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terça-feira, 26 de novembro de 2024

PERSONA / QUANDO DUAS MULHERES PECAM / PERSONA (1966) - SUÉCIA


SOBRE CINEMA E SOBRE A ALMA HUMANA

Elisabet Vogler (Liv Ullmann) é uma atriz famosa que, durante uma récita da peça clássica de Electra, sofre um bloqueio psicológico em cena, no dia seguinte é encontrada em seu quarto imóvel e voluntariamente muda. É submetida a uma série de exames, que atestam possuir bom estado físico e mental, o que não justifica a sua mudez, sendo enviada, pela chefe da clínica psiquiátrica (Margaretha Krook), para descansar em uma casa de veraneio, à beira-mar, sob os cuidados de uma enfermeira chamada Alma (Bibi Andersson). Alma resolve elaborar uma estratégia: passa a recorrer à palavra por si e por Elisabeth. Surge uma grande amizade, a ponto de Alma revelar confidencias e intimidades. Vivendo isoladas, essas duas mulheres chegam a certa altura a dar a impressão de serem uma só pessoa, se estabelecendo de forma preocupante um gradual processo de identificação, relacionamento e transferência psicológica. 

Dirigido por Ingmar Bergman (1918-2007), um dos maiores expoentes da cinematografia mundial, Persona foi o 27º filme do diretor. No Brasil, deram à obra o infame título “Quando Duas Mulheres Pecam”, um título a fim de aguçar erroneamente a curiosidade para uma visão proibida, aquele velho embuste de se fabricar títulos como apelo de bilheteria, dando ênfase ao erotismo quando este é apenas um elemento incidental da obra, mudando a percepção de quem escolhe o filme para assistir. Praticamente uma defraudação da obra, pois pressupõe uma relação íntima entre duas mulheres, o que não ocorre. O título original se manteve na maioria dos países e se mostra mais adequado à proposta do filme. 

"Persona" não é fácil em termos de assimilação (irei me referir ao filme assim e, inclusive, o colocarei como primeiro nome no título da postagem). A sinopse cabe em um parágrafo, mas a verdadeira medida só se explica no fluir das imagens. Para um bom entendimento, não viso aqui fazer uma análise do ponto de vista da psicanálise (deixo para os profissionais da área). Persona deriva de uma palavra latina que quer dizer máscara; máscara do teatro antigo que designava as feições do personagem que o ator representava (ou quem a máscara ocultava). Também, aqui, poderia ser entendido como uma máscara de nossos sentimentos e pecados, aqueles nunca confessados e quase inconfessáveis. Persona também é um personagem da terminologia Jungiana (Carl Jung 1875-1961). Persona, enfim, é um filme sobre o cinema e sobre a alma humana.


NOS PRÓXIMOS PARÁGRAFOS, O TEXTO CONTERÁ INVEITÁVEIS SPOILERS

O filme se inicia no escuro. Lentamente surgem duas luzes: são os carvões de um projetor de cinema (os projetores a carvão não proporcionam uma luminosidade adequada). Então começa a projeção. Um projetor que nasce de outro projetor (um filme dentro do filme?). Imagens quase subliminares de frames por segundo (ou seja, "num piscar de olhos") surgem em tela (inclusive de dois órgãos genitais). Desenho animado, comédia muda ... aranhas, o olho de um cordeiro morto... cenas que lembram um cineasta que Bergman admirava: o cineasta Luis Buñuel (que se utilizava do recurso de dar um choque inicial para despertar a atenção do espectador). Vemos um menino procurando cobrir-se (calor = amor / afeto) sem consegui-lo; passando sua mão nas imagens de Elisabeth e Alma sem conseguir tocá-las (ambas negaram afeto aos filhos – rejeitaram o filho - cada qual em sua tragédia, como veremos à frente). Imagens também de um Bonzo se incendiando na rua e uma crucificação (a mão com o prego) poderiam ser entendidos como o tema do sacrifício da qual Elisabet se mostrará incapaz.

Lentamente, veremos uma estranha transferência de personalidades (fusão, transfusão de personalidade ou consciência) à medida que as duas mulheres se tornam íntimas. Elisabet deixará de ser doente e Alma (um nome sugestivo e não aleatório) passará a ser a vítima. Essa transferência será a estória de Persona. A dualidade entre o artístico e a realidade é a chave de persona. Alma se tornará um avatar de Elisabet ao tentar acessar o âmago da paciente, mas aos poucos começará a ter sua personalidade absorvida tornando-se a máscara (persona) sob a qual a atriz esconderá suas emoções. Passiva ou ativamente Elisabet se reflete em Alma. Quando Alma adormece, parece-lhe que Elisabet entra em seu quarto e há uma mistura de ternura com sensualidade (muitos consideram um sonho, consideram que a cena simboliza que Alma acreditou ter conseguido o afeto que esperava de Elisabeth ou que Bergman quis dar este conceito à cena). Ambas repartem a solidão e o sonho. Também realidade e sonho combinam-se. Há uma cena em que Elisabeth parece beijar o pescoço de Ana, mais à frente veremos ela beijar seu pulso. Há uma sutil analogia ao vampirismo: Elisabet suga a energia de Alma como um vampiro suga o sangue de suas vítimas.

O filme alcança o clímax, talvez, quando Alma, que sempre sentiu falta de uma irmã (possui sete irmãos) encontra em Elisabet (uma espécie de “heroína calada”), tardiamente, alguém que a ouça (por isso ela começa a falar por si e por ela). Ela conta o seu mais trágico segredo e reage a uma carta que Elisabeth, de proposito (com intenção de feri-la), deixa ao seu alcance (ela não sela a carta) sobre confidências feitas. O tom de ironia leva Alma a um estado de histerismo na qual se revela outra pessoa. O “não!”, mais grito do que palavra, marca um entreato. A mudez de Elisabet talvez nos revele que cada palavra, cada gesto possa ser uma mentira. Persona seria mais um papel que ela representa. Já Alma, parece uma pessoa sem problemas, mas percebemos que ela também tem um grande problema: o da insignificância, o de se considerar normal demais. Ela sofre de uma falta de percepção da individualidade. Percebemos a troca de personalidade quando o marido de Elisabet chega: é Alma quem o recebe. É a duplicidade, uma só pessoa em duas. Por isso a imagem de ambas, em determinado ponto, se funde em uma. É uma metáfora para o desdobramento da personalidade. A certa semelhança física entre as duas atrizes não foi por acaso.

Em um momento mais dramático, o rolo de filme rompe do projetor, exatamente como a estória. Elisabeth volta ao palco e Alma toma o ônibus para voltar ao seu cotidiano. Os carvões do projetor se afastam, a tela escurece, o filme termina. No começo e no fim existirá a mesma imagem, se apresentando exatamente ao inverso do que foi mostrada no começo, idêntica, mais invertida, projetada como um reflexo no espelho. Outro momento que Bergman nos traz algo de diferente é ao repetir uma sequência idêntica de diálogos a que foi anteriormente mostrada, parecendo um erro no filme. Uma ênfase do que levou Elisabet a rejeitar o filho desde a sua concepção.

FIM DOS SPOILERS

Quanto ao elenco, foi o primeiro trabalho de Ullmann para Bergman com a qual teve um romance e uma filha. Fez dez filmes com o diretor. Bibi Anderson fez 12 filmes com o cineasta. Nas cinematografias de ambas, esse filme aparece como referência de seus trabalhos.  

Persona é como uma sinfonia, é mais para ser sentida e apreciada do que interpretada. Não há como transmitir todo o seu sentido em alguns parágrafos. É uma experiência visual e uma experiência subjetiva. Um quebra-cabeças entre o autêntico e o falso, entre o bem e o mal, entre o real e o imaginário. O diretor criou um insinuante jogo de facetas e talvez queira nos dizer que Persona seja, no final das contas, as máscaras que todos usam. O famoso ditado “Nós representamos duas comédias, uma perante os outros e outra perante nós mesmos” poderia ser adequado. Persona para uns é uma sessão de psicanálise, outros o considerarão um amontoado de símbolos aleatórios, lançados à tela ao acaso. Persona é sobre cinema, é sobre o âmago humano.


Trailer:


Curiosidades:

Segundo ele mesmo, Ingmar Bergman se apaixonou por Liv Ullmann durante a produção deste filme.

Este filme é considerado um filme pictórico radical. Tanto Ingmar Bergman quanto seu diretor de fotografia Sven Nykvist acharam que os planos intermediários eram chatos; Portanto, o filme consiste em alguns planos amplos, planos intermediários ocasionais e muitos close-ups longos e intensos.

Na primavera de 1965, Ingmar Bergman foi internado no Hospital Sophia, em Estocolmo, por pneumonia. Enquanto estava hospitalizado, criou o roteiro básico deste filme. Inspirado na peça de um ato "The Stronger" de August Strindberg, uma existência que consistia em pessoas mortas, paredes de tijolos e algumas árvores sombrias do parque; e concebida como uma sonata para dois instrumentos.

O garoto no necrotério está lendo "Um Herói do Nosso Tempo". Um romance russo de 1839.

A escritora Susan Sontag escreveu que considerava Persona o melhor filme já feito.

Foi escolhido pela revista Premiere como um dos "100 Filmes que Abalaram o Mundo" na edição de outubro de 1998. A lista classificou os "filmes mais ousados ​​já feitos".

No site oficial de Ingmar Bergman, o verbete deste filme afirma que, de todos os filmes de Bergman, Morangos Silvestres (1957) é o mais imitado, O Sétimo Selo (1957) é o mais parodiado e este filme é o que é mais frequentemente discutido e analisado.

Ingmar Bergman comentou que fazer este filme literalmente salvou sua vida. Ele também disse que foi o primeiro filme que fez em que não se importou se o resultado seria um sucesso comercial ou não.

A montadora do filme Ulla Ryghe, que trabalhou em todos os filmes de Ingmar Bergman entre Através de um Espelho (1961) e Vergonha (1968), falou sobre a cena em que, durante um momento particularmente intenso entre os dois personagens principais, o filme parece queimar no projetor, que essa ilusão foi produzida de forma tão realista que criou dificuldades nas primeiras exibições, pois os projecionistas presumiram que o próprio celulóide estava pegando fogo e paravam o filme. Para evitar isso, uma etiqueta vermelha especial teve que ser afixada nas latas dos filmes para alertar os projecionistas sobre o fato de que, embora o filme pareça estar queimando, na verdade não está.

A versão americana, lançada pela United Artists, omite um breve close da genitália masculina no pré-crédito do filme.

A vida de Elisabet é, de certo modo, a da personagem Electra (de Eurípedes) que ela encena, a tragédia da vingança e do ódio


Cartazes:





Filmografias Parciais:

Liv Ullmann:






Paraíso do Pecado (1959), Curto é o Verão (1962), Quando Duas Mulheres Pecam (1966); A Hora do Lobo (1968); Vergonha (1968); A Paixão de Ana (1969); Visitantes na Noite (1970), O Visitante Noturno (1971), Os Emigrantes (1971), O Preço do Triunfo (1972), Joana, a Mulher que Foi Papa (1972), Gritos e Sussurros (1972); Horizonte Perdido (1973);  40 Quilates (1973), Cenas de um Casamento (1974), A Abdicação de uma Rainha (1974), A Flauta Mágica (1975)Hannah, A Esposa Comprada (1974); Face a Face (1976); O Ovo da Serpente (1977); Uma Ponte Longe Demais (1977), Sonata de Outono (1978); Amor em Jogo (1979), Prisioneiro Sem Nome (1983), Pato Selvagem (1983), Fora de Controle (1984), Virando Adulto (1984), Tomara Que Seja Mulher (1986), Gaby - Uma História Verdadeira (1987); O Jardim das Rosas (1989), Ponto de Mutação (1990); Sarabanda (2003); Duas Vidas (2012).


Bibi Andersson (1935–2019)






Senhorita Júlia (1951); Sorrisos de uma Noite de Amor (1955); O Sétimo Selo (1957); Morangos Silvestres (1957); No Limiar da Vida (1958);  O Rosto (1958); O Olho do Diabo (1960); A Praça dos Homens Sem Alma (1961); A Amante Sueca (1962); Curto é o Verão (1962); Para Não Falar de Todas Essas Mulheres (1964); Duelo em Diablo Canyon (1966); Quando Duas Mulheres Pecam (1966); Você é a Favor ou Contra o Divórcio? (1966); Palmeiras Negras (1968); O Sádico de Alma Negra (1969); A Paixão de Ana (1969); Entre Duas Paixões (1970); A Hora do Amor (1971); Cenas de um Casamento Sueco (1974); Chove Sobre Santiago (1975); O Inimigo do Povo (1978); Aeroporto 79: O Concorde (1979); Entre a Vida e a Morte (1983); Pobre Mariposa (1986); A Festa de Babette (1987); Anna (2000); Arn: O Cavaleiro Templário (2007);  Arn: Riket vid vägens slut (2008); The Frost (2009)


Ingmar Bergman (1918-2007 - diretor):






Mônica e o Desejo (1953); O Sétimo Selo (1957); Morangos Silvestres (1957); A Fonte da Donzela (1960); Através de um Espelho (1961); Luz de Inverno (1963); O Silêncio (1963); Quando Duas Mulheres Pecam (1966); A Hora do Lobo (1968); Vergonha (1968); A Paixão de Ana (1969); Gritos e Sussurros (1972); Face a Face (1976); Ovo da Serpente (1977); Sonata de Outono (1978); Da Vida das Marionetes (1980); Fanny & Alexander (1982).


segunda-feira, 6 de maio de 2019

BORDER / GRANS (2018) - SUÉCIA




MENTIRAS SINCERAS E VERDADES DOLOROSAS
( o texto contém spoilers)

Tina (Eva Melander) é uma agente de segurança da alfândega em um porto da Suécia.  A jovem possui características físicas que a distingue dos demais: uma proeminente testa e dentes grossos e amarelados advindos de um cromossomo defeituoso. Mas sua principal característica é possuir um olfato apuradíssimo que, por algum motivo, a possibilita "cheirar sentimentos" como medo, culpa, angustia ... permitindo "rastrear" pequenos infratores que tentam burlar a alfândega. Sua rotina começa a mudar quando consegue identificar um homem bem vestido carregando um cartão contendo pornografia infantil, ao mesmo tempo em que surge Vore (Eero Milonoff),  um jovem com características faciais semelhantes as suas que coleta e estuda larvas. A aproximação de Vore faz com que a visão de mundo de Tina comece a mudar radicalmente enquanto é recrutada para ajudar a desbaratar uma rede de pedofilia a partir do suspeito preso.


Border  (título original sueco para "Gräns" - "Fronteira / Limite"-) é um daqueles filmes que dificilmente você verá outro similar.  Segundo filme do iraniano Ali Abbasi (de "Shelley"- 2016)  e co-escrito por John Ajvide Lindqvist, do ótimo filme  sueco "Deixa Ela Entrar" (2008) e sua descartável refilmagem americana "Deixe-me Entrar". O filme levou o prêmio "Un Certain Regard" ("Um Certo Olhar") em Cannes, destinado a obras mais diferenciadas e que premia com um determinado valor o cineasta. Mas o grande mérito foi concorrer ao Oscar de Melhor Maquiagem deste ano (perdendo para "Vice"), pois deu visibilidade a obra (em cartaz no Rio de Janeiro), mostrando um filme que tem uma forma muito curiosa de ser construído e que algumas pessoas poderão achar meio ilógico, mas se revermos os pequenos detalhes que passaram despercebidos perceberemos que o filme fecha todos os questionamentos que venham a surgir.


Explicar o filme sem spoilers tira muito de sua grande realização. Se você não deseja saber detalhes que venham estragar a sua experiência, pare aqui, mas se assistiu e ficou com dúvidas (ou um certo ar de descrença) tentarei saná-las nestas linhas e, ao final, em "explicações", adicionarei pontos chaves que fecham os conceitos  lançados pelo filme.


"Querem me obrigar / a ser do jeito que eles são / Cheios de certezas / e vivendo de ilusão / Mas eu não sou / nem quero ser / Igual a quem me diz / Que sendo igual / eu posso ser feliz / Esses humanos ...". Essa música "Humanos" do grupo Tokyo cairia bem dentro do conceito da estória e do personagem Vore. O que o espectador deve ter em mente é que não estamos em um drama sobre 2 pessoas com problemas estéticos, mas sim diante de uma fábula, ou seja, há elementos do folclore escandinavo, neste caso "Trolls", e essa informação muda toda a nossa percepção.  
 


Tina vive uma vida quase reclusa com um homem (Jorgen Thorsson) na qual possui uma relação estranha de "quase namoro". Seu pai (Sten Ljunggren) possui Alzheimer e, a sua volta, todos são pessoas "normais". Ela, que se achava única, esbarra em um semelhante que começa a revolver sentimentos que até então não imaginava possui. Tina se apaixonou. Só que Vore tem conceitos diferentes aos seus. Sua criação foi diferente e não tolera "humanos", os odeia e tenta convencer a jovem  que ambos não fazem parte da "mesma raça".  Não aceita a resignação de Tina de viver a margem da sociedade. Tudo começa a ficar ainda mais estranho quando descobrimos que ambos possuem mais do que apenas uma aparência diferente: Tina possui um órgão masculino e Vore um feminino entre outros detalhes (ver explicações)


Apesar de todas as palmas se direcionarem para a atriz Eva Melander foi o personagem de Eero Milonoff que me criou maiores expectativas, pois me pareceu mais rico e complexo em personalidade e conflitos. Ele divide o espectador em vários aspectos.  Muitos se surpreenderão com suas motivações e atitudes e o filme dificilmente entrega o seu final. Border é um filme atípico, mas que prende por ter uma narrativa muito bem construída, uma bela fotografia  com uma condução que poderá surpreender e até, em alguns momentos, chocar certas pessoas. É um conto (onde realidade e fantasia se fundem fugindo do tradicional) sobre uma pessoa estigmatizada que não consegue se ver inserida em um mundo que avalia as pessoas pela aparência,  sofrendo uma quebra de paradigma, onde toda a sua origem e vida pode ter sido rodeada de mentiras. E Tina começa, a mudar, a se descobrir, e o espectador a se surpreender em sua análise final. 



Trailer legendado:



Curiosidades:

Hiisi é um local ou entidade mitológica da cultura finlandesa. Posteriormente influenciados pela cultura cristã foram denominados como entidades demoníacas ou semelhantes a trapaceiros.

Trolls: "De acordo com o folclore escandinavo, os trolls são criaturas gigantescas e fedorentas cuja descrição se assemelha bastante à dos ogros ... Eles são seres noturnos, seus esconderijos favoritos são as cavernas e as regiões montanhosas e, além de serem muito feios, a inteligência não seria o melhor de seus atributos." (Megacurioso)

Os Atores:





Algumas explicações que podem ajudar em um melhor entendimento. (Se não assistiu ao filme não leia):

Durante o jantar em casa, haverá uma cena mostrando Tina experimentando comida com pouco entusiasmo / Vore lhe surpreenderá comendo larvas que a princípio lhe causarão repulsa, mas aceitará experimentar e não rejeitará o gosto;

Vore passará pela segunda vez na alfândega, intencionalmente, para atrair a atenção de Tina. E passará também por uma revista (propositalmente) onde descobrirão que possui um órgão feminino / O espectador ainda não sabe, mas Tina guarda também um segredo parecido. A ideia de Vor é que ela descobrisse essas informações "por acaso";

Na revista também descobrem que Vore tem uma enorme cicatriz no Cóccix / O pai de Tina sempre disse que ela tinha uma  cicatriz no mesmo local por ter caído na infância sobre um objeto cortante, mas ela nunca conseguira se lembrar de tal fato;

Tina sempre evita sexualmente o "companheiro" alegando "sentir dor" / uma repulsa inconsciente por outro que não é de sua espécie;

Tina se aproxima de uma raposa que não a rejeita / A analogia é de que Tina é um ser também da floresta e selvagem como o animal;

Os cães "domesticados" se incomodam com a presença de Tina e se assustam como o rosnado de Vore, que morará, como convidado, em um quarto anexo a casa de Tina

Tina descobre que a sua cicatriz adquirida por queimadura de um raio não é característica apenas sua, Vore também possui uma e bem maior;

Tina revela a Vore ser deformada devido a um problema genético e o mesmo se responde que ela é absolutamente normal. Pela primeira vez vemos Vore referir-se a outras pessoas como "humanos";

Vore entra na casa de Tina e presencia sua conversa com uma mulher com um recém nascido. Tina os ajudara a chegar no hospital para o parto. Vore verbaliza que é um lindo bebê e a mãe sente algo em seus modos;

Vore parece "parir" alguma criatura na escura floresta. Vore coloca a "criatura" numa caixa dentro da geladeira;

Após um breve relacionamento sexual na floresta Vore revela ser um "Troll" e que ela também faria parte dessa espécie. Há a revelação de que agem como nômades, mas a Finlândia possuiria um grupo desses seres. Ela não os encontrará, eles é que a encontrarão desde que assim deseje;

Vore revela ter sido fruto de uma experiência que os humanos fizeram com alguns Trolls capturados, entre eles, seus pais, até a morte destes e que fora enviado a lares adotivos tendo a cauda cortada na altura do cóccix (daí a cicatriz);

Tina encontra a pequena criatura quase humana que Vore diz ser um "Hiisi", seres inacabados  que vivem pouco e são tão macios que só comem e dormem podendo ser moldados sob qualquer forma como se fossem feitos de argila. Ele parece tê-los de uma forma espontânea;
 

Tina descobrirá que Vore troca bebês humanos por seus "Hiisi" moldando-os como se fosse argila próximos as feições destes. O motivo: ele odeia e despreza humanos e tudo que representam. O casal que Tina ajudou tem o bebê trocado e os pais ficam desnorteados com a aparência do "bebê";

Vore foge da polícia e, tempos depois, Tina recebe uma caixa com uma criança Troll (não um Hiisi) como fruto do relacionamento do casal e um cartão postal da Finlândia para onde Vore provavelmente se dirigiu e onde fica a comunidade de Trolls. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

UM HOMEM CHAMADO OVE / EN MAN SOM HETER OVE (2015) - SUÉCIA






REDESCOBRINDO A VIDA


Ove Lindahl (Rolf Lassgård) é um senhor de 59 anos que recebe a notícia de que, após 43 anos de dedicação à empresa, está sendo dispensado. Atuando também como administrador de um condomínio de casas onde vive, é conhecido por ser uma pessoa nitidamente rabugenta, mal humorada, sem paciência com outras pessoas, metódico e irônico em seus comentários. Acha que todos são estúpidos e indolentes. Divide seu tempo em tentar se fazer ouvir e visitar o túmulo da falecida esposa com quem conversa sobre seus desafetos cotidianos. Mas Ove tem uma outra faceta oculta: é um suicida em potencial e está decidido a por fim em sua vida para encontrar sua amada. Só que a chegada de novos vizinhos mudará a vida deste senhor de um modo como jamais imaginara.


Um Homem Chamado Ove é uma grata surpresa, vinda da Suécia, que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2017. Podemos conceituá-lo como uma celebração à vida. Narrada com uma sensibilidade ímpar pelo diretor Hannes Holm, que também escreveu o roteiro a partir do livro de Fredrik Backman, nos mostra, aos poucos, o que aconteceu na vida deste senhor para torná-lo de tão difícil convivência. Um homem que odeia a tudo e a todos, mas que ao longo do filme conquistará o coração de seus pares e do público, ao ir se "humanizando" novamente e nos brindando com mensagens de amor e de vida de uma forma muito sensível.


Essa mistura de comédia fina com drama ficou de ótimo gosto. O filme transita entre o presente do intolerável Ove com o passado de um homem que encontrou a felicidade e a  dureza que uma vida pode proporcionar a uma pessoa. Através da memória deste jovem ancião (não pela idade mas pelo ótimo  efeito de maquiagem) vemos um envolvente personagem como muitas pessoas que conhecemos no nosso cotidiano, mas que não temos a oportunidade de espiar o que os tornaram assim. 


O filme apresenta várias críticas acerca da sociedade sueca: o despreparo das empresas para lidar com pessoas com necessidades especiais, o despreparo das empresas ao despedirem as pessoas, ética no trabalho. A questão dos imigrantes na Europa ... tudo de uma forma bem sutil e sensível. 



Quando espiamos um pouco da vida de Ove, antes de sua falecida esposa Sonja (pronuncia-se "Sonia"), o filme cresce e mostra uma vida cheia de possibilidades: aquele amor verdadeiro entre duas pessoas, seus momentos de felicidade. O espectador até esquece do Ove atual: deprecivo, suicida (que rende cenas muito engraçadas), mas sua vida começa a mudar a partir da chegada do casal de imigrantes. 
Ove tem seus defeitos, mas também qualidades: não é racista, prova-se um homem que gosta dos animais e é capaz de ajudar uma pessoa quando todos não sabem como proceder. E a chegada desse casal, em especial da muçulmana Parvaneh (da ótima atriz irariana Bahar Pars), o força a interagir novamente com as pessoas e a medida que os laços se estreitam, um novo Ove nos é apresentado. Ele começa a mudar gradualmente de atitude e começa a tocar a vida dos que os cercam. Parvaneh é a força motriz do filme: inteligente, decidida, simpática, mas como todas as pessoas tem seus medos e problemas.


Um Homem Chamado Ove é para quem curte filmes que fujam do estilo Holywoodiano com dramas exagerados, heróis imponentes, sociedade doentia ... É voltado às pessoas com sensibilidade para compreender o âmago humano. Para quem não se importa de assistir filmes com um ritmo mais cadenciado (sem nunca ser cansativo) e para os que gostam de ver produções europeias de qualidade. É um filme que acrescenta, faz pensar, diverte, emociona e nos mostra que ótimas produções estão aí, esperando que alguém as descubram.


Trailer:

 


Curiosidades:

Lançado em originalmente em 2015, concorreu ao Oscar de 2017 nas categorias  Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Maquiagem



O ator Filip Berg interpreta o jovem Ove

Fotografia Goran Hallberg (O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu) 

O Livro:

 









Trilha Sonora:
Forever and Ever interpretada por Demis Roussos
Always On My Mind interpretada por Willie Nelson
En stund på jorden interpretada por Laleh (Laleh Pourkarim)
Blott en dag interpretada por  Stockholms Symfoniorkester (Stockholm Symphony Orchestra)  
Var är tvålen? interpretada por  Povel Ramel
Suite Bergamasque: Clair de lune (de Debussy)
Din skugga stannar  interpretada por kvar Lillemor 'Lill' Lindfors