terça-feira, 15 de julho de 2025

CORAÇÃO SATÂNICO / ANGEL HEART (1987) - ESTADOS UNIDOS / REINO UNIDO / CANADÁ


ELEVADOR PARA O INFERNO

Brooklyn, Nova York, 1955.  Harry Angel (Mickey Rourke) é um investigador particular, mais acostumado a lidar com casos de infidelidade em um bairro pobre e decadente, quando é contratado por um escritório de advocacia que representa um homem misterioso e rico chamado Louis Cyphre (Robert De Niro), com a missão de localizar o cantor de blues Johnny Favorite, que teria contraído uma dívida, e cujo paradeiro agora ignora, apenas com a informação de que antes de desaparecer sofrera ferimentos oriundos da Segunda Guerra Mundial e que teria sido internado em uma clínica particular. A remuneração é boa e o trabalho não parece ser tão complicado. Harry apenas pergunta: por que ele?

Harry começa sua investigação e descobre que o desaparecimento pode ter sido forjado na própria clínica, mas muito tempo já se passou. A pergunta é: por que e para onde teria ido Johnny Favorite?. Sua investigação o leva a Nova Orleans, Louisiana, na qual começa a descobrir mais sobre o passado de Johnny, mas isso se torna um grande problema para o investigador: as pessoas com quem conversa e colhe informações essenciais ao caso, surgem mortas de forma brutal e a polícia começa a conjecturar seu envolvimento, o que pode comprometer sua investigação. Alguém parece deseja-lo fora do caso e Harry começa a indagar se esse caso não é grande demais para ele. Uma oferta aumentada de seu contratante o mantém no caso, que termina por enveredá-lo em um caminho sombrio de ocultismo, vodu e jazz. Quanto mais Harry imerge no destino de Favorite, mais sombrio o seu caminho começa a se tornar. Encontrar a verdade pode ser um caminho sem volta para Harry que perceberá que "o diabo está nos detalhes".

Há algo de inexplicável quando grandes obras cinematográficas simplesmente caem num ostracismo durante décadas e o grande público simplesmente as desconhece. Coração Satânico certamente entraria nessa lista. Chega até ser irônico que esse clássico moderno tenha sido um fracasso comercial tão retumbante nos EUA. O filme na bilheteria não se pagou (Parker, em entrevista, disse que a venda do filme dos produtores para investidores recuperou o investimento). De um orçamento estimado em 18 milhões de dólares, arrecadou mundialmente um faturamento bruto de 17.185.954. Mas qual o motivo? O público não entendeu a mensagem do filme? O público não entendeu o final do filme? O Público não conseguiu acompanhar a estória com suas pistas e se perdeu no meio do caminho? A briga que Rourke vinha mantendo com a imprensa criou uma má vontade nas análises? A mudança de rumo da carreira de Rourke? O lançamento do filme no momento errado? Talvez um pouquinho de cada coisa, ainda que no Brasil as críticas tenham sido mais coesas, reconhecendo a proposta e qualidades do filme, com muitos o considerando o melhor lançamento de 1987.

A ideia do filme originou-se do livro “Falling Angel” (Anjo Caído) de William Hjorstberg (que roteirizou o filme “A Lenda” de 1985, dirigido por Ridkey Scott, com Tom Cruise), publicado em 1978. Robert Reford havia comprado os direitos do livro (e interpretaria Harry) , mas não encontrou quem transformasse em um roteiro adequado. Um dos produtores (Mario Kassar e Andrew G. Vajna da produtora Carolco (1976-1995) que lançaria Rambo 1, 2 e 3 ...) colocou o livro na mesa de Parker durante seu almoço. Houve poucas mudanças frente ao livro: a ação se passava em Nova York e ficou parte em Nova York e parte em Nova Orleans. A época também sofreu modificação: de 1959 passou a ser 1955. Parker entendeu que 1959 remetia muitos aos anos 60 e 1955 ainda tinha a áurea dos anos 40, melhor para situar a atmosfera de sua estória e assim construir um filme mais voltado para o noir, mas que hoje muitos chamam de “neo noir”. Para o papel de Harry Angel, Parker conversou com Robert De Niro (que queria o papel de antagonista, mais desafiador para um ator – Al Pacino que o diga, se captou a referência) Marlon Brandon (se interessou por um tempo), Jack Nicholson (estava se preparando para a continuação de Chinatown), Al Pacino e Mickey Rourke (com quem teve imediata empatia). Diante da censura que queria classificar o filme com o  temível “X” (os jornais americanos recusariam qualquer encarte, as tevês não fariam propaganda e os exibidores só exibiriam o filme em salas reservadas), o diretor teve que retirar 10 segundos da tórrida e sangrenta cena de amor no filme.

E o que transforma Coração Satânico (título brasileiro que muda muito o sentido do título original, ainda que tenha soado original) em uma obra que parece resistir ao tempo? Ele nos entrega uma história de terror, literalmente, sendo conduzida de forma sutil, fugindo do clichê de cenas “de impacto”, mas com um forte poder audiovisual. A trilha sonora, incrivelmente atmosférica, de Trevor Jones, nos imbui de  antigas peças de jazz, blues e rhythm and blues casando perfeitamente com a proposta do filme, com direito a aparições de John Lee Hooker, LaVern Baker e Brownie Meghce (que interpreta Toots Sweet amigo de Favorite) entre outros. E se o filme te faz lembrar da lenda de Robert Tohnson que se transformou em um grande guitarrista ao supostamente vender a alma para o diabo, você realmente pode estar certo. Parker utilizou 78 locações diferentes trazendo uma atmosfera ideal, pois ambientar o filme nos anos 50 não foi algo fácil, aí entrou o trabalho fantástico do cenógrafo Brain Harrris, que nos faz sentir nos áureos anos 50.

Mas apenas os aspectos acima justificam um chamativo para quem deseja vê-lo? Há mais: o filme começa com uma estória de detetive e termina com uma estória do gênero fantástico. Uma fábula macabra e / ou uma ficção policial com terror oculto, revestida de uma atmosfera sombria e repleta de alegorias e pistas secretas, apresentando uma certa distorção em todos os personagens que surgem. Tudo isso o torna complexo, em um primeiro olhar, e coerente. Quando o filme acaba, depois que deciframos o enredo, percebemos o quanto tudo é bastante simples: as pistas estão ali desde o início, ainda que tudo venha acompanhado de uma mistura de suspense, ocultismo, magia negra, investigação, choque de religiões (catolicismo x vodu) e uma repentina descida ao sobrenatural. Parker confunde o espectador ao propor uma confusão entre a realidade, a experiência de Harry Angel e o cheiro da morte que persegue o investigador. Quanto mais Harry esclarece o caso de Favorite, mais parece que está esclarecendo também sua verdadeira persona. O mito de Fausto (noir) de Goethe em uma junção com um Édipo Rei de Sófocles às avessas.

O elenco é muito bom, o que fez o filme funcionar. Mickey Rourke vinha de “O Ano do Dragão” (1985) e “9 Semanas e Meia de Amor“ (1986). Seu personagem, que conduz o fio da trama, se mostra desleixado, cínico, com roupas amassadas e um constante uso do cigarro. O clássico detetive noir dos anos 50. Após este filme, o ator passou a fazer escolhas inesperadas, direcionando-se a projetos mais pessoais. Após uma elogiosa atuação em “Sin City" (2005), seu grande momento foi em “O Lutador” (2008), o que lhe garantiu uma indicação ao Oscar. Robert De Niro entra em cena algumas vezes e coloca o filme nas mãos. Seu personagem enigmático de unhas grandes, fala cadenciada e aura maléfica impacta na tela. Seus diálogos são os melhores e nos mostra que ovos não são apenas ovos. Personagens de um conflito místico. Lisa Bonet participava da série “The Cosby Show”, com um personagem bem diferente, o que deve ter causado certa surpresa para o público americano. Tanto que sua tórrida cena terminou por ser a mais lembrada no filme. Charlote Rampling tem uma participação rápida, mas fundamental ao andamento da estória. Uma especialista em ler o futuro, mas não muito boa no que concerne ao seu.

Coração Satânico é um daqueles raros filmes que nunca parecerão datados. Muitos citam como o auge das carreiras de Alan Parker e Mickey Rourke. Se inicia como tantos outros filmes de detetive, mas é uma trama intrincada com uma constante atmosfera diabólica (graças a fotografia de Michael Seresin) à espreita, que aos poucos rompe o verniz das aparências através de imagens de simbolismo onírico que se revelam visualmente impactantes. A imagem final de Harry é de um simbolismo ímpar, pena que no último instante Parker tenha aceitado colocar um efeito artificial em tela que estraga a experiência do espectador, mas nada que desqualifique o filme. 


Trailer:




Curiosidades: 

A cena do ovo foi filmada 50 vezes

Parker revelou em entrevista que na cena da dança vodu a tomada era “666” o que o deixou surpreso.

Quando Louis (Robert De Niro) sopra sal de seu ovo na mesa do restaurante, Harry Angel (Mickey Rourke) pega uma pitada e a joga por cima do ombro esquerdo. A superstição é que, ao fazer isso, você cega o diabo (ou seu anjo maligno). 

Robert De Niro hesitou durante seis meses, aceitando 15 dias antes da filmagem

De Niro teve ideia da bengala, comprou em Paris e utilizou três delas no filme

Parker, em entrevista, disse que os “olhos amarelos” foi uma opção para não deixar dúvidas, mas que talvez tivesse sido um erro no final das contas

De Niro só tem cenas sentado porque Parker pensou em Brando e este estava com sobrepeso para cenas em pé

Courtney Pine foi o responsável pelo solos de Jazz

Cada blusa e cada par de meias foram lavados centenas de vezes para desgastar o tecido e fazê-lo ter o caimento correto

Este filme foi o ímpeto para uma rivalidade entre Robert De Niro e Mickey Rourke. A primeira e última vez que os atores trabalharam juntos, nenhum deles trocou muitas palavras gentis um com o outro desde então. A briga aparentemente começou com a recusa de De Niro em falar com Rourke fora das câmeras, sentindo que isso seria prejudicial às cenas em que se conheceram. Rourke aparentemente levou isso para o lado pessoal e, desde então, não tem hesitado em falar mal de De Niro publicamente. Essa inimizade perdurou por décadas e, em 2019 (32 anos após o lançamento deste filme), Rourke acusou De Niro de impedi-lo de assumir um papel em O Irlandês, de Martin Scorsese. Rourke disse certa vez sobre De Niro: "Eu não o admiro mais; eu o vejo através dele."

A frase "Quão terrível é a sabedoria quando não traz nenhum benefício ao sábio" foi retirada de "Édipo Rei", de Sófocles.

Este filme evita o erro comum cometido em filmes de época de usar apenas adereços e figurinos daquela década. Em outras palavras, embora a história se passe na década de 1950, a maioria dos adereços e cenários é das décadas de 1940 e 1930. A realidade é que a maioria das pessoas não compra roupas ou móveis novos todos os anos. Carros, roupas, móveis, etc., com cinco, dez ou vinte anos de uso são comuns, especialmente em áreas mais pobres. (Isso também explica convenientemente por que tantos cenários "parecem antigos"; essas antiguidades teriam parecido antigas mesmo na década de 1950.)

Quando Harry Angel (Mickey Rourke) visita Margaret Krusemark (Charlotte Rampling) pela primeira vez, Margaret ordena que sua empregada lhes traga chá. Ela e a empregada conversam brevemente em francês, que Angel obviamente não entende. A empregada pergunta "Devo trazer as melhores xícaras?" e Margaret responde "Não".

Quando o produtor Alan Marshall contatou Robert De Niro por telefone pela primeira vez para participar do filme, De Niro perguntou: "Você é o cara que produziu Asas da Liberdade (1984)?" Quando Marshall respondeu que sim, De Niro desligou imediatamente.

A versão original do filme, sem cortes, de Parker foi posteriormente lançada em home video, e este corte também está amplamente disponível em DVD e Blu-ray.

O velho trem que Harry pega para Louisiana, nos closes, não estava funcionando e, para as filmagens, teve que ser empurrado por um trem de verdade por trás.

A atuação de Robert De Niro como Louis Cyphere é supostamente baseada em seu amigo e colaborador frequente Martin Scorsese.

Cinco mil dólares em 1955, com a inflação, equivalem a cinquenta mil dólares em 2020. Isso explica por que Angel concordou tão entusiasticamente em continuar o caso após receber essa quantia de Louis Cyphre, mesmo depois de estar envolvido em um assassinato.

Originalmente, Parker queria que Ennio Morricone compusesse a trilha sonora. Apesar de se encontrar com Morricone em Roma para negociar seu envolvimento, este recusou, e Parker optou por Trevor Jones como compositor.

Vários executivos de estúdio que leram o roteiro enquanto ele estava sendo negociado queriam que o filme tivesse um final feliz. É por isso que levou quase dez anos para ele sair do papel.

A música "Girl of My Dreams", cantada em um disco por Johnny Favorite, é na verdade uma gravação de dezembro de 1937, cantada por Kenny Sargent, como parte da Orquestra Glen Gray e Casa Loma.

No início do filme, Harry Angel diz que canetas esferográficas ainda não estavam disponíveis em 1943. Na verdade, as primeiras canetas esferográficas comercialmente viáveis foram produzidas em 1943 na Argentina, mas só foram produzidas nos EUA em 1945.

A Tri-Star Pictures cometeu o enorme erro de lançar o filme no mesmo dia de "Máquina Mortífera" (1987). Máquina Mortífera foi direto para o topo das bilheterias, arrecadando US$ 6,8 milhões. Coração Satânico ficou em quarto lugar, atrás de "A Hora do Pesadelo 3" e "Platoon", vencedor do Oscar. "Máquina Mortífera" acabou sendo um dos dez maiores sucessos de bilheteria de 1987, enquanto Coração Satânico arrecadou US$ 17,2 milhões nos Estados Unidos, quase atingindo seu orçamento de produção de US$ 18 milhões, sem contar os custos de marketing.

Lisa Bonet Foi casada com Jason Momoa e Lenny Kravitz


CONTÉM SPOILERS: SE NÃO VIU O FILME, NÃO LEIA
Quando Cypher conta a Angel que algumas religiões consideram o ovo um símbolo da alma, ele pergunta a Angel se ele gostaria de um ovo... Ou melhor, uma alma, já que ele não tem nenhuma, pois agora pertence ao Diabo.

Os sócios do escritório de advocacia são Winesap e Mackintosh, que são dois tipos de maçã. As maçãs são conhecidas por serem agentes tradicionais do Diabo que tentam a humanidade.

Louis Cyphre menciona que, em algumas religiões, o ovo é um símbolo da alma. Ele então passa a consumir o ovo ou a "alma", o que é outra pista sobre sua verdadeira identidade.

"Girl Of My Dreams", que Louis Cyphre (Robert De Niro) toca no final, é a mesma música que Epiphany Proudfoot (Lisa Bonet) canta na banheira mais cedo (e identifica como uma música de Johnny Favorite que sua mãe sempre cantava para ela).  Em uma cena, enquanto dirige para a clínica onde Johnny está registrado como paciente, Harry Angel (Mickey Rourke) assobia junto com a música fora da tela que ele supostamente não deveria saber naquele momento.

Todas as pessoas que morrem têm um pentagrama, seja um dente, um colar, um anel, etc.

"Epifania" significa "descoberta repentina". De um ponto de vista, Epifania é alguém que contribuiu para a descoberta da verdadeira identidade de Harry Angel.

Alan Parker diz que os ventiladores eram prenúncios de morte

As unhas do personagem de De Niro crescem a medida que o filme avança


Cartazes:


Filmografias Parciais:

Mickey Rourke






1941 - Uma Guerra Muito Louca (1979); Escuridão da Morte (1980);Relação Violentada (1980); Portal do Paraíso (1980); Corpos Ardentes (1981); O Selvagem da Motocicleta (1983); O Ano do Dragão (1985); 9 1/2 Semanas de Amor (1986); Coração Satânico (1987); Barfly: Condenados pelo Vício (1987); Francesco: A História de São Francisco de Assis (1989); Orquídea Selvagem (1989); Horas de Desespero (1990); Harley Davidson E Marlboro Man - Caçada Sem Tréguas (1991); Areias Brancas (1992); A Colônia (1997); 9 1/2 Semanas de Amor 2 (1997); O Implacável (2000); Identidade Trocada: Uma Inocente em Fuga (2001); Era Uma Vez no México (2003); Chamas da Vingança (2004); Sin City: A Cidade do Pecado (2005); Domino: A Caçadora de Recompensas (2005); Alex Rider Contra o Tempo (2006); O Lutador (2008); 13: O Jogador (2010); Homem de Ferro 2 (2010); Os Mercenários (2010); Imortais (2011); Sin City: A Dama Fatal (2014); Marcas da Guerra (2015); Nightmare Cinema (2018); Tiger (2018); Berlim, Eu Te Amo (2019); O Legionário (2020); A Vingadora (2020); O Sequestro (2021); O Comando (2022)


Robert De Niro


 




O Poderoso Chefão II (1973); Taxi Driver (1976); O Franco Atirador; Touro Indomável (1980); Era Uma Vez na América (1984); A Missão (1986); Coração Satânico (1987); Os Intocáveis (1987); Fuga à Meia-Noite (1988); Não Somos Anjos (1989); Os Bons Companheiros (1990); Tempo de Despertar (1990); Cabo do Medo (1991); Desafio no Bronx (1993); Cassino (1995); Sleepers - A Vingança Adormecida (1996); Cop Land: A Cidade dos Tiras (1997); Ronin (1998); Máfia no Divã (1999); Homens de Honra (2000); Entrando Numa Fria (2000); A Máfia Volta ao Divã (2002); Entrando Numa Fria Maior Ainda (2004); As Duas Faces da Lei (2008); Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família (2010); O Lado Bom da Vida (2012); Ajuste de Contas (2013); Um Senhor Estagiário (2015); Joy: O Nome do Sucesso (2015); O Comediante (2016);  Coringa (2019); O Irlandês (2019); Em Guerra com o Vovô (2020); Vigaristas em Hollywood (2020); Amsterdam (2022); Batismo de Sangue (2022); Assassinos da Lua das Flores (2023); Meu Pai é um Perigo (2023)


Charlotte Rampling 






Os Reis do Ié-Ié-Ié (1964); Os Turbantes Vermelhos (1967); Os Deuses Malditos (1969); O Asilo do Terror (1972); Henrique VIII e Suas Seis Esposas (1972); Giordano Bruno (1973); Zardoz (1974); O Porteiro da Noite (1974); Orca - A Baleia Assassina (1977); O Veredicto (1982); Coração Satânico (1987); Morto ao Chegar (1988); Asas do Amor (1997); O Jardim das Cerejeiras (1999); O 4º Anjo (2001); Vingança Final (2003); A Confissão (2003); Instinto Selvagem 2 (2006); A Lista: Você Está Livre Hoje? (2008); Missão Babilônia (2008); A Duquesa (2008); Melancolia (2011); Trem Noturno para Lisboa (2013); O Quarto Proibido (2015); 45 Anos (2015); O Sentido Do Fim (2017); Red Sparrow (2018).


Lisa Bonet 


 

 



Coração Satânico (1987), Um Mundo Diferente (1987–1989 - 23 episódios), The Cosby Show (seriado 1984–1991), Romance Arriscado (1993), Desejo Mortal (1994), Prisioneiros do Deserto (1994), Inimigo do Estado (1998), Corridas Clandestinas (2003), Passeio de Vingança (2014), Estrada de Sangue (seriado 2014-2015 - 7 episódios), Ray Donovan (seriado - 2013 - 7 episódios)

4 comentários:

  1. Luís, td bem?
    Assiste Coração Satânico em Londrina, num cinema que não sei se existe ainda, o Cine Contour.
    Sabia alguma coisa do filme por um zum-zum nos jornais ( foi capa da Set número 1 ) e tinha uma boa expectativa dele.
    O único senão era a lembrança de Birdy — que me pareceu muito chato —, por isso torcia para Alan Parker não repetir a dose. Que bom que me enganei.
    Coração Satânico é angustiante, opressivo e sórdido. Essa atmosfera permeia o filme em quase todos os momentos. E quando foge disso, é a mentira que está ali.
    Como se refere á natureza humana, creio que não deveria ser lembrado como um filme de terror. O ocultismo e o sobrenatural estão ali sim, mas apenas para dar vazão á alma daquelas pessoas e não é o que as corrompe. Ou seja, o mal está em nós, o Demônio é só sua materialização.
    Como vc colocou, a construção dos cenários internos foram fundamentais para criar a ambientação desejada, de uma medonha opressão. O mesmo para a trilha sonora. Interessante o uso de móveis e utensílios mais velhos que o habitual. As goteiras davam um efeito de algo deteriorado, abandonado. Curioso que se viam mais que sangue, não é?
    O recurso das imagens oníricas, todas perturbadoras sem serem explícitas, foi excelente. Particularmente nas cenas finais, quando as portas do elevador se fecham e ele desce. Puro simbolismo para o destino de Harry Angel.
    Sinceramente me surpreende quem tenha qualquer dificuldade de entendimento da estória. Não sabia da real identidade do personagem ( foi um imenso plot twist ), mas havia inúmeras referências, como vc falou, de Fausto á lenda de Robert Johnson. Mas apesar delas, confesso que foi angustiante aceitar a verdade revelada, quando Harry quebra o vaso. A cena de De Niro ali, contemplando o que ele parecia sempre saber, foi de fato o terror completo. Excelente.

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  2. Olá, Mario. Tudo bem?
    Foi uma grata surpresa rever este filme, que eu só havia assistido em seu lançamento nos cinemas. Guardava apenas a lembrança de uma obra que me impressionara muito. Revê-lo agora, conhecendo melhor sua história, me permitiu perceber situações que na época não eram tão evidentes. Talvez essa seja justamente uma das características que mais apreciei: a forma como Alan Parker conduz a narrativa. Um cineasta pode pegar um roteiro e seguir por uma visão que até atrapalhe o filme, ou pode destacar os elementos mais relevantes, conduzindo o espectador a perceber certos aspectos enquanto oculta outros, deixando a revelação para o final.
    Você fez uma ótima síntese do enredo e dos elementos que o permeiam. Também me surpreende quando algumas pessoas dizem que o filme é confuso. Na época, no cinema, isso até podia acontecer, já que muitas vezes entrávamos no meio da sessão e saíamos no ponto em que havíamos começado a assistir. Dependendo do filme, realmente ficava confuso e tirava a graça do desfecho, pois víamos do meio para o fim e depois esperávamos a sessão reiniciar para pegar o começo e entender a história. Hoje, com as sessões “fechadas”, não é mais permitido permanecer na sala. De certo modo, isso acabou com o overbooking (ou “sobrevenda”). Quantas vezes cheguei ao cinema e acabei sentando nos degraus porque os ingressos eram vendidos sem preocupação com a lotação? Aqui no RJ isso acontecia muito.
    Sim, o plot twist pegou muitos de surpresa. Não havia internet para revelar o final, nem vídeos no YouTube para estragar a experiência. Atualmente parece que muitas pessoas preferem assistir às críticas antes, já sabendo os elementos centrais da trama. Particularmente, somos de uma geração que era obrigada a refletir sobre os finais, sem recorrer a vídeos explicativos. Ficávamos dias pensando e, muitas vezes, não tínhamos a quem perguntar.
    Mario, que bom tê-lo de volta. Estou em um ritmo intenso de trabalho, com pouco tempo para análises mais detalhadas. Por isso, tenho publicado textos curtos na página dos Cinéfilos Para Sempre no Facebook, onde aos poucos vou “linkando” com os filmes que estão aqui na aba Filmes exibidos no Cinema, TV, VHS.... O propósito é resgatar, através de pesquisa, os diversos títulos exibidos em nossas telas (Tv cinema, VHS, DVD ....), uma espécie de preservação da memória. É um trabalho de anos, envolvendo milhares de filmes. Uma forma de manter tanto o blog quanto o Face vivos, até que eu volte a ter mais disponibilidade.
    Vou continuar as análises por aqui, em um ritmo mais lento, mas elas seguirão acontecendo. Um grande abraço e obrigado por sempre comentar. Até breve!

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  3. Quanto ao elenco, para afirmar que esta foi a grande interpretação de Mickey Rourke eu teria que ver outras mais. Mas a fanfarronice do ator sinceramente me afastaram dele nos anos subsequentes. Portanto, me lembrarei desta como a melhor. Um detalhe: a doçura do relacionamento de seu personagem com o de Lisa Bonet deu um contraste significativo para essa minha impressão
    De Niro foi incrível. Todas suas cenas são igualmente boas.
    E nele outra coisa que também é incrível: acho que ele meio que se repete em seus tantos outros papéis, mas ainda assim convence, ainda assim nos impressiona.
    E, como falamos uma vez sobre Anthony Hopkins, isto seria o que distingue os grandes atores, sua marca.
    Lisa Bonet contribui com sua beleza enigmática ( linda ) e com a visão pragmática da realidade sem perspectiva que sua personagem vive.
    Charlotte Rampling também está muito bem, mostrando que mulheres finas também acendem uma vela para o Diabo.
    Sobre Alan Parker, me surpreendi quando vi quantos filmes ligado á música ele fez ( Evita, Fame, The Wall, The Commitments, Asas da Liberdade ). Bem, aqui ( talvez mais que em Mississipi em Chamas ) ele entregou o seu melhor.
    Luís, revi o filme algumas semanas após vc publicar esta crítica e, fazendo eco ao que vc comentou sobre certos filmes caírem no esquecimento, em parte isto aconteceu por não encontrá-lo no streaming ( parece que hoje está no Mube ).
    Tive que me valer do Ricardo, da Eject Video, aqui de São Paulo, que só tinha uma cópia, veja só.
    Agora, confesso que na trama me ficou uma dúvida: habitavam naquele corpo duas almas? A de Harry vivia uma vida comum e a de Johnny Favorite só vinha á tona nos momentos de ameaça? A alma de Harry teria se esvaído no dia do ritual ou ela era refém da personalidade dominante de Johnny? A mentira de ser Harry deveria ser tão completa que até Johnny acreditava nisso, a ponto de criar uma dupla personalidade?
    Aceito todos outros argumentos, podem mandar.
    Luís, foi muita gentileza sua lembrar de fazer esta crítica de Angel Heart ( acho a dicotomia insinuada na escolha do nome no Brasil muito instigante ), visto que citei o filme num comentário que fiz. No intuito do blog, faz todo sentido trazer á lembrança dos leitores obras de qualidade que descansam no passado. Mas que foi gentil da sua parte, foi.
    Acho seu trabalho no blog sem igual e sei o esforço que lhe demanda, por isso novamente — e sempre — parabéns!
    Tentarei estar mais presente em 2026, pois afinal é um prazer ler suas matérias e um estímulo poder comentá-las.
    Bom ano para todos nós!

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    Respostas
    1. Olá Mario. Só agora pude parar para responder.

      Essa é uma pergunta muito interessante. Teria o personagem uma alma fragmentada? No campo da fantasia podemos dizer que sim, no campo do sobrenatural, ainda não li nada a respeito. Não percebo como se fossem duas almas distintas, mas sim uma alma fragmentada e em negação absoluta. Johnny Favorite era um homem que conhecia o oculto e sabia que o Diabo viria cobrar a dívida. O ritual não foi apenas para ganhar juventude, foi para "esconder" a alma em um lugar onde nem o Diabo a encontrasse. Eu vejo Harry como uma "casca" criada pelo trauma e pela magia. A alma original de Johnny Favorite nunca foi embora; ela estava apenas "em hibernação". Harry era o refém de uma personalidade dominante que só despertava para eliminar ameaças. Acredito que a "alma de Harry" (se é que podemos chamar assim ) era apenas uma barreira psíquica. No momento em que ele olha no espelho e diz a famosa frase — "Eu sei quem eu sou!", a personalidade de Harry Angel morre instantaneamente. O que sobra é o Johnny Favorite original, plenamente consciente de sua queda. O que torna o final de Coração Satânico tão insuportável para o protagonista é justamente essa percepção de que ele não pode simplesmente "matar" o Favorite e continuar sendo o Harry Angel. No fim das contas, a descida no elevador é o momento em que esse amálgama é forçado a encarar o espelho. Ele não é mais o detetive desleixado, nem o astro do jazz talentoso; ele é a soma de todos os seus pecados. Não existe fuga geográfica ou mental que nos livre de nós mesmos, ou seja, ninguém foge da própria biografia. Talvez seja é a mensagem central ou talvez eu tenha divagado demais rssss. Seria interessante que outras pessoas comentassem suas impressões, sem dúvida.
      E você tem razão. Mickey Rourke pouca coisa fez de relevante em sua carreira. Em O Ano do Dragão (1985) e Coração Satânico (1987), Rourke ainda possuía aquela técnica refinada, mesclada com um perigo latente. Ele usava o corpo, o cigarro e o olhar para construir o personagem. Havia um controle artístico ali. Entre Coração Satânico e O Lutador (2008), parece que o homem que "atuava" deu lugar ao homem que apenas "existia", de forma caótica,se assim podemos definir, diante das câmeras. De Niro estava no auge e penso que Al Pacino resolver mostrar que também sabia interpretar esse personagem com "Advogado do Diabo". O restante do elenco bem escalado, sem dúvida.
      Você citou em Mississipi em Chamas que seria interessante ver uma análise de Coração Satânico. O problema foi encontrar o filme. Levou muito tempo até que passou na Tv a Cabo e consegui assistir. Um filme de múltiplas camadas sempre caberá aqui.
      O acervo do Ricardo, da Eject Video, é excelente. Acompanho pelo Face, fora que ele entende muito de cinema e se mostra conhecedor de obras do cinema europeu que não são todos que conhecem. Apesar de disponibilizar os filmes em sua locadora, acredito que poucos assistem. Uma pena. Mas a quantidade de filmes populares é grande e aí acredito que deva ser o seu principal nicho de mercado.
      É sempre bom trocar experiências cinematograficas com você, que possui um olhar bem apurado dos elementos que compõe um filme. Até Breve e um bom final de domingo

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