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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

A GUERRA DO FOGO / QUEST FOR FIRE (1981) - FRANÇA / CANADÁ


O FUTURO COMEÇOU A 80 MIL ANOS ATRÁS

Há 80.000 anos atrás, em algum lugar não identificado do planeta, nos primórdios da idade do gelo, uma tribo chamada Ulam se refugia em cavernas na qual guarda o seu bem mais precioso: o fogo. Certo dia, o pequeno grupo é atacado pelos Wagaboo. Ainda que sobrevivam ao ataque, são obrigados a abandonarem o seu local e acabam por “perder” seu bem, que lhes garantiria a sobrevivência nos tempos gelados que se seguiriam.

Naoh (Everett McGill), Amoukar (Ron Perlman) e Nam (Naseer El-Kadi) partem em uma odisseia em busca de recuperar o fogo, mesmo sem saberem como. No meio do caminho, encontrarão tribos hostis, feras pré-históricas, mas também descobrirão a amizade, o amor e o sentido de grupo.

A Guerra do Fogo não teve uma vida fácil. O filme levou 4 anos para chegar às telas (3 anos de pesquisas e 1 de filmagem) e quase não saiu do papel quando os estúdios Columbia desistiram do projeto indo parar com a Fox. E há três semanas de se iniciarem as filmagens, houve uma greve da Screen Actors Guide, com a Fox saindo do projeto, fazendo com que um financiamento independente fosse buscado. A Internacional Cinema Corporation (canadense) viabilizou o arriscado projeto, no qual as frases para o filme eram inteligíveis ao espectador (os dialetos lacônicos e o uso da mímica foram de grande acerto). Um filme de imagens, sons e música. As filmagens seriam na Finlândia, mas a greve que atrasou o projeto, fez com que a Escócia fosse a escolhida enquanto as cenas africanas foram filmadas em Tsavo, ao pé da Montanha do Kilimanjaro, além de outras sequências realizadas no Canadá. Orçado em 12 milhões, foi um valor modesto, para os padrões de uma época cujo o cinema já voltava-se a efeitos especiais e especulações sobre o futuro.

O diretor Jean-Jacques Annaud (“O Nome da Rosa”, “O Urso”, “Círculo de Fogo”) era conhecido por um filme que ganhara o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: “Preto e Branco em Cores” (1976). O roteiro ficou nas mãos de Gerard Brach (“O Inquilino”, “Repulsa ao Sexo” e “Tess”), um eventual colaborador, até então, do diretor Roman Polanski. A inspiração veio do livro “La Guerra Du Feu” do escritor belga J.H Rosny. Já a linguagem dos gestos, coube a Desmond Morris, zoólogo e escritor de “The Naked Ape” (“O Macaco Nu”), um estudioso do comportamento de primatas.

O diretor preferiu deixar em segundo plano os confrontos tribais e centrou o eixo da história em três pontos: uma excelente reconstituição do homem pré-histórico em seus primórdios; o modo como os Homo Sapiens, liderados por Naoh, interagem entre si e aprendem; e a busca por algo que eles não sabiam ser capaz de ser criado (o fogo). Ao trazer estes aspectos, Annaud nos coloca frente a frente com a nossa origem e esse pequeno grupo que se mantém naquele habitat (a Europa paleolítica) e que simboliza as várias tribos desses vários seres que habitaram a terra nos arbores da humanidade, uma era tão misteriosa e desconhecida quanto a que ainda está por vir. As tribos se dividem em 4 tipos: Os Ulam (os Homo Sapiens), os saqueadores Wagaboo (os Neardenthais); Os Ivaka (uma tribo mais evoluída que já sabe como criar o fogo, produzir objetos e pinturas e, conforme o diretor, também Homo Sapiens) e os Kzamm (que se tornaram canibais). No que resultaria um cruzamento entre os Ivaka e os Ulam?

O elenco era até então pouco conhecido, mas eram necessários aqueles com habilidades para comunicação não-verbal. Everett McGill (“Bala de Prata” e “A Força em Alerta 2”) interpretou o líder Naoh, que irá em busca do elemento sagrado, quase sobrenatural para sua tribo. Ele é um Homo Sapiens, ele vê e aprende. Será a raça dominante como a conhecemos. Ron Perlman (“O Nome da Rosa”, “Hellboy”, o seriado “A Bela e a Fera”), estreando no cinema, interpretou Amoukar que gosta de fazer travessuras e com seus gritos e gestos desafia os oponentes. O rosto do ator caiu muito bem no personagem. Naseer El-Kadi interpretou Nam que vai descobrir do que um urso é capaz. Rae Dawn Chong interpretou Ika, uma espécie de “Promethea”, pois após ser resgatada pelos Ulam, de uma tribo de canibais, ela os presenteará com o conhecimento de fazer o fogo. Sua tribo, Ivaka, é mais avançada. Parecem ser uma variação do Homo Sapiens que, em determinado momento, percebem que a sua tribo só sobrevirá se tiver guerreiros mais fortes. É também através de Ika que Naoh descobrirá a diferença de sexo e acasalamento. A atriz teve que fazer praticamente todas as cenas nua, apenas com uma pintura tribal.

Produção franco-canadense, rodada em três continentes e ambientado na aurora da humanidade, A Guerra do Fogo não deixa e ser uma ficção-especulativa da qual muitos dirão que precisarão da Suspenção Voluntária da Descrença para aceitar a história que deve ter levado gerações e gerações para se efetivar, mas o filme é menos uma pesquisa etnológica e mais uma fantasia sobre um evento que poderia ou não ter acontecido. Arnaud, 800 séculos depois, resolveu contar uma estória que nos mostra o surgimento do conceito de família, a descoberta do amor, a necessidade de dominar, de ser amado... pequenas descobertas, mas descobertas importantes, à sua maneira (e ainda atuais). Vale como fantasia e como ciência, regado de exuberante simplicidade, pitadas de humor e muita sensibilidade.

 

Trailer:

 


 

Curiosidades:

Tanto Ron Perlman quanto Everett McGill sofreram queimaduras de frio; felizmente eles conseguiram se curar completamente. Apesar das condições de trabalho, os dois gostaram de fazer o filme.

Dois ursos diferentes foram usados ​​para a sequência com o urso em uma caverna.

O cenógrafo pegou antraz ao manusear peles de animais não tratadas.

A maioria das cenas foi filmada em uma única tomada.

Ganhou o Caesar (Oscar francês) de melhor filme e diretor.

Premio de melhor filme internacional da Academia de Filmes de Fiçção-científica e Hollywood

Ganhador do Oscar de Melhor Maquiagem (Sarah Monzani e Michèle Burke)

Os mamutes peludos eram interpretados por 20 elefantes de circo. Os elefantes se estranharam com a "maquiagem", entraram em pânico e destruíram parte do material das filmagens

A cena de abertura pretendia ser apenas um teste e acabou sendo mantida porque ficou melhor do que o esperado.

Ron Perlman esperava que o filme não fosse melhor do que filmes pré-históricos como Mil Séculos Antes de Cristo (1966). Em suas memórias, ele confessou que isso o levou a ser desnecessariamente rude com Jean-Jacques Annaud durante o primeiro encontro. Em vez de se ofender, Annaud ficou fascinado pela franqueza de Perlman e (depois de se odiarem inicialmente no início das filmagens) os dois se tornariam amigos íntimos.

A língua da tribo Ivaka é derivada dos Inuit e Cree do norte do Canadá. O diálogo deles é realmente ininteligível em termos do enredo deste filme.

Rae Dawn Chong foi escalada como Ika principalmente porque ela se sentia completamente confortável em estar nua. Entre as cenas, ela permaneceu nua no set a maior parte do tempo, com maquiagem de corpo inteiro, para se manter no personagem.

A linguagem utilizada pelos homens das cavernas, que compreende todo o diálogo falado, foi criada por Anthony Burgess. Burgess é mais conhecido como autor do romance e filme Laranja Mecânica (1971), e criador da linguagem Nadsat, nele utilizada.

A tribo Kzamm foi interpretada por lutadores.

Os atores passavam por sessões de maquiagem de cinco horas todas as manhãs

O elenco foi originalmente adaptado para usar calçados, mas essa ideia foi rejeitada no início da produção.

Tudo no filme foi filmado ao vivo; Não houve efeitos ópticos feitos na pós-produção.

Este filme foi lançado nos cinemas sem legendas, mas a tecnologia de DVD e o uso comum de legendagem de filmes em DVD agora disponibilizam este filme com legendas (o que não acontecia com seu lançamento em videocassete doméstico). As legendas do DVD são títulos um tanto simplificados do diálogo pré-histórico.

Teve tanto sucesso na época de seu lançamento, tanto crítica quanto comercialmente, que o estúdio queria que Jean-Jacques Annaud retornasse para duas sequências, provisoriamente intituladas "Quest for Water" e "Quest for Iron". Ele recusou a oferta.

Iron Maiden, a banda inglesa de heavy metal, escreveu uma música sobre este filme usando o mesmo título em seu álbum "Piece of Mind" de 1983.


Everett McGill  em A Força em Alerta 2




 

 




Ron Perlman em Alien, A Ressureição








Rae Dawn Chong em Um Escola Muito Louca









Cartazes:



 

Filmografias Parciais:

Everett McGill 






Os Yankees Estão Voltando (1979), Union City (1980); Um Testemunho de Fé (1980); Brubaker (1980); A Guerra do Fogo (1981); Duna (1984); A Hora do Lobisomem (1985); O Destemido Senhor da Guerra (1986); Três Vidas em Fuga (1987); 007 - Permissão para Matar (1989); Twin Peaks (seriado 1989-1991); As Criaturas Atrás das Paredes (1991); Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (1992); A Força em Alerta 2 (1995); Meus Queridos Presidentes (1996), Jekyll Island (1998), Uma História Real (1999), Twin Peaks: O Mistério (2014); Twin Peaks: O Retorno (2017)

 

Ron Perlman 






A Guerra do Fogo (1981); Piratas das Galáxias (1984); O Nome da Rosa (1986); Sonâmbulos (1992); A Ilha do Dr. Moreau (1996); Alien - A Ressurreição (1997); O Guardião do Rei (2000); Círculo de Fogo (2001); Blade II - O Caçador de Vampiros (2002); Jornada Nas Estrelas: Nêmesis (2002); Hellboy (2004); Em Nome do Rei (2007); Hellboy II: O Exército Dourado (2008);    Outlander: Guerreiro vs Predador (2008); Caça às Bruxas (2011); Drive (2011); Conan, o Bárbaro (2011); Skin Trade - Em Busca de Vingança (2014); Stonewall: Onde o Orgulho Começou (2015); Punhos de Sangue (2016); Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016); Caçadores de Trolls: Contos de Arcadia (seriado 2016-2017);  Agente Asher (2018); Inferno na Fronteira (2019); Este Jogo Se Chama Assassinato (2021);  O Beco do Pesadelo (2021); Não Olhe para Cima (2021); Transformers: O Despertar das Feras (2023), Day of the Fight (2023), Plano de Aposentadoria (2023), Rastro do Dinheiro (2024), Os Provocadores (2024), Succubus (2024), Absolution (2024)


Rae Dawn Chong






A Guerra do Fogo (1981); Cidade do Medo (1984); Os irmãos Corsos (1984); Beat Street - Na Onda do Break (1984);  Comando Para Matar (1985); A Cor Púrpura (1985); Uma Escola Muito Louca (1986); Os Trapaceiros da Loto (1987); Um Diretor Contra Todos (1987); Contos da Escuridão (1990); O Esconderijo (1995); Cyrus (2010); Pegasus Vs. Chimera (2012); Renascida das Trevas (2018); American Crime Story (seriado 2016); We Are Gathered Here Today (2022); A entrevista de Anne Rice com o vampiro (série 2022)


sábado, 5 de outubro de 2024

O SALÁRIO DO MEDO / THE WAGES OF FEAR / LE SALAIRE DE LA PEUR (1953) - FRANÇA / ITÁLIA



EPOPEIA DA CORAGEM E DO MEDO

Em um país indefinido da América Central, aventureiros e párias de várias procedências ali se estabelecem à procura de trabalho, refúgio ou fortuna até não terem mais condições econômicas de retornarem aos seus respectivos países. O sonho dos que ali chegaram agora é evadirem-se da miséria, sordidez e do tédio da qual se encontram esperando uma oportunidade de saírem de seus próprios infernos. E a única maneira de voltar à civilização é de avião, cuja passagem é caríssima, as únicas rodovias disponíveis levam aos poços de petróleo e refinarias.


Quando um incêndio irrompe em um dos campos de petróleo, a empresa Shouthern Oil Company (empresa fictícia, mas que tem as mesmas iniciais da Standard Oil Company) resolve que a única forma de aplacar o incêndio é com nitroglicerina, um explosivo altamente volátil, mas utilizar os habitantes locais mostra-se um problema, pois, recentemente, muitos pereceram trabalhando para a empresa. A melhor alternativa mostra-se recrutar homens que não estejam vinculados à sindicatos ou que não possuam famílias, pessoas que ninguém virá reclamar. Quatro vagas são oferecidas junto com um vultoso pagamento. A missão: transportar por um caminho tortuoso de 500km dois caminhões carregados de quase meia tonelada de nitroglicerina. Os caminhões partirão com um espaço de tempo entre si, pois se um explodir, ainda há a esperança que o outro consiga completar o trajeto. Quatro homens são selecionados: Mario (Yves Montand) e Jo (Charles Vanel) que assumem a liderança e Luigi (Folco Lulli) e Bimba (Peter van Eyck) que seguirão meia hora atrás. Só que uma vez na estrada, a tensão nunca diminui, a promessa de salvação financeira se mostra imprevisível e angustiante para os quatro homens desesperados. Um dinheiro maldito para aqueles que aceitaram serem peças descartáveis.

Produção franco-italiana, “O Salário do Medo”, em seu lançamento original nos EUA, foi cortado em cerca de 50 minutos — segundo alguns, para eliminar o retrato desfavorável das empresas petrolíferas americanas que simbolizavam o imperialismo corporativo (mas foi dito que seria para atender necessidades comerciais de exibição, pois era “muito longo”). A bem da verdade, é que esse tempo inicial é dedicado a definição dos personagens tanto no plano social como no plano sentimental, sendo bem arrastado e desarticulado. Extraído do romance de Georges Arnaud – “Le Salaire de la Peur”, a produção conquistou o grande prêmio no Festival de Cannes ao criar um ambiente de constante tensão a partir da saída dos caminhões.

O diretor Henri-Georges Clouzot (1907-1977) criou uma obra simples, narrada de uma forma linear, mas cheia de elementos interessantes: retrata como as companhias americanas lidam com vidas humanas em países menos favorecidos; analisa a personalidade humana e faz um estudo do comportamento diante do medo, o medo angustiante e paralisador diante de uma eminente catástrofe; a alienação humana e social; uma notável indiferença às vidas humanas e como certas pessoas são tratadas e aceitam serem peças descartáveis por um preço. E essas pobres figuras humanas serão os heróis da estória. 

Obstáculos de toda sorte se interpõe na marcha dos veículos, sem qualquer segurança, numa estrada miserável. A angústia da plateia começa a ultrapassar a dos protagonistas. Metro a metro a perigosa carga avança para o seu destino. Uma hora a velocidade não pode diminuir, na outra devem ir muito devagar. Um balanço a mais, um buraco, uma pedra, um simples desnível na estrada, e tudo vai pelos ares. O medo progressivo transforma fortes em fracos e nos revela a riqueza que traz a miséria. Vícios e virtudes são exaltados. Clouzot nos coloca junto com os caminhoneiros, cujo o medo rouba até a dignidade de um dos protagonistas. Nervos à flor da pele. Quatro homens tentando ludibriar a morte com suas almas sendo descortinadas a cada situação limítrofe. Como não recordar da cena do estrondo apocalíptico? E a dos caminhões na plataforma de madeira frágil e inacabada? ou até mesmo a forte intensidade dramática na cena do caminhão preso em uma cratera de óleo (cenas que nos revelam muito sobre esses dois protagonistas)?. E o inesperado e irônico final, ousado, poderoso e reflexivo, que nos dias atuais, com um formato mais pasteurizado, que visa sempre o lucro e evita ao máximo o descontentamento da plateia, nenhum estúdio hollywoodiano ousaria arriscar?

O elenco central esteve muito bem. Yves Montand interpretou Mário, um jovem que se lança em uma empreitada sem medir suas reais consequências, apenas para sair daquele local. Que, com a chegada de Jo (Charles Vanel), francês como ele, passa a acompanhá-lo numa espécie de idolatria, mas que perceberá, na estrada, que seu ídolo tem pés de barro. Charles Vanel interpreta Jo, um homem de meia idade que gastou seus últimos trocados para chegar até ali. Uma pessoa que aparentemente já esteve envolvido em negócios escusos. Mostra-se um homem cheio de certezas, atrevido e ameaçador, mas quando consegue sua vaga no caminhão (de uma forma diferente dos demais) percebe que talvez tenha tomado a pior atitude de sua vida. Sua auto-alardeada coragem não se põe à prova quando ao seu lado existe um explosivo que poderá tirar sua vida antes mesmo que possa perceber. Um homem cuja maturidade o obriga a refletir qual é o seu limite. Sua interpretação rendeu-lhe, no Festival de Cannes, o prêmio de melhor interpretação masculina. Folco Lulli interpretou o italiano Luigi, um homem que recebe um diagnóstico que o torna desesperançoso quanto ao seu futuro. Entrar nessa "aventura" passa a ser a chance de aproveitar o pouco tempo que lhe resta bem longe dali. Já Peter van Eyck interpretou Bimba, um homem que sobreviveu ao trabalho forçado em um campo nazista e tornou-se uma pessoa que vê a vida em tons cinzas. William Tubbs interpretou Bill O'Brien, um homem sem escrúpulos, que conseguiu um emprego da qual não aceitará perder. Antigo conhecido de Jô, ele só deseja resolver o problema, as vidas que custarão nesse processo, para ele, é uma perda aceitável. Foi o último filme do ator, que morreu meses antes da estreia do filme. Véra Clouzot, nome artístico da brasileira Véra Gibson-Amado, foi atriz e roteirista. Casada com Georges Clouzot, atuou apenas em três filmes (todos do marido) e recebeu elogios por este filme e por “As Diabólicas” (1955). Vera interpretou Linda, a jovem apaixonada por Mário, que pouco lhe retribui afeto. Enquanto ela sonha em viver ali com seu grande amor, este a vê como um passatempo temporário. Ela simboliza o que ele menos deseja: permanecer naquele local.

 


Epopeia da coragem e do medo, ambientado no pós-Segunda Guerra Mundial, “O Salário do Medo” será sempre lembrado como um dos melhores filmes feitos nos anos 50 e cuja sua temática ou parte desta expandiu-se, de forma camuflada, para vários filmes. É um filme que muitos classificaram como cruel, mórbido, cínico, antiamericano e pessimista, mas é antes de tudo uma aula de cinema. Talvez seu maior defeito seja a longa metragem no primeiro arco (início) da estória, que define a ambientação e os personagens. Mas quando o filme “começa”, mostra-se uma obra única. Gerou também uma refilmagem elogiada pela crítica, dirigida pelo diretor de “Operação França” e “O Exorcista”: “O Comboio do Medo” (Sorcerer) em 1977. 

 

Trailer:

 


 

Curiosidades:

Yves Montand e Charles Vanel sofreram de conjuntivite após filmar em uma piscina de petróleo bruto e serem expostos a vapores de gás.

 As filmagens começaram em 27 de agosto de 1951 e estavam programadas para durar nove semanas. No entanto, vários problemas atormentaram a produção. O sul da França teve uma estação chuvosa incomum naquele ano, fazendo com que veículos atolassem, guindastes caíssem e cenários fossem destruídos. O diretor Henri-Georges Clouzot quebrou o tornozelo. Véra Clouzot adoeceu. A produção estava 50 milhões de francos acima do orçamento. No final de novembro, apenas metade do filme estava concluída. Com os dias ficando mais curtos por causa do inverno, a produção foi interrompida por seis meses. A segunda metade do filme foi finalmente concluída no verão de 1952.

Acusações de antiamericanismo levaram a censura dos EUA a cortar várias cenas importantes do filme.

Henri-Georges Clouzot planejou originalmente filmar o filme na Espanha, mas Yves Montand se recusou a trabalhar na Espanha enquanto o ditador fascista Francisco Franco estivesse no poder. As filmagens ocorreram no sul da França, perto de Saint-Gilles, na Camargue. A vila vista no filme foi construída do zero.

Este foi o primeiro filme a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim.

Esta foi a estreia cinematográfica de Véra Clouzot . Ela era esposa do diretor Henri-Georges Clouzot . Ela atuou em apenas três filmes, todos para seu marido.

Yves Montand - na época mais conhecido como cantor - ficou bastante intimidado por seu colega de elenco mais experiente, Charles Vanel, que inevitavelmente arrasava nas cenas em apenas uma ou duas tomadas.

Foi o quarto filme de maior bilheteria do ano na França.

A opinião consensual, juntamente com fatos históricos, sugere que a Venezuela, rica em petróleo, era o país mais provável em que O Salário do Medo teria ocorrido logicamente. De fato, há cenas no filme em que os povos indígenas estão usando chapéus bombin (tipo coco), que são tradicionalmente usados ​​em certos países da América do Sul, como Bolívia e Peru, mas não na América Central. No livro sugere ser Guatemala.

O primeiro papel dramático de Yves Montand .

32 anos antes de Super Mario Bros. ser lançado para o NES, este filme apresenta dois personagens chamados Mario e Luigi.

Em 1:22, a melodia que Bimba toca em sua gaita é "Der Gut Kamerad", tradicionalmente associada a funerais militares alemães. Essa melodia também é usada em A Raposa do Mar (The Enemy Below), quando um marinheiro alemão é enterrado no mar.

Observem como o personagem Mario, de Yves Montand, ainda fuma seu cigarro permanente, mesmo sob efeito de nitro.

Colorido em 1996 com a aprovação da filha de Henri-Georges Clouzot .

A versão restaurada tem 153 minutos

O filme foi proibido na Guatemala  em 1955 e os livros retirados das livrarias. Livros também foram recolhidos na Argentina

Vera Clouzot era filha do embaixador brasileiro Gilberto Amado

Em seu lançamento original nos EUA (1955) foi cortado em cerca de 50 minutos.

Véra Clouzot faleceu aos 46 anos em decorrência de um ataque cardíaco


Cartazes:

 



 

Filmografias Parciais:

Ives Montand (1921-1991)






Estrela Sem Luz (1946), Portas da Noite (1946), Lembranças do Pecado (1950), Paris é Sempre Paris (1951), O Salário do Medo (1953), Nossos Tempos (1954), Napoleão (1955), Os Heróis Estão Cansados (1955), O Homem que Vendeu a Alma (1955), Homens e Lobos (1957), As Virgens de Salem (1957), A Grande Estrada Azul (1957), A Lei dos Crápulas (1959), Adorável Pecadora (1960), Santuário (1961), Mais uma Vez, Adeus (1961), Minha Doce Gueixa (1962), Crime no Carro Dormitório (1965), A Guerra Acabou (1966), Paris Está em Chamas? (1966), Grand Prix (1966), Viver por Viver (1967), Sr. Liberdade (1968), Laços Eternos (1968), O Diabo Pela Cauda (1969), Z (1969), A Confissão (1970), Num Dia Claro de Verão (1970), Os Guerreiros Pilantras (1970), O Círculo Vermelho (1970), Mania de Grandeza (1971), Tudo Vai Bem (1972), Estado de Sítio (1972), Ange, O Gangster (1973), O Amor e a Violência (1974), Sessão Especial de Justiça (1975), O Selvagem (1975), Calibre Python 357 (1976), O Grande Espertalhão (1976), Encurralado Para Morrer (1977), Um Homem, uma Mulher, uma Noite (1979), I... como Ícaro (1979), A Escolha das Armas (1981), Que Figura, Meu Pai (1982), Garçom! (1983), Jean de Florette (1986), A Vingança de Manon (1986), IP5 - A Ilha dos Paquidermes (1992)

 

Charles Vanel (1892-1989)






Alma de Artista (1924), A Agonia do Submarino (1926), Romance de uma Princesa (1927), A Escrava Branca (1927), Sua Última Noite (1927), Beijo de Apache (1927), Rainha Luiza e Napoleão (1928), Acusada, Levante-se! (1930), Cruzes de Madeira (1932), Em Nome da Lei (1932), Heróis Sem Pátria (1934), Os Miseráveis (1934), A Última Cartada (1934), Tripulantes do Céu (1935), Mulher Mascarada (1935), Vertigem de uma Noite (1936), Camaradas (1936), Abuso de Confiança (1937), S.O.S. Sahara (1938), A Brigada Selvagem (1939), A Lei do Norte (1939), Virgem e Pecadora (1945), Em Nome da Lei (1949), O Coração no Mar (1950), Os Implacáveis (1950), A Encruzilhada (1951), A Última Sentença (1951), O Salário do Medo (1953), Se Versalhes Falasse... (1954), As Diabólicas (1955), Ladrão de Casaca (1955), Defendo o Meu Amor (1956), A Morte no Jardim (1956), O Traficante Sinistro! (1957), Desforra (1958), Prisioneiros do Desejo (1958), O Gorila em Conflitos Alucinantes (1958), Os Barqueiros do Volga (1959), Ninho de Espiões (1959), A Verdade (1960), Tintin e o Mistério do Tosão de Ouro (1961), Rififi em Tóquio (1963), Sinfonia para um Massacre (1963), Um Homem de Confiança (1963), O Canto do Mundo (1965), Acerto de Contas (1971), Camorra (1972), A Mais Bela Noite da Minha Vida (1972), Receita para Sete Mortos (1975), Cadáveres Ilustres (1976), Boomerang (1976), Três Irmãos (1981) 

 

Folco Lulli (1912-1970)






O Bandido (1946), Delito (1947), Trágica Perseguição (1947), A Filha do Capitão (1947), Fora da Lei (1947), O Diabo Branco (1947), Sem Piedade (1948), Ao Diabo a Fama (1949), Totó Procura Casa (1949), Páscoa de Sangue (1950), Mulheres e Luzes (1950), Mercado Infame (1951), Os Filhos de Ninguém (1951), Outros Tempos (1952), O Salário do Medo (1953), Resgate (1953), Nós, Os Canibais (1953), A Pecadora da Ilha (1954), A Grande Esperança (1954), O Diabo do Deserto (1955), Arroz Maldito (1956), Todos Somos Necessários (1956), Rapto de Mulheres (1956), Londres Chama Polo Norte (1956), Olho por Olho (1957), Serenata dos Canhões (1958), O Escudo Romano (1959), A Grande Guerra (1959), Maria das Ilhas (1959), A Noite dos Perseguidos (1959), Sob Dez Bandeiras (1960), A Rainha dos Tártaros (1960), Esther e o Rei (1960), Os Bravos Tártaros (1961), Espadachim Mercenário (1961), O Rapto das Sabinas (1961), A Vingança dos Vikings (1961), Epopéia de Bravos (1962), Marte, Deus da Guerra (1962), Os Valentes não Se Rendem (1962), A Marca da Vingança (1963), Os Companheiros (1963), D'Artagnan Contra os 3 Mosqueteiros (1963), Marco Polo, O Magnífico (1965), O Incrível Exército Brancaleone (1966), A Fúria do Raio (1966), Analfabeto e Cabeçudo (1966), Um Roubo em Paris (1967), Inferno no Oeste (1968), Uma Viúva Toda de Ouro (1969)

 

Peter van Eyck (1911-1969)





Os Filhos de Hitler (1943), Noite Sem Lua (1943), Cinco Covas no Egito (1943), O Capanga de Hitler (1943), O Impostor (1944), Endereço Desconhecido (1944), Epílogo (1950), Furioso (1950), Dançarina Infernal (1950), Raposa do Deserto (1951), Amor de Casbah (1952), O Salário do Medo (1953), Marinheiro do Rei (1953), Ao Sul do Sahara (1953), A Sombra da Noite (1954), A Grande Paixão (1954), Tarzan e os Selvagens (1955), Cada Bala uma Vida (1955), Um Salto no Inferno (1955), Grilhões do Passado (1955), Crime na Madrugada (1955), O Vício Singra o Mississipi (1956), Dois Destinos se Encontram (1956), Morte sem Glória (1956), Os Covardes Também Amam (1957), Todos Podem Me Matar (1957), Ídolo do Pecado (1958), Meias Pretas, Noites Quentes (1958), Acorrentados pelo Pecado (1959), Crime Depois das Aulas (1959), Os Mil Olhos do Dr. Mabuse (1960), Emboscada no Cairo (1960), Quem com Ferro Fere... (1962), O Mais Longo dos Dias (1962), Cinco Homens a Desejavam (1963), Ronda de Amantes (1963), O Mistério da Ilha dos Thugs (1964), O Espião que Saiu do Frio (1965), A Outra Face da Felicidade (1966), O Homem que Valia Bilhões (1967), Rosas Vermelhas para Hitler (1968), Tarefa Sinistra (1968), Shalako (1968), A Ponte de Remagen (1969) 

 

William Tubbs (1907-1953)





Sinfonia fatale (1947), Ao Diabo a Fama (1949), Os Piratas de Capri (1949), 13º Homem (1950), Táxi de Noite (1950), A Sombra da Águia (1950), Vivamos Hoje (1951), 3 Passos ao Norte (1951), Quo Vadis (1951), Totò in Guardas e Ladrões (1951), O Filho de Outra Mulher (1952), A Máquina de Matar Pessoas Más (1952), A Carruagem de Ouro (1952), O Salário do Medo (1953)

 

Véra Clouzot (1913-1960)





O Salário do Medo (1953), As Diabólicas (1955), Os Espiões (1957)



sexta-feira, 17 de junho de 2022

PLANETA FANTÁSTICO / LA PLANÈTE SAUVAGE / FANTASTIC PLANET (1973) - FRANÇA / CHECOSLOVÁQUIA

PLANETA SELVAGEM

Em algum lugar no tempo e no espaço existe uma civilização de gigantes, de tom azulado, com orelhas em forma de teia e olhos vermelhos bulbosos, que atingiu um alto estágio evolutivo no planeta Ygam: os Draags. Muitos possuem minúsculos animais de estimação: os Oms, seres humanos selvagens. Tiva, filha do primeiro-ministro Sinh, um influente intelectual/líder, cria um pequeno bebê humano, cuja mãe morrera durante uma de suas “inofensivas” brincadeiras. Sinh lhe adverte que apesar de serem seres insignificantes, ela deverá aprender o valor da vida cuidando do minúsculo Om (abreviação da palavra francesa “hommes”). Tiva lhe dá o nome de Terr (Terra, em francês).

Muitas das crianças Draags passam os seus dias tendo seus Oms lutando entre si, às vezes até a morte. Os Oms “domesticados”, mas involuídos, são obrigados a usarem uma coleira de controle em seus pescoços para evitarem que fujam, enquanto existem os Oms selvagens, que vivem escondidos se reproduzindo rapidamente e danificando construções preocupando assim os Draags que, por os considerarem incapazes de racionar, vez em quando resolvem fazer um “controle de pragas” populacional através de uma erradicação química altamente eficaz. O que eles não sabem é que o dispositivo (fones de ouvido) usado pelos Draags que condensa todo o conhecimento, com informações que são absorvidas diretamente pelo cérebro, também vem alcançando o pequeno Terr, pela proximidade à Tiva (e devido a um defeito no colar), lhe proporcionando um conhecimento pleno da sociedade e dos avanços tecnológicos feitos pela gigantesca civilização. Quando alcança a idade adolescente, o jovem Terr finalmente percebe-se dentro contexto social dos Draags, rouba os fones de ouvido de Tiva e consegue fugir livrando-se de seu colar. Terr decide utilizar o alto conhecimento adquirido para livrar seus pares de uma vida selvagem e sem propósito, ao mesmo tempo que descobre a fraqueza dos Draags.

“La Planète Sauvage”, baseado no romance (adaptação bastante solta) de Pierre Pairault (escrito sob o pseudônimo de  "Stefan Wul") “Oms En Serie” (1957), levou quase cinco anos para ser concluído. Foi prejudicado pela invasão soviética (1968) da Tchecoslováquia (atualmente República Tcheca), que resultou na produção sendo transferida para a França, onde foi finalmente lançado em 1973, ganhando o Prêmio Especial do Júri em Cannes. Dirigido pelo animador francês René Laloux (1929–2004), de “Gandahar: Anos de Luz" (1987) e co-roteirizado por Roland Topor (1938–1997) que teve seu romance, “O Inquilino”, adaptado para o cinema por Roman Polanski e que também poderá ser lembrado por interpretar Renfield em "Nosferatu" de Werner Herzog.

A animação de Topor (aqui também como artista gráfico), desenhada à mão com pastéis quentes e hachuras pesadas, traz um visual impactante e bem singular (ainda que a animação em si seja limitada e rígida) na qual muitos consideram um dos mais inteligentes já feitos e de alcance atemporal. Já a trilha sonora é repleta de acordes jazzísticos do músico Alain Goraguer, que combina riffs de guitarra com sons eletrônicos experimentais interagindo com a concepção gráfica de Topor. Ao ser lançado na América, o filme foi renomeado para “The Fantastic Planet” e rapidamente se tornou um clássico cult (claro que dublado para o americano médio) com uma infinidade de criaturas e plantas, cada uma mais estranha que a outra.

Projeto bastante atípico para a época, essa produção checoslovaca-francesa fornece múltiplas percepções ao espectador e grande reflexão dessa sociedade na qual os humanos são animais de estimação para uma raça de alienígenas de 12 metros de altura. Dependendo de como você o percebe e principalmente dependendo da idade em que você o descobre, este conto cruel assume várias dimensões: reflexão político-filosófica sobre a condição humana em relação a outras espécies; o equilíbrio de poder entre as sociedades (dominantes e dominados); a escravidão; uma parábola disfarçada da Tchecoslováquia dominada pelo jugo soviético na época; uma obra poderosa, poética, e de tendência metafísica; uma reflexão de como o homem trata seus animais ou seres que considera inferiores e sem capacidade de raciocínio ou imagens surreais com alegorias políticas sérias.    Houve quem direcionasse comparações ao clássico “O Planeta dos Macacos”,  assim como obras de ficção-científicas distópicas. 

Ainda que muitos considerem uma animação (graficamente) já datada para a época do lançamento do filme, ver humanos escravizados como animais e, às vezes, tratados como incômodos tanto pode fascinar quanto aterrorizar, mas indiferente o espectador dificilmente ficará. Ficção científica adulta abstrata, obra poética, pop com tendência hippie, psicodélica e existencial, que traz vários elementos que se afinam com as ideias da contracultura, impressiona por ter sobrevivido durante tantos anos que ao invés de envelhecer, melhora com o tempo.

 

Trailer:

 


Curiosidades:

Embora concebido na França, isso foi realmente animado na Tchecoslováquia.

Em 2016, a revista Rolling Stone nomeou este o 36º maior filme de animação de todos os tempos.

Em agosto de 2010, foi lançado uma alta definição restaurada do filme em Blu-ray, com recursos especiais.

Em 2000, a DC Recordings lançou a trilha sonora em CD, e a trilha sonora foi posteriormente lançada em LP.

Um título de trabalho durante o desenvolvimento foi Sur la Planete Ygam (No Planeta Ygam), que é onde a maior parte da história acontece; o título real (The Fantastic/Savage Planet) é o nome da lua de Ygam.

Incluído entre os "1001 filmes que você deve ver antes de morrer", editado por Steven Schneider.


 

Cartazes:




Fontes:

Le Cinéma Français des Années 70 (Freddy Buache)

Historical Dictionary of Science Fiction Cinema (Booker, M. Keith)

Revista Rua Morgue (2008)

VideoHound's World Cinema 

La Revue du Cinema 

101 Sci-fi Movies You Must See Before You Die