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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O INTRUSO / THE INTRUDER (1962) - ESTADOS UNIDOS

 


VENDEDOR DE ÓDIO

Adam Cramer (William Shatner) é um homem chegando de ônibus à cidade (fictícia) de Caxton, no Missouri, sul dos Estados Unidos. Vestindo um terno branco impecável e mostrando-se uma pessoa bem articulada, ele se regozija por encontrar um local onde poderá espalhar seu ódio, seu preconceito e sua intolerância contra a integração racial nas escolas. Grande parte não está feliz com a lei, mas aceitam que ela exista. Cramer alega representar uma organização social chamada "Patrick Henry", que contesta a decisão do governo e acredita que os cidadãos bem orientados podem opor resistência. E o modo como Cramer acredita que possa influenciar as pessoas é tudo menos democrático como alardeia. E é através de Verne Shipman (Robert Emhardt), um empresário rico e influente, que Cramer vê a chance de colocar seu nefasto plano em andamento.

Para entendermos o contexto na qual o filme se insere, precisamos entender que a integração foi aprovada em 17 de maio de 1954, quando a Suprema Corte dos EUA decidiu, no caso “Brown v. Board of Education”, que a segregação em escolas públicas era inconstitucional. Essa decisão derrubou a doutrina do "separados, mas iguais" que vinha desde 1896. Notemos a data do filme: 1962. Existe um intervalo de 8 anos entre a lei e a obra dirigida por Corman. O filme se passa justamente no período da "Resistência Massiva". Embora a lei existisse, muitos estados do Sul (como o Missouri, onde o filme foi rodado) se recusavam a cumpri-la ou faziam de tudo para atrasar o processo. E é aí que Adam Cramer se insere: exatamente nesse vácuo entre a lei e a aceitação social. 


Em 1962, Roger Corman abandonou momentaneamente seus monstros ficcionais para realizar um dos filmes americanos mais corajosos e ousados ​​de todos os tempos, entregando em "O Intruso" um estudo cirúrgico sobre a engenharia do ódio. Através da chegada de Adam Cramer, o filme desmascara o demagogo não como um fanático cego, mas como um técnico da manipulação que utiliza a retórica como ferramenta de ascensão. Ao evocar figuras como Sócrates, Hitler e Lênin tenta apresentar uma “genealogia intelectual”: ele possui o verniz dos letrados, a técnica de mobilização das massas e o pragmatismo amoral de quem sacrifica vidas, como a do padre ou a visão do editor local, em nome de uma narrativa de poder. É um vilão moderno, cujo ego inflado é alimentado pela capacidade de transformar o preconceito latente em uma arma política de destruição em massa. Corman resolveu mostrar que monstros podem ser de carne e osso e morarem ao seu lado (como em “Tiros em Ruanda”, na qual o vizinho que você cumprimenta todas as manhãs, sob a influência certa, pode se tornar seu carrasco).

Filmado em um preto e branco pelo talentoso Taylor Byars, a força da obra reside na interpretação de Shatner, que encarna uma serpente de terno e gravata, cuja sedução é proporcional à sua covardia. Bebendo diretamente da fonte de clássicos como "Consciências Mortas", o filme subverte a psicologia das massas ao mostrar que o "linchamento" não precisa de uma “causa justa”, apenas de um catalisador bem articulado. O confronto de Cramer com o personagem de Leo Gordon desmascara essa fragilidade: o demagogo é um parasita que murcha diante da integridade individual, provando que sua força não reside em convicções reais, mas na proteção que a turba lhe oferece. Ele olha para as plantações de algodão não com olhar nostalgico, mas com a frieza de um general que mapeia o combustível necessário para um incêndio social.

O curioso é que o filme, um drama inovador sobre os direitos civis, anos à frente de seu tempo, mas totalmente dentro de sua época, não encontrou ressonância do público em 1962. O filme foi o maior fracasso comercial de Corman, pois não deu lucro. Um dos motivos talvez resida no fato que, na época que o filme foi lançado, a América (principalmente a sulista) não queria abordar o racismo no Sul dos Estados Unidos. Já, "No Calor da Noite"(com Sidnei Poitier), com a temática “racismo sulista”, obteve um enorme sucesso de público apenas cinco anos depois. Quem não se lembra de “Mississipi em Chamas” abordado décadas depois. Só que O Intruso abordou essa temática no “olho do furacão”, época cujos direitos civis ainda gerariam diversas contendas.

Corman usou um artifício interessante para gravar seu projeto: distribuiu uma versão de roteiro suavizada (com outros diálogos), o que trouxe outra percepção aos moradores locais que ele colocou no filme, muitos realmente eram contra a decisão do governo, contra a integração. Quando o conteúdo real do filme foi descoberto, Corman e os envolvidos foram “convidados” a “se retirarem” rapidamente pelas forças policiais, recebendo até ameaças de grupos de ódio. O relançamento, mais de 40 anos depois, no mercado de vídeo doméstico na Inglaterra, trouxe algo inesperado: o investimento no filme foi recuperado. Um tema ainda relevante nos tempos atuais, pois o problema foi parcialmente resolvido, mas não completamente. Considerando o que está acontecendo nos EUA atualmente, este filme (passado na tevê brasileira) apenas reforça a mensagem e a necessidade de sua redescoberta. A destacar a trilha sonora pontuada nos momentos certos de Herman Stein, que não deixa o espectador relaxar, mesmo nas cenas de diálogo. 


As analogias são bem interessantes quando vemos o filme com um olhar mais apurado: Adam Cramer é retratado como um oportunista ideológico. Ele não chega à cidade com armas; ele chega com retórica. Ele não cria o racismo na cidade; ele simplesmente dá permissão para que o preconceito latente dos cidadãos se transforme em ação violenta. O perigo do personagem não está nos gritos, mas no sorriso. Ele é um "vendedor de ódio”. Para Cramer, a verdade não importa; o que importa é a narrativa. Ele sabe que a prisão o transforma em um símbolo.  O tema central pode ser interpretado como a facilidade com que um estranho articulado pode manipular a psicologia das massas; o foco não é o crime em si, mas a velocidade com que a racionalidade humana evapora quando o grupo se torna uma massa uniforme. Podemos até conjecturar se o filme critica os racistas ou critica a incapacidade das "pessoas de bem" em silenciar um demagogo antes que a violência comece? O espancamento de Tom (o editor) seria uma crítica de que a civilização (representada pela imprensa e pela lei) é extremamente frágil diante da força bruta. Quando o editor perde o olho, o filme está dizendo literalmente que a cidade "perdeu a visão" ou a perspectiva. Uma metáfora visual poderosa sobre a cegueira coletiva. Cramer é um homem de palavras. Ele domina quem ele pode seduzir ou intimidar intelectualmente. Quando ele encontra a força física bruta e a convicção moral de Griffin sem uma massa para protegê-lo, ele percebe que não é nada. O final é abrupto porque a vida real estava ameaçando a produção. O ódio que Adam Cramer semeava na tela estava começando a cercar a equipe de filmagem fora dela.  Ele não cita Hitler pelo antissemitismo, mas pela técnica. Ele admira a capacidade de transformar um "zé ninguém" em uma divindade através do palanque; ao citar Aristóteles, ele usa a filosofia clássica para dizer àquela população rural: "Eu sou a elite intelectual que veio validar o preconceito de vocês". Ele dá um ar de "ciência" e "ética" ao que seria apenas barbárie. Quanto a Lênin, seria a aceitação do método: "os fins justificam os meios". Se for preciso explodir uma igreja para manter latente o ódio, ele o fará. No final, podemos conjecturar se o preconceito permanecerá, dormente, esperando o próximo Adam Cramer (ou algo pior) chegar.


O desfecho do filme, muitas vezes criticado como um “deus ex-machina” apressado pelas limitações orçamentárias de Corman, revela, sob um olhar mais atento, uma ironia perversa sobre a natureza humana. Quando a mentira que sustentava a fúria da cidade é desmascarada, a população não passa por uma catarse moral ou um arrependimento genuíno; eles simplesmente se dispersam em um silêncio covarde. A resolução abrupta serve como um espelho da conveniência social: as pessoas preferem fingir que foram "manipuladas" por um estranho do que enfrentar o fato de que as ideias de Cramer ecoavam perfeitamente em seus próprios corações. O palanque vazio onde Adam termina sozinho não simboliza a vitória da justiça, mas a solidão momentânea de um método que, em breve, poderá encontrar novos ouvidos em uma outra cidade, por exemplo. E o pior: em 1962, Cramer precisava de um ônibus e um terno; hoje, ele precisaria apenas de um algoritmo e um perfil verificado.

Quanto ao elenco, Shatner tinha 31 anos quando o filme estreou e já tinha trabalhos no cinema: "Os Irmãos Karamazov", "O Julgamento de Nuremberg" e "Geração Violenta", além de trabalhos na tevê e teatro. Sua atuação visceral deu uma força ao roteiro de Charles Beaumont, (cujo livro foi escrito e publicado em 1958. Beaumont escreveu também vários episódios do seriado “Além da Imaginação” / Twilight Zone) interpretando um personagem oportunista (um “forasteiro profissional’), inflamando o ódio e o ressentimento que já existiam naquela cidade, naquele Estado (não por acaso em um terno branco , cor da pureza, enquanto semeia a escuridão). Ironicamente, Shatner participou do primeiro beijo inter-racial da televisão aberta americana, quando beijou a Tenente Uhura em "Jornada nas Estrelas" no episódio “Os Senhores de Triskelion”. Assim como é irônico também seu personagem acusar Sam Griffin (Leo Gordon) de beijar uma afrodescendente já no final do filme. E, continuando com as ironias, vemos uma inversão de papéis entre o quase sempre mocinho Shatner e o quase sempre vilão Leo Gordon. O bom elenco deu o suporte que o filme necessitava e o uso de atores não profissionais (moradores locais desavisados misturados nas cenas) deu um ar de autenticidade a esse filme independente realizado por Corman. Beaumont fez uma participação especial interpretando o Sr. Paton (ele faleceria seis anos depois). Tom McDaniel (Frank Maxwell) interpretou o editor do jornal local, que se opõe à integração, lutando contra o movimento com inúmeros artigos. Ele não gosta da nova lei, mas não quer que sua filha adolescente seja exposta a esse tipo de ódio que Cramer começa a espalhar freneticamente a quem lhe dê ouvidos. E isso lhe custará caro. Charles Brown interpretou Joey é um dos estudantes afrodescendentes que se mostra determinado a frequentar o ensino médio, mesmo diante dos protestos contundentes dos que ali vivem. 


O Intruso se recusa a oferecer a redenção fácil que o público de drive-in da época poderia esperar, deixando as cicatrizes da violência expostas e sem cura. O editor continua cego e o racismo estrutural permanece intacto sob o tapete de uma suposta normalidade retomada pela cidade. Ao contrário de uma tragédia grega, onde o erro leva ao aprendizado, aqui o erro leva apenas ao constrangimento, sugerindo que o mal é cíclico e aguarda apenas o próximo "Adam" para despertar. É uma obra que sobrevive ao tempo por sua crueza independente, lembrando-nos de que, embora os manipuladores possam ser desmascarados, ainda há terrenos férteis para a ignorância e para o preconceito que raramente são arados.


Trailer:



Curiosidades:

Até a data desta postagem, dsiponivel no YouTube com legendas automáticas

Beverly Lunsford (1945-2019) que interpretou Ella, a filha do editor, participou de algumas séries de tevê . Sua carreira nos cinemas terminou em 1969. faleceu aos 74 anos de causas não reveladas

Robert Emhardt (1914-1994) faleceu de falência cardíaca aos 80 anos

Leo Gordon (1922-2000) faleceu de falência cardíaca aos 78 anos

Jeanne Cooper (1928-2013) faleceu aos 84 anos em decorrência de problemas pulmonares . Participou de diversos seriados ao longo da carreira

Depois que a equipe de filmagem foi expulsa de East Prairie, Missouri, pelo chefe de polícia da cidade (supostamente por serem "comunistas"), o produtor/diretor do filme, Roger Corman , percebeu que precisava de mais uma tomada panorâmica da escola. Ele e um assistente voltaram à cidade e filmaram a cena às pressas. O chefe de polícia, de alguma forma, deve ter descoberto a presença dos dois, pois Corman o viu dirigindo ao longe. Corman e seu assistente jogaram rapidamente a câmera e os equipamentos no carro e partiram na direção oposta, ilesos.

Em seu livro "Boldly Go" (2022), William Shatner relata que moradores locais foram contratados como figurantes durante a filmagem do discurso racista de Adam Cramer nos degraus do tribunal. Como Shatner havia gritado bastante no dia anterior, precisou poupar a voz durante a maior parte das filmagens. O produtor e diretor Roger Corman instruiu-o a mímica do discurso enquanto orientava a plateia sobre como reagir, filmando por cima do ombro de Shatner. Ao final do dia, a voz de Shatner havia se recuperado o suficiente para que ele interpretasse o discurso em seus closes. A essa altura, a maioria dos figurantes já havia deixado o set por conta própria. No dia seguinte, um jornalista local abordou Corman e Shatner e disse-lhes que haviam sido espertos em não recitar o diálogo do discurso diante da plateia. Ele explicou-lhes que uma árvore no pátio do tribunal havia sido usada para linchamentos pelo menos 20 anos antes, e que alguns dos figurantes na multidão haviam participado desses linchamentos. Se tivessem ouvido o discurso, não se sabia como teriam reagido.

O filme foi inteiramente rodado em locações no sudeste do Missouri, com moradores locais atuando como figurantes. Sabendo o quão incendiário era o roteiro, o produtor/diretor, Roger Corman , fez questão de não mostrá-lo na íntegra para eles, por medo de ser expulso da cidade à força.

William Shatner afirmou que, durante a produção deste filme, tanto a vida do elenco quanto da equipe de filmagem foram ameaçadas, os equipamentos foram sabotados e a permissão para filmar no pátio de uma escola local foi revogada.

O filme estreou em Londres, Inglaterra, na semana do assassinato do presidente John F. Kennedy, com o título "The Stranger". Foi então relançado nos EUA com o título "Shame" e, posteriormente, relançado novamente nos EUA com outro título, "I Hate Your Guts!".

O produtor/diretor do filme, Roger Corman , disse que ele mudou muito sua visão sobre cinema. O filme foi exibido em festivais e recebeu ótimas críticas, mas foi o primeiro filme que ele fez a dar prejuízo. Depois de analisar o motivo, ele percebeu que a lição que tentava transmitir ao público era excessiva. A partir daquele momento, ele se concentrou mais em entreter o público. Ele disse que sempre tentou inserir uma moral em seus filmes depois disso, mas de forma sutil, sem martelá-la na cabeça do público, porque esse não era o motivo pelo qual as pessoas iam ao cinema.

Filmado com um orçamento de US$ 100.000,00 em locações em Charleston, Missouri.


Cartaz:












Filmografias Parciais:

William Shatner






Os Irmãos Karamazov (1958); Julgamento em Nuremberg (1961); Geração em Conflito / Geração Violenta (1961); O Intruso (1962);  Alexandre, O Grande (1963); As Quatro Confições (1964); Incubus (1966); O Ódio é Minha Lei (1968); Jornada nas Estrelas (seriado 1966-1969); O Único Sobrevivente (1970); O Cão do Inferno (1971): Incidente em um Rua Escura (1972) Batismo de Fogo (1974); A Mulher da Metralhadora / Grande Mamãe (1974); Acusado e Condenado / Indiciado e Condenado (1974); Suprema Decisão (1975); A Chuva do Diabo (1975); A Costa de São Francisco (1975); A Maldição das Aranhas (1977); Jornada nas Estrelas: O Filme (1979); Horário de Visitas (1982); Jornada nas Estrelas II - A Ira de Khan (1982); Jornada nas Estrelas III - À Procura de Spock (1984); Confissões de um Homem Casado (1984); Jornada nas Estrelas IV - A Volta para Casa (1986); Carro Comando (seriado 1982-1986); Jornada nas Estrelas V - A Última Fronteira (1989); Jornada nas Estrelas VI - A Terra Desconhecida (1991); Máquina Quase Mortífera (1993); Jornada nas Estrelas: Generations (1994); Miss Simpatia (2000); American Psycho II: All American Girl (2002); Miss Simpatia 2: Armada e Poderosa (2005); Everest: Um Desafio à Vida ( Minissérie 2007);  Justiça Sem Limites (seriado 2004-2008);  $#*! My Dad Says (seriado 2010-2011);  Horrorween (2011); A Christmas Horror Story (2015); Baby, Baby, Baby (2015); Bem a Tempo Para o Natal  (2015); Área 15 (2016);  Inseparáveis (2016); Creators: The Past (2019); Devil's Revenge (2019) Acelerando Para o Amor (2021);


Leo Gordon (1922- 2000)






Átila, o Rei dos Hunos (1954); Sangue de Bárbaros (1956); O Homem Que Sabia Demais (1956); Tarzan Vai à Índia (1962); O Intruso (1962); Quando um Homem É Homem (1963); Os Reis do Sol (1963); Beau Geste (1966); Alienator - A Exterminadora Indestrutível (1990); Maverick (1994).


Charles Barnes (1924-2005)






O Intruso (1962), Ídolo Dourado (1951), Papai Foi um Craque (1949)


Robert Emhardt (1914-1994)






Vingança Forçada (1982),  O Instituto da Vingança (1979), Aconteceu no Natal (1977), Alex e a Cigana (1976). Nasce um Monstro (1974), Jogo Sujo (1973), Mato em Nome da Lei (1971), Vamos Fazer a Guerra? (1970), Ele e as Três Noviças (1969), Rascal, o Amiguinho Travesso (1969), Onde Estavas Quando as Luzes Se Apagaram? (1968), Gatilhos do Ódio (1967), O Canhoneiro do Yang-Tsé (1966), Talhado para Campeão (1962), O Intruso (1962), A Lei dos Marginais (1961), Quartel não é Hotel (1960), Homens das Terras Bravas (1958). Galante e Sanguinário (1957), A Grande Chantagem (1955), Nenhuma Mulher Vale Tanto (1952)


Jeanne Cooper (1928-2013)






A Rainha dos Renegados (1953), O Vale do Medo (1953), O Salário do Pecado (1955), Bandoleiros de Houston (1956), Os Salteadores de Estradas (1957), A Loucura de Mimi (1958), Algemas Partidas (1960), Clamor de Vingança (1962), Prisão de Mulheres (1962), O Intruso (1962),  Feras Sanguinárias (1963), Assim Morrem os Bravos (1965), O Homem Que Odiava as Mulheres (1968), Ninho de Cobras (1970), Brutal Beleza (1972), Doce Refém (1975), Encontro com a Morte (1993), O Sequestro (2002), Ouro Negro (2003)

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

LAYLA M. (2016) - HOLANDA / BÉLGICA / ALEMANHA / JORDÂNIA


UMA JOVEM EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE

Layla Mourabit (Nora El Koussour) é uma impetuosa jovem muçulmana de origem holandesa-marroquina que vive em uma Amsterdã que não é tão aberta e acolhedora para com ela e com sua religião, como deveria ser, se confrontando com o racismo e xenofobismo casual diário quanto às suas convicções, além da própria zombaria dos amigos quanto às suas vestimentas, ao optar por usar o hijab completo ou rezar em sala de aula, o que a leva a um gradual afastamento. Em casa, o relacionamento da jovem começa a se deteriorar. Seus pais e irmão possuem uma vida adaptada ao país e desejam apenas que ela que ela estude bastante, fique longe de problemas e se torne uma médica. Ela vê certa apatia nesse comportamento e valores familiares em questões da qual ela considera serem de suma importância, como por exemplo as ameaças à liberdade religiosa, como a proibição da burca e o distanciamento da questão síria. Essas questões a fazem imergir cada vez mais no estudo do Alcorão  e nas práticas islâmicas.

O que sua família não percebe de imediato é que Layla é apaixonada por Abdel (Ilias Addab), um jihadista que incentiva algumas de suas crenças (mas que em alguns momentos permanece brevemente mudo, quanto a sua postura rebelde e questionadora, deixando apenas a jovem falar ou mudando de assunto) e o estudo do alcorão. E que eles já conversam e namoram secretamente no Skype. Quanto mais Layla se sente agredida em sua crença, mais ela sente conforto em sua fé. 

Layla se casa sem o conhecimento dos pais, abandona a escola e viaja com o marido para Amã, na Jordânia. Antes, porém, passam pela Bélgica e visitam um campo de treinamento jihadista. A jovem vê tudo com entusiasmo (um misto de rebeldia e idealismo do que acredita ser certo), principalmente por se mudar para um país na qual será reconhecida por seus pares e poderá praticar a fé de forma pura, livre e sem cerceamentos morais. Só que a constatação desse novo mundo não é o que Layla conjecturava: ela passa a ser excluída de todas decisões do marido e seu grupo, tem o seu comportamento insubmisso questionado por Abdel, um marido que se mostra dominador, e amigos que passam a vê-la como uma pessoa que deveria apenas ser uma esposa subserviente. Layla que desejava dar aulas, como uma atividade útil, descobre que mesmo uma saída à rua ou a ida à uma mesquita na esquina desacompanhada é altamente reprovável. Sua liberdade de ir e vir é cerceada, a misoginia é algo normal.  E o pior: Abdel está se envolvendo em uma missão fatal e ela não tem como demovê-lo de seu propósito, visto como um ato de profundo heroísmo por seu grupo radical.

Realizado em 2016 Layla M. (o sobrenome abreviado é uma estratégia da imprensa de alguns países quando não se deseja revelar a identidade da pessoa), tenta abordar de uma forma bem leve e não menos interessante a islamofobia que atinge a Europa e a América. Layla se sente sufocada, sente que não há mais lugar para ela em uma Europa cada vez mais intolerante seja por gestos, palavras ou olhares. Mas há uma certa ingenuidade da personagem, uma adolescente com sonhos e incertezas do futuro como tantas outras, em acreditar que seu comportamento liberal em pensamento e forte personalidade serão recebidos de braços abertos em uma outra cultura da qual a mulher tem papel secundário. E há também a reflexão étnica e religiosa se a nossa sociedade ocidental tem uma visão muito preto e branco, clichê, da fé alheia. Layla tentou encontrar o seu caminho, e percebeu que estava em um beco sem saída. Ou uma saída da qual não imaginara ter que tomar. Layla, é na verdade, todas as jovens que sofrem preconceito por professarem sua fé em algum país que não o seu de origem ou vestirem-se de um modo diferente, sendo vítimas indiretas de um extremismo, da falta de empatia e da ignorância. E assim são julgadas. Sociedades com medo, que produzem ódio e intolerância que, por sua vez, acabam criando radicalismos dentro de sua própria terra. Um assunto que precisa passar por uma reflexão constante, em um momento de vários conflitos simultâneos e deslocamentos de massa pelo globo. A diretora holandesa Mijke de Jong e seu marido, o roteirista Jan Eilander, acertadamente, optaram por colocar uma pitada de romantismo que floresce na relação entre Layla e Abdel.  Momentos de verdadeira alegria e cumplicidade, o que suavizou o filme e o retirou-o de um contexto puramente sobre um estudo de caso.

Nora El Koussour, aos 22 anos, em seu primeiro papel, desempenhou-o de uma forma bem coesa, passando a intensidade que a personagem precisava, assim como Ilias Addab interpretando Abdel. A performance da dupla foi beneficiada pela boa direção e história que em nenhum momento se mostra apelativa.

Layla M. nos revela não ser apenas um filme sobre uma garota que se radicaliza, tenta nos mostrar que os muçulmanos são como todos nós: amam, sofrem, tem dúvidas, sonhos, alegrias, buscam sua própria identidade ...É um filme sobre uma jovem de mente independente que não se enquadra no perfil estereotipado de uma futura terrorista, mas que larga tudo e que, em algum momento, terá que pagar um preço de ter caído em meio a um fanatismo. O final do filme, provocativo, mantém o interesse e promove uma nova reflexão do estado das coisas.


Trailer:



Curiosidades:

A Netflix adquiriu os direitos internacionais do filme após o Festival Internacional de Cinema de Toronto no ano passado.

A música que Layla tocou no hotel se chama Ya Ghayeb, é uma canção de amor do artista libanês Fadl Shaker que em 2011 abandonou a música por motivos religiosos, se juntou a um grupo de milicianos sunitas radicais e cantou para o salafismo islâmico. Shaker agora está cumprindo pena de 15 anos com trabalhos forçados por sua participação em confrontos com o exército libanês (Fonte : IMDB).

Quando Layla e seu marido chegam ao que supostamente é Israel, é possível ver muitos veículos militares passando (especialmente Hummers). Todos eles são pintados em cor de areia. Os veículos militares israelenses são verde-oliva.


Cartazes:




domingo, 30 de abril de 2023

MIRAGEM / DÉLIBÁB / MIRAGE (2014) - HUNGRIA / ESLOVÁQUIA

FAROESTE HÚNGARO

Um andarilho caminha em uma paisagem rural em tempo e local não determinado.  Esse homem chega a uma estação de trem e paga por uma passagem, embarcando em uma pequena locomotiva de carga que conduzirá apenas ele a um local. No meio do longo caminho, a locomotiva para e o andarilho constata que o idoso maquinista sofrera possivelmente um mal súbito vindo a óbito, mas ele consegue levar o veículo até a próxima estação. Os que ali estão o retém, temporariamente, até a vinda da polícia que resolve prendê-lo, mas a chegada de um pequeno grupo armado, que parecia aguardá-lo, impede sua prisão sendo conduzido para uma fazenda em troca de trabalho.

Na fazenda, o andarilho percebe que os trabalhadores são tratados de forma brutal pelos fazendeiros, assim como também percebe ao longo dos dias atividades ilegais e criminosas. Quando a única mulher do local (Orsolya Torok-Illyes) lhe deixa um bilhete informando que esses homens não são os donos reais da propriedade, ele decide fugir, mas é recapturado. Sua única chance de liberdade será confrontar os invasores fortemente armados.

Um prólogo nos apresenta a realidade em que vivem esses personagens: gangues de criminosos se espalharam pela Hungria, invadindo fazendas e trazendo de volta a escravidão às suas planícies. O que conseguimos descobrir é que o misterioso itinerante é Francis (Isaach De Bankole), um atacante da Costa do Marfim que se colocou em fuga após aceitar subornos e manipular partidas, mas terminou por parar em uma cidade remota onde uma gangue mantém pessoas em trabalhos análogos à escravidão, liderados por Cisco (Razvan Vasilescu).


Essa curiosa co-produção húngara-eslovaca agrega adereços que o aproximam de filmes como “Os Brutos Também Amam - Shane” e “Cavaleiro Solitário”, em um outro contexto, além do filme “12 Anos de Escravidão”. Dividido em atos que se unem por fade in / fade out e elementos pictóricos que ensejam apresentar ao espectador o que se seguirá, Miragem (tradução correta para Délibáb) é um filme que embora apresente uma narrativa linear parece desconexo, evasivo em alguns pontos, dando a impressão que algo se perdeu na mesa de montagem. O diretor Szabolcs Hajdu não facilita muito para os espectadores que tentam adivinhar o que exatamente está acontecendo, deixando-os a preencher as lacunas da estória. O diálogo é esparso, com longos momentos de silêncio amplificados pela paisagem desértica, assim como o andamento do filme, que foge de uma narrativa ágil, deixando a tradicional ação para o último ato, o que faz com que este faroeste contemporâneo húngaro se aproxime mais de festivais do que o circuito comercial. Apesar de ter uma bela fotografia de András Nagy (de “Post Mortem - Fotos do Além” - 2020) e uma trilha sonora bem interessante a cargo do percussionista americano de jazz Billy Martin não é suficiente para se tornar uma grande produção, mas de certa maneira atrai o espectador a continuar a acompanhar a estória (roteirizada por Jim Stark, um conhecido produtor do cineasta Jim Jarmusch, em conjunto com outros dois autores) até o seu final.

Quanto ao elenco, Isaach De Bankole, também produtor executivo deste filme, é o grande nome da produção. O ator costa-marfinense, é conhecido por filmes como “A Chave Mestra”, “007 Cassino Royale” e “Uma Noite Sobre a Terra. Seu personagem, o enigmático forasteiro que chega no local errado e na hora errada, se tornando um sopro de esperança para os que ali estão cativos, mas que não deseja se envolver, é um típico personagem dos faroestes (mais próximo dos italianos) e como tal terá sua contribuição neste contexto. O filme, dentre muitas situações não esclarecidas, nos deixa a percepção de que a fazenda seria um local de parada e trabalho para Francis continuar sua jornada, só que este não sabia que seus “empregadores” praticavam a escravidão moderna (algo que no nosso Brasil de extensões continentais nos é bem familiar, todo mês alguém surge nos noticiários salvo de uma situação análoga à escravidão) ou que a fazenda fora tomada antes de sua chegada (não é devidamente esclarecido). Em determinado momento, nosso herói descobrirá o destino de alguns párias que ali também estiveram. Orsolya Torok-Illyes (esposa do diretor Szabolcs Hajdu), curiosamente, será a principal peça na virada de mesa do filme ainda que sua personagem não tenha o desenvolvimento esperado até o momento crucial. O romeno Razvan Vasilescu faz Cisco que, com o seu trio de soldados (uma analogia aos antigos caubóis), impõe sua lei no local e fica obcecado (há um motivo) pelo desaparecimento da bola de futebol que Francis carregava consigo. O restante do elenco não compromete.

Dirigido pelo húngaro Szabolcs Hajdu, que teve filme lançado em nossos cinemas: “Cabaré Biblioteque Pascal” (2010), Miragem, exibido por aqui no canal Eurochannel (e constando no catálogo da Amazon Prime nesta data), é uma produção irregular, que pode ser considerada cult. Carrega alguns interessantes ingredientes, já citados, além de abordar muito rapidamente o preconceito e racismo (na cena do goleiro e das abelhas). Não é para todo o público, indica-se mais àqueles que buscam filmes europeus ou produções quase autorais.


Trailer:



 

Cartaz:












Isaach De Bankole em 007 - Cassino Royale


Filmografia Parcial:

Isaach De Bankole









Tornei-me um Criminoso (1984); Noir et Blanc (1986); Dane-se a Morte (1990); Uma Noite Sobre a Terra (1991);  No Coração das Trevas (1993); Casa de Lava (1994); Ghost Dog: Matador Implacável (1999); Pai de Aluguel (1999); Madrugada Mortal (2001); Sobre Café e Cigarros (2003); Manderlay (2005); A Chave Mestra (2005); Viúva Negra (2005); A Passagem (2005); Miami Vice (2006); 007: Cassino Royale (2006); O Escafandro e a Borboleta (2007); O Quinto Paciente (2007); A Batalha de Seattle (2007); A Guitarra (2008); 24 Horas: A Redenção (2008); Os Limites do Controle (2009);Minha Terra, África (2009); Miragem (2014); O Último Caçador de Bruxas (2015); Norman: Confie em Mim (2016); Pantera Negra (2018); Saída à Francesa (2020); Pantera Negra: Wakanda para Sempre (2022); Os Odiados do Casamento (2022)

sexta-feira, 31 de março de 2023

O VERDADEIRO CAMPEÃO / RUNNING BRAVE (1983) - CANADÁ


CORREDOR VALENTE

Final dos anos 50. Billy Mills (Robby Benson) é um jovem, órfão, metade branco metade Sioux que vive em uma reserva na Dakota do Sul, Kansas, e que passa a chamar a atenção por suas consecutivas vitórias nas corridas de cross-country no ensino médio. Seu treinador consegue que um importante treinador da Universidade do Kansas, Easton (Pat Hingle), venha vê-lo em ação. Mills ganha com facilidade, mas percebe que Easton parte do local dizendo que se soubesse tratar-se de um índio não teria gasto seu tempo na viagem, pois segundo suas experiências anteriores atletas nativos americanos são desajustados, indisciplinados e acabam desistindo por não se adaptarem. Mills lhe faz uma promessa de que com ele será diferente conseguindo uma bolsa para cursar a universidade e ingressar em sua equipe.

Logo na chegada, Mills percebe que enfrentará forte preconceito: é chamado de “chefe” e muitos mostram-se insatisfeitos com sua presença. Os dias passam e Easton começa a treinar Mills. Ele considera que o jovem precisará se esforçar muito se quiser disputar as Olimpíadas de Tóquio (1964) e vencê-la. Easton passa ensinamentos de como um campeão é moldado, como um pouco de talento e muito esforço pode torná-lo um campeão ..., mas parece não escutar o jovem: Billy acredita que mantendo-se no pelotão de trás na corrida de 10.000 metros conseguirá arrancar e ultrapassar o grande nome e recordista dessa competição: o australiano Ron Clarke (Daryl Menard.) Mas, para Easton, esta técnica está completamente fora de cogitação e sua experiência lhe diz que o jovem deverá manter-se sempre entre os primeiros o que frustra Mills. O jovem começa a obter várias vitórias, mas percebe que seu técnico parece mais interessado na pontuação que a universidade vem obtendo com suas vitórias do que nele propriamente e que todos que se apresentam a ele tem seus próprios objetivos (negócios e promoções) para quererem que vença pela equipe da universidade. Até a oferta de empego que lhe é oferecida passa a ser condicionada, de um modo bem sutil, a contínuas vitórias.

Mills, que conhecera a jovem Pat (Claudia Cron) na universidade e iniciara um romance, descobre que os pais de sua namorada não concordam com o relacionamento, mas o pior está por vir: seus tios Eddie Mills (Graham Greene) e Frank Mills (Denis Lacroix) chegam para visita-lo e partem logo em seguida descontentes com o que veem: seu sobrinho aculturado e longe de suas raízes. Billy, que suportara na maior parte do tempo,  as constantes hostilidades em silêncio, de seus colegas de universidade, agora apresenta uma mente conturbada passando a perder corridas e despencar cada vez mais de posição nas provas até que resolve desistir de tudo, inclusive de Pat. Ao voltar à reserva é recebido como celebridade, mas percebe que não é o único mergulhado em problemas: seu tio Frank, um talentoso desenhista, que, por sua raça, nunca recebera reconhecimento, está imerso em alcoolismo e depressão profunda.

O Verdadeiro Campeão (Running Brave) chegou aos cinemas cariocas em outubro de 1984 ficando pouquíssimo tempo em cartaz, não sendo mais visto no Brasil, nem lançado em nenhuma mídia ou canal de tevê aberto. O filme foi lançado um ano antes, provavelmente para aproveitar a publicidade que as Olimpíadas de Los Angeles (1984) trariam. E para o público brasileiro também se mostraria atrativo: em 06 de agosto de 1984 Joaquim Cruz seria o primeiro atleta brasileiro a conquistar a medalha de ouro nos 800 metros. A interessante coincidência, além de ter sido lançado dois meses após a conquista de Cruz, foi o fato de que ambos os atletas foram os únicos de seus países a ganharem medalhas de ouro em suas modalidades não sendo superados por seus conterrâneos até o presente momento. No caso, Mills foi campeão americano dos 10.000 metros. Mas o que levou esse filme a ser analisado por aqui? Posso dizer que se mostra muito bem realizado, que conta a história da trajetória de Mills de seu início até sua emocionante vitória contra todas as probabilidades. Mills entrou para os fuzileiros, treinou sozinho, conseguiu a classificação como representante americano (nessa época ainda era possível), correu com calçados emprestados, pois o comitê olímpico não o considerou um atleta com chances de vitória (os calçados eram dados aos possíveis campeões - essa informação não é citada no filme) e obteve a vitória através de sua estratégia e uma força de vontade incrível para vencer os atletas favoritos, o australiano Ron Clarke e o tunisiano Mohammed Gammoudi (interpretado por Greg Coyes). Um exemplo de resiliência e superação.

Mas esta produção canadense, que financeiramente não se pagou, apresenta um ótimo elenco e toca com muita sensibilidade num tema espinhoso para os americanos: o racismo e a segregação contra os nativos americanos, os primeiros a ocuparem a terra antes da chegada do homem civilizado, que possuíam imensas tribos e que foram sendo massacradas e remanejadas ao longo dos séculos até parte de seus descendentes viverem de benefícios governamentais. Os antigos faroestes colocavam os índios como selvagens e agressivos, mas a verdadeira história se mostra muito diferente. Atualmente as produções desse gênero sofrem um necessário revisionismo para o esclarecimento dos fatos.

No elenco, temos Robby Benson muito bem como Billy Wills, um jovem mostrando ao seu povo que os seus sonhos não precisam ficar presos em suas mentes. O seu personagem precisará competir contra interesses, contra o racismo e o preconceito medieval e até a falta de incentivo financeiro. Benson segura o filme e permite que o público torça por seu personagem. Pat Hingle faz o técnico de Billy em um papel bem interessante. O roteiro o apresenta como um bom homem, cuja responsabilidade era mais com a universidade, mas que não fora o responsável pela saída do jovem. De certo modo, seus ensinamentos também contribuíram para a vitória. A cena final onde Hingle vai de encontro a Billy é muito bem encaixada no filme e por si só leva a muitas conclusões. Claudia Cron faz a jovem de classe média que assume o namoro conturbado, casa com Billy e o apoia. A filmografia da atriz, que também fora modelo da Agência Ford, termina em 1993 com participações também em telefilmes e seriados. Graham Greene interpreta Eddie Mills, um dos tios de Billy, um homem mais crítico e não que gosta do que vê: Billy se distanciando de suas raízes. Denis Lacroix interpreta Frank Mills, um desenhista talentoso que teve medo da vida fora de sua cultura e nenhum reconhecimento, devido a sua origem, por parte dos brancos, refugiando-se na bebida e preso a uma profunda melancolia e depressão. August Schellenberg interpreta, em rápida participação, o pai de Billy. Jeff McCracken interpreta Dennis Riley, colega de quarto de Billy, que com o tempo passa a compreender como suas atitudes e a de seus colegas são reprováveis.

O Verdadeiro Campeão parece mais um telefilme do que uma produção feita para os cinemas, mas possui muitas qualidades. O diretor Donald Shebib que, coincidentemente, após essa produção, se voltaria mais para telefilmes e seriados, soube como conduzir o roteiro de Henry Bean (Justiça Cega -1990) e Shirl Hendryx envolvendo o espectador desde o início. É uma produção pouco conhecida nos dias atuais, mas que se mostra um bom passatempo. Para quem gosta de filmes de superação e competições poderá ter uma grata surpresa. A corrida final é um dos momentos mais emocionantes do filme. O título do filme, "Running Brave", refere-se ao apelido que Mills ganhou após a conquista: “Corredor Valente”. Os créditos finais mereciam uma música como a do grupo Survivor: "Man Against the World".

 

Trailer:


Curiosidades:

Disponível no YouTube com o título original bastando acionar as legendas traduzidas automaticamente

O tempo de Mills na prova foi 28m24s04, recorde olímpico

Mills (1938) foi o primeiro atleta americano a obter um recorde mundial nos 10.000 metros (28m17s) e o  segundo nativo-americano, depois do decatleta Jim Thorpe, a conquistar uma medalha de ouro olímpica.

Ron Clarke (1937-2015) possuía a marca de 28m15s na distância, enquanto nem Gammoudi nem Mills haviam corrido abaixo de 29 minutos.

Música de Mike Post (CHiPs, Arquivo Confidencial, Contrato de Risco, O Super Heroi Americano, Esquadrão Classe A, Magnum, Contra Tempos, Nova Iorque Contra o Crime, Lei e Ordem ...)

Orçado em U$ 8 Milhões com arrecadação mundial de U$ 3 Milhões

Billy Mills ainda é o único americano a ganhar a medalha de ouro no evento masculino de corrida de longa distância de 10.000 metros nos Jogos Olímpicos de Verão.

A data em que Billy Mills conquistou a medalha de ouro nas Olimpíadas de Tóquio de 1964 foi 14 de outubro de 1964.

A genealogia de Billy Mills (Robby Benson) era meio branco / meio índio Sioux. Este último também é conhecido como Oglala Sioux ou Oglala Lakota e é uma das sete subtribos do povo Lakota.

O nome da corrida que como estudante Billy Mills (Robby Benson) venceu foi "Custer County High School Cross Country Championship". O nome do campus da faculdade que Mills frequentou quando jovem era Universidade do Kansas.

O nome da reserva indígena americana Lakota Sioux era "Pine Ridge".

Embora lançado pela primeira vez no final de 1983 em territórios norte-americanos como EUA e Canadá, o filme foi lançado predominantemente em todo o mundo em 1984, que foi o 20º aniversário da vitória de Billy Mills.

O epílogo final do filme afirma: "Billy Mills é agora um executivo de negócios de sucesso que vive em Sacramento, Califórnia, com sua esposa Pat e suas três filhas. Ele dedica muito de seu tempo trabalhando com jovens nativos americanos para ajudá-los a atingir seus objetivos." A organização citada nos créditos finais que desempenhou essa função foi o "Billy Mills Indian Youth Leadership Program". Além disso, Mills escreveu um livro chamado "Wokini: A Lakota Journey to Happiness & Self-understanding" (1999).

O verdadeiro Billy Mills foi segundo-tenente do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos após sua graduação na Universidade do Kansas em 1962.

O nome de nascimento completo de Billy Mills é William Mervin Mills. O nome "Billy" é na verdade um apelido.

Primeiro filme de língua inglesa Graham Greene nos cinemas. O ator foi indicado ao Oscar por Dança com os Lobos

Vinte anos depois, Mills e Pat visitaram Tóquio para a estreia de Running Brave, um filme sobre sua vida. Ao final das cerimônias. Mills pediu para ir ao Estádio Nacional. Embora caísse uma chuva leve, seus anfitriões obedeceram. Enquanto um pequeno grupo de pessoas observava. Mills deu sua volta da vitória.

Mills casou com Patricia Ann Harris em 1962. O casal tem 3 filhos.

Ninguém deu ao tenente da Marinha uma chance de vencer. Os americanos da época simplesmente não eram corredores de longa distância. A corrida de 10.000 metros nunca havia sido vencida por um atleta americano. O orgulho Sioux e o orgulho da Marinha motivaram o tenente Billy Mills. Ele chocou os especialistas ao vencer a corrida e trazer para casa a medalha de ouro olímpica. Em 1983, o filme chamado Running Brave foi feito para comemorar sua conquista

Um total de 5.000 atletas olímpicos, representando 94 países, competiram no Meiji Stadium em Tóquio nos jogos de 1964. No atletismo, Billy Mills, um Lakota de Pine Ridge, Dakota do Sul, chocou o mundo em 14 de outubro de 1964. O fuzileiro naval de 26 anos havia corrido na Universidade de Kansas. Naquele dia, Mills, com poucas chances de vencer, era um dos 38 corredores na corrida de 10.000 metros e causou uma grande surpresa ao vencer a corrida e estabelecer um novo recorde olímpico de 28: 24,4.



Robby Benson em Meu Pai, Eterno Amigo (1984) 







Pat Hingle  em Batman (1989(







Claudia Cron e Mickey Rourke em Quando os Jovens se Tornam Adultos (1982)








Billy e Patricia Mills na época



 

 









Billy Mills e Robby Benson












A Corrida de Mills em Tokyo



Depoimento de Mills (legendas traduzidas automaticamente) 



Cartazes:



Filmografias Parciais:

Robby Benson



Um Clarão nas Trevas (1967); Renegado pelo Destino (1973);  Susan e Jeremy, o Primeiro Amor (1973); Todos Muito Estranhos (1974); Virginia Hill (1974); Os Aventureiros do Lucky Lady (1975); A Ponte do Desejo (1976); Se Não Me Mato, Morro! (1978);  Castelos de Gelo (1978); Corredor Polonês (1979); Minha Vida É Uma Piada (1980); Tributo (1980); A Escolha (1981); Almas Gêmeas (1982); O Verdadeiro Herói (1983); Meu Pai, Eterno Amigo (1984); Limites da Cidade (1984); Sonho da Califórnia (1985); Um Tira de Aluguel (1987); Amor Moderno (1990); Natal: Momentos para Sonhar (1996); Coração de Dragão 2: Um Novo Começo (1999 - narração); Brave New World (2011); Ruptura (seriado - 2022)

 

Pat Hingle  (1924-2009)






Sindicato de Ladrões (1954); O Rancoroso (1957); A Mulher do Próximo (1957); Clamor do Sexo (1961); Cem homens marcados (1961); Quando Irmãos se Defrontam (1963); A Volta para o Adeus (1963); Convite a Um Pistoleiro (1964); Nevada Smith (1966); Os Corruptores (1968); A Marca da Forca (1968); A Noite Convida ao Crime (1968); Os 5 de Chicago (1970); A Sala dos Espelhos (1970); Receita: Violência (1972); O Pequeno Índio (1973); A Vida Secreta de John Chapman (1976); Um dia de sol no Natal (1977);  Rota Suicida (1977); Tarântulas (1977); Elvis não Morreu (1979); Norma Rae (1979); Desastre no Trem da Morte (1979); O Difícil Regresso (1980); Ratos E Homens (1981); Romance em Washington (1982); Combate Final (1983); O Verdadeiro Campeão (1983); Impacto Fulminante (1983);   A Traição do Falcão (1985); Chuva de Milhões (1985); Caçada Maldita (1985); Comboio do Terror (1986); Caçada a Claude Dallas (1986); O Preço da Justiça (1987); Presente de Grego (1987); O Resgate de Jessica (1989); Batman (1989);  Os Imorais (1990); Batman: O Retorno (1992); Cidadão Cohn (1992);  Rápida e Mortal (1995); Batman Eternamente (1995); Truman (1995); Casamento em Família (1997); O Iluminado (1997); Batman & Robin (1997); Terras Perdidas (1997); Muppets do Espaço (1999); Shaft (2000); Em Busca da Justiça (2000); Estrada para Redenção (2001); Undoing Time (2008)


Claudia Cron







Loucos de Dar Nó (1980); Quando os Jovens se Tornam Adultos (1982); Vida de Solteiro (1982); Matar e Correr (1982); O Verdadeiro Campeão (1983); Clube dos Homens (1986); Aspen - Dinheiro, Sedução e Perigo (1993)

 

Graham Greene







A Revolução (1985); Uma Estrada Sem Limites (1989); Dança com Lobos (1990); Perdidos no Deserto de Neve (1990); O Último Selvagem (1992); Coração de Trovão (1992); Desejo Assassino (1993); Medicine River - De Volta às Origens (1993); Um Salto para a Liberdade (1994);  Maverick (1994); O Anjo da Guarda (1994); Camilla (1994); Duro de Matar 3: A Vingança (1995); Sabotagem (1996); A Imagem de um Pesadelo (1998); O Guerreiro da Paz (1999); À Espera de um Milagre (1999); Assunto de Meninas (2001); Neve pra Cachorro (2002); Transamérica (2005); Sonhando com Búfalos (2005); Uma Família Bem Diferente (2007); A Saga Crepúsculo: Lua Nova (2009); A Saga Crepúsculo: Lua Nova (2010); Passagem para a Vida (2011); A Saga Crepúsculo: Amanhecer, Parte 2 (2012); Um Conto do Destino (2014); Terra Selvagem (2017); A Cabana (2017); Shadow Wolves (2019)


August Schellenberg (1936–2013)







Perseguição Mortal (1981); Free Willy (1993); Iron Will: O Grande Desafio (1994); Free Willy 2 - A Aventura Continua (1995); Free Willy 3: O Resgate (1997); A Vingança de um Pistoleiro (2000); No Limite do Silêncio (2001); O Ataque dos Vermes Malditos 4: O Começo da Lenda (2004); Resgate Abaixo de Zero (2006); Enterrem Meu Coração na Curvado Rio (2007).

 

Jeff McCracken






A Taberna do Inferno (1978); Verão do Medo (1978); Em Nome da Paz (1981); Quando Dezembro Chegar (1981); O Verdadeiro Campeão (1983); Fantasmas Endiabrados (1990) 


Denis Lacroix







Enraivecida na Fúria do Sexo (1977); Scanners: Sua Mente Pode Destruir (1981);  Perseguição Mortal  (1981); O Verdadeiro Campeão (1983); A Revolução (1985); A Honra de um Bravo (1990); Hábito Negro (1991); Raposa Negra (1995); Song of Hiawatha (1997); Spirit Bear: The Simon Jackson Story (2005)


Fontes:

O Globo

IMDB

theolympians.co

Livro: American Indian Biographies

Livro: Athletes por Aaseng, Nathan

Livro: Biographical dictionary of American sports por Porter, David L.

Livro: Careers in the US Marine Corps por Kiland, Taylor Baldwin

Livro: Daily life of Native Americans in the twentieth century por Fixico, Donald Lee - Pag 100