domingo, 22 de novembro de 2015

SARGENTO GETÚLIO (1983) - BRASIL





"EU NÃO GOSTO QUE AS COISAS MUDEM" 

A época é 1949. O Sargento da Polícia Militar Getúlio Santos Bezerra (Lima Duarte), a serviço do PSD, recebe a missão de escoltar um prisioneiro e inimigo político de seu patrão, tido como subversivo (Fernando Bezerra), da cidade de Paulo Afonso (Bahia) até Aracaju, atravessando as estradas de Sergipe, junto com seu amigo e motorista Amaro (Orlando Vieira). Getúlio fala sem parar, emenda um pensamento no outro, confunde o espectador, mas segundo seu pensamento é para não dormir e, assim, manter os olhos bem abertos em seu prisioneiro. No meio do caminho algo acontece: vem uma ordem de seu chefe que o panorama político mudou (leia-se: a notícia se espalhou e as cabeças dos grandes vão rolar). Getúlio deve soltar seu prisioneiro e esquecer o ocorrido. Ele ignora a ordem e, na melhor síntese da frase “missão dada, é missão cumprida !”, resolve, por conta própria, levar seu prisioneiro até o seu destino, independente das forças que lhe atravessem o caminho, mesmo isto que custe sua vida.  Getúlio, aos poucos, revela o seu lado obscuro e obstinado, beirando quase a loucura. Mesmo compreendendo as novas ordens, ele resolve fazer o que julga certo.


Sargento Getúlio foi extraído do romance “Memórias do Sargento Getúlio” de João Ubaldo Ribeiro. Getúlio é um homem com pouca capacidade de discernimento. Odeia seu prisioneiro e só não o executa devido seus princípios, que são cumprir o que lhe fora inicialmente pedido: entregar o prisioneiro até Aracaju e, agora, tomar satisfações com seu chefe que mudara de ideia. Mas isso não impede que o sargento resolva torturar de forma cruel seu prisioneiro quando este lhe desagrada. Seja psicologicamente, descrevendo as diversas maneiras que conhece de causar dor ou mutilação, seja na prática fazendo o que considera justiça quando o prisioneiro se envolve com a filha de um fazendeiro, que lhe acolhera, chamado Nestor.

 
Getúlio revela-se ao longo do filme um matador, com mais de 20 mortes nas costas, apesar de se dizer político. Na verdade é um soldado profissional. Em determinada cena é cercado em uma fazenda e, junto com Amaro e o grupo de seu Nestor, resolve que não entregará o prisioneiro. O Tenente (Antônio Leite) que lhe traz as ordens e vem com um destacamento, mas não impressiona Getúlio que saca seu revolver e parte para o confronto. A conclusão é terrível: Getúlio luta com o tenente e lhe decapita. Sua atitude não lhe assusta e não entende porque tamanho alarde com uma cabeça cortada. O sargento é um homem sofrido e embrutecido pela violência. O que lhe incomoda são as mudanças que ocorrem no mundo ou na sua realidade cotidiana. Mudar significa refletir e Getúlio não gosta de refletir. Gosta das coisas imutáveis, para que sua cabeça “não doa”. Agora Getúlio será caçado, levando seu prisioneiro ensanguentado e sem forças à pé pelas estradas e matas do norte da Bahia. 


Getúlio não se importa com seu prisioneiro, que considera um homem abaixo da escala humana (e que se refere a ele como: “isso aí”; “o coisa”; “traste”; “esse lixo”...) que quer prejudicar o mundo com seu pensamentos que não compreende e não quer compreender. O sargento não sabe porque o odeia, mas este não deve ser uma boa pessoa, senão seu chefe não o teria incumbido de algo tão importante. É um homem que, apesar de tudo, possui um código honra. Empenhou sua palavra de que cumpriria sua missão, mas vê que seu chefe não faz o mesmo. Se não ama, odeia. E se odeia é pra valer. Sem arrependimentos. Sem contestações. Sem reflexões (apenas acerca do que está ocorrendo no momento). É um personagem contraditório, um anti-herói, com uma história rica que leva à várias reflexões sociais.


Em determinado momento, Getúlio conversa com Luzinete (sua amada) e fala que, se tivesse outra vida, seria cangaceiro. Lampião morreu em 1938. Getúlio está em 1949, ou seja,  11 anos após a morte do bandoleiro. Curiosamente, Getúlio não está no cangaço, ele funciona como um agente da lei. Alguém que iria combater Lampião. Muito se explica da personalidade do sargento quando refletimos sobre a época, os costumes, mitos e crenças nordestinos.


Com momentos de narração em off,  com o sargento comentando suas atitudes e as consequências que poderão surgir, a história vai apresentando personagens bem interessantes: um padre que carrega uma metralhadora e que diz: “ou dá um fim direito neste cristão ... ou então solte o homem” e que aconselha Getúlio a sumir. Getúlio encontra emissários da capital, enviados pelo seu chefe, para validar as ordens de soltura, mas os informa que, se assim o fizer, eles darão cabo dele mais tarde para encerrar o assunto, pois agora o seu chefe não quer que seu nome apareça no incidente. Seu fiel escudeiro, Amaro, lhe dá a segurança de ter um aliado armado para cumprir sua missão. Amaro é um homem vivido, que tenta mostrar a Getúlio a situação, mas, em contrapartida, sabe as consequências de ir contra a lógica do sargento e o segue como um Pancho Vila em sua missão suicida. Temos Luzinete (Ines Maciel), paixão de Getúlio, que quer ele largue a sua vida e lhe "faça um filho". Ele é encurralado, mas consegue fugir com seu prisioneiro. Figuras fantasmagóricas acompanham o enlouquecido Getúlio e seu prisioneiro, ambos sujos, feridos e fatigados, literalmente, arrastando-se pelo caminho. Uma transição do mundo real para o imaginário. Getúlio sabe que os reforços chegaram. Soldados estão embrenhados na mata. Ele consegue vislumbrar suas silhuetas, mas entregar-se não é uma opção. O final aberto, tal qual o livro, deixa para o espectador refletir e tirar suas próprias conclusões.


Os diálogos são uma atração à parte. Quando o padre lhe pergunta:  por que você não some? Getúlio reflete e diz “eu não posso sumir de mim”... “quem some é os outros. A gente nunca”. Em uma conversa com os homens do ”chefe” diz: “o seguinte é o seguinte: eu vou resolver mais tarde”; “pegue a sua palavra de honra e fique com ela”; “essa minha mão que está aqui embaixo, ela não está coçando as minhas partes, não . Ela está por riba do Schmidt (o revolver)”, e é um Schmidt bom da peste”. João Ubaldo aparece nos créditos iniciais como tendo participado do roteiro com diálogos adicionais.


A trilha sonora, a cargo de Jose Luis Penna, é perfeitamente inserida ao filme com várias canções regionais que são bem interessantes e curiosas e se adaptam a cada uma das passagens do filme. Um trecho, por exemplo, diz que “a vantagem de quem está no poder é judiar de quem está por baixo; pancadas nos de baixo, farturas pros de cima e cada um carrega sua sina”.


A fotografia, a cargo de Walter Carvalho, que tem em sua filmografia vários filmes como Com Licença, Eu Vou à Luta (1986); Central do Brasil (1998);Abril Despedaçado (2001); Cazuza: O Tempo Não Pára (2004); Baixio das Bestas (2006) e Febre do Rato 2011 imprimiu cores fortes e vivas, com uma combinação excelente de luzes e sombras, onde a noite tem um grande destaque no enredo.


Quanto ao elenco, o grande destaque é Lima Duarte. O ator coloca o filme no bolso e tem uma interpretação poderosa e hipnótica. Muito contribuiu o fato do ator conhecer e apreciar a obra de João Ubaldo dando ao personagem um caráter único. Algumas pessoas poderão, em uma cena ou outra, lembrar-se do personagem “Zeca Diabo”, o cangaceiro da série “O Bem Amado”, mas Lima Duarte não fez essa transposição, ele deu individualidade a um personagem pouco conhecido em nosso país, mas que ao vermos o filme, ainda hoje, parece tão familiar. Além do ator, apenas dois atores eram profissionais: Fernando Bezerra (o prisioneiro) e Flavio Porto (o padre), mas a atuação do restante do elenco foi tão acertada que não conseguimos perceber tal fato.
 

Um aspecto interessante é que Sargento Getúlio estava à espera de seu intérprete. O cineasta Rui Guerra se interessou pelo projeto anos antes, mas não levou adiante. Posteriormente, surgiu a possibilidade do cineasta Glauber Rocha fazer o filme com o ator Othon Bastos na pele de Getúlio. Quando Lima Duarte soube que um novo cineasta havia intencionado levar às telas o personagem, entrou em contato com Hermano Penna (estreante na direção de longas) para uma parceria, onde viria a trabalhar praticamente de graça, durante 45 dias , na cidade de Poço Redondo (local da morte de Lampião). Lima Duarte, na época, havia apenas visto uma cópia em 16mm concluída e somente cinco anos depois veria a obra em 35 mm sair das prateleiras da Embrafilme e surgir premiado no Festival de Gramado


Sargento Getúlio é um grande filme, mas que tem que ser apreciado por quem gosta de filmes brasileiros de qualidade, ambientado no Nordeste, com personagens propositadamente regionais, além de ser uma ótima oportunidade de conhecer a obra de um dos nossos mais famosos escritores nacionais.


Reportagem da TVE (RS) com depoimento de Lima Duarte





Curiosidades: 
Sargento Getúlio foi escolhido pelo Banco do Nordeste, através do Prêmio José Lima Rego,  o melhor romance nordestino publicado nos últimos 30 anos, recebendo um prêmio de 1 milhão na época.

A direção foi de Hermano Penna, que também acumulou as funções de produtor e roteirista (este último junto com Flávio Porto). Penna também foi roteirista do Filme Iracema – Uma Transa Amazônica (1974).

Orlando Viera que fez o papel de Amaro, trabalhava, na época das filmagens , com funcionário do DNER de Aracaju e tinha feito uma ponta no filme de Ipojuca Pontes, O Filho Pródigo.

Ganhador no Festival de Gramado, de 1983, como Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Som Direto (Mario Masetti)

Prêmio Especial do Juri -Novo Cinema Latino Americano de Havana.

Prêmio Leopardo de Bronze no festival de Locardo 

No filme há referências a Hamlet, Shakespeare e Don Quixote adaptadas a linguagem do Sertão

O filme foi concluído em 1978, em 16mmm ao custo de 1 milhão e 200 mil  e lançado somente em 1983. Após sua premiação no Festival de Gramado, o filme deslanchou e foi para a tela grande.

A revista Cinemin nº 5, de 1983, trouxe uma ótima matéria de 2 páginas a respeito do filme
























Filmografia Parcial:

Lima Duarte









O Crime de Zé Bigorna (1977); Os sete Gatinhos (1980);Sargento Getúlio (1983); Corpo em Delito (1990); Boleiros - Era Uma Vez o Futebol... (1998); Eu Tu Eles (2000); 2 Filhos de Francisco: A História de Zezé Di Camargo & Luciano (2005); Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos (2006); Assalto ao Banco Central (2011); A Busca (2012);

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