sexta-feira, 17 de julho de 2020

A GAROTA DO ADEUS - THE GOODBYE GIRL (1977) - ESTADOS UNIDOS


UMA ELEGANTE COMÉDIA ROMÂNTICA DE COSTUMES

Paula Mcfadden (Marsha Mason), uma ex-corista da Broadway, divorciada, vive com sua filha Lucy (Quinn Cummings) em um apartamento em Manhattan e descobre que seu namorado a abandonou,  viajando para o exterior e sublocando o apartamento ao seu amigo Elliot Garfield (Richard Dreyfuss), um egocêntrico ator teatral de Chicago. Valendo-se do direito de sublocação, Eliott  se recusa a reconhecer o direito de ocupação de Paula, ao mesmo tempo em que esta se recusa a desistir das instalações. Necessidades monetárias lhes obrigam a dividir despesas e apartamento onde tentam conservar a lucidez e o bom humor em acaloradas discussões.



Com cinco indicações ao Oscar (Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro e Melhor Filme) dando o Oscar a Dreyfuss, A Garota do Adeus é uma comédia romântica que fez muito sucesso à sua época ao mostrar um casal diametralmente opostos cujas circunstâncias os obrigam a dividir um apartamento onde vivem rusgas diárias e passam a competir pela última palavra. Aos poucos o gelo começa a se derreter, insultos dão lugar a compreensão e compaixão. O inteligente roteiro do dramaturgo Neil Simon, na época Marido de Marsha e um dos nomes mais famosos do teatro norte-americano,  nos traz momentos divertidos e criativos abrangendo os caminhos da solidão e desafeto em uma elegante comédia de costumes. A direção de Herbert Ross, ex-bailarino e ex-coreografo, de filmes como de “Flores de Aço” e “Sonhos de um Sedutor” conseguiu imprimir ritmo aos diálogos nos mostrando um ator de Chicago querendo ganhar os palcos de Nova Iorque, uma mulher escaldada por uma série de fracasso amorosos  e uma menina, modelo de precocidade, que interage com a dupla fornecendo o ponto de equilíbrio que a estória precisava.


Outro ponto interessante é a mudança do papel da mulher na sociedade  mostrado nessa produção. O filme fora realizado em 1976, sendo levado aos cinemas americanos em 1977 e chegando ao Brasil em 1978. Se observarmos que a lei do divorcio em nosso país (um dos últimos por sinal a realizar essa prática) saiu em 26 dezembro de 1977 após forte oposição (só existia o desquite e a pessoa não podia casar de novo) e que mulher divorciada não era bem vista na sociedade, nem filhos de casais separados, muito se explica porque algumas análises criticavam o filme sem tocar nesse motivo como sendo o principal. A personagem Paula representava o papel da nova mulher na sociedade: divorciada, independente financeiramente, trabalhando e cuidando sozinha da filha.Mãe em tempo integral. Paula vive com a filha pequena que possui inteligência e amadurecimento precoces para sua idade e teve um relacionamento com um namorado que lhe abandonara. Um novo homem, um estranho, surge para dividir um cômodo na casa. Se hoje essas questões são comuns, na década de 70 não eram e foi uma maneira da Academia do Oscar mostrar que estava sintonizada e apoiava os novos tempos que viriam. Mas não foi uma decisão política já que o filme, por sua temática ousada e atual para a época,  tinha realmente muitas qualidades que o classificavam à disputa da estatueta.


Richard Dreyfuss (aos 30 anos de idade) teve uma atuação carismática que mostroua evolução de seu personagem que, no início, se mostra um “mala”, e aos poucos se revela uma pessoa compreensiva, amiga e afetuosa que começa a derreter o coração de Paula. Dreyfuss fora o ator mais jovem a ganhar o Oscar. Este recorde foi quebrado por Adrien Brody ao ganhar o Oscar de Melhor Ator em 2003 por seu papel principal em “O Pianista” (2002), aos 29 anos. Marsha Mason (aos 35 anos) conseguiu a química necessária com Dreyfuss e sua personagem transita entre a falsa durona e a romântica, que precisa do apartamento para manter sua vida e dar um lar para sua filha. Mas, aos poucos, o espectador começa a ver que seus sentimentos são fruto de suas escolhas amorosas erradas, a quem sempre é relegada o papel de vítima rejeitada, mas Paula começa a ver em Elliott uma nova oportunidade, só que o medo de novamente ser “a garota do adeus” é um grande empecilho. Quinn Cummings, em sua estreia no cinema, foi outra que concorreu ao Oscar por sua elogiada atuação “roubando” as cenas nos momentos em que foi exigida. 



A Garota do Adeus é indicado aqueles que gostam de comédias românticas de qualidade. Apesar de feito nos anos 70 não envelheceu em sua temática e se mostra um passatempo bem divertido com a bela canção final "The Goodbye Girl" na voz de David Gates (vocalista do grupo Bread na época).

Trailer:




The Goodbye Girl - David Gates 




Cartazes:




Curiosidades:
A produção desastrosa de "Ricardo III" de Shakespeare, na qual Elliot Garfield (Richard Dreyfuss) interpreta o personagem-título como gay, foi baseada em uma produção real em que Marsha Mason estava (como Lady Anne) e contou ao marido, Neil Simon.

Quando a Warner Bros. ignorou o roteiro reescrito de Neil Simon após o desastroso início das filmagens (sob o título inicial de "Bogart Slept Here"), o estúdio ainda estava bastante desconfortável em fazer o filme, mas concordou em seguir em frente depois de fazer um acordo com a Metro-Goldwyn -Mayer para dividir os custos. O filme foi um dos primeiros co-produzidos por dois estúdios de Hollywood, incomum na época, mas comum agora.

Um dos cinco filmes escritos por Neil Simon que mostravam sua esposa Marsha Mason. Os filmes incluem A Garota do Adeus (1977), O Detetive Desastrado (1978), Capítulo Dois: Em Busca da Felicidade (1979), O Doce Sabor de um Sorriso (1981) e A Volta de Max Dugan (1983).

O filme foi inicialmente intitulado "Bogart dormiu aqui", com Robert De Niro como protagonista e Mike Nichols como diretor. A história foi supostamente baseada na vida de Dustin Hoffman como um ator em dificuldades.  Hoffman queria o papel principal no filme, mas foi recusado. As diferenças artísticas finalmente forçaram De Niro e Nichols a sair duas semanas depois das filmagens, depois de várias leituras na mesa. Outros atores que também foram candidatos ao papel foram Jack Nicholson, James Caan e Tony Lo Bianco. Dreyfuss foi trazido para testar ao lado de Marsha Mason.

Richard Dreyfuss baseou seu personagem de Elliot Garfield em seu amigo Harlan Ellison.

Fontes apontam para este filme como a primeira comédia romântica a arrecadar 100 milhões de dólares.

O filme foi refilmado para a televisão cerca de 27 anos após a sua primeira produção e lançamento. Jeff Daniels desempenhou o papel de Richard Dreyfuss, enquanto Patricia Heaton assumiu o papel de Marsha Mason. O remake "atualizado" envolveu pouca reescrita deste filme. O roteiro do remake da TV é literalmente palavra por palavra e cena por cena do roteiro original deste filme, com exceção de algumas palavrões removidas para torná-lo mais apropriado para a televisão

Segundo Neil Simon, ninguém esperava nada de especial nas bilheterias do filme. "Tinha apenas uma estrela de verdade, Richard Dreyfuss; uma estrela em ascensão, Marsha Mason; e uma fofa de dez anos, Quinn Cummings, com uma ligeira história de amor dirigida extremamente bem por Herbert Ross ...”

A versão musical deste filme, também intitulada "The Goodbye Girl", estreou no Marquis Theatre em 4 de março de 1993 e concorreu para 188 apresentações até 15 de agosto do mesmo ano. Foi indicado a cinco prêmios Tony em 1993, incluindo Melhor Musical, Melhor Direção de um Musical e Melhor Coreografia. Bernadette Peters fez    Marsha Mason e Martin Short atuou no papel de Richard Dreyfuss.

Em um ponto do filme, Richard Dreyfuss personifica Humphrey Bogart. O filme foi originalmente intitulado "Bogart Slept Here".

Primeiro de dois filmes escritos por Neil Simon, estrelados por Richard Dreyfuss. O outro é Proibido Amar (1993).

Robert De Niro foi originalmente escolhido como Elliot McFadden e demitido logo antes do início das filmagens. Richard Dreyfus foi chamado no último minuto e convidado a fazer um teste. "Eu não podia acreditar!" Disse Dreyfus. "Ninguém despede De Niro!" De Niro se recusou a falar sobre a experiência em entrevistas.

O único indicado ao Oscar de Melhor Filme naquele ano a não ser indicado para Melhor Diretor.

Incluído na lista do ano de 1998  pelo American Film Institute, indicados para os 100 melhores filmes americanos.

Incluído na lista do ano de 2000  pelo American Film Institute dos 100 filmes americanos mais engraçados

Filmografia Parcial:
Marsha Mason



Amantes em Veneza (1973); Licença Para Amar Até a Meia-Noite (1973); As Duas Vidas de Audrey Rose (1977); A Garota do Adeus (1977); Promessa ao Amanhecer (1979); Capítulo Dois: Em Busca da Felicidade (1979); A Volta de Max Dugan (1983); Presa do Silêncio (1986); O Destemido Senhor da Guerra (1986); Stella, uma Prova de Amor (1990); Noiva e Preconceito (2004); De Volta à Estrada (2004); Uma Família Perdida no Meio do Nada (seriado 2010 a 2017); Grace and Frankie (seriado 2016 a 2019)


Richard Dreyfuss











A Primeira Noite de um Homem (1967); Os Jovens Fugitivos (1968); Dillinger: Inimigo Público nº 1 (1973); Loucuras de Verão (1973); Tubarão (1975); A Sentinela dos Malditos (1977); Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977); A Garota do Adeus (1977); De Quem é a Vida Afinal? (1981); Um Vagabundo na Alta Roda (1986); Conta Comigo (1986); Tocaia (1987); Querem me Enlouquecer (1987); Luar sobre Parador (1988); A Grande Barbada (1989); Além da Eternidade (1989); Lembranças de Hollywood (1990); Meu Querido Intruso (1991); Nosso Querido Bob (1991); Uma Nova Tocaia (1993); Testemunha do Silêncio (1994); Meu Querido Presidente (1995); Mr. Holland: Adorável Professor (1995); Sombras da Lei (1996); Mafiosos em Apuros (2000); O Alvo Errado (2001); Poseidon (2006); W. (2008); Falando Grego (2009); Irmãos de Sangue (2009); Piranha (2010); RED: Aposentados e Perigosos (2010); Do Jeito que Elas Querem (2018); Astronaut (2019); Daughter of the Wolf (2019)


Quinn Cummings











Night Terror (1977); Intimamente Estranhos (1977);  A Garota do Adeus (1977);  Família (seriado 1978 a 1980); A Enviada do Mal (1980); Desencontros (1989)


Nicol Williamson (1936–2011) 











Hamlet (1969); Conspiração Violenta (1975); Robin e Marian (1976); A Garota do Adeus (1977); Excalibur  - A Espada do Poder (1981); O Mundo Fantástico de Oz (1985); O Mistério da Viúva Negra (1987); O Exorcista III (1990); Amigos Para Sempre (1996); Spawn - O Soldado do Inferno (1997).


Powers Boothe (1948–2017)











A Garota do Adeus (1977); O Confronto Final (1981); O Senhor das Águias (1984); Amanhecer Violento (1984); A Floresta das Esmeraldas (1985); O Limite da Traição (1987); Rajada de Fogo (1992); Tombstone - A Justiça Está Chegando (1993); Morte Súbita (1995); Homens de Honra (2000); A Mão do Diabo (2001); Sin City: A Cidade do Pecado (2005); The Avengers: Os Vingadores (2012);  Sin City: A Dama Fatal (2014); Agentes da S.H.I.E.L.D. da Marvel (seriado 2015 a 2016)

terça-feira, 14 de julho de 2020

COMA: A DIMENSÃO DO FUTURO / KOMA (2019) - RÚSSIA


FICÇÃO-CIENTÍFICA RUSSA

Viktor (Rinal Mukhametov) é um jovem arquiteto que acorda pela manhã e vê que a realidade está mudada: prédios estão desaparecendo e muitos estão de ponta-cabeça ou suspensos no ar. Pessoas estão se desintegrando e uma misteriosa criatura parece brotar das imensas “ligas” negras que cobrem os céus. Ao ser atacado por uma dessas criaturas é salvo por Phantom (Anton Pampushnyy) e pela soldado Fly (Lyubov Aksyonova) que o levam para um local que abriga outras pessoas. Viktor descobre que está em outro mundo: um mundo das pessoas que ficam em coma e que tudo ali é produzido pelas memórias dos que estão inconscientes, inclusive as mortais criaturas chamadas "Ceifadores". Se alguém é morto por essas criaturas nessa realidade, não mais acordará no mundo real.  Yan (Konstantin Lavronenko) é o mais antigo naquela realidade e por isso líder. Ele explica que todos possuem habilidades naquele mundo, mas pouco as desenvolvem, Phantom, por exemplo, tem super-força e super-velocidade, mas é instável, imaturo e arrogante e Fly o poder de cura. Yan crê que Victor possui habilidades que o ajudarão em seu plano e Phantom começa a se incomodar com a aproximação de Victor e Fly. Mas o grande mistério para Victor é entender o que lhe aconteceu para ter entrado em coma.


O cinema russo no Brasil ainda é pouco conhecido do grande público. Alguns podem ter visto O Encouraçado Potemkin (1925), Guerra e Paz (1965), Solaris (1972); Vá e Veja (1985); Arca Russa (2002)... mas essas produções não são para todo o tipo de público, principalmente os que gostam de produções made in USA. Mas de um tempo para cá jovens cineastas russos tem se aproximado mais do estilo ocidental de fazer cinema. Quem viu os Guardiões, a versão americana de os Vingadores, percebeu que ainda que engatinhe em certos aspectos, há uma luz na escuridão e principalmente os filmes de ficção científica tem apresentado melhores resultados para o grande público ainda que as estórias careçam de melhor dramatização e estilo. "Coma" não foge muito à regra, mas apresenta melhoras perceptíveis do que podemos esperar nos próximos anos.


Em sua estreia na direção, Nikita Argunov, que foi uma das produtoras de “Os Guardiões”, mas sua até então experiência era no campo dos efeitos especiais (como “O Guerreiro Genghis Khan” de 2007), nos entrega um filme visualmente hipnotizante com efeitos especiais de primeira linha, mas a estória que até flui bem, tem alguns altos e baixos como uma primeira parte mais lenta, algumas perguntas sem resposta apostando num ritmo mais dinâmico perto do final. Quem viu “A Origem” e “Doutor Estranho” perceberá que a cineasta bebeu nessas fontes quanto a questão dos efeitos, mas o filme tem vida própria e se afasta dessas produções ao elaborar sua própria estória que evita a violência habitual dos filmes atuais preenchendo de aventura, ação e fantasia.  Há um certo mistério quanto a toda situação, que será esclarecida ao longo da estória. Satisfará alguns, mas outros sentirão que mais alguns minutos dariam um final bem mais estruturado.


No elenco não temos rostos conhecidos e algumas atuações ficam no automático, algo que o cinema russo ainda precisa resolver. Lyubov Aksyonova esteve em Salyut-7 e em um episódio da série Jack Ryan (2019). Anton Pampushnyy foi "Arsus" em "Os Guardiões" e o restante do elenco vem de produções russas.


Koma custou em torno e 4 milhões de dólares, mas sua arrecadação mundial ficou em torno da metade do valor. Sabendo que americanos não gostam de filmes estrangeiros para não lerem legendas e que outros países preferem divulgar filmes de países mais conhecidos, justifica-se porque essa produção pouco arrecadou e porque muitos ainda não a conhecem. Não é um filme fantástico, não é um filme inesquecível, mas pode ser assistido como um bom passatempo e até como curiosidade em como a indústria cinematográfica russa vem se desenvolvendo no século XXI.

Trailer:







Cartazes:





FUGA PARA A VITÓRIA / VICTORY / ESCAPE TO VICTORY (1981) - REINO UNIDO / ESTADOS UNIDOS / ITÁLIA


STALLONE , MICHAEL CAINE E PELÉ

John Colby (Michael Caine) é um oficial britânico que havia sido um jogador famoso do futebol antes da guerra e agora encontra-se confinado com outros combates no campo de Gensdorf, Alemanha, em 1943. Para manterem-se sadios físicamente e mentalmente jogam pelada nos campos de terra improvisados. O major e oficial da propaganda alemã, Karl Von Steiner (Max Von Sydow), que também fora jogador, reconhece Colby e tem uma ideia: uma partida entre os prisioneiros e a seleção alemã. A ideia é usar o evento como uma forma de impulsionar a máquina de propaganda nazista mostrando ao mundo a supremacia dos atletas alemãs diante de 28 mil franceses, no estádio Colombes, na França ocupada. Colby sabe que seu grupo não terá chance contra profissionais treinados e no auge, mas oficiais ingleses do campo percebem que podem tirar proveito da situação ao elaborarem uma fuga no intervalo do jogo que ridicularizará os nazistas.



Dirigido pelo celebrado John Huston (Relíquia Macabra, Uma Aventura na África, Moby Dick, O Homem Que Queria Ser Rei), Fuga Para a Vitória reuniu um trio de ótimos atores: Michael Caine, Max Von Sydow e Sylvester Stallone além de talentos do futebol como Pelé, Ardiles e Boby Moore entre outros num filme que tinha tudo para ser um gol contra na carreira do cineasta, pois guerra com futebol é uma química estranha e filmes dificilmente retratam uma partida de futebol com a mesma emoção que um evento real. Mas o diretor era Huston e o consultor técnico das jogadas, Pelé. Huston (1906–1987) soube aproveitar muito bem os atores nas cenas que necessitavam de dramatização extra-campo e atletas que sabiam o que fazer dentro de campo com a bola.  Uma montagem bem realizada permitiu a Michael Caine entrar em campo e “jogar” sem que o público se desse conta de que a maioria de suas cenas são em close, evitando mostrar o ator praticando o jogo.


Filmado inteiramente na Hungria, usando 28 mil extras, a direção de Huston, baseada levemente em fatos reais, de eventos ocorridos na Ucrânia, apresenta altos e baixos: o roteiro é frágil e inverossímil, sem validade histórica; os nazistas não criam um aparato militar em relação a grandiosidade do evento; Steiner (Max Von Sydow) se transforma em um "nobre inimigo" a praticamente torcer pelos aliados; Robert Hatch (Stallone) foge do acampamento, volta para o acampamento numa facilidade que incomoda. Há uma cena no campo  prisioneiros, com um boneco improvisado, que me pareceu estar assistindo ao seriado “Guerra, Sombra e Agua Fresca”. Mas os melhores momentos ficam por conta mesmo quando a partida começa: os alemãs são brutos e desleais nas jogadas e divididas, o juiz é comprado e o time no primeiro tempo não se acha em campo, com Pelé (ou “Luis “ o jogador de Trinidad Tobago) sendo contido de todas as maneiras e Stallone como o goleiro reclamão e encrenqueiro que nunca jogou bola, mas cuja presença é vital para que o plano de fuga funcione.


Particularmente, creio que houve problemas para a finalização do filme. Stallone é o primeiro nome do elenco nos créditos, logo a estória permeia a trajetória de seu personagem. Só que, no jogo, o melhor momento do filme é o de Pelé. O seu lindo gol de bicicleta, filmado em câmera bem lenta e com enquadramentos extras (algo muito caro para a época), deveria ser o momento crucial do filme, mas talvez por exigência do ator ou desconhecimento do diretor e roteiristas a cena que pretenderam para impactar o espectador é de Stallone. O ator não conhecia o futebol (foi treinado por Gordon Banks) e muito pouco a respeito de Pelé (Stallone quebrou um dos dedos ao tentar impedir um gol de Pelé durante um treino). E há quem diga que teria sugerido que seu personagem fizesse o gol salvador. Diante dessa impossibilidade foi criada especialmente a cena do pênalti. Por isso talvez esse filme tenha ficado meio anti-clímax, mas ver Pelé fazendo “o gol” e Ardiles em uma perfeita “lambreta” (ou “carretilha” em algumas regiões) já vale o espetáculo.


O Estádio MTK, em Budapeste, Hungria, foi usado como o "Stade Colombes" (Estádio Colombes) em Paris, França, onde ocorre a partida. Os produtores tiveram dificuldade em encontrar um grande estádio sem holofotes, pois holofotes em estádios de futebol eram amplamente desconhecidos até bem depois da Segunda Guerra Mundial. O Estádio MTK, agora conhecido como Estádio Hidegkuti Nándor, era o maior sem luzes (mas ao mesmo tempo estruturalmente semelhante aos estádios continentais que existiam durante a Segunda Guerra Mundial) que eles puderam encontrar. O estádio hoje é o lar do MTK Hungaria Football Club.



Quanto ao elenco, Michael Caine consegue carregar o filme nas costas e muito do sucesso deve-se a sua interpretação (fora de campo). Stallone faz um americano especializado em fugas, que pensa apenas em si próprio, mas se percebe inserido em algo bem maior do que uma fuga. Seu personagem ficou à sombra de Caine e não é um dos melhores filmes do ator. Max Von Sydow é outro que, junto com Caine, nos prende ao filme. Sua interpretação foi muito boa ainda que o roteiro o tenha colocado em algumas armadilhas.  Carole Laure funciona mais como um possível interesse romântico de Hatch (Stallone). A atriz francesa teve poucas cenas. Pelé, que já havia atuado em alguns filmes, dentro de campo, é a estrela desse filme com o melhor momento do filme, mas o roteiro não o colocou no momento crucial da história e isso fez muita diferença para quem ama futebol.


Fuga para a Vitória é um filme irregular, é verdade, mas os atores e as jogadas feitas para o filme nos prendem do início ao fim. É um dos filmes menos conhecido do trio central, mas que merece ser redescoberto pelos amantes da sétima arte.

Trailer:



Curiosidades:
O filme foi inspirado por uma série real de jogos em Kiev, durante a ocupação alemã da cidade. Vários membros do Dynamo Kiev, o principal time de futebol da Ucrânia, encontraram trabalho em uma padaria. Lá eles formaram um time de futebol com outros funcionários da padaria. Eles começaram a jogar em uma nova liga contra equipes apoiadas pelo governo fantoche ucraniano e militares alemães. Depois de derrotarem um time de uma base local da Força Aérea Alemã, a liga foi dissolvida e vários membros da equipe foram presos pela Gestapo e quatro foram executados;

Sylvester Stallone iniciou o treinamento de futebol nos finais de semana durante as filmagens de Falcões da Noite (1981). Stallone recebeu treinamento do goleiro vencedor da Copa do Mundo da Inglaterra, Gordon Banks. Inicialmente, Stallone prestou pouca atenção aos conselhos de Banks, pois não considerava o treinamento necessário, e imprudentemente se jogou no primeiro dia de filmagem da partida. Eventualmente, ele bateu no chão com tanta força que deslocou um ombro e quebrou uma de suas costelas, colocando-o fora de ação por vários dias. Quando ele voltou, Stallone prestou muito mais atenção ao que Banks estava dizendo, mas ainda sofreu vários ferimentos leves ao longo das filmagens, incluindo outra costela quebrada. Depois que a produção terminou, Stallone comentou que a experiência havia sido mais difícil do que lutar nos filmes de Rocky;

Osvaldo Ardiles disse sobre Michael Caine, de 47 anos, e suas habilidades no futebol: "Horrível, e ele nem podia correr vinte metros";

Sylvester Stallone perdeu cerca de dez quilos para este filme porque não queria que um prisioneiro de guerra parecesse um "boxeador olímpico", e sentiu que precisava dessa redução de peso para realizar as tarefas de um goleiro de futebol;

O rascunho original do roteiro era um drama sério, baseado na história real de um grupo de soldados aliados desafiados a uma partida de futebol pelos alemães. O acordo era que, se os alemães vencessem a partida, o grupo seria libertado na Suíça. No entanto, se “aliados” vencessem, eles seriam mortos. Os “aliados” decidiram ir para a "vitória", venceram a partida e foram consequentemente executados;

Michael Caine admitiu que a única razão pela qual ele concordou em fazer este filme foi a oportunidade de trabalhar ao lado da lenda do futebol, Pelé.

Vários jogadores de futebol do Ipswich Town Football Club apareceram neste filme. Estes incluíram Kevin Beattie; Paul Cooper; Kevin O'Callaghan; Russell Osman; Laurie Sivell; Robin Turner e John Wark;

O filme foi originalmente programado para estrelar Lloyd Bridges e Clint Eastwood. O ator francês Alain Delon também foi anunciado. Roger Moore considerou aceitar o papel do capitão John Colby;

Kevin O'Callaghan, que fez o jovem goleiro e que está com o braço quebrado neste filme, nunca jogou no gol profissionalmente. Em vez disso, ele teve uma carreira de sucesso como ala em Millwall, Ipswich Town, Portsmouth e República da Irlanda;

Quando questionado pelos repórteres em 2014, Osvaldo Ardiles disse que seu maior momento esportivo de todos os tempos foi jogar neste filme, apesar de Ardiles ser vencedor da Copa do Mundo com a Argentina em 1978 e ter outras grandes honras ao longo de sua carreira no futebol;

Este filme contou com dezoito jogadores profissionais do futebol internacional da época aparecendo em papéis de dublê de ação e esportes. As estrelas do futebol que têm papéis-chave neste filme incluem:
Pelé (Brasil) como o cabo aliado de Trinidad e Tobago “Luis Fernandez”;
Osvaldo Ardiles (Argentina), como argentino aliado “Carlos Rey”;
Bobby Moore (Inglaterra) como o inglês dos aliados,
Mike Summerbee (Inglaterra) como jogador de futebol aliado “Sid Harmor”;
Russell Osman (Inglaterra), como “Doug Clure”;
Laurie Sivell (Inglaterra) jogou como o goleiro alemão “Schmidt”.
John Wark (Escócia) como o escocês “Arthur Hayes”;
Kevin O'Callaghan (Irlanda) como o goleiro aliado irlandês “Tony Lewis”;
Co Prins (Holanda) como o holandês “Pieter Van Beck”,
Kazimierz Deyna ( Polônia), como jogador polonês “Paul Wolchek”;
Hallvar Thoresen (Noruega) como jogador norueguês “Gunnar Hilsson”;
Paul Van Himst, (Bélgica), como o belga “Michel Fileu”;
Søren Lindsted (Dinamarca) como o dinamarquês “Allie Erik Ball”;
Werner Roth (Estados Unidos) como capitão da equipe alemã “Baumann”

Sylvester Stallone recusou-se a comer com seus colegas de elenco e equipe de filmagem desaparecendo para Londres ou Paris todo fim de semana em um jato particular;

Este filme é semelhante, em história, a dois filmes europeus anteriores feitos por volta de 1962. Em primeiro lugar, é semelhante ao filme em preto e branco húngaro “Two Half-Times in Hell” (1961). Vencedor do Critics 'Award no Festival de Cinema de Boston de 1962, o filme conta sobre uma partida de futebol entre os “aliados” e soldados alemães, realizada no aniversário de Adolf Hitler. Este filme também é semelhante em história ao filme russo “Tretiy Taym” (1963);

O roteirista Yabo Yablonsky odiava as revisões feitas em seu roteiro e ficou tão horrorizado ao ver o filme terminado, que chegou a considerar brevemente tirar a própria vida;

Muitos dos atores tiveram que aprender a jogar futebol, enquanto muitos dos jogadores tiveram que aprender a atuar;

Este filme é conhecido como "Victory" e "Escape to Victory" em vários territórios, embora o título original em inglês seja "Victory". Em alguns territórios, foi lançado com um desses títulos nos cinemas e, em seguida, o outro título para o lançamento de fitas de vídeo;

Bill Conti também compôs a trilha sonora indicada ao Oscar por “Rocky: Um Lutador”, além de F.I.S.T. (1978), Condenação Brutal (1989) e A Taberna do Inferno (1978) entre outrros;

Sylvester Stallone queria ser o único a marcar o gol da vitória, mas foi convencido pelo elenco e equipe de apoio que para um goleiro seria absurdo. Nos anos desde que este filme foi feito, Stallone provou estar mais certo do que os especialistas em futebol. No jogo moderno, quando não há nada a perder, um goleiro às vezes abandona seu gol.

Cartazes:





Filmografia Parcial:
Sylvester Stallone










Os Lordes de Flatbush (1974); Corrida da Morte - Ano 2000 (1975); Cannonball - A Corrida do Século (1976); Rocky: Um Lutador (1976); F.I.S.T (1978); A Taberna do Inferno (1978); Rocky II: A Revanche (1979); Os Falcões da Noite (1981); Fuga Para a Vitória (1981); Rocky III: O Desafio Supremo (1982); Rambo - Programado Para Matar (1982); Os Embalos de Sábado Continuam (1983); Rambo II - A Missão (1985); Rocky IV (1985); Stallone Cobra (1986); Falcão - O Campeão dos Campeões (1987); Rambo III (1988); Condenação Brutal (1989); Tango e Cash - Os Vingadores (1989); Rocky V (1990); Risco Total (1993); O Demolidor (1993); O Especialista (1994); O Juiz (1995); Assassinos (1995); Daylight (1996); Cop Land: A Cidade dos Tiras (1997); D-Tox (2002); Pequenos Espiões 3-D: Game Over (2003); Rocky Balboa (2006); Rambo IV (2008); Os Mercenários (2010); Os Mercenários 2 (2012); Alvo Duplo (2012); Ajuste de Contas (2013); Rota de Fuga (2013); Os Mercenários 3 (2014); Creed: Nascido para Lutar (2015); Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017); Plano de Fuga 2: Hades (2018); Creed II (2018); Tough as They Come (2018); Plano de Fuga 3: Devil Station (2019)

Michael Caine












Vertigem ou Diamantes da Morte (1968); Um Golpe à Italiana (1969); Carter - O Vingador (1971); Conspiração Violenta (1975); O Homem Que Queria Ser Rei (1975); A Águia Pousou (1976); O Enxame (1978); Os Selvagens Cães de Guerra (1978); Ashanti (1979); Dramático Reencontro no Poseidon (1979); Vestida Para Matar (1980); Fuga Para a Vitória (1981); Armadilha Mortal (1982); O Documento Holcroft (1985); Hannah e Suas Irmãs (1986);  Mona Lisa (1986); Tubarão 4: A Vingança (1987); Ensina-me a Querer (1987); Os Safados (1988); Em Terreno Selvagem (1994); Regras da Vida (1999); Miss Simpatia (2000); Austin Powers em o Homem do Membro de Ouro (2002); Batman Begins (2005); A Feiticeira (2005); Filhos da Esperança (2006); Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008); Harry Brown (2009); A Origem (2010); Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012); Interestelar (2014);  Juventude (2015); Truque de  Mestre 2 (2016); Despedida em Grande Estilo (2017); Dunkirk (2017).

Max Von Sydow (1929–2020)











O Sétimo Selo (1957); Morangos Silvestres (1957); No Limiar da Vida (1958); O Rosto (1958); A Fonte da Donzela (1960); Através de um Espelho (1961); Luz de Inverno (1963); A Maior História de Todos os Tempos (1965); A Morte Não Manda Aviso (1966); A Hora do Lobo (1968); Vergonha (1968); A Paixão de Ana (1969); O Exorcista (1973); Três Dias do Condor (1975); O Guerreiro do Futuro (1975); O Exorcista II - O Herege (1977); A Morte ao Vivo (1980); Flash Gordon (1980); Fuga Para a Vitória (1981); Conan, o Bárbaro (1982); 007 - Nunca Mais Outra Vez (1983); A Morte nos Sonhos (1984); Duna (1984);  Hannah e Suas Irmãs (1986); Pelle, o Conquistador (1987);  Tempo de Despertar (1990); Um Beijo Antes de Morrer (1991); Europa (1991); Cidadão X (1995); O Juiz (1995); Amor Além da Vida (1998); Insônia (2001); Intacto (2001); O Escafandro e a Borboleta (2007);  A Hora do Rush 3 (2007); Solomon Kane - O Caçador de Demônios (2009);  Ilha do Medo (2010); Robin Hood (2010); Star Wars: O Despertar da Força (2015); Game of Thrones (seriado 2016) 

Pelé











O Barão Otelo no Barato dos Bilhões (1971); A Marcha (1972); Fuga Para a Vitória (1981); A Vitória do Mais Fraco (1983); Pedro Mico (1985); Os Trapalhões e o Rei do Futebol (1986); Solidão, Uma Linda História de Amor (1989); Pelé: O Nascimento de uma Lenda (2016)