terça-feira, 5 de maio de 2026

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES / "WUTHERING HEIGHTS" (2026)


NOVA PERSPECTIVA SOBRE UM CLÁSSICO

No final do século XVIII, o patriarca da família Earnshaw (Martin Clunes) retorna para casa acompanhado de um pequeno órfão, Heathcliff (Owen Cooper). Logo uma amizade se inicia com a pequena Cathy (Charlotte Mellington). O casal cresce e um forte elo começa a se estabelecer, até que Cathy (Margot Robbie) conhece seus novos vizinhos: Edgar (Shazad Latif) e Isabella (Alison Oliver), após sofrer um acidente na entrada da residência de Edgar sendo acolhida até sua recuperação. Ao retornar, mostra-se deslumbrada pela vida de seus ricos vizinhos. Edgar logo lhe faz uma proposta de casamento, deixando-a indecisa. Heathcliff, após ouvir uma conversa pela metade, parte sem rumo e desaparece na noite. Cinco anos depois, o até então pobre e maltratado Heathcliff, retorna rico, jurando se vingar de todos que lhe deram uma vida miserável e o afastaram de seu amor, enquanto Cathy, agora casada, não consegue mais esconder seus sentimentos por aquele que sempre amou. 

Se o espectador, que leu a obra, que originou dezenas de versões para o cinema e a televisão, espera uma adaptação fiel, poderá ter uma surpresa: ainda que o filme proponha uma atmosfera semelhante a O Morro dos Ventos Uivantes, é difícil, considerar que estamos diante de "O Morro dos Ventos Uivantes". Personagens como o irmão de Cathy, são suprimidos sem cerimônia enquanto o pai, que morre no início do livro, permanece vivo em boa parte da trama. Se isso já é um problema, visto que o irmão é, no livro, o grande algoz de Heathcliff, durante uma fase crucial de sua vida, e o livro transfere essa característica para o pai (originalmente um homem respeitável), preciso avisar que a segunda parte do livro é completamente ignorada. A diretora Emerald Fennell optou por uma releitura livre, buscando oferecer algo novo à obra, uma reinterpretação. Não por acaso, o título foi emoldurado com aspas no cartaz para indicar que o filme não seria uma adaptação fiel.



Centrar a trama no amor físico dos personagens, em detrimento do livro, na qual não há consumação desse amor, acrescentada de muitas pitadas de erotização (leia-se sexualização), pode fazer sentido no cinema contemporâneo (o sucesso de bilheteria sugere isso), ainda que em alguns momentos o filme possa parecer um videoclipe estilizado com figurinos extravagantes, pouco condizentes com a ambientação de transição entre o período georgiano tardio e o início da era vitoriana; paisagens deslumbrantes; design de produção caprichado, além de um forte apelo sensorial e dramático. A música do compositor Anthony Willis e as canções originais de Charli XCX colhem merecidos elogios.


No romance original, porém, a proposta é muito mais ampla e complexa. A obra de Emily Brontë articula múltiplas camadas que se entrelaçam: a crítica à divisão de classes, que impede a união entre Catherine e Heathcliff; o ciclo de vingança, que se estende para além da primeira geração; e a dinâmica entre pais e filhos, que revela como traumas são herdados e, eventualmente, transformados. Soma-se a isso o contraste entre natureza e civilização (representado pelos ambientes opostos das propriedades) e uma profunda investigação sobre identidade, expressa na fusão entre os protagonistas. O romance não trata apenas de uma história de amor, mas de um estudo sobre pertencimento, exclusão e destruição emocional.


A adaptação cinematográfica, opta por minimizar essa estrutura ao eliminar elementos fundamentais da narrativa original. A ausência do narrador inicial e da construção em camadas (com destaque para o papel de Nelly Dean como mediadora) transforma a história em uma linha direta de acontecimentos, reduzindo o mistério e a ambiguidade. Além disso, a famosa cena inicial envolvendo o visitante e a presença sobrenatural de Catherine é suprimida, retirando do filme a atmosfera gótica e simbólica que marca o início da obra literária.

No caso de adaptações como O Morro dos Ventos Uivantes, quando mudamos aspectos do livro na transposição às telas há uma mudança nas motivações, até no rumo dos acontecimentos. Vejamos a personagem Nelly. No livro ela é vista como falha, mas não manipuladora. No filme Nelly vira figura ativa no erro. Com isso, no livro a tragédia nasce de um mal-entendido, impulsividade e até o timing errado, ninguém controla a situação. Mas ao colocar Nelly como figura central e modificadora da realidade (ao só avisar Cathy no dia seguinte), Nelly vira peça ativa no erro numa tragédia que poderia ser parcialmente evitável.


Quanto ao elenco, Margott Robbie (de Barbie) entrega uma Cathy dividida entre dois mundos, conflito que a consome enquanto Jacob Elord (o Frankenstein de Gulhermo del Toro) possue uma forte química com sua parceira de cena, o que torna o filme atraente para parte do público, ainda que este Heathcliff seja simplificado em suas intenções e emoções. A atriz vietnamita-americana Hong Chau (“A Baleia”) se destaca como Nelly. Shazad Latif (O Exótico Hotel Marigold 2), de ascendência paquistanesa, interpreta um Edgar consistente; e Alison Oliver traz uma Isabella bastante distinta da versão literária. Martin Clunes interpreta um Mr. Earnshaw amplificado em sua existência e modificado em sua essência. Owen Cooper (da minissérie Adolescência) como o jovem Heathcliff, está muito bem, assim como seu par em cena, a atriz mirim Charlotte Mellington. Outro bem modificado é o mordomo, interpretado por Ewan Mitchell (da série “A Casa do Dragão”)


O Morro dos Ventos Uivantes parece privilegiar a intensidade emocional imediata e a centralidade dos personagens em detrimento das camadas estruturais e simbólicas que definem o romance. Essa escolha aproxima a obra de um drama romântico contemporâneo, mais acessível e direto, porém menos ambíguo e complexo em suas implicações. Não é necessariamente o melhor, nem o pior, mas é certamente o mais distante do livro.

 

Trailer:

 


 

Curiosidades:

Quanto  a Jacob Elordi, seu Heathcliff gerou um debate entre os fãs literários porque o romance sugere que o personagem tem origens não inglesas. Emily Brontë descreveu Heathcliff em diferentes pontos como um “cigano de pele escura”, mas em outros momentos se refere a ele como pálido, deixando sua ascendência puramente ambígua.

Os estúdios se envolveram em uma guerra de licitações pelo filme no final de 2024. Embora a Netflix tenha oferecido uma quantia maior, prevista em cerca de 150 milhões de dólares, Emerald Fennell e Margot Robbie finalmente escolheram a Warner Bros., que prometeu um lançamento completo nos cinemas apesar de uma oferta menor

O filme foi rodado em grande parte no VistaVision, tornando-se uma das poucas produções do século 21 para usar o formato revivido.

Quarta colaboração ente Margot Robbie  e Emerald Fennell . Robbie já havia produzido os filmes de Fennell como Bela Vingança (2020) e Saltburn (2023) , e as duas também apareceram juntas em Barbie (2023)

O filme foi rodado na Inglaterra do final de janeiro ao início de abril de 2025. As filmagens foram realizadas em Yorkshire Dales, incluindo o Parque Nacional de Yorkshire Dales, os vales de Arkengarthdale e Swaledale e a vila de Low Row, enquanto a filmagem em estúdio ocorreu no Sky Studios Elstree, em Borehamwood, Hertfordshire.

Durante eventos publicitários, Margot Robbie usou uma réplica de uma pulseira vitoriana feita de cabelos reais pertencentes a Emily Brontë e Anne Brontë.

O vestido vermelho de “látex” de Cathy não foi feito de látex verdadeiro. Em vez disso, foi construído com um tecido sintético brilhante projetado para combinar visualmente com o piso vermelho do Thrushcross Grange.

O elenco do filme inclui três indicados ao Oscar: Margot Robbie, Jacob Elordi e Hong Chau.

Esses dois parágrafos contêm spoliers:

Em “Wuthering Heights”, a história não começa com Cathy nem com Heathcliff. Ela começa com Mr. Lockwood, (inquilino de Thrushcross Grange); Lockwood chega à propriedade; vai até Heathcliff; passa a noite na casa e ocorre o famoso episódio: o fantasma de Catherine Earnshaw na janela. Esse acontecimento que mistura realidade e sobrenatural, nos mostra que o passado ainda “vive” ali e desencadeia uma reação desesperada de Heathcliff. A supressão desses acontecimentos cria uma perda do mistério. O filme começa com um enforcamento e Heathcliff como “quase animal doméstico”. Trata da desigualdade e relação de poder desde o início, mas perde a construção lenta do vínculo entre eles que o livro faz. O livro não quer que apenas vejamos a história, mas quando o filme remove isso transforma uma obra ambígua e perturbadora em algo mais emocional e acessível, porém menos profundo. Ao transformar a morte inicial de Cathy em “revelação final”, o roteiro enfraquece o elemento quase sobrenatural e aproxima a história de um romance trágico tradicional. Com isso, o filme “esconde a morte” para criar um impacto final, no que no livro nos deixa claro que o foco é na obsessão de Heathcliff após a morte de Cathy.

Há outros três elementos fundamentais modificados nesta versão cinematográfica que podem desagradar aos mais exigentes: a ausência de Hindley, irmão de Cathy, a manutenção do pai de Cathy na história (ele morre no início do livro) e a “segunda geração” que teria sua história retratada. Por que a presença de Hindley é importante? Porque ele e Heathcliff são dois homens moldados pelo mesmo ambiente, reagindo de formas opostas. Hindley se destrói (através do álcool e do jogo), perde tudo e entra em uma ruína pessoal, Heathcliff, se endurece (vingança), conquista tudo, mas entra em uma ruína emocional. Hindley é nobre (filho da casa), perde o afeto do pai e seu trauma se dará com o ciúme e a perda da esposa Frances.   Já   Heathcliff, recebe o afeto do pai (enquanto este vivo -  no livro); e ódio, desprezo e crueldade de Hindley que passará a administrar a fazenda (o filme incorpora as características de Hindley ao pai). Seu trauma se dará com a humilhação e a perda de Cathy. Sem Hindley não há a vingança de Heathcliff pela humilhação sofrida. Não há o filho de Hindley nas mãos de Heathcliff. Sem a filha de Cathy e o filho de Hindley não há todo um arco de vingança, ódio e redenção. Cabe destacar que o relacionamento entre Heathcliff e Cathy não é carnal, nem movido a traições. E Isabella é uma mulher bem mais contida.

 

Cartaz:









 






Filmografias Parciais:

Margott Robbie






Vigilante (2008), Questão de Tempo (2013), O Lobo de Wall Street (2013), Suite Francesa (2014), Os Últimos na Terra (2015), Golpe Duplo (2015), A Grande Aposta (2015), Uma Repórter em Apuros (2016), A Lenda de Tarzan (2016), Esquadrão Suicida (2016), Eu, Tonya (2017), Pedro Coelho (2018), A Vingança Perfeita (2018), Escola da Morte (2018). Duas Rainhas (2018), Dreamland: Sonhos e Ilusões (2019), Era Uma Vez em... Hollywood (2019), O Escândalo (2019), Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (2020), Pedro Coelho 2: O Fugitivo (2021), O Esquadrão Suicida (2021), Amsterdam (2022), Babilônia (2022), Barbie (2023), A Grande Viagem da Sua Vida (2025), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Jacob Elord






A Barraca do Beijo (2018), A Barraca do Beijo 2 (2020), 2 Corações (2020), A Barraca do Beijo 3 (2021), Águas Profundas (2022), Apostas & Segredos (2024), O Caminho Estreito para os Confins do Norte (2025 -5 episódios), Frankenstein (2025), O Morro dos Ventos Uivantes (2026), Euphoria (2019–2026 - 20 episódios)


Hong Chau




 



Pequena Grande Vida (2017), Vício Inerente (2014), Intimidade Forçada (2018), Driveways: Uma Amizade Inesperada (2019), American Woman (2019), Watchmen (2019 - 4 episódios), Homecoming: De Volta à Pátria (2018–2020 - 11 episódios), Artemis Fowl: O Mundo Secreto (2020), Esculturas da Vida (2022), A Baleia (2022), O Menu (2022), O Agente Noturno (2023 - 10 episódios), Asteroid City (2023), Tipos de Gentileza (2024), Os Provocadores (2024), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Shazad Latif





 

Dupla Identidade (2002-2011 - 17 Episódios), Europa: A Trajetória de Worricker (2014), O Exótico Hotel Marigold 2 (2015), O Homem que viu o Infinito (2015), O Passageiro (2018), Perfil (2018), Star Trek: Discovery (2017–2019 - 25 episódios), Departure - A Investigação (2019 -episódios), O Cristal Encantado: A Era da Resistência (2019 - narração), Procurando Fígaro (2020), Minha Família Quer que Eu Case (2022), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Alison Oliver





 

Conversas entre Amigos (2022), Saltburn (2023), A Ordem (2024), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Martin Clunes






A Casa da Rússia (1990), Os Últimos Rebeldes (1993), Doce Vingança (1998), Shakespeare Apaixonado (1998), O Barato de Grace (2000), Aladdin (2000), Quebrando Todas as Regras (2002), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)


Owen Cooper






Adolescência (2025), O Morro dos Ventos Uivantes (2026) 


Charlotte Mellington




 


O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Ewan Mitchell






Simplesmente Charlie (2017), O Último Reino (2017–2022 - 28 episódios), Mundo em Chamas (2019–2023 - 8 episódios), Saltburn (2023), A Casa do Dragão (2022–2024 - 11 Episódios), O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

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