terça-feira, 6 de novembro de 2018

DISTÚRBIO / UNSANE (2018) - ESTADOS UNIDOS




REALIDADE OU IMAGINAÇÃO ?

Sawyer Valentini (Claire Foy) é uma jovem que decide fazer uma consulta em uma clínica psiquiátrica onde narra ser vítima de um perseguidor compulsivo. Inadvertidamente acaba sendo internada sem que nenhum parente ou amigo saiba. Ao tentar convencer de que houve um engano, Sawyer descobre que sua internação não será apenas de um dia e suas atitudes dentro da instituição apontam algum sério problema. Mas o pior está por vir: Sawyer insiste que um dos enfermeiros da instituição, David Strine (Joshua Leonard) é, na verdade, o homem que vinha perseguindo-a.



Dirigido por Steven Soderbergh ("Sexo, Mentiras e Videotape"; "Traffic: Ninguém Sai Limpo"; "Erin Brockovich" ...) Distúrbio é um interessante exercício de suspense. Vemos uma jovem internada em uma instituição. Qual o motivo real de sua internação ? Porque a mantém no local ? Sawyer se diz apenas uma pessoa estressada e que teve alguns dias ruins (e que já pensou em suicídio), mas seu comportamento mostra o contrário: arredia, indisciplinada e agressiva. Reações naturais de quem está internada como louca, problemas sérios de transtorno, efeito dos remédios ou apenas produto de sua imaginação? E aí que o filme começa a revelar um suspense bem construído em que informações surgem aos poucos. Algumas farão sentido, outras trarão mais dúvidas. Em quem devemos acreditar? Médicos, enfermeiros, pacientes ou Sawyer ? O espectador conjecturará certas implausibilidades do roteiro que, em sua maioria,  serão dirimidas ao longo do filme, graças a boa estória de Jonathan Bernstein e James Greer ("Missão Quase Impossível") que criaram algumas surpresas que ganharão forças até o final.


Filmado a um custo de $1,500,000 (valor irrisório para filmes no gênero) conseguiu uma bilheteria bem consistente: $14,167,063 (conforme o site IMDB) com Soderbergh estreando no gênero thriller / horror. Seu prestígio como diretor permitiu trazer pelo menos dois atores conhecidos para dar uma forcinha: Matt Damon (em uma rápida aparição) e uma atriz que anda meio desaparecida: Amy Irving (esposa de Steven Spielberg entre 1985 e 1989) como Angela Valentini. Mas o mais curioso dessa produção está no fato do cineasta ter filmado com um  iPhone e usado os aplicativos deste. E o fez de forma tão eficiente que esse estilo de "filme B" só se revela como tal mais próximo da metade para o final. E a grande maioria nem percebeu que fora feito dessa maneira. E Soderbergh assina outras áreas técnicas sob pseudônimo: direção de fotografia (como "Peter Andrews") e edição (como "Mary Ann Bernard"). A música cadenciada e perturbadora, que compõe o todo, é do compositor Thomas Newman ("007 - Operação Skyfall";"Beleza Americana" e "Histórias Cruzadas") com o pseudônimo de "David Wilder Savage". Newman já foi indicado 14 vezes ao Oscar, mas ainda não levou o prêmio.


Claire Foy de "Caças as Bruxas" e "O Primeiro Homem", filme em cartaz no momento, consegue mostrar-se uma atriz de talento que poderá ter uma boa carreira cinematográfica se escolher os projetos certos. A atriz estará em cartaz brevemente estrelando a quarta parte da saga Millenium: "A Garota na Teia de Aranha" agora no lugar da atriz Noomi Rapace ("Prometheus") que protagonizou os três ótimos filmes da saga. Joshua Leonard ("A Bruxa de Blair") que atua em cinema, Tv e ainda faz as vezes de escritor e diretor, em minha visão, deixou um pouco a desejar. Sua composição do personagem enfraqueceu um pouco a estória e sua personalidade deveria ter sido melhor delineada pelo roteiro que, em certo momento, abandonou o suspense e quase se transformou em um filme de ação. O restante do elenco está bem, com destaque para Nate Hoffman ("Policial em Apuros") como o paciente Jay Pharoah e Juno Temple como a instável Violet.



Distúrbio (Insano, em uma tradução original) é um filme bem construído, onde alguns poderão discutir a lógica de algumas situações, mas que não invalida o caráter da obra que é proporcionar ao espectador bons momentos de suspense e thriller. Há algumas discussões como pano de fundo da trama: o papel dessas instituições no cuidado do indivíduo; falta de amor próprio; manipulação; ética e responsabilidade; tudo de forma bem sutil. Filme acima da média, nas mãos de um diretor que tem bons filmes. Soderbergh prova que nem sempre é necessário o uso de câmeras cinematográficas de ultima geração para se rodar um filme, basta uma direção firme, bom roteiro e bons atores. E, principalmente: saber brincar com as percepções do espectador, deixando-o tenso e imerso em um clima de pânico e claustrofobia. Pode não ser o melhor do diretor, mas merece uma conferida.

Trailer:



Curiosidades:
Juno Temple é filha de Julien Temple  diretor de filmes, documentários e vídeos musicais como Culture Club: Do You Really Want to Hurt Me; The Rolling Stones: Undercover of the Night; Sade: Smooth Operator; David Bowie: Blue Jean; Tom Petty: Free Fallin';  Swing Out Sister: Forever Blue; Bryan Adams: (Everything I Do) I Do It for You; Duran Duran: Come Undone; Enigma: Return to Innocence; Van Halen: Jump;



Filmografia Parcial:
Claire Foy

 












Caça às Bruxas (2011); Academia de Vampiros: O Beijo das Sombras (2014); Uma Razão Para Viver (2017); Distúrbio (2018); O Primeiro Homem (2018); Millennium: A Garota na Teia de Aranha

Amy Irving
 

 













A História de James Dean (1976); Carrie, a Estranha (1976); A Fúria (1978); Yentl (1983);  Minhas Duas Mulheres (1984) ; Amor à Segunda Vista (1988); Desejo Assassino (1993); Atos de Amor (1996); Desconstruindo Harry (1997); A Maldição de Carrie (1999); Traffic: Ninguém Sai Limpo (2000); O Amigo Oculto (2005); Adam (2009); Distúrbio (2018); Confetti (2018)


Joshua Leonard
 














A Bruxa de Blair (1999);  Homens de Honra (2000); Ruas Selvagens (2002); Tempo Esgotado (2003); A Casa Assassina (2004); Terror no Pântano (2006); A Vida e a Morte de Bobby Z (2007); A Morte Convida para Dançar (2008); Em Busca da Fé (2011); Terror na Água 3D (2011); Distúrbio (2018); Lost Holiday (2018) 


Matt Damon:
 

 












Código de Honra (1992); Geronimo - Uma Lenda Americana (1993); Coragem Sob Fogo (1996); Procura-se Amy (1997); Gênio Indomável (1997); O Resgate do Soldado Ryan (1998); O Talentoso Ripley (1999); Onze Homens e um Segredo (2001); A Identidade Bourne (2002);Confissões de Uma Mente Perigosa (2002); Eurotrip - Passaporte Para a Confusão (2004); A Supremacia Bourne (2004); Doze Homens e Outro Segredo (2004); Os Irmãos Grimm (2005);  Os Infiltrados (2006); O Bom Pastor (2006); Treze Homens e um Novo Segredo (2007); O Ultimato Bourne (2007); Invictus (2009); Zona Verde (2010); Além da Vida (2010); Bravura Indômita (2010); Compramos Um Zoológico (2011); Terra Prometida (2012);  Minha Vida com Liberace (2013);  Elysium (2013); O Teorema Zero (2013); Interestelar (2014); Perdido em Marte (2015); Jason Bourne (2016); A Grande Muralha (2016); Pequena Grande Vida (2017); Distúrbio (2018); Deadpool 2 (2018); Ford v. Ferrari (2019)

Juno Temple 















Desejo e Reparação (2007); A Outra (2008); Sr. Ninguém (2009); Os Três Mosqueteiros (2011); Killer Joe - Matador de Aluguel (2011); Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012); Lovelace (2013); Amaldiçoado (2013); Malévola (2014); Sin City: A Dama Fatal (2014); A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos (2017); Roda Gigante (2017) ; Distúrbio (2018); Pretenders (2018); Malévola 2 (2020);

Steven Soderbergh (diretor)

 












Sexo, Mentiras e Videotape (1989); Kafka (1991); Obsessão (1995); Irresistível Paixão (1998); O Estranho (1999); Erin Brockovich: Uma Mulher de Talento (2000); Traffic: Ninguém Sai Limpo (2000); Onze Homens e um Segredo (2001); Doze Homens e Outro Segredo (2004); Treze Homens e um Novo Segredo (2007); Che: O Argentino (2008); Che 2: A Guerrilha (2008); Confissões de uma Garota de Programa (2009); O Desinformante! (2009); Contágio (2011); A Toda Prova (2011); Terapia de Risco (2013); Minha Vida com Liberace (2013); Distúrbio (2018); High Flying Bird  (2019)

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A SEPARAÇÃO / JODAEIYE NADER AZ SIMIN (2011) - IRÃ / FRANÇA





TODA HISTÓRIA TEM DOIS LADOS

Esse é um daqueles filmes que se inicia, aparentemente, como uma entediante crise de casamento que atormentará os protagonistas e espectadores durante sua projeção. Só que não será bem assim. É apenas um pequeno detalhe para introduzir a estória. A partir da separação do casal Nader (Peyman Moaadi) e Simin (Leila Hatami), no Irã, a vida do marido vira de cabeça para baixo. Cuidando de um pai com Alzheimer avançado e com a guarda da filha adolescente, contrata uma cuidadora que não lhe informa estar grávida. Razieh (Sareh Bayat) precisa do emprego, pois o marido Hodjat (Shahab Hosseini) está desempregado e com credores à porta. Nader precisa de alguém que cuide de seu pai, que piora cada dia, agora que sua esposa não está a seu lado. Um acontecimento coloca Nader e Razieh em lados opostos em um pequeno tribunal e tudo só vai piorando, em uma crescente espiral, quando Simin e o marido Razieh acabam por se envolverem também na questão.


O diretor Asghar Farhadi (de “Procurando Elly”)  fez um filme que prende atenção até daqueles que não admiram produções vindas de países de cultura persa. A produção tem um quê de oriental e seu tema universal ajuda muito. O roteiro não complica e facilita a compreensão da transposição da estória de uma maneira crível. Nada daqueles filmes que devemos entender a estória do país. E por esse e tantos outros motivos que o filme ganhou três prêmios no Festival Internacional de Berlim, um Globo de Ouro e tornou-se o primeiro filme iraniano a ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ainda conseguindo uma indicação de Melhor Roteiro. Não foi por acaso. O filme realmente tem um conteúdo dramático forte que deixa o espectador indeciso sobre a qual lado dos protagonistas tomar parte. Ambos tem seus motivos, ambos cometeram erros, ambos estão mentido ou ocultando informações e a justiça é rígida. A questão do Alzheimer é muito bem abordada de uma forma que não visa  chocar e sim refletir sobre aqueles que dedicam sua vida a cuidar de seus parentes nesse estado.
 


Há várias camadas por baixo da estória que contribuem para o filme funcionar: há uma descrição do modo mais progressista de Nader em lidar com a esposa e situações (nada daqueles estereótipos comuns que vemos em filme americanos); há uma rara descrição do Alzheimer que não afeta apenas o doente, mas toda a família; a relação patrão empregada; a mentira e suas consequências; a percepção de que sempre há dois lados de uma história e Asghar Farhadi que optou por não delinear para o espectador heróis ou vilões. Todos são vitimas das circunstâncias, mas que se embaraçam em uma história cheia de revelações. O caráter de realidade talvez seja um dos pontos mais altos do filme, pois o que foi transposto para as telas pode ocorrer em qualquer lugar do mundo.



Os atores estão ótimos, com uma fotografia que impressiona e uma montagem dinâmica que impede o espectador de se desviar de uma narrativa, onde os detalhes podem ser decisivos para entendermos aquilo que o diretor optou por não nos mostrar (a questão do dinheiro, sutilmente, revela-se no início). Um filme acima da média, um verdadeiro merecedor do Oscar. Simples em sua forma e poderoso na mensagem que coloca nas telas, com um final aberto, onde a ótica pessoal de cada um definirá a conclusão, mas que nem todos se agradarão, algo a se acostumar nessas produções que tentam fazer o espectador refletir e conjecturar hipóteses. 

Trailer:




Curiosidades:
Sarina Farhadi, a atriz que interpreta Termeh, é filha do diretor do filme. Ela ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival Internacional de Berlim.



Primeiro filme iraniano a receber o Globo de Ouro.

A maior parte do filme foi filmado usando uma câmera de mão.

O filme não tem partitura musical, exceto durante os créditos finais.

Nos créditos de abertura, os dois cartões de identificação fotocopiados pertencem a Hediyeh Tehrani e Hamid Farokhnezhad, os dois atores que interpretaram um casal se dirigindo para o divórcio no filme anterior de Farhadi, Chaharshanbe-soori (2006).



O segundo filme iraniano indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O primeiro foi "Filhos do Paraíso" (1997).

O filme de Woody Allen "Meia-Noite em Paris" ganhou o Oscar de melhor roteiro original enfrentando este filme. Allen disse que "A Separação" foi o melhor filme de 2011. 

Jake Gyllenhaal disse que ama muito este filme e que Asghar Farhadi é um dos diretores mais influentes dos últimos 20 anos. 

Incluído entre os "1001 filmes que você deve ver antes de morrer", editado por Steven Schneider.

Classificado em 9º na lista "100 Melhores Filmes do Século XXI" da BBC em 2015.

O filme foi elogiado por Meryl Streep e Brad Pitt.      

Considerado pela revista "Sight & Sound" como o segundo melhor filme de 2011.