segunda-feira, 22 de maio de 2023

A BALEIA / THE WALE ( 2022) - ESTADOS UNIDOS

ADAPTAÇÃO CLAUSTROFÓBICA, MAS NECESSÁRIA

Charlie é um professor universitário de redação que ministra suas aulas online com a câmera de seu laptop desativada, para que os alunos nunca possam vê-lo, alegando que a mesma está quebrada. O motivo: ele sofre de obesidade mórbida aliada a uma profunda depressão. Sua dificuldade de locomover-se o mantém recluso em seu apartamento tendo praticamente apenas a visita de sua amiga e enfermeira Liz (Hong Chau).  Sua condição piora dia a dia devido a vários problemas de saúde e uma condição cardíaca agravada (uma pressão sanguínea de 23,8 x 14,3).  Um dia que seria fatídico para Charlie é interrompido pelo surgimento de Thomas (Ty Simpkins), um jovem missionário que bate à sua porta oferecendo (literalmente) salvação e, ao conhecer Charlie, entende que sua missão é salvá-lo, o que não é aceito pelo mesmo, e é visto por Liz com preocupação diante do passado de seu amigo com a igreja que a Thomas pertence e também por ela já ter tido um forte vínculo com essa mesma igreja.

Charlie possui uma filha adolescente, Elle (Sadie Sink), na qual mantém um relacionamento conturbado: ele abandonou o lar (e uma filha de oito anos) para viver com seu companheiro que terminaria por falecer de uma forma muito impactante. Elle nunca perdoou a sua partida, mas ela também tem seus problemas: tornou-se uma menina solitária, arredia  e rebelde que não consegue interagir com seus professores e possui problemas para completar seus trabalhos escolares. Charlie tem pouco tempo de vida e sente a urgente necessidade de se reconectar com a filha enquanto esta passa a frequentar sua casa diante da oferta de Charlie em lhe dar dinheiro e fazer suas redações, mas o rejeita de várias formas.

O diretor Darren Aronofsky possui filmes com temáticas bem interessantes em sua filmografia: “Réquiem Para um Sonho” (vício em drogas); “O Lutador” (a decadência e o envelhecimento de um lutador de Wresting); “Cisne Negro” (obsessão); “Mãe!” (um filme com alegorias bíblicas) ... Em “A Baleia”, o diretor resolve abordar alguns temas de uma maneira que poderá incomodar algumas pessoas. Aronofsky procurou uma forma de encontrar uma linguagem cinematográfica para a peça teatral de Samuel D. Hunter (responsável pelo roteiro) e nos colocou a presenciar a vida de Charlie. Sabemos pouco do que realmente aconteceu, apenas através de diálogos dos personagens, mas sabemos que Charlie está chegando ao final de sua jornada. Sua vida, após o suicídio do companheiro (irmão de Liz), saiu dos trilhos. A dor que passou a carregar se transformou em compulsão alimentar, seu coração está falhando e qualquer deslocamento simples (como andar ou levantar-se da cadeira) exige-lhe um esforço colossal. Liz (que fora criada no meio religioso como o irmão e se desencantou) deseja que Charlie se interne e tente uma recuperação, mas ele sabe que será adiar o inevitável, melhor deixar o dinheiro da internação e o tratamento (nos Estados Unidos o sistema de saúde não é gratuito para todos como é em nosso país) para a filha (Liz acredita que ele está falido e que não pode pagar um plano de saúde), para que esta possa ter uma formação, um bom emprego, uma vida digna. 

O título “A Baleia” parece uma metáfora nada simpática a condição direta do personagem soando até como de mau gosto, mas, na verdade, refere-se ao conto de Moby Dick que é citado várias vezes no filme, inclusive revelando a mensagem central do livro, e na qual muita coisa fará sentido de acordo com que o filme avança. Podemos ver o filme como o estudo de um personagem, como um homem em busca de redenção, um pai tentando se relacionar com a filha e, ao mesmo tempo, tentando salvá-la, pois vê nela um imenso potencial. Interessante vermos que o jovem Thomas deseja salvar Charlie, mas ele mesmo precisa ser salvo, mas, antes, precisa constatar este fato e ser honesto consigo mesmo. Liz também precisa escapar da situação em que se encontra: assim como Charlie ela está presa ao luto e vê no amigo o único elo que ainda a faz se lembrar do falecido irmão. Ver Charlie partir, sem que ela possa salvá-lo, também a deixa frágil, frustrada e com raiva, pois Charlie perdeu o interesse na vida e novamente outra pessoa mais próxima a ela está partindo. Agora que Charlie consegue manter um diálogo com Elle (que não via há oito anos - a jovem está em torno dos dezessete) já é tarde demais, ele acredita que só lhe restam alguns dias. Ele precisa romper o ressentimento de Elle que se recusa a perdoá-lo. Charlie, afinal, é humano, com virtudes e defeitos, erros e acertos como qualquer pessoa.

Parte da crítica não conseguiu se emocionar com um personagem triste, solitário e autodestrutivo em um drama triunfante e profundamente comovente. A Baleia foi classificado por estes como um filme piegas e melodramático. Muitos, inclusive,  se incomodaram no modo como o personagem de Charlie lida com sua alimentação: comendo baldes de frango frito, pedindo todo dia uma pizza e quase se engasgando com um sanduiche (aspectos que têm pouco a ver com comida e tudo a ver com seus sentimentos). Para muitos, não será um filme fácil de ser assistido. Houve aqueles que citaram o perigo de serem acionados “certos gatilhos” em alguns espectadores. Abriu-se até uma discussão se isso não estigmatizaria ainda mais as pessoas que estejam acima do peso, além do “Fat Shaming” - o ato de criticar o sobrepeso de alguém e faze-lo se sentir culpado por isso (Brendan Fraser citou ter conversado com a “Obesity Action Coalition” - uma ONG americana que ajuda obesos e que teria recebido o aval para o filme). Houve até quem criticasse o fato de usarem um ator magro para interpretar um obeso. O que o espectador precisa perceber é que o filme busca, em sua mensagem, a oportunidade de conscientizar as pessoas sobre o preconceito sofrido por pessoas nessas condições.

A escolha de Brendan Fraser foi algo bem interessante: quando o diretor assistiu ao filme “12 Horas Para o Amanhecer” (2006), ambientado em São Paulo, ele havia encontrado o seu personagem principal: Fraser, um ator de filmes de aventura e romances que fora caindo no ostracismo e 24 anos depois da estreia de “A Múmia” retornaria em uma elogiada atuação, aos 53 anos, com direito a uma ovação de pé de seis minutos no Festival de Cinema de Veneza, além de garantir uma indicação de Melhor Ator no Oscar de 2023, justamente vencida. Fraser, apesar do criticado uso de “fat suit” (preenchimento - o ator teria usado entre 22 a 130 kg de próteses), que aqui não caberia a crítica, pois é um termo mais voltado a quem deseja fazer comédias (atualmente mal visto na indústria e por espectadores), mostra-se um excelente ator, pois tudo está ali: a tristeza, a culpa, o olhar desesperançoso, o grito interno de socorro que não pode ser ouvido, o modo de caminhar ... Sadie Sink (uma das estrelas do ótimo seriado “Stranger Things”) revelou-se uma ótima escolha, apresentando a química com Fraser que faz o filme funcionar. Sua personagem traz todo o conflito que a estória precisava. Samantha Morton (a vilã “Alfa” do seriado “The Walking Dead”) faz Mary a ex-esposa que afastou a filha de Charlie e agora mostra-se preocupada com o que essa aproximação possa causar em ambos. O pouco tempo em cena de Samantha é o suficiente para mostrar-se uma excelente atriz. Hong Chau faz Liz com muita propriedade o que a fez ganhar uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Ty Simpkins é um Thomas que se descobrirá nesse pouco tempo com Charlie e Elle e Sathya Sridharan faz o entregador de pizza curioso em saber que é o seu misterioso cliente que nunca chega à porta quando ele faz a entrega. 

Indicado a 3 Oscars, A Baleia é um filme que incorpora muitas questões onde tudo é propositadamente apertado para dar uma sensação de pouco espaço, uma sensação de claustrofobia no espectador. Charlie é um homem que come compulsivamente para aplacar a dor e a culpa. É altruísta e egoísta; otimista quanto à filha e sem esperança quanto ao seu futuro, criou um estilo de vida hermético para si e nos coloca a entender como ele se sente a respeito de si mesmo. O espectador sente vontade de entrar no filme e salvar um personagem que se mostra muito forte no final. Aliás, um final arrebatador, nada convencional, e que pegará o espectador de surpresa. Cinema em sua função mais pertinente: a de levar a uma imensa reflexão (mesmo que alguns se sintam mal ao final da projeção) e a um aprendizado, que permanecerá na mente de quem o assistiu. Melodramático ou piegas? Eu diria que não. Necessário? Eu diria que sim.


Trailer:



Curiosidades:

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Brendan Fraser), Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor atriz Coadjuvante (Hong Chau), conquistando os dois primeiros 

Por causa do peso severo de seu personagem, Brendan Fraser teve que vestir um traje protético pesado para o papel que ele usou por horas. Ele disse aos membros da mídia presentes no Festival Internacional de Cinema de Veneza (via Variety): "Desenvolvi músculos que não sabia que tinha. Até senti uma sensação de vertigem no final do dia, quando todos os aparelhos foram removidos; era como descer do cais para um barco em Veneza. Essa [sensação de] ondulação. Isso me deu apreço por aqueles cujos corpos são semelhantes. Você precisa ser uma pessoa incrivelmente forte, mental e fisicamente, para habitar esse ser físico. "

Após sua exibição de estreia no Festival de Cinema de Veneza, tanto o filme quanto o ator principal, Brendan Fraser, foram aplaudidos de pé por seis minutos; um momento, capturado pela câmera, que levou Fraser às lágrimas. Fãs e críticos de longa data consideram A Baleia (2022) um renascimento da carreira de Fraser após muitos anos de ausência das telas.

A jovem Ellie nas cenas de flashback é interpretada pela irmã mais nova de Sadie Sink, Jacey.

No Festival de Cinema de Veneza de 2022, Darren Aronofsky disse que levou dez anos para escalar o elenco deste filme

Samantha Morton já foi indicada 2  vezes ao Oscar por "Poucas e Boas" (1999) "Terra de Sonhos" (2004)

Charlie é vagamente baseado no escritor do filme e peça Samuel D. Hunter, que ensinou redação expositiva na Rutgers University e lutou contra o transtorno da compulsão alimentar periódica.

Adrian Morot ("Noé", "O Regresso") criou as próteses usadas no filme

Para a representação física de Charlie, uma combinação de próteses pesadas, CGI e maquiagem foram usadas em Fraser,

O diretor Darren Aronofsky também abordou a controvérsia sobre como a obesidade é abordada no filme. "Pessoas com obesidade são geralmente escritas como bandidos ou piadas", disse Aronofsky ao Yahoo Entertainment no ano passado. “Queríamos criar um personagem totalmente elaborado que tivesse partes ruins e boas; Charlie é muito egoísta, mas também é cheio de amor e está buscando perdão. Então [a controvérsia] não faz sentido para mim. Brendan Fraser é o ator certo para fazer esse papel, e o filme é um exercício de empatia”.

Para que os movimentos sejam realistas, um traje de pele artificial de corpo inteiro foi criado usando impressão 3D e preenchido com sacos de “pérolas de água gelatinosa” ("gelatinous water beads”), para acertar o movimento dos membros de Fraser.

No início da produção, Fraser passava cansativas cinco a seis horas em uma cadeira de maquiagem, todos os dias, para se tornar Charlie, com a contagem regressiva de duas a três horas no final das filmagens. As próteses avançadas eram tão pesadas que várias pessoas também tiveram que ajudar Fraser a se mover entre o estúdio e a sala de maquiagem.

Brendan Fraser consultou pessoas que passaram por cirurgias bariátricas para aprender mais sobre suas vidas e lutas.

Cartaz:












Samantha Morton no Clipe do U2 - "Electrical Storm"



Ty Simpkins no Clipe Logic - "One Day" feat. Ryan Tedder




Breve Filmografia:

Brendan Fraser







Filho do Bem, Filho do Mal (1991); Apostando no Amor (1991);Supostamente Culpado (1991); O Homem da Califórnia (1992); Código de Honra (1992); Cash: Em Busca do Dólar (1993); Escrito nas Estrelas (1993); Com Mérito (1994); O Pancada (1994); Paixões na Floresta (1995); Agora e Sempre (1995); Amor por Acidente (1996); Questão de Sensibilidade (1996); A Garota dos Meus Sonhos (1997); George, o Rei da Floresta (1997); Deuses e Monstros (1998); De Volta para o Presente (1999); A Múmia (1999); Endiabrado (2000); Monkeybone, no Limite da Imaginação (2001); O Retorno da Múmia (2001); O Americano Tranqüilo (2002); Revenge of the Mummy: The Ride (2004); Crash: No Limite (2004); 12 Horas até o Amanhecer (2006); O Último Golpe (2006); Ligados pelo Crime (2007); Viagem ao Centro da Terra: O Filme (2008); A Múmia: Tumba do Imperador Dragão (2008); Coração de Tinta: O Livro Mágico (2008); Decisões Extremas (2010); O Negociador (2011); Um Caso de Amor (2013); Uma Dupla Genial (2013); A Caça (2013); Busca Alucinante (2013); Em Busca de um Lar (2013); A Rosa Venenosa (2019); Irmãos do Crime (2019);  Nem um Passo em Falso (2021); A Baleia (2022); Professionals (seriado 2020); Patrulha do Destino (seriado 2013-2019); Assassinos da Lua das Flores (2023)


Sadie Sink







Bounce (1997); Punhos de Sangue (2016); O Castelo de Vidro (2017); Rua do Medo: 1994 - Parte 1 (2021); A Baleia (2022); Stranger Things (seriado 2017-2022)


Samantha Morton






Soldier Soldier (1991); Emma (1996); Jane Eyre (1997); Inocentes Pecadores (1997); Poucas e Boas (1999); Sonhando com Joseph Lees (1999); O Romance de Morvern Callar (2002); Minority Report: A Nova Lei (2002); Terra de Sonhos (2002);  Código 46 (2003); Amor Obsessivo (2004); Amor Obsessivo (2004); Honra E Liberdade (2005); Lassie (2005); Controle: A História de Ian Curtis (2007); Elizabeth: A Era de Ouro (2007); Sinédoque, Nova York (2008); A Corrente do Mal (2008); O Mensageiro (2009); John Carter: Entre Dois Mundos (2012); Cosmópolis (2012); Unidas pela vida (2013); A Ameaça (2013); Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016); Apenas Nós (2018); The Walking Dead (seriado 2019-2020); A Baleia (2022); Ela Disse (2022)


Hong Chau






Vício Inerente (2014); De A a Z (seriado 2014-2015); Pequena Grande Vida (2017); Intimidade Forçada (2018); Driveways - Uma Amizade Inesperada (2019); American Woman (2019); Watchmen (seriado 2019); Homecoming: De Volta à Pátria (seriado 2018-2020); Artemis Fowl: O Mundo Secreto (2020); A Baleia (2022);  O Menu (2022); O Agente Noturno (seriado 2023)


Ty Simpkins







Guerra dos Mundos (2005); Pecados Íntimos (2006); Jardins da Noite (2008); Força Policial (2008); Foi Apenas um Sonho (2008); 72 Horas (2010); Homem de Ferro 3 (2013); Sobrenatural: Capítulo 2 (2013); Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015); Dois Caras Legais (2016); Sobrenatural: A Última Chave (2018); Vingadores: Ultimato (2019); A Baleia (2022)


Sathya Sridharan







Terror em Duas Frases (2017); Amizade Dolorida (2018); Murderville (2020); Baleia (2022)


Fontes:

The New York Times

The Guardian

IMDB

Jornal O Globo

Independente.co

Standart.co

Rolling Stone

CNN

Collider

Empire

Yahoo Movies

Vanity Fair

sexta-feira, 12 de maio de 2023

MEU PAI / THE FATHER (2020) - REINO UNIDO / FRANÇA / ESTADOS UNIDOS

“SINTO QUE ESTOU PERDENDO TODAS AS MINHAS FOLHAS”

(o texto contém spoilers)

Anthony (Anthony Hopkins) é um viúvo octogenário e engenheiro aposentado que mora em um sofisticado apartamento no oeste de Londres, recebendo visitas regulares de sua filha de meia-idade Anne (Olivia Colman). Ela lhe dá a notícia que em breve se mudará para Paris ao encontro de um novo relacionamento, mas que ele não poderá ficar sozinho. Anthony tem problemas com cuidadoras da qual a última acusa de roubo. Sua filha lhe informa que conseguiu uma nova, porém é preciso que ele entenda a necessidade de não rejeitá-la.  

Anne sai do apartamento e Anthony descobre que não está sozinho: há um estranho (Mark Gatiss) lendo jornal em sua sala e afirmando ser o marido de Anne, Paul, mas Anne se divorciou dele. A reação do octogenário é de perplexidade, mas, para sua salvação, Anne retorna. Mas retorna diferente, não é a mesma Anne fisicamente que saíra do apartamento. Horas mais tarde, o Paul (Rufus Sewell) que Anthony realmente conhece está em sua casa e vivendo com sua filha. Paul se mostra pouco afetivo e pouco feliz com a presença de Anthony lhe dizendo que o idoso é seu hóspede. O que Anne não revela ao pai é que ele possui demência há algum tempo, quadro irreversível, em estágio avançado, que só tenderá a piorar. 

Meu Pai é baseado na peça francesa Le Père (2012), do dramaturgo Florian Zeller, que estreou na direção deste longa-metragem tendo Christopher Hampton a adaptá-la para o cinema e traduzi-la para o inglês. Hampton, também dramaturgo, se tornou conhecido como roteirista de filmes como “Ligações Perigosas” (1988 – Oscar de Melhor Roteiro), “O Americano Tranquilo” (2002) e “Desejo e Reparação” (2007). Para a estreia na Broadway americana em 2016, Frank Langella (“Mestres do Universo” e “Frost /Nixon”) e Kathryn Erbe (do seriado “Lei e Ordem: Crimes Premeditados”) reprisaram os papéis de pai/filha. No Brasil, a peça teve o ator Fúlvio Stefanini no papel central. Foi a terceira colaboração entre Anthony Hopkins e o escritor Christopher Hampton. Os filmes anteriores foram: “A Casa das Bonecas” (1973) e “Amor e Vingança” (1985).

O filme aborda um tema difícil de ser transposto para as telas: a demência e o doloroso declínio cognitivo de um pai amado, uma sensação de perda de batalha contra a senilidade e uma deterioração de sua relação com a realidade. O que há de tão assustador é que Anthony retém apenas o suficiente de si para entender que algo está terrivelmente errado e, como qualquer um de nós, ele acredita no que vê. Para o espectador, a neve está descendo sobre a mente de Anthony de forma rápida e o que nos impressiona é que estamos juntando as peças mesmo quando ele as perde, uma a uma. 

A jogada engenhosa do filme é nos dar pequenas pistas para nos orientarmos e depois nos arremessar no labirinto de Anthony: sua mente. Sua filha é ou foi casada? A mobília está mudando? A casa está diferente? O que aconteceu com o quadro? Onde está a filha mais nova de Anthony? Anne vai ou não vai para Paris? Quem são os estranhos que frequentam a casa de Anthony e tentam confundi-lo? Uma cena que parecia seguir a anterior sequencialmente acaba por tê-la precedido... O que percebemos ao longo da projeção é que não fica claro o tempo todo exatamente onde Anthony está, ou quando ele está. O editor Yorgos Lamprinos faz mudanças discretas (e isso é muito complicado de ser feito) no cenário que resultam em uma resposta muito interessante: a nossa mente não nos informará diretamente as mudanças, mas há alguma coisa que nos fará pensar que tem algo diferente. Como o espectador em vários momentos será os olhos de Anthnony, estaremos inseridos dentro de sua percepção ou a falta dela, do que acontece ao redor. Essa sensação de desconforto provocada em quem assiste (ou a sensação de que não prestamos atenção direito ao filme) nos dá uma ótima dimensão de como o cérebro processa (ou deixa de processar) as informações e os lapsos de tempo em quem possui a Demência / Alzheimer nessa mistura turva de passado e presente que insiste em se confundir. 

O medo permeia a mente de Anthony, mesmo que ele não perceba que está destruindo sua sanidade. Esse é um sentimento que a sua mente não se omite de trazer à tona: o medo de perder um relógio, medo de perder seu apartamento e, o mais importante, medo de perder Anne. E não podemos nos esquecer que Anthony não aceitou (mesmo que sua parte consciente não mais se lembre) a perda de sua filha Lucy. Ele continua esquecendo o presente (que não cria mais novas memórias), mas o passado parece permanecer firme, o qual ele se situa cada vez mais. O filme não julga se Anne faz a escolha certa ou errada, mas qualquer que seja sua escolha será punida: se abrir mão de sua felicidade, já na meia-idade, poderá não ter mais tempo de ser feliz (já que o primeiro casamento deu errado - e dificilmente encontrará quem fique com ela e o pai na mesma casa). Se for em busca da felicidade, o sentimento de remorso lhe cobrará uma pena duradoura ainda que o estágio avançado de Anthony lhe negará até a lembrança em algum momento. 

Há momentos realmente impactantes no filme, através de sutilezas e simbolismos, que o roteiro de poucas certezas e muitos talvez nos traz: o relógio a que Anthony se apega obsessivamente pode significar o tempo se esvaindo entre suas mãos ou sua melhor conexão com a realidade; ou quando Anthony se comporta de maneira bastante cruel ao dizer que Anne nunca foi sua filha preferida, que ela “não é muito inteligente” ou que ela deseja sua morte para se apoderar de seu apartamento. As mudanças de humor, diminuição das inibições e a falta de decoro social (mas também há lampejos de bondade e gratidão) penetram como uma lança na alma de Anne, que sabe que é uma das causas da doença, só lhe restando oferecer sorrisos estilhaçados, demonstrando assim sua vulnerabilidade. Anthony clama pela mãe e não pela filha - a mãe simboliza o passado em que era feliz, na qual se sentia protegido e recorria a esta quando estava em apuros. Quando crianças, quando ainda não conseguimos entender o mundo, admiramos nossas mães.  Agora ele está "nu", nas mãos de “estranhos” e deve se perguntar o que fez para merecer o "abandono". Na cena da visita à medica, Anthony é visto sentado atrás de uma janela fechada. Simbolicamente, sua mente também está presa. O discurso final de Hopkins poderá levar alguns espectadores às lágrimas.

O elenco está impecável: o diretor Florian Zeller queria Anthony Hopkins especificamente para o papel. Enviou o roteiro ao ator em 2017 e esperou por uma resposta. A espera foi recompensadora. Hopkins entrega uma das melhores atuações de sua carreira (para muitos, a melhor) o que lhe garantiu o Oscar de Melhor Ator (Hopkins não foi a cerimonia acreditando que não ganharia). O ator apenas com gestos e olhares conseguiu passar toda a carga de emoção que o personagem precisava. Difícil pensar em outro ator interpretando esse papel no filme. Segunda indicação ao Oscar de Olivia Colman, após sua vitória por seu papel em “A Favorita” (2018). Em ambos os filmes, sua personagem se chama Anne. Sua personagem é uma heroína silenciosa e solitária ao cuidar, dar carinhoso e até suportar ofensas daquele que sofre pela mente começar a "dar defeito", parecendo que é o mundo que está partido. Rufus Sewell faz Paul, o marido que já não suporta mais a situação e que culpa Anthony pelo fracasso de seu casamento. A cena em que não sabemos se agrediu ou não Anthony (particularmente acredito que sim) causa um misto de indignação e revolta, nos lembrando que muitos “Anthony(s)” passam por essa condição por estarem em estado de vulnerabilidade. Mark Gatiss e Olivia Williams tem pouca participação, mas que se mostrará muito relevante. Imogen Poots interpreta Laura, a jovem cuidadora e a doutora Sarai é interpretada por Ayesha Dharker (a outrora menina protagonista do filme “Manika – A Menina que Nasceu Duas Vezes). 

Indicado a seis prêmios da Academia (levou também o de Roteiro Adaptado), Meu Pai é um pungente retrato da frágil condição humana, que assusta muito mais que alguns filmes de terror, por sua mensagem inequívoca e verdadeira, apoiado por um design de produção que sutilmente vai transformando o ambiente ao redor, além de uma montagem inspirada que torna o filme tenso e reflexivo, mas em nenhum momento cansativo. Um final que mostra o quanto o cinema pode ser capaz de emocionar.

 

Trailer:

 


Curiosidades (contém spoilers):

Disponível, atualmente, na plataforma NETFLIX

Zeller dirigiu, em 2022,  outra de suas produções "Le Fils" ("Um Filho" com Hugh Jackman que também traz Hopkins) e que fala sobre a depressão.

Anthony diz sua data de nascimento, 31 de dezembro de 1937; Esta é a data real de nascimento de Sir Anthony Hopkins.

Anthony Hopkins ganhou o Oscar de Melhor Ator aos 83 anos por seu papel neste filme, o que o tornou o vencedor mais velho de um Oscar na categoria atuação, batendo o recorde anterior estabelecido por Christopher Plummer, que ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante aos 82 anos em “Toda Forma de Amor” (2010) pouco menos de uma década antes e havia falecido pouco menos de três meses antes da cerimônia do Oscar de 2021.

Anthony Hopkins tinha tanta certeza de que perderia o Oscar de Melhor Ator para o falecido Chadwick Boseman (o ator de "Pantera Negra" concorrendo por "A Voz Suprema do Blues") que não compareceu à premiação, optando por ficar em sua terra natal, o País de Gales. Ele teria pedido aos produtores para fazerem uma aparição via Zoom, mas estes recusaram a oferta. Contra a tradição, o vencedor do prêmio de Melhor Ator foi anunciado por último, após a premiação do vencedor de Melhor Filme. Os produtores admitiram mais tarde que isso foi feito porque também esperavam que Boseman vencesse e queriam que a cerimônia terminasse com sua família aceitando o prêmio. Hopkins até foi dormir cedo, perdendo o anúncio de que havia vencido (o ator Joaquin Phoenix aceitou o prêmio em seu nome). Depois de acordar e ouvir a notícia, Hopkins rapidamente divulgou um discurso de aceitação no Instagram, no qual admitiu que "realmente não esperava por isso" e prestou homenagem a Boseman.

Florian Zeller compartilhou uma contribuição que Anthony Hopkins fez para o filme: uma ária da ópera de Georges Bizet, "The Pearl Fishers / Les Pêcheurs de Perles": "Isso foi algo que surgiu de nossa conversa. Ele adora música; eu também. Um dia, ele me disse: ' Uma das minhas músicas favoritas é esta ária', e ele me contou esta história: Quando ele tinha 30 anos, ele estava fazendo uma peça no Reino Unido e uma noite ele ouviu aquela música pela primeira vez. Ele veio de volta ao hotel onde havia um piano e ele começou a tentar achar a melodia. Ele deixou todo mundo maluco, porque demorou uns três dias para achar a melodia. Ele me disse: 'Eu sempre sonhei em fazer um filme com esta música nele.'" Zeller concluiu, "Então eu tentei realizar seus sonhos como ele realizou os meus."

A peça teatral em si tem muitos diálogos, então a maior tarefa de Florian Zeller e Christopher Hampton ao adaptar o roteiro foi diminuir a quantidade de falas no filme. Isso se reflete nas múltiplas cenas de Anthony Hopkins olhando ao seu redor perplexo. Em vez de fazer o personagem falar, eles confiaram na habilidade facial do ator para contar a história.

Com sua vitória para este filme, Anthony Hopkins se tornou a primeira pessoa a estar publicamente no espectro do autismo a ganhar um Oscar. Embora Hopkins já tivesse ganhado um Oscar por "O Silêncio dos Inocentes" (1991), ele ainda não havia sido diagnosticado com Asperger, muito menos revelou o diagnóstico publicamente.

O papel do pai foi interpretado no palco por Frank Langella, tornando este o segundo de seus papéis no palco a ser interpretado por Anthony Hopkins. Anteriormente, ambos interpretaram Richard Nixon. Hopkins desempenhou o papel em Nixon (1995), Langella em Frost/Nixon (2008). Curiosamente, ambos interpretaram Don Diego De La Vega em filmes separados do Zorro.

Esta é a segunda adaptação da peça de Florian Zeller. Foi filmado anteriormente como “A Viagem de Meu Pai” (2015).

Olivia Colman interpreta outra filha de um pai que sofre de demência em "A Dama de Ferro" (2011).

Olivia Williams filmou sua cena final ao lado de Sir Anthony Hopkins separadamente em cenas em que não estavam juntos, já que ela disse que teria sido impossível para ela manter a compostura em reação ao momento em que ele desmoronou espontaneamente.

A fim de transmitir melhor ao público a experiência da memória que se esvai na peça original "Le Père", à medida que o drama avançava, itens como mobília seriam gradualmente removidos do palco até que, no final da peça, o cenário seria essencialmente nu, mas para os atores. Para a adaptação cinematográfica, o apartamento de Anthony, o apartamento de sua filha Anne e a casa de repouso que ele ocupa, todos se desenrolam no mesmo espaço dentro da arquitetura permanente. Como forma de imergir o espectador na mente falha de Anthony, o desenhista de produção Peter Francis fez alterações sutis e contínuas nos esquemas de cores, trocando gradualmente objetos familiares do dia-a-dia neste espaço, de modo que, à medida que a história avança, o espectador fica quase tão incerto de seus arredores quanto o próprio Anthony. Imagens diferentes foram penduradas em arranjos semelhantes nas paredes ao longo do filme, aumentando ainda mais a confusão visual do espaço de Anthony (e nosso).

Na cena final, toda a equipe foi reduzida às lágrimas. Não há closes de Olivia Williams durante todo o monólogo porque ela mesma não conseguia parar de chorar durante a cena.

 

 

Cartazes: 




 

 

 






Bastidores:










Trilha Sonora:

Cold Wind Var. 1 - Day 1 - Ludovico Einaudi

Cold Wind Var. 1 - Day 2 - Ludovico Einaudi

Low Mist Var. 1 - Day 5 - Ludovico Einaudi

Low Mist Var. 2 - Day 1 - Ludovico Einaudi

Low Mist Var. 2 - Day 5 - Ludovico Einaudi

Cold Wind Var. 2 - Day 4 - Ludovico Einaudi

My Journey - Ludovico Einaudi

King Arthur, or The British Worthy (1691), Act 3: What Power Art Thou? (Henry Purcell)

Interpretado por Andreas Scholl, Accademia Bizantina, Stefano Montanari

Norma, Act 1: Casta Diva (Norma, Chorus) - Maria Callas

Les Pêcheurs de Perles - Romance: Je crois entendre encore (Georges Bizet) Interpretado por Cyrille Dubois, L'Orchestre National de Lille, Alexandre Bloch

Hospital Nightmare - Written by David Menke

Ocean Currents - Joshua Pacey

Legends of Rub'al Khali - Barnaby Taylor

On the Hour - Max Cameron

 

 "The Pearl Fishers / Les Pêcheurs de Perles" (Placido Domingo & Andrea Bocelli )


Filmografia Parcial:

Anthony Hopkins 


 





Hamlet (1969); Juggernaut: Inferno em Alto-Mar (1974); As Duas Vidas de Audrey Rose (1977); O Homem Elefante (1980); Pedro e Paulo com Coragem e Fé (1981); O Corcunda de Notre Dame (1982); Rebelião em Alto Mar (1984); Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (1987); Horas de Desespero (1990); O Silêncio dos Inocentes (1991); Freejack: Os Imortais (1992); Retorno a Howards End (1992); Drácula de Bram Stoker (1992); Chaplin (1992); Vestígios do Dia (1993); Terra das Sombras (1993); Lendas da Paixão (1994); Nixon (1995); No Limite (1997); Amistad (1997); A Máscara do Zorro (1998); Instinto (1999); Hannibal (2001); Dragão Vermelho (2002); Alexandre (2004); Desafiando os Limites (2005); A Lenda de Beowulf (2007); O Lobisomem (2010); O Ritual (2011); Thor (2011); Hitchcock (2012); RED 2: Aposentados e Ainda Mais Perigosos (2013); Thor: O Mundo Sombrio (2013); Noé (2014); Má Conduta (2016); Transformers: O Último Cavaleiro (2017); Thor 3: Ragnarok (2017); Dois Papas (2019); Meu Pai (2020), Um Filho (2022)

 

Olivia Colman







Um Casamento Original (2006), Chumbo Grosso (2007), Nunca é Tarde para Amar (2007), Nunca é Tarde para Amar (2007), Skins - Juventude à Flor da Pele (2007), Os Assassinatos de Midsomer (1997), O Mundo dos Pequeninos (2010), A Dama de Ferro (2011), Um Final de Semana em Hyde Park (2012), Dou-lhes Um Ano (2013), A Décima Terceira História (2013), Ritmo Cubano (2014), O Lagosta (2015), O Gerente da Noite (2016), Assassinato no Expresso do Oriente (2017), A Favorita (2018), Uma Grande Aventura (Minissérie 2018), Meu Pai (2020), A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (2021), O Domingo das Mães (2021), A Vida Eletrizante de Louis Wain (2021); A Filha Perdida (2021), Império da Luz (2022) 

Rufus Sewell







Um Homem Sem Importância (1994); Carrington - Dias de Paixão (1995); Hamlet (1996); Cidade das Sombras (1998); A Filha da Luz (2000); Coração de Cavaleiro (2001); A Lenda do Zorro (2005); Tristão & Isolda (2006); O Ilusionista (2006); O Amor Não Tira Férias (2006); Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (2012); O Jogo Mortal (2013); Hércules (2014); Quem Matou Jesus? (2015); Deuses do Egito (2016); Vitória: A Vida de uma Rainha (2016), Judy: Muito Além do Arco-Íris (2019), O Homem do Castelo Alto (seriado - 2015), Meu Pai (2020), Tempo (2021)

 

Olivia Williams 







Emma (1996); O Mensageiro (1997), Três é Demais (1998), O Sexto Sentido (1999), Na Mira do Inimigo (2000), O Último Romântico (2000), O Corpo (2001), Um Golpe de Sorte (2001), Confissões de um Sedutor (2001), Meu Amor, Minha Perdição (2002), Submersos (2002), Morte ao Rei (2003), Peter Pan (2003), Agatha Christie: A Life in Pictures (2004), Valiant: Um Herói que Vale a Pena (2005), Aprendendo a Viver (2005), X-Men: O Confronto Final (2006), Srta. Austen Lamenta (2007), Reflexos da Inocência (2008), O Escritor Fantasma (2010), Um Final de Semana em Hyde Park (2012), Agora e para Sempre (2012), Anna Karenina (2012), O Planeta Vermelho (2013), Justin e a Espada da Coragem (2013), Sabotagem (2014), Europa: A Trajetória de Worricker (2014), Mapas para as Estrelas (2014), O Sétimo Filho (2014), Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha (2017), Jounterpart: Mundo Paralelo (seriado - 2017), Meu Pai (2020)

 

Imogen Poots







V de Vingança (2005), Extermínio (2002), Srta. Austen Lamenta (2007), Eu e Orson Welles (2008), Sedução (2009), O Solteirão (2009), Centurião (2010), Chat: A Sala Negra (2010), O 30º Dia (2010), Jane Eyre (2011), A Hora do Espanto (2011), Regra Número Três (2011), Saudações de Tim Buckley (2012), O Último Concerto (2012), O Olhar do Amor (2013),  Filth - O nome da ambição (2013), Namoro ou Liberdade (2014), Uma Longa Queda (2014), Need for Speed: O Filme (2014), Um Amor a Cada Esquina (2014), Cavaleiro de Copas (2015), Sala Verde (2015), Fazendo as Pazes com o Passado (2015), Frank & Lola: Amor obsessivo (2016), Popstar: Sem Parar, Sem Limites (2016), Doce Virginia (2017), Caçadora de Gigantes (2017), Eu Não Posso Esperar (2018), No Fundo do Poço (2019), Natal Sangrento (2019), Meu Pai (2020), Saída à Francesa (2020)

 

Mark Gatiss







A Isca Perfeita (2001),  Todo Mundo Quase Morto (2004), Agatha Christie: A Life in Pictures (2004), Ponto Final: Match Point (2005), Os Assassinatos de Midsomer (1997), Boy George - A Vida é Meu Palco (2010), Ser Humano (2008), O Exército do Papai (2016), Nosso Fiel Traidor (2016), Absolutely Fabulous: O Filme (2016), Negação (2016), Somente o Mar Sabe (2018), Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível (2018), A Favorita (2018), Meu Pai (2020), O Soldado Que Não Existiu (2021) . 


Ayesha Dharker



Manika - A Menina Que Nasceu Duas Vezes (1989), A Cidade da Esperança (1992), A Terrorista (1998), Star Wars, Episódio II: Ataque dos Clones (2002), O Sabor da Magia (2005), Totalmente Kubrick (2005), Despachado para a Índia (2006), Richard II (2020), Meu Pai (2020)

 

 

Fontes:

The Guardian

The Washington Post

Variety

IMDB

The New York Times

Empire

Los Angeles Times

O Globo

Hollywood Reporter