segunda-feira, 14 de junho de 2021

FURYO - EM NOME DA HONRA / MERRY CHRISTMAS MR. LAURENCE (1983) - REINO UNIDO / JAPÃO / NOVA ZELÂNDIA

VÍTIMAS DE HOMENS QUE PENSAM QUE ESTÃO CERTOS

Ilha de Java, Indonésia, Segunda Guerra Mundial. Um grupo de soldados encontra-se preso em um campo de concentração japonês. O local é liderado pelo Capitão Yonoi (Ryuichi Sakamoto) pertence à linha de comando conservadora, cujos métodos são vistos como obsoletos. Seu assistente,  Sargento Hara (Takeshi Kitano), é um militar pronto a dar a vida pelo seu país e considerado encaixado dentro dos novos padrões. Hara ora mostra-se simpático e divertido e ora parece ter práticas que beiram o sadismo. O Coronel John Lawrence (Tom Conti) é o único que fala a língua japonesa com desembaraço e tenta usar de certa diplomacia para negociar a sobrevivência de todos, inclusive do orgulhoso comandante Hicksley (Thompson) que considera Lawrence muito próximo e empático de seus captores. Lawrence se empenha em traduzir não apenas as palavras, mas os valores das duas raças e desenvolve uma amizade improvável e complicada com Hara, o que ameniza o ambiente. A chegada do Major Jack Celliers (David Bowie), um oficial britânico rebelde, capturado em uma missão suicida, que carrega um grande sentimento de culpa do passado, muda a situação de equilíbrio entre as relações que será modificada principalmente por conta da atração que este  passa a exercer no jovem comandante Yanoi.

Produção anglo-japonesa, "Furyo – Em Nome da Honra" (Feliz Natal, Sr. Lawrence – no Original)  é diferente de qualquer outro filme de prisioneiros de guerra, o que o torna singular. O filme dirigido por Nagisha Oshima (1932-2013) do polêmico “O Império dos Sentidos” foi livremente baseado na trilogia de livros autobiográficos do escritor sul-africano Laurens van der Post (The Seed and the Sower) pautados em sua estadia  em um campo de prisioneiros de guerra japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar de se passar em Java, o filme foi rodado na ilha polinésia de Rarotonga, com algumas outras partes na Nova Zelândia e no Reino Unido.

Muitos críticos, na época,  viram uma certa similaridade entre "Furyo" (que significa “prisioneiro de guerra”)  e "A Ponte do Rio kwai", mas tal aspecto não se justifica se considerarmos que o único elemento que os aproxima seria um campo de concentração japonês.  Oshima se mostrou um crítico da violência, seja ela de cunho intra ou intercultural, onde questionou valores culturais e éticos; um estudo psicológico sobre o confronto de duas culturas (e que apenas por  forças das circunstâncias (razões políticas) se tornaram inimigos). O filme nos revela o terrível alívio que a guerra pode significar para pessoas atormentadas pela culpa; a delicada abordagem sobre a questão do suicídio que para os militares japoneses era uma questão de honra e para os ingleses, uma covardia; ser prisioneiro significava desonra para os japoneses enquanto os britânicos encaravam como um infortúnio reflexo da guerra.  Há  um estranho e tácito vínculo entre o quarteto Hara & Lawrence e Yonoi & Celliers. Enquanto Hara, sem consciência ou espirito critico, segue ordens e mantém contínuas discussões filosóficas com o Coronel Lawrence, numa tentativa de racionalizar suas próprias ações violentas, Yonoi tem seu próprio código de honra baseado nos antigos samurais, mas é traído por suas próprias convicções ao desenvolver uma obsessão pelo major. Já Lawrence, que fora diplomata no Japão, antes da guerra, serve de intermediário e interprete em um frágil equilíbrio de compreensão, ao contrário de Celliers que não se importa em confrontar quem esteja no poder e dizer e fazer o que considera correto.  E para os japoneses o castigo tem o simbolismo de uma expiação algo com que Celliers compactua. É nesse inevitável ambiente de choque  de culturas e estilos de serviço militar distintos (patriótico versus pragmático) que até mesmo estes inimigos convencionais podem descobrir motivos para sorrir, e no meio da insanidade reinante buscar alguma boa lembrança que dará o título ao filme.

 

Certamente Oshima pôs um subtexto em jogo, mas o filme não se utiliza da relação entre Celliers e Yonoi como foco principal. Uma das mensagens principais do filme está na frase "agora você é a vítima dos homens que pensam que estão certos, assim como você, certa vez, pensou estar absolutamente certo". No momento em que ela é dita, nos leva a uma profunda reflexão de que muitos se tornam marionetes no eterno jogo da guerra e a triste constatação só é percebida ao final. A  mensagem central da futilidade da guerra não envelheceu nem um pouco. E se o diretor expôs a brutalidade japonesa, também não se omitiu de visitar o outro lado e nos mostrar os absurdos ocidentais através de lembrança de Celliers no internato inglês, um ambiente que teoricamente simbolizaria o auge da civilização moderna, mas que se mostra de uma violência equivalente. Oshima mergulhou um pouco mais profundamente na psicologia de seus personagens ao nos revelar que os oficiais mais rígidos de cada lado (Celliers e Yonoi) têm uma espécie de admiração mútua, que se transforma em uma disputa de vontades. E ambos são atormentados por seus passados onde tomaram atitudes erradas que não puderam ser corrigidas.

Quanto ao elenco, David  Bowie foi o principal argumento de venda do filme e a razão pela qual este não caiu na obscuridade total. Ainda que subtenda-se que Bowie é o astro do filme, John Lawrence (Tom Conti) é o verdadeiro foco.  Bowie se mostrou um ator preparado para filmes sérios ainda que muitos se lembrem de filmes como “Labirinto” e o cult “O Homem Que Caiu na Terra”. Tom Conti é o fio condutor da narrativa e funciona muito bem com um homem sensato em meio a insensatez reinante. Poucos sabem, mas Conti fez o papel do prisioneiro que cura as costas de Bruce Wayne na prisão de Bane em O Cavaleiro das Trevas Ressurge.  Ryuichi Sakamoto (também responsável pela bela trilha sonora do filme) era um astro da música no Japão e sua atuação como Yonoi funcionou dentro do que o filme propôs. Sakamoto também fez trilhas para "O Último Imperador" e  "O Pequeno Buda". O rosto de Takeshi Kitano, como Hara, é a imagem que abre e fecha o filme, mas o contexto entre as duas tomadas nos mostrará uma transformação considerável de seu personagem.

Disfarçado de filme de guerra, “Furyo-Em Nome da Honra", cujo título original explica-se no fim, é um intenso estudo de personagens mostrando  um imenso abismo onde soldados japoneses não entendiam a mentalidade de seus cativos e soldados europeus presos que ignoravam o passado cultural de seus inimigos e o modo como viam o mundo e em particular o ocidente.  Oshima posiciona com maestria e sensibilidade seus personagens tal qual peças de xadrez e, pacientemente, permite que suas naturezas individuais floresçam trazendo-os a um inevitável conflito. 


Trailer:


Curiosidades:

Segundo David Bowie, Nagisa Ôshima dirigiu os atores japoneses com grande detalhamento. Mas quando se tratava dos atores britânicos, eles foram instruídos a "fazer tudo o que vocês fazem".

Tom Conti não falava uma palavra em japonês. Ele aprendeu seu diálogo japonês foneticamente.

Primeiro filme em inglês dirigido por Nagisa Ôshima

O ator e compositor japonês Ryuichi Sakamoto desmaiou ao ver o filme pela primeira vez.

Lourens van der Post, o autor do romance original deste filme "The Seed and The Sower", disse uma vez sobre esta adaptação filmada de seu romance: "Este é um grande e profundamente comovente filme. O único filme de guerra que eu já vi que o faz não explora o drama superficial e os horrores da guerra, mas penetra nas origens e no significado da guerra no espírito humano. Além disso, é honesto e corajoso e olha com os mesmos olhos imperturbáveis ​​e fixos para o caráter de japoneses e europeus. 

A trilha sonora e a trilha sonora distintas deste filme são notáveis. Foi composto por Ryuichi Sakamoto e é considerado o filme inovador pelo qual ele e sua música se tornaram conhecidos em todo o mundo.

Ryuichi Sakamoto disse sobre sua atuação neste filme: "Não pude acreditar como minha atuação foi ruim".

Este filme se destaca pela escalação de duas estrelas do rock, Ryuichi Sakamoto e David Bowie, respectivamente, uma do Oriente e outra do Ocidente.

Ryuichi Sakamoto foi persuadido a atuar neste filme quando lhe foi oferecida a chance de compor e interpretar a trilha sonora do filme.

Da entrevista com Yûya Uchida e palestra de Nagisa Ôshima: O cantor / ator Kenji Sawada foi a primeira escolha para o capitão Yonoi. Depois de sugerir David Bowie para Celliers, Sawada desistiu devido à agenda de turnês. Tomokazu Miura foi então considerado para Yonoi brevemente, antes de Oshima ver uma coleção de fotos e notar a androginia semelhante que Ryuichi Sakamoto compartilhou com Sawada. Shintarô Katsu, lendária estrela da chambara que já causava discórdia no set de Kagemusha de Akira Kurosawa, a Sombra de um Samurai (1980), foi a primeira escolha do sargento. Hara. Oshima concebeu Yonoi à imagem de Yukio Mishima. Celliers foi moldado a partir do personagem de Peter O'Toole em Lawrence da Arábia (1962).

David Bowie foi escalado para o papel do Major Jack Celliers depois que a diretora Nagisa Ôshima viu uma performance sua no palco em uma produção da Broadway de 'The Elephant Man'.

Um campo inteiro de prisioneiros de guerra foi construído para o filme, mas apenas pequenas porções dele são mostradas no filme. Nagisa Ôshima queria que os atores realmente se sentissem como se estivessem em um campo de prisioneiros de guerra.

Takeshi Kitano entrou sorrateiramente para assistir a uma exibição para ver como o público japonês reagiria ao seu papel de ator dramático. No entanto, o público que se encontrava riu quando seu personagem foi apresentado, o que ele deixou sem graça (ele era um notável comediante na época).

A música do filme "Forbidden Colors" é uma referência ao romance de Yukio Mishima onde tem como tema a incompatibilidade da homossexualidade com os ideais do samurai.

Como Celliers está usando um chapéu desleixado típico das tropas australianas, pode-se presumir que ele está no Exército australiano. No entanto, a mancha colorida no puggaree (faixa do chapéu) é dividida verticalmente (as manchas australianas foram divididas horizontalmente) e não tem o fundo cinza que as manchas australianas tinham. Também é notado que as tropas britânicas na Índia também usavam um chapéu semelhante.

Este filme foi lançado em 1983 e é neste ano que  David Bowie teve três filmes em cartaz. Bowie em 1983 também estrelou Fome de Viver (1983) e apareceu em uma participação especial em O Pirata da Barba Amarela (1983). Fome de Viver (1983) e Furyo: Em Nome da Honra (1983) estreou com uma diferença de quinze dias, a primeira nos EUA (10 de maio) e a segunda no Festival de Cannes em França (29 de abril).

Ambos os personagens, Lawrence e Celliers, são baseados no autor Lourens van der Post, que falava japonês e foi forçado a se render durante uma missão das Forças Especiais em Java. Van der Post até usou a versão em inglês de seu nome de batismo para o sobrenome de um personagem.

O personagem Coronel John Lawrence (interpretado por Tom Conti) compartilha o mesmo sobrenome que T.E. Lawrence (interpretado por Peter O'Toole) em outro filme de guerra britânico Lawrence da Arábia (1962). Em ambos os filmes, o sobrenome Lawrence aparece nos títulos dos dois filmes. No entanto, é o personagem de Jack Celliers (David Bowie) em Furyo: Em Nome da Honra (1983) que se assemelha a T.E. Lawrence de acordo com Nick Nobel da Austin Film Society. Ambos os personagens têm cabelos loiros, são magros, têm um ligeiro ceceio e têm conflitos sobre a guerra e outros homens. Além disso, esses dois filmes são conhecidos por apresentarem elencos masculinos e sem mulheres.

Os atores que interpretam os prisioneiros de guerra usam seus nomes reais na cena da chamada do hospital.

O filme é conhecido como Furyô (ou Furyo) em vários países estrangeiros de língua não inglesa, como Alemanha, Itália, França, Brasil e Turquia. Furyô (ou Furyo) se traduz como delinquente juvenil. Da mesma forma, de acordo com o livro "Japanese Beyond Words", Furyoo pode ser traduzido como mau,  patife, canalha. As traduções japonês-inglês traduzem Furyo como um cativo ou prisioneiro de guerra.

Este filme se passa em um acampamento de prisioneiros de guerra em Java, Indonésia, na Segunda Guerra Mundial de 1942.


Ryuichi Sakamoto - Merry Christmas Mr. Lawrence



David Sylvian & Sakamoto - Forbidden Colours



Cartaz:







Filmografia Parcial: 

David Bowie (1947–2016)







O Homem Que Caiu na Terra (1976); Apenas um Gigolô (1978); O Boneco de Neve (1982); Fome de Viver (1983); Furyo, Em Nome da Honra (1983); Um Romance Muito Perigoso (1985);Absolute Beginners (1986); Labirinto - A Magia do Tempo (1986); A Última Tentação de Cristo (1988); Romance por Interesse (1991); Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (1992); Basquiat - Traços de Uma Vida (1996); O Segredo de Mr. Rice (1999); Zoolander (2001); O Grande Truque (2006); Reação Colateral (2008); Twin Peaks: O Mistério (2014)

Ryuichi Sakamoto







Furyo: Em Nome da Honra (1983); O Último Imperador (1987); Enigma do Poder (1998);

Tom Conti







Who Fought Alone: Epitaph on a Scottish Soldier (1958); Galileu (1975); Os Duelistas (1977);  Demônio Com Cara de Anjo (1977); Eclipse (1977); Furyo: Em Nome da Honra (1983); As Aventuras de uma Sonhadora (1984); Um Divórcio Complicado (1986); Caçadores de Nazistas (1986); No Rastro da Violência (1987); A Princesa e o Plebeu (1987); Something to Believe In (1998);  A Magia do Amor (1999); Fora de Rumo (2005); O Jerusalem (2006); Intenções Ocultas (2009); A Tempestade (2010); Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012); Murder on the Orient Express (2017); Peripheral (2018)

Takeshi Kitano







Manon (1981);  Furyo: Em Nome da Honra (1983);  Policial Violento (1989); Johnny Mnemonic, o Cyborg do Futuro (1995);  O Massacre (1995); Fogos de Artifício (1997); Tabu (1999); Batalha Real (2000); Zatoichi (2004);  Consumido pelo Ódio (2004); Glória ao Cineasta!  (2007); Aquiles e a Tartaruga (2008); O Ultraje (2010); A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017); Outrage Coda (2017)

Jack Thompson







Pelos Caminhos do Inferno (1971); Human Target (1974); Marcado Para Morrer (1976); O Canto de Jimmie Blacksmith (1978); A Jornalista (1979); A História de uma Vida (1980); Herança de um Valente (1982); A Carta Acusadora (1982); Furyo: Em Nome da Honra (1983);  Conquista Sangrenta (1985); Um Robô em Curto Circuito (1986); O Preço da Justiça  (1987); Rumo ao Sol (1988); Paraíso em Chamas  (1989); After the Shock (1990); Praia dos Sonhos (1992); Viagem ao Grande Deserto (1993); A Última Ameaça (1996); Pássaros Feridos: Os Anos Ausentes  (9196); Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal (9197); Star Wars, Episódio II: Ataque dos Clones (2002); O Assassinato de um Presidente (2004); O Homem-Coisa: A Natureza do Medo (2005); O Segredo de Berlim (2006); Um Verão para Toda Vida (2007); O Amor Não tem Regras (2008); Austrália (2008); O Ultimo Dançarino de Mao (2009); O Grande Gatsby (2013); A Luz Entre Oceanos (2016); A Última Escapada (2020)

 

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