sexta-feira, 11 de maio de 2018

VALERIE / VALERIE (1957) - ESTADOS UNIDOS



"AS PESSOAS SEMPRE ACREDITAM NO PIOR"

John Garth (Sterling Hayden), com dois cúmplices, é acusado de invadir a casa da família Horvath e matar sua esposa Valerie Horvath (Anita Ekberg) e os pais desta. Levado aos tribunais passa a contar sua versão dos fatos e o que o motivara a tal ato. Como testemunha dos últimos dias de convivência do casal é chamado a depor como testemunha o Reverendo local que inicia o seu relato, mas essa estória, com vários aspectos contraditórios, está longe de ser esclarecida rapidamente.
 


(A PARTIR DESTE PONTO A HISTÓRIA CONTÉM INEVITÁVEIS SPOILERS)

A primeira versão é a do recém chegado Reverendo Blake (Anthony Steel) que conhece o simpático casal após um culto e acaba entrando na vida da dupla, pois a esposa Valerie Hovart Garth (Anita Ekberg) lhe pede ajuda para fugir de casa. Sua narração não deixa muito claro o papel de John Garth (Sterling Hayden) no contexto. Só sabemos que algo a incomodava profundamente e que o pastor tentou ajudá-la. Ele acredita que John seja culpado.
 

Em seguida  o próprio John Garth é chamado a testemunhar e sua versão da estória é completamente diferente: homem apaixonado, casara com uma mulher interesseira que ao descobrir que ele perdera parte de sua fortuna, em pagamento de dívidas do falecido pai, passa a rejeitá-lo se atirando nos braços do irmão e sucumbindo às investidas do reverendo que parece encantado com sua bela esposa e a forma como enfeitiça os homens. John alega “crime de honra” e recebe apoio da população que o vê como um herói da guerra de secessão e a ela como uma mulher sem honra. 





Para a surpresa de todos, Valerie não morrera e está em condições de depor. E uma nova versão surge: ela se encantara pelo irmão de John, Herb Garth (Peter Walker), mas fora obrigada pelos pais a se casar com um homem influente, ciumento, psicótico e violento que só a deixaria sair de sua vida morta. Sua obsessão torna-se crescente e ela passa a ser alvo de maus tratos. Ajudada pelo reverendo, refugiara-se na casa dos pais.
 


Valerie não é um filme conhecido. Pode ser considerado um filme menor na filmografia dos atores, mas sua narrativa é bem interessante, pois agrega aspectos que vão surgindo ao longo versões narradas pelos envolvidos, deixando o espectador com dúvida de quem está mentido. 
 

 
Há fortes críticas sociais durante a projeção e esses aspectos nos são apresentados claramente ou até de forma mais sutil: o pensamento reinante (ainda hoje) que julga as pessoas do próprio meio como pessoas  íntegras: John, nascido e criado na cidade, é um herói de guerra, Valerie uma recente imigrante e Blake um recém chegado. E os americanos sempre olham com com certa suspeita os que vem de fora; esposas vistas como uma mera propriedade (como o dote que é oferecido pela família para casar a filha). Em alguns países isso ainda ocorre;  o direito de matar como "crime de honra", que no Brasil absolvia vários maridos até o final a década de 70. Algo que ainda ocorre em alguns países em pleno século XXI. Pessoas com costumes diferentes são prejulgadas:  Valerie é estrangeira e é vista como tal; sua frase para o reverendo após o culto: “invocou a fé e o coração, em vez de invocar o medo” é um modo de mostrar como a religião pode ser entendida por cada cultura. E se você não se encaixa no rótulo que a sociedade lhe impõe, as pessoas passam a rejeitá-lo; a palavra do patriarca prevalece a da esposa e todos fecham os olhos a versões que não sejam a “oficial” ; valerie é mostrada por Garth como uma "femele fatale"( tão comum nos filmes noir dessa época)  numa forma de desvalorzação. Temos  até o tema tortura na guerra sendo trazido à tona.
 

 
Se o espectador assistiu Rashomon, de Akira Kurosawa, já identificou aspectos dessa obra, até mesmo porque o filme, assim como o clássico japonês, é narrado em flashbacks e apresenta pontos de vistas conflitantes. Só que a baixa duração (82 min) influenciou diretamente no resultado. Se houvesse uma extensão de 15 minutos, com um suspense acerca de quem relatara os fatos fidedignamente, evitaria um final meio abrupto, meio anti-clímax.
 

Valerie, mesmo não sendo uma produção de reconhecida qualidade como “Rastros de Ódios”; “Consciências Mortas”, “Matar ou Morrer”, “Os Brutos Também Amam”, “Sem Lei e Sem Alma”, “Johnny Guitar”, Estigma da Crueldade” e outros tantos traz um bom elenco com Anita Ekberg (que chegaria ao estrelado com "La Doce Vida" de Fellini) e Sterling Hayden em um papel nada simples, uma bela fotografia e uma direção dinâmica de  Gerd Oswald,  aliada a uma ótima fotografia em preto e branco. Um faroeste que não se parece como tal e que merece ser redescoberto


Curiosidades:
Anita  Eckberg foi a Miss Suécia em 1950. Seu nome de batismo era Kerstin Anita Marianne Ekberg. Faleceu de doença não revelada.

Anthony Steel (1918–2001) faleceu de câncer de pulmão

Sterling Hayden (1916–1986) faleceu de câncer de próstata

O diretor Gerd Oswald (1919–1989) dirigiu episódios de vários seriados clássicos como: "Viagem ao Fundo do Mar", "O Fugitivo", "Bonanza", "Jornada nas Estrelas", "Daniel Boone", "Ben, o Urso Amigo", "Além da Imaginação"  (1985).



Filmografia Parcial: 
Sterling Hayden














Flechas Incendiárias (1952); A Garganta do Diabo (1952); Vivendo no Inferno (1952); Príncipe Valente (1954); Johnny Guitar (1954); Meu Ofício é Matar (1954); Gigante dos Mares (1955); O Grande Golpe (1956); Dr. Fantástico (1964); O Poderoso Chefão (1972); Um Perigoso Adeus (1973); Terror Mortal (1975); Rei dos Ciganos (1978); Como Eliminar Seu Chefe (1980).
             
 
Anita  Eckberg

 












Artistas e Modelos (1955);  Guerra e Paz (1956); Ou Vai ou Racha (1956); Valerie (1957); A Doce Vida (1960); Os Mongois (1961); Os Crimes do Alfabeto (1965); Como Aprendi a Amar as Mulheres (1966); Sete Vezes Mulher (1967); Cavalgada da Vingança (1972); A Freira Assassina (1979); Entrevista (1987); Bámbola (1996)
 
Anthony Steel

 












Minha Espada, Minha Lei (1953); Tormenta Sobre o Nilo (1955); Valerie (1957); A Batalha de Anzio (1968); Massacre em Roma (1973); A História de 'O' (1975); Hardcore (1977); Crime Perfeito (1978); A Maldição do Espelho (1980)
 


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