domingo, 14 de junho de 2020

PREDADORES ASSASSINOS / CRAWL (2019) - ESTADOS UNIDOS / SÉRVIA / CANADÁ


ALLIGATORS À ESPREITA

Um furacão de escala 5 se aproxima na Flórida e a evacuação da cidade é eminente. Haley (Kaya Scodelario) preocupada por seu pai Dave (Barry Pepper) não responder suas ligações resolve romper a barreira policial e se dirigir até o local onde ele poderia estar. Ao chegar na casa e descer até o enorme porão, localiza-o com um grave ferimento no ombro que o deixara inconsciente. Ao tentar remover o pai, descobre que o local  abriga dois enormes jacarés.  A tempestade aumenta e o nível da água sobe rapidamente, permitindo que outros predadores dessa espécie fujam de um criadouro e se espalhem pela cidade. Haley e Dave terão de descobrir um meio de escaparem desses implacáveis predadores, sabendo que a ajuda provavelmente não virá e que as casas, em algum momento, poderão ficar submersas.


Volta e meia o cinema nos trás o filão "animais predadores caçam humanos" com bons resultados e outros bem abaixo da expectativa (alguns até desprovidos de lógica). Os anos 70 e 80 traziam de tudo um pouco: tubarões, abelhas assassinas, jacarés, cães assassinos, piranhas, lobos, ratos, cobras ... criatividade não faltava, mas um bom roteiro sim. Claro que há clássicos como "Tubarão" que mostravam como o público veria esse novo gênero, mas a verdade é que a maioria dos produtores preferiu seguir outro caminho e apostar nos baixos orçamentos que beiravam o Trash (alguns filmes nem escondiam essa condição). E afinal o que é pior: enfrentar tubarões assassinos ou jacarés (ou crocodilos) famintos? A resposta não é fácil.  E Talvez você  até  se lembre de Nas Garras do Tigre (Burning Bright) sobre a jovem presa em uma casa com um tigre enquanto um furacão se aproxima, ou Morte Súbita (Rouge) um dos melhores exemplares no gênero répteis assassinos. Mas Predadores Assassinos (Crawl, originalmente) consegue, com um roteiro interessante (ainda que com alguns furos), entregar um filme no mínimo interessante.


Haley é uma nadadora que participa de campeonatos e tenta obter o tempo necessário que a insira nas provas de alto nível. Seu pai fora seu instrutor na infância, mas o destino fez com que cada um seguisse seu caminho. Ainda assim a jovem se preocupa com pai que se separou e mora sozinho. Sua irmã constituiu família e acredita que o pai esteja reformando a antiga casa. Haley presente que há algo errado na incomunicabilidade do pai e, contrariando toda lógica, se dirige para “o olho do furacão” na esperança de resgatar o pai em caso de necessidade, mas sê vê cercada de enorme jacarés que se movimentam rápido, silenciosamente e com uma eficiência mortal.


Dirigido por Alexandre Aja (Viagem Maldita, Piranha 3D e P2: Sem saída) e com produção de Sam Raimi (Homem Aranha, Uma Noite Alucinante..), o filme foi "escondido" da imprensa até o seu lançamento, o que gerou logo preocupações se seria "uma bomba", mas o filme  carrega na tensão e traz (ótimos) efeitos em CGI que criam animais bem assustadores. Há também uma tentativa de criar uma discussão de relacionamento (aquela coisa de discutirem o passado para construírem um futuro), no meio do caos, que soa um pouco estranho, mas que tenta dar ao espectador um caráter de identificação para com a dupla de protagonistas. Para não ficar em apenas dois atores em cena, criou-se uma pequena subtrama (muito rápida) que trouxe alguns personagens apenas para serem devorados pelas criaturas enquanto o duo central arruma modos de sobreviver ao caos que se apresenta a sua frente: sobreviver ao furacão ou aos jacarés? Qual a prioridade?  E para dar maior dramaticidade nossos heróis começam a literalmente sofrer na carne os ataques dos répteis assassinos, tudo isso em 87 minutos para deixar o filme enxuto e num ritmo ágil.


A escalação do elenco com a britânica Kaya Scodelario e o canadense Barry Pepper (da franquia Maze Runner) funciona muito bem, pois apresentam uma ótima química que envolve o espectador e se vê torcendo por um cada vez mais improvável sucesso. Muitos talvez se perguntarão se um nadador é capaz de suplantar um jacaré na água. Se considerarmos que esses animais podem se deslocar a uma velocidade de até 32 Km/h na água e 17,7 km/h em terra fica difícil, mas o fator distância pode trazer uma compensação, fora a habilidade de um nadadora profissional em poder se desviar mais rápido. Se você ainda acha que isso não é o bastante para convencê-lo(la) deixe ligada a famosa "supressão voluntária da descrença" e divirta-se: afinal isto é cinema e a ficção quase sempre impera. Mas a inventividade do roteiro ajuda com direito aos protagonistas se refugiarem em labirinto de obstáculos imundos, canos de água, cabos elétricos e as constantes subidas das águas da enchente com direito a um simpático cão chamado Sugar. A fotografia também é um ponto alto, visto que o diretor de fotografia,  Maxime Alexandre, soube aproveitar ao máximo o contraste entre luzes e sombras tornando o filme hora claustrofóbico e hora mais oxigenável.


Filmado na Sérvia, Predadores Assassinos não é uma tentativa de se tornar um clássico. Mostra-se menos pretensioso, mas muito eficiente. Sua proposição de apenas divertir é o que o torna uma opção acima da média, pois não se perde em elucubrações ou dialéticas sobre como e porque dos animais. O filme é direto e o conceito de "mais é menos" é bem executado quando vemos o produto final. Ainda que pense que o filme poderia ter apresentado mais cinco minutos após o seu final abrupto, é um bom divertimento que alcança aquele que deseja apenas um passatempo rápido e de qualidade.

Trailer:





Curiosidades:
De todos os filmes lançados em 2019, Quentin Tarantino selecionou este como favorito.

No início do filme, a placa de caminhão de Dave diz MATT 725, vista pela porta da garagem durante o furacão. Mateus 7:25 na Bíblia diz: "A chuva caiu, as correntes subiram, e os ventos sopraram e bateram contra aquela casa; contudo, não caiu, porque tinha como fundamento a rocha".

O sobrenome dos principais protagonistas é 'Keller', que é a palavra alemã para 'porão'. A maior parte do filme se passa em um porão. No entanto, permanece discutível se isso foi planejado pelos cineastas.

O personagem de Kaya Scodelario está na equipe de natação do "Gators", este filme é sobre jacarés (alligators).

Enquanto ela está dirigindo, a câmera mostra um tubarão com uma vítima na boca, é uma referência para "Tubarão" (1975)

Orçado em torno de $13,500,000 e com receita mundial de $91,542,097


Cartaz:




















Trilha Sonora:
I'm Ready -  by Madeline Fuhrman 
Fire Away - City Kids
After Hours -  White Heat
Take Me Now I'm Ready - Slyder
Shoot -  SkyShouter
Rock N Roll Made A Man Out Of Me - David P. Henzerling
Ready To Move -  Joy
Driving In The Car -  Rick Boston
See You Later, Alligator - Bill Haley and the Comets 



Filmografia Parcial:
Kaya Scodelario









Lunar (2009); Fúria de Titãs (2010); O Morro dos Ventos Uivantes (2011); Agora e para Sempre (2012); A Grande Ilusão (2013); Maze Runner: Correr ou Morrer (2014); Na Toca do Tigre (2015); Maze Runner: Prova de Fogo (2015); Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (2017); Maze Runner: A Cura Mortal (2018); Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (2019); Predadores Assassinos (2019); 
The King's Daughter (2020)



Barry Pepper









Um Assassino Entre Nós (1992); Morte Silenciosa (1997); O Resgate do Soldado Ryan (1998); Inimigo do Estado (1998); À Espera de um Milagre (1999); Fomos Heróis (2002); Desafio no Ártico (2003); A Conquista da Honra (2006); Sete Vidas (2008); O Super Lobista (2010); Bravura Indômita (2010); Linha de Ação (2013); O Acordo (2013); O Cavaleiro Solitário (2013); Maze Runner: Prova de Fogo (2015); Colheita Amarga (2017); Maze Runner: A Cura Mortal (2018); Predadores Assassinos (2019); Running with the Devil (2019); Awake (2020)

sexta-feira, 12 de junho de 2020

A VASTIDÃO DA NOITE / THE VAST OF THE NIGHT (2019) - ESTADOS UNIDOS



"EXISTEM DUAS POSSIBILIDADES... OU ESTAMOS SOZINHOS NO UNIVERSO OU NÃO ESTAMOS. AMBAS SÃO IGUALMENTE ATERRORIZANTES”   (ARTHUR C. CLARKE)

Na década de 50, na cidade (fictícia) de Cayuga, Novo México, Everett (Jake Horowitz) é um nerd que supervisiona o equipamento de gravação da escola e trabalha na rádio local noturna.  Fay (McCormick) é amiga de Everett e trabalha na central telefônica. É o dia do jogo de basquete local e a população se diverte indo ao evento que ocorre no ginásio da escola. Ao receber uma estranha ligação, com um som eletrônico complexo, que continuamente atrapalha as comunicações, Fay pede a Everett ajuda no esclarecimento do mistério. O jovem, intrigado, resolve colocar o som durante seu programa lançando uma promoção para quem desvendar. Logo surge um homem que começa a narrar uma história fantástica de como trabalhara para o governo em um projeto secreto e o que significaria tal som. Everett e Fay resovem sair às ruas e investigar o evento após a jovem receber ligações de habitantes narrando terem visto algo nos céus. Quando vão à casa de uma senhora que diz saber o que está acontecendo sua revelação assusta o casal.


Ao navegar pela internet vi um site falando sobre o filme que vinha ganhando fãs entusiasmados e fui dar uma olhada nessa produção que vem com o selo da Amazon Prime (a melhor concorrente da Netflix). The Vast of Night é uma produção independente que foi rejeitada em diversos festivais conceituados como:  Sundance Film Festival;  Cannes International Critics Week; Hollywood Reel Independent Film Festival, Gold Coast Film Festival, Hong Kong International Film Festival... quase duas dezenas de festivais de prestígio. Mas o filme também conseguiu participar de outros festivais como: Film Independent Spirit Awards 2020; Americana Film Fest 2020; Montréal Festival of New Cinema 2019; Philadelphia Film Festival 2019; Slamdance Film Festival 2019; Toronto International Film Festival 2019 onde conseguiu nomeações e premiações



Realizado em 2016 em apenas 17 dias, sua estreia ocorreu no Slamdance Film Festival em janeiro de 2019 e, a partir daí, chamou a atenção fazendo com que a Amazon o lançasse em sua plataforma.  Mas o que esperar dessa produção independente de baixíssimo custo (não divulgado) que tem erros e acertos?  A verdade é que o filme não agradará a todos  os públicos, visto que sua principal característica é se apoiar em uma  narrativa (diálogos) bem inteligentes, com boas atuações centrada no ponto de vista de Fay, a telefonista, que é o ponto incial de todo o mistério.  



O filme se inicia com uma série de TV chamada “Paradox Theatre” (uma evidente analogia ao famoso seriado sessentista “Além da Imaginação” ) nos remetendo das imagens dos anos 50, em preto e branco, para a realidade colorida dos jovens dos anos 50.  Após um longo diálogo inicial entre os protagonistas, com direito a especulações sobre os 50  anos seguintes, onde o avanço da tecnologia mudaria toda a visão da sociedade, nosso casal inicia seus turnos noturnos. Quando Everett começa a conversar com um ouvinte descobre estar envolvido em algo que jamais poderia imaginar: segredos de Estado, experiências secretas, ocultação de informações e até Óvnis  (a palavra não é mencionada, nem os termos que usamos atualmente). E assim começa a "odisseia" do casal em busca de solucionar o mistério que parece também se apresentar aos olhos de alguns habitantes.  O leitor deve estar pensando no incidente em m Roswell, sim, a comparação é inevitável, ainda que não haja menção ao fato.  Há uma abordagem sobre o racismo (no ouvinte que alega que foi recrutado por sua cor) e até sexismo (na senhora entrevistada que narra um acontecimento que valida a história do tal ouvinte). Essas narrativas prendem o espectador? Sim, os diálogos são inteligentes e a forma como nos apresenta é bem convidativa, com muita tensão e expectativa. Há uma cena muito criativa em que a câmera percorre a cidade, entra no ginásio e muda diversas vezes o seu posicionamento, talvez o melhor momento do filme. Há efeitos? Sim, próximo do final, onde  vemos na qual foi aplicada a maioria dos recursos do filme. A filmagem (na verdade no Texas) ,transcorrendo durante uma noite, foi uma escolha bem acertada..


A Vastidão da Noite é um filme direcionado a quem gosta de ver o que os novos cineastas estão produzindo. Esse filme é a mais pura interpretação do conceito: “uma ideia e uma câmera na mão”.  É um grande filme? Não. Ao final da produção muitos dirão “é só isso?” e, infelizmente, de certa forma é. Um filme que mostra que mesmo sem recursos, quando há um roteiro inteligente pode-se produzir algo de diferente. Talvez o grande atrativo dessa obra seja mostrar que cinema não são apenas efeitos de última geração, grandes atores ou explosões e tiros. Quando há criatividade e força de vontade e comprometimento podem surgir surpresas. E Vastidão da Noite pode te surpreender.


Trailer:




Curiosidades
As letras de chamada da estação de rádio "WOTW" são uma homenagem a "Guerra dos Mundos"

A mítica cidade Cayuga é emprestada da Cayuga Productions, a empresa de produção de Rod Serling que produziu Além da Imaginação

O nome do personagem Renny é uma referência ao ator Michael Rennie, que interpretou o alien Klaatu em "O Dia em que a Terra Parou" (1951).


Filmografia Parcial:
Sierra McCormick









O Elo Perdido (2009); Ramona e Beezus (2010); Uma Babá para o Natal (2010); Christmas in the Heartland (2018); A Vastidão da Noite (2019); VFW (2019); Exploited (2020)

Jake Horowitz









Murt Ramirez Wants to Kick My Ass (2012); A Midsummer Night's Dream (2014); A Vastidão da Noite (2019); Adam Bloom (2020); Castle Freak (2020)

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O CHALÉ / THE LODGE (2019) - REINO UNIDO / CANADÁ / ESTADOS UNIDOS


PROVOCATIVO E INTRIGANTE

Richard (Richard Armitage) resolve se separar de sua esposa Laura (Alicia Silverstone) e lhe comunica que em breve se casará com sua namorada Grace (Riley Keough).  A situação causa inesperadas consequências que obrigam Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) a morarem com o pai.  Como o casal de filhos não aceita Grace e ainda a responsabiliza pela dissolvição da família, Richard ,que precisa voltar ao seu trabalho, convence o trio a passar alguns dias juntos em um Chalé em meio as montanhas geladas e assim se conhecerem melhor.  Só que o adolescente  Aidan  investiga o passado de Grace e descobre que ela, aos doze anos, estivera diretamente envolvida com culto religioso, cujo  pai era o líder e ela a fora única sobrevivente do episódio. Richard fora o jornalista que escrevera o artigo para um jornal. Grace não consegue interagir com as crianças, esconde de Richard que faz uso de medicação e começa a ter sensações estranhas sobre o local enquanto Aidan e Mia acreditam que foram deixados sozinhos com uma psicopata.  




The Lodge (ainda sem título no Brasil – talvez o mais a apropriado fosse “O Chalé") não teve seu orçamento divulgado, mas teve uma bilheteria mundial baixa, em torno de 2 milhões de dólares.  O filme estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2019, um festival que apoia filmes independentes, logo os orçamentos são normalmente baixos, bem longe das cifras de filmes Hollywoodianos. E a produção é de três países: Reino Unido, Canadá (onde ocorreram as filmagens ) e Estados Unidos.  O filme recebeu críticas desfavoráveis da mídia especializada, mas entre o público vem colhendo elogios. Não por acaso: é um filme que abre discussões para vários temas e nos entrega um belo terror psicológico que não vem mastigado. O espectador tem que prestar atenção aos detalhes que compõe a história e assim entender como as situações apresentadas puderam levar a um final bem interessante.



Talvez um dos maiores problemas de The Lodge seja o mesmo que vem ocorrendo com algumas produções do gênero nos últimos anos: se vender como algo extraordinário em sua divulgação com frases tipo: “o melhor terror dos últimos anos” e etc. Já vimos o que isso causou em filmes como Hereditário e A Bruxa que se venderam como os novos “O Exorcista”.  Quando este tipo de publicidade é utilizado pelos distribuidores cria-se uma grande expectativa e a inevitável responsabilidade de cumprí-la. O ideal é uma produção ser lançada com outras formas menos agressivas de divulgação e deixar o público e o tempo dar o aval que a produção mereça. The Lodge é um filme bem intencionado, bem realizado e dirigido. Se ganhará o status de cult ou “um filme interessante” fica a cargo do tempo, o melhor dos juízes.


A premissa do filme pode não ser muito atraente, mas a forma inteligente como desenvolveram este argumento sim.  Talvez uma das chaves do filme seja nos levar a um lugar surpreendentemente sombrio e irremediavelmente triste, em que seu aspecto mais assustador é nos revelar como tudo isso é bem humano. E o desenvolvimento dos personagens é algo bem interessante:  Richard (do bom seriado “Não Fale com Estranhos”) não é uma pessoa boa: ele está trocando a esposa por uma mulher mais nova e diz friamente que irá se casar pouco se importando com os sentimentos de Laura (Alicia Silverstone, em breve, mas impactante participação)  e as consequências do que possa ocorrer a ex-esposa. Ele não é um bom pai porque literalmente larga seus filhos com uma pessoa com um passado sombrio da qual conhece muito bem sobre o culto e a participação de Grace (Riley Keough – a neta mais velha de Elvis Presley) nos eventos e, ao mesmo tempo, parece não se importar muito com Grace sabendo que seus filhos a odeiam, mal a conhecem e que terá conviver durante alguns dias sendo imprevisível o que possa ocorrer dessa equivocada interação.  Laura é uma personagem que aparece rápido, mas abre muitas discussões sobre os caminhos sombrios que a depressão leva a algumas pessoas. Grace é uma incógnita. Foi dito ( site IMDB)  que seu personagem baseia-se no caso Heaven’s Gate (1997) de suicídio coletivo. Sabemos de um fragmento de seu passado, pouco sabemos de seu presente e não temos assim como antever suas ações futuras, mas podemos conjecturar. Crianças são imprevisíveis e suas criatividades imensas, logo essa união de personalidades já seria algo bem interessante de explorar nas telas, mas junte-se a isso tragédias, dogmas religiosos, estigmas, um lugar desolado, ódio, indiferença, ressentimentos, solidão ....  um barril de pólvora.  A dupla Veronika Franz e Severin Fiala (a dupla austríaca que fez “Goodnight Mommy” em 2015) criou uma atmosfera que nos leva a crer que sabemos para onde o filme se encaminha e isso é um engano (contar ou explicar o filme estraga toda a experiência – o final será explicado no fim da filmografia dos atores): o roteiro planta uma gama de dúvidas, possibilidades e potenciais reviravoltas antes de se decidir pela mais devastadora de todas.




Há interessantes inspirações e referências: a casa de bonecas é tida como uma referência a Hereditário ( 2018 ) e o lugar desolado e coberto, de densa neve, que prende o trio a uma infeliz coincidência,  lembra o clássico O Iluminado. Na tevê passam os filmes o Enigma do Outro Mundo  (1982) , Uma Noite Mágica (1998) e Grito de Pavor (1961). Interessante também é percebermos que as produtoras são a famosa inglesa Hammer dos filmes de horror dos anos 60 (seu auge) até os anos 80 e retornando em 2007 e a americana FilmNation responsável por produções como A Estrada (2009);  A Pele que Habito (2011);  Fome de Poder (2016); A Chegada (2016);  O Irlandês (2019).




The Lodge logra sucesso em implementar uma mistura de vários ingredientes, no intuito de obter um efeito estranho e perturbador. Tem uma narrativa linear e coesa, onde tenta levar o espectador para vários caminhos entregando uma solução que talvez não agrade a todos, mas que sem dúvida é bem criativa. O ritmo cadenciado é perfeitamente adaptável à história onde não há tentativas de fazer o espectador pular da cadeira ou se horrorizar. Na verdade busca trazer a este aquela curiosidade de tentar descobrir o que se passa. Um jogo para adivinharmos quem está realmente jogando.

Trailer:



Curiosidades

O nome do cachorro é Grady, que é o nome do personagem do cuidador do Overlook Hotel na história de "The Shining", de Stephen King.

O líder do culto Aaron Marshall, pai de Grace Marshall, é interpretado pelo pai da atriz Riley Keough, Danny Keough.

A pintura de Maria vista na cena de abertura e ao longo do filme é uma reprodução de L'Annunciata (Virgem Anunciada) pelo artista renascentista italiano Antonello da Messina (1430-1479).

Filmografia Parcial

Richard Armitage 










Robin Hood (seriado 2006 a 2009); Capitão América: O Primeiro Vingador (2011); Strike Back  (seriado 2010 a 2011); O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012); O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013); No Olho do Tornado (2014); O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos (2014); Hannibal (seriado 2015);  Alice Através do Espelho (2016); Brain on Fire (2016); Sonâmbula (2017); A Peregrinação (2017); Oito Mulheres e um Segredo (2018); The Lodge (2019); Operação Berlim (seriado 2016 a 2019); Não Fale com Estranhos (seriado 2020)

Riley Keough










The Runaways: Garotas do Rock (2010); Paixão Obsessiva (2011); Jack & Diane (2012); O Beijo do Vampiro (2012); Mad Max: Estrada da Fúria (2015); Docinho da América (2016); À Beira do Abismo (2017); Ao Cair da Noite (2017); Logan Lucky: Roubo em Família (2017); A Casa que Jack Construiu (2018); Noite de Lobos (2018); The Lodge (2019); Pássaro do Oriente (2019); Zola (2020); The Devil All the Time (2020)

Alicia Silverstone










Paixão sem Limite (1993); Traição Fatal (1994); O Esconderijo (1995); As Patricinhas de Beverly Hills (1995); Batman & Robin (1997); De Volta para o Presente (1999); Quebrando Todas as Regras (2002); Miss Match (seriado 2003);  Um Salão do Barulho (2005); Vítima da Sedução (2005); Trovão Tropical (2008); A Arte da Conquista (2011); Butter: Deslizando na Trapaça (2011); Amigas Inseparáveis (2013); King Cobra (2016); Um Cachorro Para Dois (2016); Diário de um Banana: Caindo na Estrada (2017); O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017); Do Jeito que Elas Querem (2018); American Woman (seriado 2018); The Lodge (2019); Bad Therapy (2020); Masters of the Universe: Revelation (desenho - voz - 2020)

Jaeden Martell










Um Santo Vizinho (2014); Deixa Rolar (2014); Sob o Mesmo Céu (2015); Destino Especial (2016); O Livro de Henry (2017); It: A Coisa (2017); The Lodge (2019); It: Capítulo Dois (2019); Entre Facas e Segredos (2019); Em Defesa de Jacob (Mini-série 2020)

Lia McHugh










Hot Summer Nights (2017); Totem (2017); Totem (2017); American Woman (seriado 2018); The Lodge (2019); Os Eternos (2021


Explicação sobre o final 

O plano das crianças começa ao mostrarem a Grace um vídeo que dariam para o pai com os melhores momentos que passaram juntos quando sua mãe ainda estava viva (uma indicação de que não queriam Grace ali). Aindan insiste em ligar o aquecedor a gás mesmo com Grace reclamando que o cheiro estava forte. Eles dão um chá “batizado” para Grace que dorme durante muito tempo. Ao acordar ela descobre que vários objetos, pertences e comidas da casa desapareceram misteriosamente (na verdade eles esconderam no porão), sem nenhuma explicação e as crianças alegam não ter mexido em nada. E o pior: o remédio que Grace tomava escondido para manter sua sanidade também desaparecera assim como seu cachorrinho. Grace tenta sair da casa em busca de auxílio e encontra caído na neve, perto da casa, um quadro com a foto de Aidan e Mia escrito  "In Loving memory" (como se fosse deixado por alguém há tempos ). Aindan vê a foto e conclui que eles morreram por causa do vazamento do gás e se encontram num limbo (ou purgatório) e seu principal argumento é que ninguém sabe como é a morte afinal (lembram do diálogo entre Richard e a filha em que ele lhe diz "ninguém sabe para onde vamos" com Aindan escutando na porta?). Ainda encontram uma página de jornal mostrando um obituário do trio o que comprova sua teoria. Aindan "se enforca" para mostrar que realmente não estão mais no mundo dos vivos e que precisam se arrepender. Grace pela falta do remédio e o stress começa a ouvir vozes, principalmente de seu falecido pai. Sua insanidade vem à tona. Ela inicia um autoflagelo como forma de purificação ao andar ajoelhada na neve ou se ajoelhar em brasas. Aindan e Mia, que planejaram tudo, se dão conta que foram longe demais no plano de fazer Grace confessar que destruíra uma família, dando lugar a constatação que estão presos com uma mulher que um dia participou de um culto de mortes em massa e que seu estado por ter revertido ao da época, além de que soltaram o cachorrinho sem querer e o animal morrera congelado. Eles revelam tudo, mas Gace em seu frágil estado mental não mais acredita entendendo que precisa realizar um sacrifício para ascender aos céus. Quando Richard não consegue mais falar com Mia (acabara a bateria e não conseguiram mais religar a luz) e vê a casa de bonecas resolve ir ao chalé. Ao chegar ao local, vê Grace com um revolver na mão (que ele mostrara a ela no início do filme) e acaba sendo alvejado por ela. O filme termina com as crianças na mesa com Grace e, no tambor 2 balas, e a fita adesiva escrita Sin (Pecado) como em seu culto. Um final aberto, mas quase óbvio. Vocês concordam ? Deixem seus comentários