schulberg (1914-2009) como roteirista e oscarizado pelo filme de 1954, Um Rosto na Multidão revela-se um dos filmes mais visionários dos anos 1950, ao nos mostrar um estudo sobre comunicação de massas que antecipou fenômenos como celebridades midiáticas, marketing político, cultura dos influenciadores e a personalização do poder, além da facilidade com que uma democracia pode entregar enorme poder a um comunicador carismático. O filme praticamente antecipa como nasce um "influenciador digital", cinquenta anos antes da internet.

A dupla Kazan e Schulberg não condenam a televisão, esta é apenas o instrumento. Eles condenam a idolatria, nos mostrando que a tecnologia pode mudar constantemente, mas o comportamento humano permanece. E que o problema não é apenas do manipulador, é também da necessidade coletiva de encontrar alguém que pense por nós. Isso faz com que o verdadeiro protagonista talvez não seja Rhodes e sim a própria multidão (como no título que nos diz “...The Crown” – “Multidão”).

Kazan não filmou o futuro da televisão. Filmou o futuro da influência. E lembremos que em 1957, Hollywood vivia uma crise profunda. Depois da Segunda Guerra Mundial, a televisão entrou rapidamente nos lares americanos. Milhões de pessoas deixaram de frequentar o cinema com a regularidade dos anos 1940. Os grandes estúdios perderam público e dinheiro. Mas aqui a televisão não cria o problema. Ela o amplifica. Vejamos: Marcia utiliza a TV para dar voz ao povo. Rhodes utiliza a TV para alimentar seu ego. Os patrocinadores utilizam a TV para vender. Os políticos utilizam a TV para conquistar votos. É uma crítica ao nascimento de uma sociedade na qual tudo pode ser vendido, inclusive pessoas, candidatos e opiniões. Você pode dizer que o cinema não escaparia dessa lógica. Hollywood também fabricava estrelas, construía imagens públicas, escondia escândalos, transformava pessoas em mercadorias. Só que se o cinema criava estrelas, a televisão criava presença diária. Um astro do cinema aparecia algumas vezes por ano. Rhodes entra na casa das pessoas todos os dias, quase como um membro da família. Essa diferença é gigantesca.

Outra pergunta que o roteiro nos deixa e que é de suma importância para reflexão é: Por que milhões de pessoas querem tanto acreditar nesse homem? O fato é que Rhodes se torna famoso, passa a opinar sobre política, economia, comportamento e moral. E milhões passam a acreditar nele simplesmente porque ele é famoso (vejam o quanto esse filme é atual). Essa talvez seja a crítica mais visionária do filme, um filme de 1957, na qual Kazan e Schulberg já enxergavam esse fenômeno, que hoje poderíamos chamar de "autoridade por celebridade". Quando Rhodes se torna muito famoso, muitas pessoas passam a dar peso às suas opiniões sobre qualquer assunto. É como se a fama criasse uma falsa impressão de que aquela pessoa é competente em tudo. Sua competência em entreter passa a ser confundida com competência para orientar a sociedade. O filme pontua de uma forma bem coesa como uma sociedade fabrica seus ídolos, os transforma em deuses e, quando finalmente percebe quem eles realmente são, os destrói com a mesma velocidade com que os construiu. É um ciclo. E esse ciclo continua acontecendo até hoje.

Quanto ao elenco, Andy Griffith, em sua estreia, fez um personagem que, no início, se apresenta como uma pessoa sem passado definido, espontânea, engraçada, próxima do povo . Rhodes não entra oficialmente para a política, mas por ser um apresentador popular, controlando a percepção pública, passa a possuir mais influência que políticos tradicionais. Os índices crescentes de audiência lhe dão um imenso poder e acesso a um círculo social poderoso. O problema é que, na frente das câmeras, ele realmente possui carisma (carisma sem caráter se torna uma arma). Ele realmente fala o que as pessoas comuns querem ouvir. Ele realmente sabe improvisar. Outro problema é que ele é um homem sem princípios, percebido pelos que estão atrás das câmeras. E ele descobre que pode usar esse talento para dominar ou descartar quem o contrarie. E como seria o nosso Rhodes nos dias atuais? Provavelmente Rhodes surgiria: fazendo lives espontâneas; gravando vídeos curtos; comentando acontecimentos do dia; usando humor agressivo; ridicularizando figuras públicas. E sabemos que os algoritmos premiam emoção; indignação; polêmica; conflito; frases curtas ... certezas absolutas . E o nosso Rhodes moderno compreenderia isso intuitivamente. Hoje ele poderia transmitir durante horas sem qualquer editor. No início do filme, Rhodes é apresentado como "a voz do povo". No final, ele já não consegue ouvir o povo, ele ouve apenas a própria voz. Rhodes não mudou. O que mudou foi a nossa (leia-se o público do filme) percepção dele

Já Patricia Neal interpreta Marcia Jeffries, outro personagem bem complexo. Ela se apaixona de imediato por Rhodes, o que faz com que ela ajude a criar o fenômeno. Ela acompanha a ascensão meteórica do que achava ser seu pupilo, suporta suas explosões de temperamento e justifica seus excessos. Mas “Lonesone” não segue regras, não segue conselhos, não demonstra empatia com problemas alheios, nem se importa de magoar Marcia. Talvez ela nunca tenha conhecido Rhodes de verdade. Esta percebe que perdeu completamente o controle sobre sua criação, num quase paralelo com o mito de Frankenstein: ela construiu um monstro midiático e já não consegue detê-lo.  Quando ele finalmente revela arrogância e desprezo pelo público, muitos ficam chocados. Na verdade, ele apenas parou de representar. Márcia é sua criadora e, ao mesmo tempo, sua consciência moral.

Fechando a trinca de atores, temos Walter Matthau como Mel Miller, um roteirista cínico, mas sua importância talvez seja maior. Ele observa, comenta e compreende a tragédia antes dos demais personagens. Ele sabe quem é “Lonesone”. Só falta os outros descobrirem. Marcia enxerga Rhodes pelo prisma do amor. Os patrocinadores o enxergam pelo dinheiro. Os políticos o enxergam pelos votos. O público o enxerga pelo carisma. Miller é praticamente o único que o enxerga como um homem comum, cheio de vaidade. Ele conhece a máquina, o que o torna um observador privilegiado. Ele sabe que a publicidade vende ilusões; que a televisão fabrica personagens; que os patrocinadores compram influência e que a audiência compra poder. Ele vive dentro desse sistema e por isso há sempre um cinismo em suas falas. É um cinismo de quem já viu aquilo acontecer outras vezes. Talvez, para Miller, Rhodes seja apenas o caso mais extremo. A destacar, a estreia da jovem Lee Remick (A Profecia).

O filme faz outra pergunta muito atual: Por que alguém que é bom em entreter (ou comunicar), até mesmo fora da esfera televisiva, deveria saber em quem devemos votar ou como devemos pensar? Essa é uma crítica fortíssima, se percebermos, hipoteticamente, que um ator famoso pode falar sobre política; um cantor pode opinar sobre economia; um influenciador pode comentar sobre medicina. As pessoas muitas vezes acreditam neles não porque sejam especialistas, mas porque já gostam deles. Esse é o mecanismo que o filme antecipa. Outro fator seria que muitas pessoas preferem receber respostas prontas a enfrentar a responsabilidade de pensar por si mesmas. O ser humano tem uma tendência a confiar em figuras que lhe transmitam segurança, identidade ou esperança. Se realizado hoje, o final talvez fosse bem diferente. Se no filme um microfone aberto determina a derrocada, em tempos atuais talvez um vídeo vazado não bastasse. Parte do público diria que o vídeo foi tirado de contexto, que seria uma perseguição. Muitos diriam: "ainda assim continuo apoiando". Isso talvez tornasse o Rhodes atual ainda mais resistente, pois se no filme, ele precisava conquistar milhões para sobreviver, hoje ele poderia sobreviver com uma minoria extremamente fiel. "Lonesome" Rhodes realmente desapareceu ou apenas mudou de plataforma? 

Um Rosto na Multidão, em 1957, focou no rádio e televisão. Se realizado nos dias atuais, elegeria para seu alvo as redes sociais alicerceadas pelos algoritmos, influenciadores, deep fakes e a inteligência artificial. Hoje, a velocidade com que uma pessoa alcança milhares é quase instantânea. Celebridades são criadas da noite para o dia e muitas ditam o que as pessoas devem pensar; em quem acreditar; qual caminho seguir; quem é o inimigo; qual é a verdade... o que consumir ... A reflexão que lhes deixo é: Quem cria um ídolo? Quem transforma um apresentador em autoridade política? Quem entrega poder a alguém apenas porque ele é carismático? Hannah Arendt nos disse que o problema político não reside apenas no tirano, mas na estrutura que torna possível sua ascensão ... O mecanismo permanece. Só muda o meio. A reputação continua sendo construída e destruída pela exposição pública. Quem depende da aclamação coletiva vive igualmente sujeito à rejeição coletiva. Em tese, em 1957, o filme parecia dizer: “cuidado, a televisão pode criar e destruir pessoas." Em 2026, poderíamos atualizar essa frase para: ”cuidado, qualquer câmera ligada à internet pode criar e destruir pessoas”.


Trailer:



Curiosidades:

Elia Kazan e Budd Schulberg passaram meses pesquisando o mundo da publicidade, até mesmo tendo acesso a reuniões de agências de publicidade, a fim de entender a forma como a Madison Avenue abordava e moldava o pensamento do público americano.

Lee Remick, fazendo sua estreia no cinema como a sexy giradora de bastões, apareceu no set três semanas antes, para poder treinar com as majorettes da escola secundária local

O personagem Lonesome Rhodes foi baseado em várias personalidades da vida real, incluindo Arthur Godfrey, Huey Long, Will Rogers e até Billy Graham.

Marlon Brando recusou o papel de Lonesome Rhodes.

R.G. Armstrong, que interpretou o operador de teleprompter no filme, foi colega de classe de Andy Griffith na Universidade da Carolina do Norte e eles permaneceram bons amigos pelo resto de suas vidas. Armstrong apareceu em um episódio de The Andy Griffith Show (1960) e um episódio de duas partes de Matlock (1986).

O elenco inclui três vencedores do Oscar: Patricia Neal, Burl Ives e Walter Matthau; e quatro indicados ao Oscar: Anthony Franciosa, Lee Remick, Kay Medford e Rip Torn.

Lonesome Rhodes disse ao senador Worthington Fuller que 65 milhões de americanos assistem ao programa de Rhodes toda semana. Em 1957, esse público representava quase 40% da população dos EUA

Lee Remick tinha 21 anos na época da estreia deste filme. Sua personagem tinha 17 anos.

Patricia Neal (1926-2010) foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por A História de Três Estranhos (1969) e Venceu o Oscar de Melhor Atriz por  O Indomado (1963)

Anthony Franciosa (1928-2006) foi Indicado ao Oscar por Carcere Sem Grades (1957) e indicado 3 vezes ao Globo de Ouro

Walter Matthau venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Uma Loura por um Milhão (1966). Também foi Indicado ao Oscar de Melhor Ator por Ainda Há Fogo Sob as Cinzas (1971)  e Melhor Ator Coadjuvante por Uma Dupla Desajustada (1975)

Lee Remick foi indicada ao Oscar por Vício Maldito (1962)


Cartazes:






Andy Griffith no seriado Operação Resgate / Salvage 1 (1979)









Filmografias Parciais:

Andy Griffith (1926-2012)






Um Rosto na Multidão (1957); Esse Sargento é de Morte (1958); Mau Tempo pela Proa (1958); Furacão de Saias (1961); The Andy Griffith Show (1960-1968); Um Anjo no Meu Bolso (1969); Pergunte a Alice (1973); Rezemos pelos Audazes (1974); Sangue na Neve (1974); Savages (1974); Do Oeste para a Fama (1975); A Sósia (1977); Jogo Mortal (1977); Raízes II (1979); Operação Resgate (seriado 1979); Assassinato no Texas (1981); O Exorcista do Demônio (1983); O Vaqueiro Cantador (1985); Crime da Inocência (1985); Aparências (1986); Matlock (1986–1995); Inesperado Reencontro (1995); Duro de Espiar (1996); O Último Pedido (1998); Uma Canção para Dois (1999); Tudo em Família (2001); Um Avô Sedutor (2009)


Patricia Neal (1926-2010) 






Cupido Faz das Suas (1949); Vontade Indômita (1949); Coração Amargurado (1949); Cinzas ao Vento (1950); Três Segredos (1950); Redenção Sangrenta (1950); Águas Traiçoeiras (1951); Escrava da Cobiça (1951); O Dia em que a Terra Parou (1951); Feitiço de Amor (1951); Missão Perigosa em Trieste (1952); A Indiscreta (1952); Falsa Verdade (1952); Um Rosto na Multidão (1957); Bonequinha de Luxo (1961); O Indomado (1963); Cega de Amor (1964); A Primeira Vitória (1965); A História de Três Estranhos (1968); Paixão e Crime (1971); O Estranho Mundo de Baxter (1973); A Love Affair: The Eleanor and Lou Gehrig Story (1977); Passageiros do Inferno (1979); Nada de Novo no Front (1979); A História de Patricia Neal (1981); Histórias de Fantasmas (1981); O Amor Mostra o Caminho (1984); Votos Quebrados (1984); Traída Pela Justiça (1992); A Fortuna de Cookie (1999)


Walter Matthau (1920-2000)






Homem Até o Fim (1955); A Um Passo da Morte (1955); Delírio de Loucura (1956); Um Rosto na Multidão (1957); Assassinato na 10ª Avenida (1957); Balada Sangrenta (1958); Párias da Vida (1958); Mau Tempo pela Proa (1958); Na Rota dos Proscritos (1958); O Nono Mandamento (1960); Sua Última Façanha (1962); Adorável Trapaceiro (1963); Charada (1963); O Barco do Desespero (1964); Limite de Segurança (1964); Um Amor do Outro Mundo (1964); Miragem (1965); Loura por um Milhão (1966); Maridos em Férias (1967); Um Estranho Casal (1968); Diário Íntimo de uma Mulher (1968); Alô, Dolly! (1969); Flor de Cacto (1969); O Caçador de Dotes (1971); O Hotel das Ilusões (1971); Ainda Há Fogo Sob as Cinzas (1971); Reencontro do Amor (1972); O Homem que Burlou a Máfia (1973); Matança em São Francisco (1973); O Sequestro do Metrô (1974); Terremoto (1974); A Primeira Página (1974); Uma Dupla Desajustada (1975); Garotos em Ponto de Bala (1976); Unidos por um Ideal (1978); Um Viúvo Trapalhão (1978); A Garotinha que Caiu do Céu (1980); O Espião Trapalhão (1980); Um Juiz Muito Louco (1981); Amigos, Amigos, Negócios à Parte (1981); Sonhando com a Fama (1982); O Negócio é Sobreviver (1983); Promessa é Dívida (1985); Piratas (1986); Uma Alucinante Viagem (1988); O Pequeno Diabo (1988); A Justiça Fala mais Alto (1990); O Cavalheiro de Branco (1991); JFK: A Pergunta que Não Quer Calar (1991); Dennis, o Pimentinha (1993); Dois Velhos Rabugentos (1993); A Teoria do Amor (1994); Ensina-me a Viver (1995); Dois Velhos Mais Rabugentos (1995); Rabugentos & Mentirosos (1996); Dois Parceiros em Apuros (1997); Meu Melhor Inimigo (1998); Amor Após a Morte (1998); Linhas Cruzadas (2000)


Anthony Franciosa (1928-2006) 






Esta Noite ou Nunca (1957); Um Rosto na Multidão (1957); Cárcere Sem Grades (1957); A Fúria da Carne (1957); O Mercador de Almas (1958); Calvário da Glória (1959); Drama na Página Um (1959); Nua no Mundo (1961); Desejo que Atormenta (1962); Contramarcha Nupcial (1962); Em Busca do Prazer (1964); Passaporte para o Perigo (1966); Assalto a um Transatlântico (1966); A Falsa Libertina (1966); Jogo Perigoso (1966); A Espiã que Veio do Céu (1967); Oferece-se Pistoleiro (1968); A Praia dos Desejos (1968); Os Audaciosos (seriado 1968–1970); Na Teia da Aranha (1971); Terra 2 (1971); A Máfia Nunca Perdoa (1972); Controle Remoto (seriado 1972–1973); O Fantasma do Sol de Meio-Dia (1974); A Piscina Mortal (1975); Matt Helm (seriado 1975–1976); A Maldição da Viúva Negra (1977); Poder de Fogo (1979); A Cigarra (1980); Desejo de Matar 2 (1982); Anjo ou Demônio? (1982); A Última Diligência (1986); Promessa de Sangue (1987); Corredor da Morte (1988); Backstreet - Sonhos de um Rebelde (1990); Dupla Ameaça (1992); City Hall: Conspiração no Alto Escalão (1996)


Lee Remick (1935–1991)






O Mercador de Almas (1958); Anatomia de um Crime (1959); Fama a Qualqur Preço (1959); Anatomia de um Crime (1959); Rio Violento (1960); Santuário (1961); Escravas do medo (1962); Vício Maldito (1962); A Sombra de uma Fraude (1963); Simpático, Rico e Feliz (1963); O Gênio do Mal (1965); O Mundo Marcha Para o Fim (1965); Nas Trilhas da Aventura (1965); Um Face Para Cada Crime (1968); O Crime Sem Perdão (1968); Sou Pago Para Matar (1969); Escondendo a Grana (1970); Amantes Infiéis (1971)); Uma Lição Para não Esquecer (1971); Um Equilíbrio Delicado (1973); Corações Atormentados (1975);   O Dia Fatal (1975); A Profecia (1976); O Telefone (1977); O Toque da Medusa (1978); Os Europeus (1979); A Competição (1980); Tributo (1980); A Carta Acusadora (1982);O Poder do Amor (195);  De Puro Sangue (1986); Conflitos Intímos (1987); Prática Ilegal (1988); Ponte do Silêncio (1989);Passaporte Para o Inferno (1989)  

sábado, 9 de maio de 2026

OS LEGENDÁRIOS VIKINGS / THE LONG SHIPS (1964) - REINO UNIDO / IUGOSLÁVIA

VIKINGS E MOUROS

Em uma cidade no Oriente Médio, um homem, em troca de alguns trocados, narra a história da “Mãe das Vozes”, um sino lendário com a altura de três homens, feito com “metade do ouro do mundo” colhido em várias partes do globo e fundido por cristãos. Após um naufrágio no qual foi o único sobrevivente, ele teria sido salvo por monges e descoberto a lenda em um mural de um mosteiro. Sua narrativa não passa despercebida pelo príncipe mouro Aly Mansuh (Sidney Poitier), obcecado pela relíquia. Levado à sua presença, o forasteiro revela-se um viking chamado Rolfe (Richard Widmark) que, antes de ser torturado para revelar a localização do Sino de Ouro de St. James, consegue fugir da torre mergulhando nas águas profundas do local.

Em uma aldeia da Escandinávia, o construtor Krok (Oskar Homolka) termina a construção de um barco funerário para o Rei Harald (Clifford Evans). Em troca do trabalho, ele deveria receber uma quantia combinada, mas recebe apenas duas moedas de ouro em detrimento de uma antiga dívida de tributos. Rolfe retorna à aldeia viking na mesma noite e convence seu irmão Orm (Russ Tamblyn) a roubar o barco construído por seu pai, recrutar um grupo de homens e raptar a filha do rei, a princesa Gerda (Beba Loncar), como parte de um plano para recuperar o sino. Contudo, o navio naufraga e o grupo acaba capturado pelo exército de Mansuh, que os transforma em escravos, obrigando-os a consertar o barco viking para guiá-lo em busca do lendário artefato.

Produção anglo-iugoslava, filmada em Techniscope e dirigida por Jack Cardiff (indicado ao Oscar por Filhos e Amantes (1960)). Seu trabalho anterior como diretor de fotografia em Vikings, os Conquistadores (1958) o credenciou para dirigir este longa, produzido por Irving Allen (da série Matt Helm com Dean Martin), não confundir com Irwin Allen. O longa foi baseado no romance do escritor sueco Frans Bengtsson, “The Long Ships, mas a adaptação pouco seguiu o livro, optando por um caminho mais comercial focado na aventura.

Ao contrário de Os Vikings, cuja influência é perceptível, Os Legendários Vikings não recebeu o mesmo cuidado que a produção de Kirk Douglas e Tony Curtis. O filme funciona como uma aventura leve e descompromissada sobre a rivalidade entre vikings e mouros, agradando parte da crítica, mas frustrando outra. O roteiro, por vezes confuso, de Berkely Mather (007 Contra o Satânico Dr. No) e Beverley Cross ("Jasão e o Velo de Ouro" e "Fúria de Titãs"), não desenvolveu personagens sólidos. Os vikings são retratados como farristas, beberrões e violadores (a cena do harém é amenizada em tom de comédia, mas o subtexto permanece evidente para o espectador mais atento). Há alguns bons confrontos de espada, típicos dos anos 60, com uma música em tom marcial a cargo do compositor Dusan Radic, que por vezes destoa do clima das cenas. A curiosa “Égua de Aço” acaba subaproveitada, provavelmente limitada pelas restrições da época quanto à representação explícita da violência em produções voltadas ao público familiar.

Podemos perceber que o roteiro centra em Mansuh e Rolfe ilustrando bem a “idolatria do efêmero'”: ambos arriscam seus reinos e a vida de seus homens não por um propósito elevado, mas por uma relíquia que simboliza apenas o poder bruto e a riqueza. O “destino dos personagens”' que se desenha não é uma glória épica, mas uma perseguição frenética por um fantasma de ouro, mostrando que, quando a liderança perde sua bússola moral, o  desfecho inevitável é o naufrágio, literal e simbólico." Ainda que o roteiro conceda um “final feliz” para um dos lados, talvez um final pessimista trouxesse a obra o peso que lhe faltava, ampliando sua reflexão sobre moralidade, obsessão e busca por riquezas

Quanto ao elenco, o personagem de Richard Widmark (que recusou o papel quatro vezes) foi retratado como um contador de histórias pouco confiável, que consegue naufragar dois navios, mas ao menos poupa seus homens de confrontos sem chances. A crítica da época o considerou velho para o papel. Já Sidney Poitier (que não era o preferido do diretor, mas foi uma exigência de Widmark) curiosamente interpretou um vilão: um homem obstinado que larga seu reino e sua esposa à mercê de invasores para embarcar em uma viagem baseada em uma possível lenda. Poitier detestou filmar no clima da Iugoslávia. É interessante notar que Robert Taylor foi cogitado para o papel de Widmark e Ernest Borgnine recusou o papel que foi para Poitier. Rosanna Schiaffino interpretou Aminah, a bela esposa do imperador mouro. Igualmente bela estava Beba Loncar como a princesa Gerda. Russ Tamblyn fez algumas acrobacias em cena tentando defender a honra viking. O restante do elenco pouco influenciou e muitos funcionaram apenas como alívio cômico para evitar a violência explícita.

Os Legendários Vikings, apesar de vir na onda de sucessos como "Vikings, os Conquistadores" (1958) e "Simbad e a Princesa" (1958), é perceptivelmente inferior a estes em ambição e execução. Na TV dos anos 70, funcionava a contento; hoje, sobrevive, para alguns, pelo charme e nostalgia, mas o público jovem possivelmente terá uma percepção de filme envelhecido e pouco atraente. Vale como curiosidade para quem viveu essa época e para entusiastas do gênero de aventura clássico.


Trailer:

 

Curiosidades:

Estreou na teve aberta em 10 de março de 1974

Widmark e Poitier repetiriam a parceria em “O Caso Bedford” (The Bedford Incident) de 1965

A armadura de couro usada por Russ Tamblyn (Orm) é um dos figurinos mais reciclados da história do cinema. Foi usado por Russell Crowe em “Gladiador” (2000), bem como “Vikings” (2013), “A Última Tentação de Cristo” (1988) e muitos mais.

Após a era viking, os noruegueses lutaram nas Cruzadas de 1107 a 1110, sob o comando do rei Sigurd I. Obtiveram vitórias em Portugal, Sidon e Beirute.

Quando a Égua de Aço é demonstrada por um soldado mouro descendo suas costas, alguns segundos depois, Rolfe é informado de que é sua vez e ele é levado às escadas da Égua. No fundo, o leito de pontas na parte inferior do escorregador está limpo e sem corpo ou sangue. Um erro de continuidade

O diretor Jack Cardiff quis Ursula Andress como sua protagonista.


Cartaz:













Filmografias Parciais

Richard Widmark (1914-2008)






O Beijo da Morte (1947);  Capitães do Mar (1949); Sombras do Mal (1950); Pânico nas Ruas (1950); Almas Desesperadas (1952); Anjo do Mal (1953); Tormenta Sob os Mares (1954); Jardim do Pecado (1954); Santa Joana (1957); Minha Vontade é Lei (1959); O Álamo (1960); Os Legendários Vikings (1964); Crepúsculo de uma Raça (1964); O Caso Bedford (1965); Desbravando o Oeste (1967); Quando Morrem as Lendas Red Dillon  (1972); Assassinato no Expresso Oriente (1974); Uma Filha para o Diabo (1976); O Último Brilho do Crepúsculo (1977); Terror na Montanha Russa (1977); O Enxame (1978); A Invasão dos Cães de Guerra (1982); Paixões Violentas (1984); Blackout (1985); Lincoln (1992).


Sidney Poitier (1927-2022)






O Ódio é Cego (1950);  Sementes de Violência (1955);  Cruel Dilema (1956); Sangue Sobre a Terra (1957); Acorrentados (1958); O Sol Tornará a Brilhar (1961); Paris Vive à Noite (1961);  Uma Voz nas Sombras (1963);  Os Legendários Vikings (1964);  A Maior História de Todos os Tempos (1965); Ao Mestre, com Carinho (1967); No Calor da Noite (1967); Adivinhe Quem vem para Jantar (1967); Um Homem para Ivy (1968); Noite Sem Fim (1970); O Estranho John Kane (1971); A Organização (1971); Conspiração Violenta (1975); Atirando para Matar (1988); Espiões sem Rosto (1988); Quebra de Sigilo (1992); Ao Mestre, com Carinho 2  (1996); Mandela e De Klerk  (1997); O Chacal (1997); Rumo à Liberdade  (1998);  Construindo um Sonho (2001)


Rosanna Schiaffino (1939-2009)






Os Paladinos de França (1956), Um Pedaço de Céu (1958), A Provocação (1958), O Vingador (1959), A Longa Noite das Loucuras (1959), Teseu e o Minotauro (1960), O Milagre dos Lobos (1961), O Rapto das Sabinas (1961), Legenda Histórica (1961), Epopéia de Bravos (1962), A Cidade dos Desiludidos (1962), Os Vitoriosos (1963), A Corrupção (1963), Os Legendários Vikings (1964), Hong-Kong, Onde o Amor e a Morte Se Encontram (1965), A Mandragora (1965), O Mundo Jovem (1966), A Feiticeira no Amor (1966), Um Marido de Morte (1966), O Heróico Lobo do Mar (1967), O Preço de uma Missão (1967), Caprichos de uma Deusa do Amor (1969), Ettore, O Machão (1972), Os Heróis (1973), O Magnata (1973), Um Homem Chamado Noon (1973), O Assassino Reservou Nove Lugares (1974), Cagliostro (1975)


Beba Loncar (1943)






Quando Passa o Amor (1961), Mandragola (1962), Os Legendários Vikings (1964), La donna è una cosa meravigliosa (1964), O Trouxa (1965), Casanova 70 (1965), A Doce Vida de Giovanni (1965), As Aventuras Imprevisíveis do 7º Homem (1965), Confusões à la Italiana (1966), Desejos Amargos (1967), Massacre na Floresta Negra (1967), Desculpe, Façamos o Amor (1968), Sharon vestida de rojo (1969), Uma Gatinha por Dia (1970), Brancaleone nas Cruzadas (1970), A Máfia Sempre Mata! (1972), Aquelas Estranhas Ocasiões (1976), Amantes Sensuais (1980)


terça-feira, 5 de maio de 2026

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES / "WUTHERING HEIGHTS" (2026)


NOVA PERSPECTIVA SOBRE UM CLÁSSICO

No final do século XVIII, o patriarca da família Earnshaw (Martin Clunes) retorna para casa acompanhado de um pequeno órfão, Heathcliff (Owen Cooper). Logo uma amizade se inicia com a pequena Cathy (Charlotte Mellington). O casal cresce e um forte elo começa a se estabelecer, até que Cathy (Margot Robbie) conhece seus novos vizinhos: Edgar (Shazad Latif) e Isabella (Alison Oliver), após sofrer um acidente na entrada da residência de Edgar sendo acolhida até sua recuperação. Ao retornar, mostra-se deslumbrada pela vida de seus ricos vizinhos. Edgar logo lhe faz uma proposta de casamento, deixando-a indecisa. Heathcliff, após ouvir uma conversa pela metade, parte sem rumo e desaparece na noite. Cinco anos depois, o até então pobre e maltratado Heathcliff, retorna rico, jurando se vingar de todos que lhe deram uma vida miserável e o afastaram de seu amor, enquanto Cathy, agora casada, não consegue mais esconder seus sentimentos por aquele que sempre amou. 

Se o espectador, que leu a obra, que originou dezenas de versões para o cinema e a televisão, espera uma adaptação fiel, poderá ter uma surpresa: ainda que o filme proponha uma atmosfera semelhante a O Morro dos Ventos Uivantes, é difícil, considerar que estamos diante de "O Morro dos Ventos Uivantes". Personagens como o irmão de Cathy, são suprimidos sem cerimônia enquanto o pai, que morre no início do livro, permanece vivo em boa parte da trama. Se isso já é um problema, visto que o irmão é, no livro, o grande algoz de Heathcliff, durante uma fase crucial de sua vida, e o livro transfere essa característica para o pai (originalmente um homem respeitável), preciso avisar que a segunda parte do livro é completamente ignorada. A diretora Emerald Fennell optou por uma releitura livre, buscando oferecer algo novo à obra, uma reinterpretação. Não por acaso, o título foi emoldurado com aspas no cartaz para indicar que o filme não seria uma adaptação fiel.



Centrar a trama no amor físico dos personagens, em detrimento do livro, na qual não há consumação desse amor, acrescentada de muitas pitadas de erotização (leia-se sexualização), pode fazer sentido no cinema contemporâneo (o sucesso de bilheteria sugere isso), ainda que em alguns momentos o filme possa parecer um videoclipe estilizado com figurinos extravagantes, pouco condizentes com a ambientação de transição entre o período georgiano tardio e o início da era vitoriana; paisagens deslumbrantes; design de produção caprichado, além de um forte apelo sensorial e dramático. A música do compositor Anthony Willis e as canções originais de Charli XCX colhem merecidos elogios.


No romance original, porém, a proposta é muito mais ampla e complexa. A obra de Emily Brontë articula múltiplas camadas que se entrelaçam: a crítica à divisão de classes, que impede a união entre Catherine e Heathcliff; o ciclo de vingança, que se estende para além da primeira geração; e a dinâmica entre pais e filhos, que revela como traumas são herdados e, eventualmente, transformados. Soma-se a isso o contraste entre natureza e civilização (representado pelos ambientes opostos das propriedades) e uma profunda investigação sobre identidade, expressa na fusão entre os protagonistas. O romance não trata apenas de uma história de amor, mas de um estudo sobre pertencimento, exclusão e destruição emocional.


A adaptação cinematográfica, opta por minimizar essa estrutura ao eliminar elementos fundamentais da narrativa original. A ausência do narrador inicial e da construção em camadas (com destaque para o papel de Nelly Dean como mediadora) transforma a história em uma linha direta de acontecimentos, reduzindo o mistério e a ambiguidade. Além disso, a famosa cena inicial envolvendo o visitante e a presença sobrenatural de Catherine é suprimida, retirando do filme a atmosfera gótica e simbólica que marca o início da obra literária.

No caso de adaptações como O Morro dos Ventos Uivantes, quando mudamos aspectos do livro na transposição às telas há uma mudança nas motivações, até no rumo dos acontecimentos. Vejamos a personagem Nelly. No livro ela é vista como falha, mas não manipuladora. No filme Nelly vira figura ativa no erro. Com isso, no livro a tragédia nasce de um mal-entendido, impulsividade e até o timing errado, ninguém controla a situação. Mas ao colocar Nelly como figura central e modificadora da realidade (ao só avisar Cathy no dia seguinte), Nelly vira peça ativa no erro numa tragédia que poderia ser parcialmente evitável.


Quanto ao elenco, Margott Robbie (de Barbie) entrega uma Cathy dividida entre dois mundos, conflito que a consome enquanto Jacob Elord (o Frankenstein de Gulhermo del Toro) possui uma forte química com sua parceira de cena, o que torna o filme atraente para parte do público, ainda que este Heathcliff seja simplificado em suas intenções e emoções. A atriz vietnamita-americana Hong Chau (“A Baleia”) se destaca como Nelly. Shazad Latif (O Exótico Hotel Marigold 2), de ascendência paquistanesa, interpreta um Edgar consistente; e Alison Oliver traz uma Isabella bastante distinta da versão literária. Martin Clunes interpreta um Mr. Earnshaw amplificado em sua existência e modificado em sua essência. Owen Cooper (da minissérie Adolescência) como o jovem Heathcliff, está muito bem, assim como seu par em cena, a atriz mirim Charlotte Mellington. Outro bem modificado é o mordomo, interpretado por Ewan Mitchell (da série “A Casa do Dragão”)


O Morro dos Ventos Uivantes parece privilegiar a intensidade emocional imediata e a centralidade dos personagens em detrimento das camadas estruturais e simbólicas que definem o romance. Essa escolha aproxima a obra de um drama romântico contemporâneo, mais acessível e direto, porém menos ambíguo e complexo em suas implicações. Não é necessariamente o melhor, nem o pior, mas é certamente o mais distante do livro.

 

Trailer:

 


 

Curiosidades:

Quanto  a Jacob Elordi, seu Heathcliff gerou um debate entre os fãs literários porque o romance sugere que o personagem tem origens não inglesas. Emily Brontë descreveu Heathcliff em diferentes pontos como um “cigano de pele escura”, mas em outros momentos se refere a ele como pálido, deixando sua ascendência puramente ambígua.

Os estúdios se envolveram em uma guerra de licitações pelo filme no final de 2024. Embora a Netflix tenha oferecido uma quantia maior, prevista em cerca de 150 milhões de dólares, Emerald Fennell e Margot Robbie finalmente escolheram a Warner Bros., que prometeu um lançamento completo nos cinemas apesar de uma oferta menor

O filme foi rodado em grande parte no VistaVision, tornando-se uma das poucas produções do século 21 para usar o formato revivido.

Quarta colaboração ente Margot Robbie  e Emerald Fennell . Robbie já havia produzido os filmes de Fennell como Bela Vingança (2020) e Saltburn (2023) , e as duas também apareceram juntas em Barbie (2023)

O filme foi rodado na Inglaterra do final de janeiro ao início de abril de 2025. As filmagens foram realizadas em Yorkshire Dales, incluindo o Parque Nacional de Yorkshire Dales, os vales de Arkengarthdale e Swaledale e a vila de Low Row, enquanto a filmagem em estúdio ocorreu no Sky Studios Elstree, em Borehamwood, Hertfordshire.

Durante eventos publicitários, Margot Robbie usou uma réplica de uma pulseira vitoriana feita de cabelos reais pertencentes a Emily Brontë e Anne Brontë.

O vestido vermelho de “látex” de Cathy não foi feito de látex verdadeiro. Em vez disso, foi construído com um tecido sintético brilhante projetado para combinar visualmente com o piso vermelho do Thrushcross Grange.

O elenco do filme inclui três indicados ao Oscar: Margot Robbie, Jacob Elordi e Hong Chau.

Esses dois parágrafos contêm spoliers:

Em “Wuthering Heights”, a história não começa com Cathy nem com Heathcliff. Ela começa com Mr. Lockwood, (inquilino de Thrushcross Grange); Lockwood chega à propriedade; vai até Heathcliff; passa a noite na casa e ocorre o famoso episódio: o fantasma de Catherine Earnshaw na janela. Esse acontecimento que mistura realidade e sobrenatural, nos mostra que o passado ainda “vive” ali e desencadeia uma reação desesperada de Heathcliff. A supressão desses acontecimentos cria uma perda do mistério. O filme começa com um enforcamento e Heathcliff como “quase animal doméstico”. Trata da desigualdade e relação de poder desde o início, mas perde a construção lenta do vínculo entre eles que o livro faz. O livro não quer que apenas vejamos a história, mas quando o filme remove isso transforma uma obra ambígua e perturbadora em algo mais emocional e acessível, porém menos profundo. Ao transformar a morte inicial de Cathy em “revelação final”, o roteiro enfraquece o elemento quase sobrenatural e aproxima a história de um romance trágico tradicional. Com isso, o filme “esconde a morte” para criar um impacto final, no que no livro nos deixa claro que o foco é na obsessão de Heathcliff após a morte de Cathy.

Há outros três elementos fundamentais modificados nesta versão cinematográfica que pode desagradar aos mais exigentes: a ausência de Hindley, irmão de Cathy, a manutenção do pai de Cathy na história (ele morre no início do livro) e a “segunda geração” que teria sua história retratada. Por que a presença de Hindley é importante? Porque ele e Heathcliff são dois homens moldados pelo mesmo ambiente, reagindo de formas opostas. Hindley se destrói (através do álcool e do jogo), perde tudo e entra em uma ruína pessoal, Heathcliff, se endurece (vingança), conquista tudo, mas entra em uma ruína emocional. Hindley é nobre (filho da casa), perde o afeto do pai e seu trauma se dará com o ciúme e a perda da esposa Frances.   Já   Heathcliff, recebe o afeto do pai (enquanto este vivo -  no livro); e ódio, desprezo e crueldade de Hindley que passará a administrar a fazenda (o filme incorpora as características de Hindley ao pai). Seu trauma se dará com a humilhação e a perda de Cathy. Sem Hindley não há a vingança de Heathcliff pela humilhação sofrida. Não há o filho de Hindley nas mãos de Heathcliff. Sem a filha de Cathy e o filho de Hindley não há todo um arco de vingança, ódio e redenção. Cabe destacar que o relacionamento entre Heathcliff e Cathy não é carnal, nem movido a traições. E Isabella é uma mulher bem mais contida no livro.

 

Cartaz:









 






Filmografias Parciais:

Margott Robbie






Vigilante (2008), Questão de Tempo (2013), O Lobo de Wall Street (2013), Suite Francesa (2014), Os Últimos na Terra (2015), Golpe Duplo (2015), A Grande Aposta (2015), Uma Repórter em Apuros (2016), A Lenda de Tarzan (2016), Esquadrão Suicida (2016), Eu, Tonya (2017), Pedro Coelho (2018), A Vingança Perfeita (2018), Escola da Morte (2018). Duas Rainhas (2018), Dreamland: Sonhos e Ilusões (2019), Era Uma Vez em... Hollywood (2019), O Escândalo (2019), Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (2020), Pedro Coelho 2: O Fugitivo (2021), O Esquadrão Suicida (2021), Amsterdam (2022), Babilônia (2022), Barbie (2023), A Grande Viagem da Sua Vida (2025), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Jacob Elord






A Barraca do Beijo (2018), A Barraca do Beijo 2 (2020), 2 Corações (2020), A Barraca do Beijo 3 (2021), Águas Profundas (2022), Apostas & Segredos (2024), O Caminho Estreito para os Confins do Norte (2025 -5 episódios), Frankenstein (2025), O Morro dos Ventos Uivantes (2026), Euphoria (2019–2026 - 20 episódios)


Hong Chau




 



Pequena Grande Vida (2017), Vício Inerente (2014), Intimidade Forçada (2018), Driveways: Uma Amizade Inesperada (2019), American Woman (2019), Watchmen (2019 - 4 episódios), Homecoming: De Volta à Pátria (2018–2020 - 11 episódios), Artemis Fowl: O Mundo Secreto (2020), Esculturas da Vida (2022), A Baleia (2022), O Menu (2022), O Agente Noturno (2023 - 10 episódios), Asteroid City (2023), Tipos de Gentileza (2024), Os Provocadores (2024), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Shazad Latif





 

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Alison Oliver





 

Conversas entre Amigos (2022), Saltburn (2023), A Ordem (2024), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Martin Clunes






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Owen Cooper






Adolescência (2025), O Morro dos Ventos Uivantes (2026) 


Charlotte Mellington




 


O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Ewan Mitchell






Simplesmente Charlie (2017), O Último Reino (2017–2022 - 28 episódios), Mundo em Chamas (2019–2023 - 8 episódios), Saltburn (2023), A Casa do Dragão (2022–2024 - 11 Episódios), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)