Mostrando postagens com marcador depressão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador depressão. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de abril de 2023

O PIOR VIZINHO DO MUNDO / A MAN CALLED OTTO (2022) - ESTADOS UNIDOS / SUÉCIA

 


"... DISSESTE QUE SE TUA VOZ TIVESSE FORÇA IGUAL / À IMENSA DOR QUE SENTES / TEU GRITO ACORDARIA / NÃO SÓ A TUA CASA / MAS A VIZINHANÇA INTEIRA ..."* 

Otto (Tom Hanks) é um viúvo apegado ao luto, rabugento, ríspido, antissocial e administrador de um pequeno condomínio na qual vive um cotidiano sem maiores perspectivas. É conhecido por criticar e julgar seus vizinhos de forma exasperada normalmente por não cumprirem suas regras. Quando se aposenta do emprego, decide cometer suicídio. A chegada de uma nova família no condomínio com comportamento bem diferente do que está acostumado começa a interferir diretamente na vida do depressivo idoso, principalmente a partir da jovem e animada matriarca da família Marisol (Mariana Treviño), que insiste em uma amizade inesperada que iniciará uma mudança na vida de todos ao redor.

“Um homem chamado Ove” (En man som heter Ove / A Man Called Otto - 2015), filme sueco, dirigido por Hannes Holm a partir do Best Seller de Fredrik Backman foi indicado a dois Oscars incluindo o de Melhor Filme Estrangeiro. Uma pergunta deve vir a mente de quem lê essas linhas: por que realizar um remake? Para quem já leu algumas de minhas análises anteriores a resposta é: o americano médio não gosta de assistir filmes legendados, de outras línguas que não a inglesa. Como o seu mercado é constituído de uma poderosa indústria de entretenimento, há uma certa lógica em trazer um produto a esse público e a um público global (de mesmo gosto), e se um grande ator estiver por trás do projeto colherá maior projeção. O título nacional nos remete a uma possível comédia (Um Homem Chamado Otto seria a tradução para o filme, mas comercialmente menos chamativa), não que não haja esse elemento, que surge através de situações bem dispostas e comedidas, apropriadas ao filme, mas o filme se mostrará mais voltado ao drama.

O Pior Vizinho do Mundo pode ser visto como um drama sobre redenção ou uma experiência humanizada, mas, quando ativamos nossa atenção seletiva, é nas entrelinhas que o filme se mostra ainda melhor. Logo no início, nos é mostrado como as friezas no ambiente de trabalho podem ser claramente perceptíveis. Em seu último dia de trabalho, Otto ganha uma festa surpresa de despedida daquele que acelerou sua forçada aposentadoria através de um "pacote rescisório" e do funcionário que ele treinara e se tornou seu supervisor. Otto resolve partir, mas a festa não é interrompida afinal o bolo está ali para ser consumido. O ar de aparente tristeza dos colegas de Otto é substituído imediatamente pela avidez em manter a festa. O bolo com rosto de Otto sendo cortado representa o corte pela empresa e a separação dos que ali estão.  Temos também a situação da compra da corda na loja, que nada mais é do que uma crítica às empresas que contratam pessoas e as colocam na linha de frente do atendimento ao consumidor sem treinamento ou poder de decisão e que ficam engessadas às regras da qual sequer entendem. O momento do metrô é outra crítica à nossa atual sociedade do absurdo, no qual as pessoas preferem gravar a ocorrência, em troca de “likes” nas redes sociais, do que sair de sua imobilização e ajudar uma pessoa. Podemos ver que as corporações estão no âmago da história e não por acaso, uma corporação será a grande vilã.

Há muitas pessoas cuja a perda de um ente querido parece também ter levado uma parte delas no processo. A pergunta é se essa parte para Otto está completamente perdida ou ainda há fogo sobre as cinzas. Vemos Otto lamentar cotidianamente as mudanças decorrentes da passagem do tempo, mas a chegada de Marisol e sua família abrirá forçosamente espaço para vínculos afetivos, com Otto interagindo novamente com seus interessantes vizinhos que circundam o seu dia a dia. Há um propósito para tudo afinal, mas isso será o suficiente? Ainda que os dois filmes atinjam notas semelhantes não podemos dizer que O Pior vizinho do Mundo não seja uma produção envolvente e comovente com momentos cômicos e grandes atuações que, acertadamente, começa a nos revelar, depois de um bom tempo de projeção, em pitadas de flashback, como era o verdadeiro Otto, como sua vida era colorida (ainda que socialmente desajeitado) ao lado da esposa e como tudo foi se tornando cinza (até de modo pictórico). E, por mais óbvio que o roteiro possa parecer, há uma eficiência em como a estória nos é contada pelas mãos do diretor Marc Forster de “007- Quantum of Solace”, “Guerra Mundial Z” , "O Caçador de Pipas" e “A Última Ceia”.

O elenco está ótimo. Tom Hanks (que também é um dos produtores) segura o filme nas mãos. Sua interpretação dá vida a Otto do primeiro ao último minuto, amparado pela efervescente interpretação de Mariana Treviño como a grávida mexicana Marisol cuja simpatia e otimismo causam um “inconveniente tumulto” na vida de Otto, forçando-o a rever seus valores e suas prioridades. Cameron Britton faz Jimmy, um dos mais antigos do condomínio e que passa seus dias fazendo exercícios e tentando interagir com os demais. Tommy (Manuel Garcia Rulfo) interpreta o marido de Marisol, que Otto considera como um inútil e idiota (na verdade idiota é o qualificativo mais usado pelo idoso com as pessoas), mas que tem um bom coração. Rachel Keller é Sonya, a mulher que dá sentido na vida do jovem Otto (interpretado por Truman Hanks, filho de Tom Hanks) e lhe tira o mesmo sentido ao “partir”. Juanita Jennings (Anita) e Peter Lawson Jones (Reuben) interpretam o casal de idosos que estão prestes a perder a propriedade e da qual Otto no passado se distanciou. Mack Bayda faz o jovem Malcolm e Kailey Hyman a jovem repórter.

O Pior Vizinho do Mundo mostra-se um drama sutil, otimista e redentor. Passa uma mensagem valiosa sobre as pequenas vitórias das pessoas comuns e que, no fim das contas, todos somos importantes para alguém. Faz até com que venhamos a torcer por esse idoso mal-humorado que luta contra uma lacerante dor da alma e de quem inicialmente não gostamos muito. O filme tem uma boa trilha sonora que agrada aos ouvidos; uma metragem mais longa que o habitual, mas que nenhum momento se percebe como tal, além de um gatinho muito carismático.



 

Trailer:


 

 

Curiosidades:

Em uma cena, o rosto de Tom Hanks teve que ser rejuvenescido digitalmente para fazê-lo parecer ter trinta e poucos anos. A equipe de efeitos visuais usou filmagens e fotos de Meus Vizinhos são um Terror (1989) para criar um projeto digital

A adaptação cinematográfica foi o filme estrangeiro de maior bilheteria de 2016 nos Estados Unidos.

O livro de Fredrik Backman e o filme sueco foram intitulados A Man Called Ove.

As roupas e a aliança de casamento de Otto são muito grandes (ele não estava comendo). Quando Otto estava revivendo as memórias de seu eu de 20 e poucos anos (interpretado por seu filho da vida real, Truman Hanks), você pode ver brevemente um reflexo como o Otto mais velho e atual.

Quando Otto está perseguindo o caminhão da UPS gritando 'Os caras com os caminhões brancos', é uma referência óbvia à FedEx e uma referência ao próprio filme de Hanks, Náufrago (2000), onde seu personagem trabalhou para a FedEx.

Rita Wilson (esposa de Tom. Hanks) contribuiu para a trilha sonora do filme. Ela cantou "Til Your Home" com Sebastian Yatra.

O gato que costumava interpretar o vira-lata que Otto encontra no filme se chama "Sméagol".

* trecho retirado da música "Há Tempos" do Legião Urbana


Trilha Sonora:

This Woman's Work - Kate Bush

Consolations S. 172 No. 3 Lento Placido (Franz Liszt) - Khatia Buniatishvili

On the Move - Cut the Lights

La Cosecha - El Santo Golpe

My Crew (Woooo) - Cadence Weapon

White Boy Summer - Chet Hanks

Til You're Home - Rita Wilson and Sebastián Yatra

Hell on the Highway - Andrew Oye and Paul Laine

La Mer Azure - Robert Drasnin

Old Folks - Kenny Dorham

Sun Is Shining  - The Fireman


 Kate Bush - This Woman's Work



 

Rita Wilson, Sebastián Yatra - Til You're Home




Cartaz:












Filmografia Parcial:

Tom Hanks







Trilha de Corpos (1980); Splash: Uma Sereia em Minha Vida (1984); A Última Festa de Solteiro (1984);  O Homem do Sapato Vermelho (1985); Voluntários da Fuzarca (1985);Um Dia a Casa Cai (1986); Dragnet - Desafiando o Perigo (1987); Quero Ser Grande (1988); Palco de Ilusões (1988); Meus Vizinhos São um Terror (1989); Joe Contra o Vulcão (1990); A Fogueira das Vaidades (1990); Uma Equipe Muito Especial (1992); Sintonia de Amor (1993); Filadélfia (1993); Forrest Gump: O Contador de Histórias (1994); Apollo 13 - Do Desastre ao Triunfo (1995); The Wonders: O Sonho Não Acabou (1996); O Resgate do Soldado Ryan (1998); Mens@gem Pra Você (1998); À Espera de um Milagre (1999); Náufrago (2000); Estrada Para Perdição (2002); Prenda-me Se For Capaz (2002); O Terminal (2004); O Código Da Vinci (2006); Anjos e Demônios (2009); Capitão Phillips (2013); Walt nos Bastidores de Mary Poppins (2013); Ponte dos Espiões (2015); Sully: O Herói do Rio Hudson (2016); Inferno (2016); O Círculo (2017); Um Lindo Dia na Vizinhança (2019); Greyhound: Na Mira do Inimigo (2020); Fita de Cinema Seguinte de Borat (2020); Relatos do Mundo (2020); Finch (2021); Pinocchio (2022); Asteroid City (2022); O Pior Vizinho do Mundo (2022)


Mariana Treviño







Los secretos de Göring (2006); Luciana (2010); Busco empleo (2010); Não Sei Se Corto os Pulsos ou Se Deixo Crescer (2013); Tercera Llamada (2013); Amor de mis amores (2014); Elvira, te daría mi vida pero la estoy usando (2014); Una última y nos vamos (2015); Sabrás qué hacer conmigo (2015); La vida inmoral de la pareja ideal (2016); Cómo cortar a tu patán (2017); Homem ao Mar (2018); Eres mi pasión (2018); Perfectos desconocidos (2018); Club de Cuervos (seriado 2015-2019); Polvo (2019);Los Rodríguez y el más allá (2019); Dedicada a mi Ex (2019);  Dedicada a mi Ex (2019); Narcos: Mexico (seriado 2018); A Casa das Flores (2018); O Pior Vizinho do Mundo (2022)


Rachel Keller







Flutter (2012);  Fargo (seriado 2014); Write When You Get Work (2018); Legião (seriado 2017); Sombra Lunar (2019); Butcher's Crossing (2022); O Pior Vizinho do Mundo (2022)


Truman Hanks







Relatos do Mundo (2020); O Pior Vizinho do Mundo (2022)


Cameron Britton







Suspeito Improvável (2010); Camp Takota (2014); Questão de Escolha (2014); Day Out of Days (2015); Claire Foy in Millennium: A Garota na Teia de Aranha (2018); Mindhunter (seriado 2017); Manhunt (2017); The Umbrella Academy (seriado 2019); Bre Mueck in Emmageddon (2020); O Pior Vizinho do Mundo (2022)


Mack Bayda 







Experiência Alpha (2020); Ouija - Invocando o Mal (2020); A Semana da Minha Vida (2021); O Pior Vizinho do Mundo (2022)


Juanita Jennings







Correndo Contra o Tempo (1990); Em Busca de Confusão (1991); Instinto Selvagem (1992); Pulso Zero (1992); A Outra Face da Inocência (1993); Além da Escuridão (1994);  Em Terra Prometida (1994); Coisas que Você Pode Dizer só de Olhar para Ela (2000); Do que as Mulheres Gostam (2000); Baby Boy - O Rei da Rua (2001); O Júri (2003); Os Acorrentados (2005); As Garotinhas do Papai (2007); Temos Vagas 2: A Primeira Diária (2008); Love Spoken (2018); O Pior Vizinho do Mundo (2022)


Peter Lawson Jones







A Sombra do Inimigo (2012); A Festa do Crush (2019); Judas e o Messias Negro (2021); O Pior Vizinho do Mundo (2022); On Sacred Ground (2023)


Manuel Garcia Rulfo







La última y nos vamos (2009); 180º (2010); Abençoe-me Ultima: A Feiticeira (2012); Cake: Uma Razão para Viver (2014); Tempo Contado (2016); Sete Homens e um Destino (2016); La vida inmoral de la pareja ideal (2016); Assassinato no Expresso do Oriente (2017); Sicário: Dia do Soldado (2018); Perfectos desconocidos (2018); A Possessão de Mary (2019); Esquadrão 6 (2019); Greyhound: Na Mira do Inimigo (2020); Justiça em Família (2021); O Poder e a Lei (seriado 2022); O Pior Vizinho do Mundo (2022)

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O CHALÉ / THE LODGE (2019) - REINO UNIDO / CANADÁ / ESTADOS UNIDOS


PROVOCATIVO E INTRIGANTE

Richard (Richard Armitage) resolve se separar de sua esposa Laura (Alicia Silverstone) e lhe comunica que em breve se casará com sua namorada Grace (Riley Keough).  A situação causa inesperadas consequências que obrigam Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) a morarem com o pai.  Como o casal de filhos não aceita Grace e ainda a responsabiliza pela dissolvição da família, Richard ,que precisa voltar ao seu trabalho, convence o trio a passar alguns dias juntos em um Chalé em meio as montanhas geladas e assim se conhecerem melhor.  Só que o adolescente  Aidan  investiga o passado de Grace e descobre que ela, aos doze anos, estivera diretamente envolvida com culto religioso, cujo  pai era o líder e ela a fora única sobrevivente do episódio. Richard fora o jornalista que escrevera o artigo para um jornal. Grace não consegue interagir com as crianças, esconde de Richard que faz uso de medicação e começa a ter sensações estranhas sobre o local enquanto Aidan e Mia acreditam que foram deixados sozinhos com uma psicopata.  




The Lodge (ainda sem título no Brasil – talvez o mais a apropriado fosse “O Chalé") não teve seu orçamento divulgado, mas teve uma bilheteria mundial baixa, em torno de 2 milhões de dólares.  O filme estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2019, um festival que apoia filmes independentes, logo os orçamentos são normalmente baixos, bem longe das cifras de filmes Hollywoodianos. E a produção é de três países: Reino Unido, Canadá (onde ocorreram as filmagens ) e Estados Unidos.  O filme recebeu críticas desfavoráveis da mídia especializada, mas entre o público vem colhendo elogios. Não por acaso: é um filme que abre discussões para vários temas e nos entrega um belo terror psicológico que não vem mastigado. O espectador tem que prestar atenção aos detalhes que compõe a história e assim entender como as situações apresentadas puderam levar a um final bem interessante.



Talvez um dos maiores problemas de The Lodge seja o mesmo que vem ocorrendo com algumas produções do gênero nos últimos anos: se vender como algo extraordinário em sua divulgação com frases tipo: “o melhor terror dos últimos anos” e etc. Já vimos o que isso causou em filmes como Hereditário e A Bruxa que se venderam como os novos “O Exorcista”.  Quando este tipo de publicidade é utilizado pelos distribuidores cria-se uma grande expectativa e a inevitável responsabilidade de cumprí-la. O ideal é uma produção ser lançada com outras formas menos agressivas de divulgação e deixar o público e o tempo dar o aval que a produção mereça. The Lodge é um filme bem intencionado, bem realizado e dirigido. Se ganhará o status de cult ou “um filme interessante” fica a cargo do tempo, o melhor dos juízes.


A premissa do filme pode não ser muito atraente, mas a forma inteligente como desenvolveram este argumento sim.  Talvez uma das chaves do filme seja nos levar a um lugar surpreendentemente sombrio e irremediavelmente triste, em que seu aspecto mais assustador é nos revelar como tudo isso é bem humano. E o desenvolvimento dos personagens é algo bem interessante:  Richard (do bom seriado “Não Fale com Estranhos”) não é uma pessoa boa: ele está trocando a esposa por uma mulher mais nova e diz friamente que irá se casar pouco se importando com os sentimentos de Laura (Alicia Silverstone, em breve, mas impactante participação)  e as consequências do que possa ocorrer a ex-esposa. Ele não é um bom pai porque literalmente larga seus filhos com uma pessoa com um passado sombrio da qual conhece muito bem sobre o culto e a participação de Grace (Riley Keough – a neta mais velha de Elvis Presley) nos eventos e, ao mesmo tempo, parece não se importar muito com Grace sabendo que seus filhos a odeiam, mal a conhecem e que terá conviver durante alguns dias sendo imprevisível o que possa ocorrer dessa equivocada interação.  Laura é uma personagem que aparece rápido, mas abre muitas discussões sobre os caminhos sombrios que a depressão leva a algumas pessoas. Grace é uma incógnita. Foi dito ( site IMDB)  que seu personagem baseia-se no caso Heaven’s Gate (1997) de suicídio coletivo. Sabemos de um fragmento de seu passado, pouco sabemos de seu presente e não temos assim como antever suas ações futuras, mas podemos conjecturar. Crianças são imprevisíveis e suas criatividades imensas, logo essa união de personalidades já seria algo bem interessante de explorar nas telas, mas junte-se a isso tragédias, dogmas religiosos, estigmas, um lugar desolado, ódio, indiferença, ressentimentos, solidão ....  um barril de pólvora.  A dupla Veronika Franz e Severin Fiala (a dupla austríaca que fez “Goodnight Mommy” em 2015) criou uma atmosfera que nos leva a crer que sabemos para onde o filme se encaminha e isso é um engano (contar ou explicar o filme estraga toda a experiência – o final será explicado no fim da filmografia dos atores): o roteiro planta uma gama de dúvidas, possibilidades e potenciais reviravoltas antes de se decidir pela mais devastadora de todas.




Há interessantes inspirações e referências: a casa de bonecas é tida como uma referência a Hereditário ( 2018 ) e o lugar desolado e coberto, de densa neve, que prende o trio a uma infeliz coincidência,  lembra o clássico O Iluminado. Na tevê passam os filmes o Enigma do Outro Mundo  (1982) , Uma Noite Mágica (1998) e Grito de Pavor (1961). Interessante também é percebermos que as produtoras são a famosa inglesa Hammer dos filmes de horror dos anos 60 (seu auge) até os anos 80 e retornando em 2007 e a americana FilmNation responsável por produções como A Estrada (2009);  A Pele que Habito (2011);  Fome de Poder (2016); A Chegada (2016);  O Irlandês (2019).




The Lodge logra sucesso em implementar uma mistura de vários ingredientes, no intuito de obter um efeito estranho e perturbador. Tem uma narrativa linear e coesa, onde tenta levar o espectador para vários caminhos entregando uma solução que talvez não agrade a todos, mas que sem dúvida é bem criativa. O ritmo cadenciado é perfeitamente adaptável à história onde não há tentativas de fazer o espectador pular da cadeira ou se horrorizar. Na verdade busca trazer a este aquela curiosidade de tentar descobrir o que se passa. Um jogo para adivinharmos quem está realmente jogando.

Trailer:



Curiosidades

O nome do cachorro é Grady, que é o nome do personagem do cuidador do Overlook Hotel na história de "The Shining", de Stephen King.

O líder do culto Aaron Marshall, pai de Grace Marshall, é interpretado pelo pai da atriz Riley Keough, Danny Keough.

A pintura de Maria vista na cena de abertura e ao longo do filme é uma reprodução de L'Annunciata (Virgem Anunciada) pelo artista renascentista italiano Antonello da Messina (1430-1479).

Filmografia Parcial

Richard Armitage 










Robin Hood (seriado 2006 a 2009); Capitão América: O Primeiro Vingador (2011); Strike Back  (seriado 2010 a 2011); O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012); O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013); No Olho do Tornado (2014); O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos (2014); Hannibal (seriado 2015);  Alice Através do Espelho (2016); Brain on Fire (2016); Sonâmbula (2017); A Peregrinação (2017); Oito Mulheres e um Segredo (2018); The Lodge (2019); Operação Berlim (seriado 2016 a 2019); Não Fale com Estranhos (seriado 2020)

Riley Keough










The Runaways: Garotas do Rock (2010); Paixão Obsessiva (2011); Jack & Diane (2012); O Beijo do Vampiro (2012); Mad Max: Estrada da Fúria (2015); Docinho da América (2016); À Beira do Abismo (2017); Ao Cair da Noite (2017); Logan Lucky: Roubo em Família (2017); A Casa que Jack Construiu (2018); Noite de Lobos (2018); The Lodge (2019); Pássaro do Oriente (2019); Zola (2020); The Devil All the Time (2020)

Alicia Silverstone










Paixão sem Limite (1993); Traição Fatal (1994); O Esconderijo (1995); As Patricinhas de Beverly Hills (1995); Batman & Robin (1997); De Volta para o Presente (1999); Quebrando Todas as Regras (2002); Miss Match (seriado 2003);  Um Salão do Barulho (2005); Vítima da Sedução (2005); Trovão Tropical (2008); A Arte da Conquista (2011); Butter: Deslizando na Trapaça (2011); Amigas Inseparáveis (2013); King Cobra (2016); Um Cachorro Para Dois (2016); Diário de um Banana: Caindo na Estrada (2017); O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017); Do Jeito que Elas Querem (2018); American Woman (seriado 2018); The Lodge (2019); Bad Therapy (2020); Masters of the Universe: Revelation (desenho - voz - 2020)

Jaeden Martell










Um Santo Vizinho (2014); Deixa Rolar (2014); Sob o Mesmo Céu (2015); Destino Especial (2016); O Livro de Henry (2017); It: A Coisa (2017); The Lodge (2019); It: Capítulo Dois (2019); Entre Facas e Segredos (2019); Em Defesa de Jacob (Mini-série 2020)

Lia McHugh










Hot Summer Nights (2017); Totem (2017); Totem (2017); American Woman (seriado 2018); The Lodge (2019); Os Eternos (2021


Explicação sobre o final 

O plano das crianças começa ao mostrarem a Grace um vídeo que dariam para o pai com os melhores momentos que passaram juntos quando sua mãe ainda estava viva (uma indicação de que não queriam Grace ali). Aindan insiste em ligar o aquecedor a gás mesmo com Grace reclamando que o cheiro estava forte. Eles dão um chá “batizado” para Grace que dorme durante muito tempo. Ao acordar ela descobre que vários objetos, pertences e comidas da casa desapareceram misteriosamente (na verdade eles esconderam no porão), sem nenhuma explicação e as crianças alegam não ter mexido em nada. E o pior: o remédio que Grace tomava escondido para manter sua sanidade também desaparecera assim como seu cachorrinho. Grace tenta sair da casa em busca de auxílio e encontra caído na neve, perto da casa, um quadro com a foto de Aidan e Mia escrito  "In Loving memory" (como se fosse deixado por alguém há tempos ). Aindan vê a foto e conclui que eles morreram por causa do vazamento do gás e se encontram num limbo (ou purgatório) e seu principal argumento é que ninguém sabe como é a morte afinal (lembram do diálogo entre Richard e a filha em que ele lhe diz "ninguém sabe para onde vamos" com Aindan escutando na porta?). Ainda encontram uma página de jornal mostrando um obituário do trio o que comprova sua teoria. Aindan "se enforca" para mostrar que realmente não estão mais no mundo dos vivos e que precisam se arrepender. Grace pela falta do remédio e o stress começa a ouvir vozes, principalmente de seu falecido pai. Sua insanidade vem à tona. Ela inicia um autoflagelo como forma de purificação ao andar ajoelhada na neve ou se ajoelhar em brasas. Aindan e Mia, que planejaram tudo, se dão conta que foram longe demais no plano de fazer Grace confessar que destruíra uma família, dando lugar a constatação que estão presos com uma mulher que um dia participou de um culto de mortes em massa e que seu estado por ter revertido ao da época, além de que soltaram o cachorrinho sem querer e o animal morrera congelado. Eles revelam tudo, mas Gace em seu frágil estado mental não mais acredita entendendo que precisa realizar um sacrifício para ascender aos céus. Quando Richard não consegue mais falar com Mia (acabara a bateria e não conseguiram mais religar a luz) e vê a casa de bonecas resolve ir ao chalé. Ao chegar ao local, vê Grace com um revolver na mão (que ele mostrara a ela no início do filme) e acaba sendo alvejado por ela. O filme termina com as crianças na mesa com Grace e, no tambor 2 balas, e a fita adesiva escrita Sin (Pecado) como em seu culto. Um final aberto, mas quase óbvio. Vocês concordam ? Deixem seus comentários

sexta-feira, 25 de maio de 2018

O MENSAGEIRO DO DIABO / NIGHT OF THE HUNTER (1955) - ESTADOS UNIDOS


IMAGÉTICO

Durante  a depressão um pai de família assalta um banco e é baleado.  Ao chegar em casa, perseguido pela polícia, Ben Harper (Peter Graves) resolve esconder o fruto do roubo e comunica ao seu filho e filha que jamais deverão revelar onde o dinheiro fora escondido. Já preso, durante um sono, Ben acaba deixando escapar em voz alta que seus filhos sabem o destino de vultosa soma. Harry Powell (Robert Mitchum), companheiro de cela, um homem perigoso, serial killer não revelado, que se denomina um reverendo, preso por roubo de um carro, cumprindo seis meses de prisão, elabora um plano após a execução de seu companheiro de cela: ir até a casa de Ben, desposar sua outrora esposa e arrancar dos filhos a localização do dinheiro.


O Mensageiro do Diabo é um filme bem curioso, tanto pela obra em si como suas histórias de bastidores.  Em sua estreia não foi bem recebido pela crítica, o que gerou um fracasso comercial,  tanto que o ator britânico Charles Laughton (1899–1962) revelou que jamais dirigiria outro filme. Hoje o filme é reverenciado, consta da maioria da lista de melhores filmes e  Robert Mitchum (1917–1997) teve seu melhor desempenho na carreira, conforme o próprio revelaria em sua autobiografia.


O tema, um homem que utiliza a fé para fazer  o mal assustava muito. Atualmente diante do panorama que vivemos, isso pode ser considerado até como factível.  E o filme utiliza isso com supremacia. Ben Harper se apresenta (aos incautos) como um religioso que "ajudava presos" e que resolveu liderar outros rebanhos. Chega na cidade e conquista a simpatia dos habitantes. Casa e humilha tanto a esposa (negando-se a cumprir matrimônio), Willa Harper (Shelley Winters), que esta fica tão desnorteada passando a acreditar no marido e não nos próprios filhos. Cerca as pequenas crianças e as ameaça. Usa sua fala mansa para convencer os vizinhos que "suas crianças" são muito difíceis. As crianças pedem ajuda à mãe, mas sua devoção cega ao novo marido é uma barreira.  Só que Willa descobre quem Ben realmente é (na verdade nem chega perto do que ele é) e agora era virou uma peça descartável nesse perverso jogo de caçador e caça. Sua capa de pastor protestante o torna um cidadão que as pessoas não pensam em duvidar. Suas conversas, em particular, com Deus, são de amor e ódio. Talvez o que carregue na alma seja o que  demonstre tatuado em seus dedos: na direita a palavra love (amor) e na esquerda hate (ódio). Um binômio expresso de forma poderosa. Quatro letras para quatro dedos e uma história criada para justificar aos outros as inscrições e tentar convencer a si próprio que no fim não refere-se a si próprio.


A singularidade deste filme apresenta-se em vários momentos: a transformação em imagens do livro de Davis Grubb que pinça, em elementos centrais, fortes vertentes (muitas vezes díspares) como: a defesa da família, moralismo, culpa, pobreza,  religiosidade, referências bíblicas; a excelente fotografia em preto e branco que realça as luzes de forma soberba;  uma cena de um impacto assustador: a da mulher no fundo do lago; a estória escrita em forma de um conto de fadas perverso com as inquietudes humanas;  o canivete como símbolo de um objeto fálico, a misoginia do personagem, a coruja (Ben) caçando o coelho (as crianças); Ben (a serpente) invadindo o paraíso, (de Rachel - o refúgio das crianças), uma interessante analogia bíblica; uma alegoria entre o  bem (Rachel) e o mal (Ben); as locações externas substituídas por painéis pintados (devido o orçamento modesto); o chapéu com as abas que, dependendo do ângulo da câmera, parecem a forma de chifres .... Aspectos que muitos consideram como um ar de criatividade e genialidade.


Quanto ao elenco Robert Mitchum (um ator sempre subestimado) está soberbo como o vilão maníaco e obsecado pelo dinheiro que tentará conseguir a qualquer custo. Shelley Winters pouco aparece, mas sua cena no lago tornou-se inesquecível. A musa do cinema mudo,  Lillian Gish, é o excelente contraponto que o roteiro procurava para confrontar o demoníaco personagem de Mitchum. O momento em que, de espingarda na mão, protege as crianças e acompanha a canção do pastor, "Leaning on the Everlasting Arms" é um dos grandes momentos do filme. Peter Graves, conhecido pelo antigo seriado "Missão Impossível", faz uma rápida aparição como Harry Powell. As crianças, Billy Chapin (John) e Sally Jane Bruce (Pearl), pararam cedo. Ele em 1955, e ela nesse mesmo filme.


Mensageiro do Diabo é um clássico do cinema gótico americano e foi uma obra subestimada em sua época, mas o tempo criou fãs entusiastas  que a classificaram como "única" e "obra prima". Tornou-se uma espécie de filme favorito de vários cineastas por sua composição soturna e singular, com ângulos bem inspirados e uma direção primorosa. Rico em dualidades e tensão. Teve uma versão para a Tevê, de mesmo título,  com Richard Chamberlain, em 1991.

Trailer:


Curiosidades:
O roteirista James Agee foi dos mais dos mais famosos críticos americanos

A sequência com Powell montando um cavalo à distância era, na verdade, uma pequena pessoa em um pônei. Foi filmado em falsa perspectiva.

O assassino em série americano, nascido na Holanda, Harry Powers (Herman Drenth), foi a inspiração para o pregador.

Shelley Winters disse "esta foi a performance mais atenciosa e reservada que já fiz". 

Jane Darwell, Ethel Barrymore, Helena Hayes, Agnes Moorehead, Louise Fazenda e Elsa Lanchester foram consideradas para o papel de Rachel Cooper. 

Charles Laughton originalmente ofereceu o papel de Harry Powell a Gary Cooper, que o rejeitou como sendo possivelmente prejudicial para sua carreira.  John Carradine e Laurence Olivier também foram considerados para o papel de Harry Powell.

Incluído entre os "1001 filmes que você deve ver antes de morrer", editado por Steven Schneider.

O filme está incluído na lista "Great Movies" de Roger Ebert.  

Incluído na lista dos 400 filmes do "American Film Institute" de 1998. Nomeado para o Top 100 Melhores Filmes Americanos


Breve documentário (com legendas em inglês automática)

 
 
Filmografia Parcial:
Robert Mitchum (1917–1997)
















Jamais Fomos Vencidos (1943); Nevada (1944); Também Somos Seres Humanos (1945); Fuga do Passado (1947); Macao (1952); O Rio das Almas Perdidas (1954); Mensageiro do Diabo (1955); O Céu é Testemunha (1957); O Círculo do Medo (1962); O Mais Longo dos Dias (1962); As Duas Faces da Lei (1964); El Dorado (1967); A Filha de Ryan (1970); Operação Yakuza (1974); A Arte de Matar (1978); Os Amantes de Maria (1984); Os Fantasmas Contra Atacam (1988); Homem Morto (1995)


Lillian Gish (1893–1993)
















O Nascimento de Uma Nação (1915); Intolerância (1916); Lírio Partido (1919); Horizonte Sombrio (1920); Órfãs da Tempestade (1921); Irmã Branca (1923); A Letra Escarlate (1926); Ódio! (1927); Os Comandos Atacam de Madrugada (1942); Duelo ao Sol (1946); Mensageiro do Diabo (1955); O Passado Não Perdoa (1960); Nunca é Tarde para Amar (1966); Cerimônia de Casamento (1978); Doce Liberdade (1986); Baleias de Agosto (1987)


Shelley Winters (1920–2006)
 
















Um Passo em Falso (1949); Winchester '73 (1950); Anjo de Vingança (1950); Um Lugar ao Sol (1951); Fúria de Paixões (1951); Um Homem e Dez Destinos (1954); Pacto de Honra (1954); Mensageiro do Diabo (1955); O Tesouro de Pancho Villa (1955); Morrendo a Cada Instante (1955); O Diário de Anne Frank (1959); Homens em Fúria (1959); Algemas Partidas (1960); Lolita (1962); A Vida Íntima de Quatro Mulheres (1962); A Maior História de Todos os Tempos (1965); Caçador de Aventuras (1966); Como Conquistar as Mulheres (1966); Violência nas Ruas (1968); Fúria Audaciosa (1970); Obsessão Sinistra (1971); A Morte da Inocência (1971); O Destino do Poseidon (1972); Cleópatra Jones (1973); Jornada do Pavor (1975); O Inquilino (1976); Tentáculos (1977); A Iniciação de Sarah (1978); Uma Ponte Chamada Esperança (1984); Alice no País das Maravilhas (1985); Comando Delta (1986); Retratos de Uma Mulher (1996); Gideon - Um Anjo em Nossas Vidas (1998) La bomba (1999)

Peter Graves (1926 - 2013)
 
















O Inferno Nº 17 (1953); Ao Sul de Sumatra (1953); Mundos que Se Chocam (1954); Mensageiro do Diabo (1955); O Rio dos Homens Maus (1956); O Começo do Fim (1957);  O Grito do Lobo (1974); Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu (1980); Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu! - 2ª Parte (1982); A Família Addams II (1993); As Damas de Hollywood (2001).

Fontes:
Revista Set - Cinema e Video
Guia de Filmes Nova Cultural
1001 Filmes Para se Ver Antes de Morrer
Jornal The Guardian
Jornal O Globo
Jornal do Brasil