quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

PROCURANDO ELLY / À PROCURA DE ELLY / DARNAREYE ELLY / ABOUT ELLY (2009) - IRÃ / FRANÇA


DILEMA MORAL

Ótimo filme iraniano de 2009 que mostra um grupo de famílias iranianas muçulmanas que resolvem fazer uma comemoração de três dias nos arredores de Teerã. Como convidada levam a jovem professora Elly (Taraneh Alidoosti), simpática e introvertida. O grupo percebe o interesse do jovem, recém-divorciado, Ahmad (Shahab Hosseini) em Elly e, aos poucos, tentam estimular Ahmad a colocar à tona a sua atração, que parece ser correspondido de uma forma muito sutil e reservada por Elly.


No dia seguinte, Elly informa que deseja partir, pois fora o acordado com Sepideh (Golshifteh Farahani) que a conhecera, como professora de seus filhos, na escola em que estudavam. Apesar da insistência da jovem os demais convidados recusam-se graciosamente a aceitarem a sua partida, já que se afeiçoaram e gostaram de sua presença.


É solicitado a Elly que vigie três crianças que brincam perto da água. Algum tempo depois uma das crianças informa que o irmão está se afogando. Depois de um esforço conjunto para salvar o menino, percebem que Elly desaparecera.



A princípio pensam que se afogou. Depois que teria, na verdade,  partido. De acordo com o passar das horas vários fatos vão surgindo e o convite feito a Elly por Sepideh pode ter sido uma escolha errada, devido a fatores culturais. A tensão vai aumentando gradativamente entre o grupo que não sabe o que realmente possa ter acontecido a jovem, já que o corpo não aparece.



O filme no início passa a impressão de ser uma produção bem comum, sem grandes atrativos, mas com 10 minutos de filme já percebemos que estamos diante de uma produção bem cuidada, com um diretor (Asghar Farhadi, também diretor do filme "A Separação" vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2012) que soube conduzir uma narrativa de forma impecável fugindo, astutamente de temas como conflitos políticos. Percebe-se que poucos recursos foram usados: carros, uma casa na praia e ótimos atores. Temos aqui um grande exemplo de como se fazer um filme de primeira.

 


O cinema iraniano normalmente é muito bom, com produções modestas, porém de gosto refinado. O conhecimento de uma cultura com pouca entrada em nosso país é o grande chamariz desta produção que mostra o papel da mulher nesta conjuntura, dominada pelos homens. Os rígidos códigos morais e comportamentais são expostos ao longo do filme, revelando uma sociedade que tem outra perspectiva quanto a participação do indivíduo e que, fora isso, são pessoas absolutamente normais como qualquer um de nós, com seus desejos, passatempos, diversões, medos e anseios. As pessoas normalmente são parecidas em qualquer parte do mundo: elas mentem, elas se amam, se respeitam, se desrespeitam, sentem remorso e culpa. E é isso que o filme tem para mostrar, tudo isso dentro de um drama que se transforma em suspense a partir do evento e, com o surgimento de um novo indivíduo, a trama mostrará que mesmo com boas intenções podemos causar problemas a terceiros.



A citar também a escolha do ótimo elenco em que todos, sem exceção, tem desempenhos elogiáveis, com atuações contidas sem exageros ou estrelismos. Uma pequena obra-prima. Ponto para o cinema iraniano 

Trailer (legendas em inglês):





Curiosidades:

Asghar Farhadi ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim por este filme 

O filme em português aparece com o título alternativo "À Procura de Elly"

 

ONDINE / ONDINE (2009) - IRLANDA / ESTADOS UNIDOS



O PESCADOR E A SEREIA

O filme  foi apresentado como um conto de fadas moderno e conta a história do pescador irlandês, Syracuse (Colin Farrell), que um dia, em sua embarcação, resgata, em sua rede, uma bela mulher que perdeu a memória. Assustada, não quer ser hospitalizada e nem ser vista por ninguém. 



 
Syracuse (ou Syra) a abriga em uma casa, na beira da costa irlandesa, que pertenceu à sua falecida mãe e hoje se encontra quase abandonada. Ele não consegue obter muita coisa daquela jovem (a linda atriz mexicana Alicja Bachleda). Intrigado com a situação, narra em forma de um conto, sua descoberta para a filha, enquanto ela faz hemodiálise à espera de um transplante de rim. 


A filha de Syra, Annie (Alison Barry em ótima performance em seu único longa) remete imediatamente a  história ao conto irlandês sobre as Selke, metade mulheres, metade foca que assim com as sereias, em terra, podem assumir a forma humana, mas para que fiquem 7 anos em terra é necessário que descubram sua pele de foca e a escondam. Quando Annie descobre Ondine (nome dado pela própria a Syra em sua "amnésia" temporária), na casa da avó, suas suspeitas começam a tomar tons de verdade. 


Annie e Ondine encontram algo que a menina considera  ser sua pele de foca e ajuda a jovem a escondê-la. Quando a presença de Ondine é percebida na pequena cidade, aparece um estranho personagem que passa a fazer perguntas estranhas e que Annie considera como sendo o marido de Ondine que veio para levá-la novamente para o fundo do oceano.


O diretor Neil Jordan, com muita propriedade, soube conduzir uma história que passa uma mensagem de esperança e envolvente fantasia. Circus (apelido dado pelos moradores a Syra) é um ex-alcoólatra que, devido a um acontecimento envolvendo sua filha, resolve abandonar o vício. Por ironia do destino é abandonado pela esposa, alcoólatra e que repudia um marido sóbrio. Syracuse é uma pessoa que vive dignamente sua vida como pescador, porém na mente das pessoas ele ainda é o “Circus” e não Syracuse. O apelido deriva de seu tempo de embriaguez, ou seja, vivia como um palhaço. O único com quem pode confidenciar-se é o padre (Stephen Rea de Atraídos Pelo Desejo, V de Vingança e o pouco conhecido e excelente Cidadão X) que lhe dá os melhores conselhos ainda que ele, às vezes, não os siga. 


A destacar as belas imagens da Irlanda, a bela fotografia do filme, a trilha sonora, de ótimo gosto, e as performances dos atores, sem exceção, que conseguiram imprimir o ritmo certo para que o filme funcionasse. 


Syracuse é um homem que encontrou uma sereia, no mais perfeito sentido da expressão. A vida lhe dá uma segunda chance de ser feliz, mas no que ele deve acreditar? No conto de fadas que sua filha criou  e que a mulher parece corroborar ou a vida real que nem sempre é tão glamourizada como a do conto de fadas? Seu coração embarca na fantasia, sua razão na desconfiança. Mente e coração entram em choque e Syra sabe apenas uma coisa: está apaixonado por Ondine, quaisquer que sejam suas origens: sereia , selke ou apenas uma mulher. Independente da questão, que o filme desvendará com absoluta coerência, o importante é a vida a ser vivida ao lado de uma pessoa que podemos encontrar apenas uma vez na vida. 
 

Trailer: 






Curiosidades (contém spoilers):

Marion Cotillard ("A Origem"; "Dois Dias uma Noite") foi considerada para o papel de Ondine, mas Alicja Bachleda foi a escolhida.

Quando Ondina é enrolada no cobertor de Mylar, o vento dá a impressão de que ela tem rabo de peixe.

A música tocada com os créditos finais é "Braille" de Lisa Hannigan. Por algum tempo a música estava disponível para assinantes do boletim informativo de Hannigans. Um lançamento oficial não aconteceu.

Stephen Rea desempenha um papel menor neste filme, e ele também teve um papel de protagonista em um filme semelhante "sereia" lançado no mesmo ano, "Nothing Personal" (2009)



Cartaz:





Filmografia Parcial:
Colin Farrelll:









A Guerra de Hart (2002); Minority Report: A Nova Lei (2002); Por Um Fio (2002);O Novato (2003);Demolidor - O Homem Sem Medo  (2003); S.W.A.T.: Comando Especial (2003); Alexandre (2004); Miami Vice (2006); O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus (2009); Ondine (2009); Caminho da Liberdade (2010); A Hora do Espanto (2011); O Vingador do Futuro  (2012);


Alicja Bachleda









O Sangue dos Templários (2004); Ondine (2009); Polaris (2016).

Stephen Rea:









A Companhia dos Lobos (1984); Traídos pelo Desejo (1992); Entrevista Com o Vampiro (1994); Prêt-à-Porter (1994); Cidadão X (1995); Michael Collins: O Preço da Liberdade (1996); O Crime do Século (1996); Clube dos Suicidas (2001); V de Vingança (2005); Almas Gêmeas (2006); Ondine (2009); Anjos da Noite: O Despertar (2012);


Neil Jordan (diretor):
A Companhia dos Lobos (1984); Mona Lisa (1986);Traídos pelo