quarta-feira, 4 de abril de 2018

JASÃO E O VELO DE OURO / JASON AND THE ARGONAUTS (1963) - REINO UNIDO / ESTADOS UNIDOS


DEUSES, ESQUELETOS E O VELO DE OURO


Pelias (Douglas Wilmer) recebe um aviso de um vidente que conquistará o reino de Tessália (Grécia antiga) e será nomeado rei, mas por um breve tempo, pois os deuses  reservam a Jason (Todd Armstrong) o império. Então decide matar a família deste, mas ao tentar matar Jason, recebe um aviso dos deuses que lhe informa que pondo fim à vida da criança a sua também findará. Uma providência dos deuses coloca, décadas depois, Pelias sendo salvo por Jason. Sem revelar sua verdadeira identidade influencia os planos de Jason para que este siga até Cólquida (atual República da Geórgia) em busca do Velo ou Velocino de Ouro,  um artefato capaz de curar doenças e trazer a paz ao reino. Para tanto, envia seu filho, Acastus (Gary raymond), para garantir que a missão nunca logre êxito.  Jason consegue uma poderosa embarcação e recruta os melhores homens de sua época, inclusive Hércules. A nau "Argus" com seus "argonautas" parte rumo ao desconhecido enfrentado um mundo de personagens mitológicos e perigos inimagináveis.   



Dirigido por  Don Chaffey (1917–1990), um diretor que alternou filmes com seriados, a aventura mitológica “Jasão e o Velo de Ouro” (não confundir com "Jasão e os  Argonautas" de 2000), talvez seja o filme mais conhecido de  Ray Harryhaussen. Já o citei algumas vezes por aqui, pois seus filmes foram muito vistos por uma geração cujos heróis surgiam em produções como "Simbad e o Olho do Tigre", "As Novas Viagens deSimbad", As Viagens de Guliver”, "Fúria de Titãs", "Simbad e a Princesa". Sim,  Harryhaussen era "o cara" por trás das poderosas animações Stop Montion que tanto encantavam. Uma referência para as gerações posteriores. Quem assistiu a esses filmes não terá como não recordar da Medusa; do Homem das Cavernas, do tigre dentes de Sabre, da Feiticeira, da deusa de vários braços ... A eficiência técnica de Harryhaussen é tão impressionante que esquecemos os diretores com quem trabalhou, mas não esquecemos suas criações. Reverenciado pela indústria, muito se deve ao seu empenho, inovação, trabalho árduo, amor ao que fazia e muita imaginação acima de tudo.



Muitos consideram "Jason" ... o ápice da carreira do mestre dos efeitos e talvez seja, pois o realismo de algumas cenas ainda  impressiona. Uma evidência disso ocorreu na entrega do Oscar (1992) Honorário ao grande mestre pelo conjunto de sua obra. Tom Hanks disse que, para ele, não era "Casablanca" ou "Cidadão  Kane" o melhor filme de todos os tempos seria "Jasão e os Argonautas". Uma frase cunhada não por um especialista, mas, naquele momento, por apenas um fã que se deslumbrou com que viu em sua juventude.




Jason e os Argonautas parece um pré "Fúria de Titãs" (1981), que viria com um elenco de porte, quase duas décadas depois. O problema é este último foi o fim de uma era que veria chegar aos cinemas um novo filme que revolucionaria tudo novamente: “Guerra nas Estrelas". Mas Jason tem seus méritos e vamos ao que interessa:  o filme transita entre a simplicidade e o estilo épico. Seus tripulantes são pessoas comuns e funcionam quase como uma família (se hoje fosse, seriam um bando de brutamontes anabolizados com cara de maus e frases de efeitos). Temos um Hércules simpático, fanfarrão e imprudente que precipita o primeiro confronto: O Gigante de Talos, ganhando vida e caminhando pela praia. Aqui já temos uma carta de apresentação do que se seguiria. Quem viu, numa época em que não haviam efeitos digitais, deve ter ficado impressionado com seu surgimento naquela tela gigante do cinema. Sua imponência é completamente mostrada em ângulos de câmera distintos.




O roteiro ainda nos presentearia com vários personagens memoráveis: Poseidon (ou Netuno para os romanos) surgindo das águas e abrindo caminho para a tripulação em meio a um desfiladeiro mortal; as harpias (aves de rapina com rosto de mulher e seios) que atormentam o rei Fineu (Aqui Phineas), talvez a mais fraca das concepções deste filme; A Serpente de 7 Cabeças e a sequência mais elogiada e lembrada desta produção: o inesquecível confronto do protagonista e mais dois argonautas contra sete esqueletos armados de espadas e escudos. É a melhor sequência do filme. Mesmo hoje, pausando as cenas, vemos a perfeição da interação entre os personagens e as animações. Uma sequência clássica que poderia constar facilmente entre as melhores do cinema, com mais de 3 minutos de efeitos que levou quatro meses para ser realizada.



No elenco é que temos alguns problemas mais evidentes: o casal de deuses, Zeus (Niall MacGinnis) e Hera (Honor Blackman de "007 Contra Goldfinger" e do seriado britânico "Os Vingadores") não compromete, mas não encanta. O romance entre Jason e Medeia (Nancy Kovack de “Tarzan e o Vale do Ouro” e do episódio de Jornada nas Estrelas “A Private Little War”) cedeu lugar às particularidades do criativo roteiro e das interessantes figuras mitológicas. Gary Raymond, como Acastus, conseguiu se sobressair aos demais, além de Nigel Green (1924-1972) com um, já dito, simpático Hércules (sem o físico de um "Steve Reeves" que Harryhaussen rejeitou para o papel).



Jasão e os Argonautas pode não ser o melhor filme que Harryhausen trabalhou (ainda prefiro “Simbad e o Olho do Tigre"). Tem defeitos? Tem. Como a mitologia grega é narrada  (com várias incoerências)  é uma delas. Algumas interpretações também atrapalharam e o pouco desenvolvimento de algumas situações é um aspecto a ser considerado. O filme prometia uma continuação que não aconteceu, o que levou os envolvidos a outros projetos, melhores e piores, mas o saudosismo da produção e a dedicação em tentar entregar um produto de qualidade estão lá. Indicado a uma geração que se maravilhava com estórias de fantasia e mitologia, onde o herói era fácil de se distinguir do vilão e sempre tinha um clima de romance. Música do premiado Bernard Herrmann  (1911–1975)


Trailer:


  
Curiosidades:
Para aproveitar o sucesso de "Simbad e a Princesa" (1958), Ray Harryhausen concebeu originalmente o filme como "Sinbad in the Age of Muses". A história seria também na Grécia antiga e faria Sinbad se juntar a Jason na busca pelo Velo de Ouro.

A voz de Todd Armstrong, que interpretou Jason, foi dublada pelo ator britânico Tim Turner. 

A voz de Nancy Kovack, que interpretou Medea, foi dublada por Eva Haddon, uma atriz bem conhecida na rádio BBC

"Jason and the Golden Fleece" chegou a ser outro nome proposto para o filme.


Todd Armstrong cometeu suicídio depois de criar um vício em analgésicos por causa de uma terrível lesão sofrida (fonte: IMDB). 

Nigel Green faleceu por overdose acidental de remédios


Nancy Kovack em "Tarzan e o Vale do Ouro" (1966)













 







Honor Blackman em "007 Contra Goldfinger"

 




















Ray Harryhausen (1920-2013)



 
Filmografia Parcial 
Todd Armstrong (1937–1992):

 









Jasão e o Velo de Ouro (1963); O Agente Secreto Matt Helm (1966); Trovões na Fronteira (1966); A Grande Cilada (1967)e várias participações em seriados. 


Nancy Kovack

 









O Nono Mandamento (1960); No Tempo dos Pioneiros (1962); Diário de um Louco (1963); Jasão e o Velo de Ouro (1963); Os Reis do Faroeste (1965); Silvia (1965); O Agente Secreto Matt Helm (1966); Entre a Loura e a Ruiva (1966);  Tarzan e o Vale do Ouro (1966.)


Gary Raymond












O Espadachim do Rei (1958); Paixão Proibida (1959);  De Repente, No Último Verão (1959); El Cid (1961); Jasão e o Velo de Ouro (1963); A Maior História de Todos os Tempos (1965); Ratos do Deserto (seriado 1966-1968); Sótão: O Esconderijo de Anne Frank (1988); ...E o Vento Levou 2  (mini-série 1994); O Forasteiro (2003); Sex, Marriage and Infidelity (2014); National Theatre Live: Follies (2017) e participação em vários seriados.  

Jack Gwillim (1909–2001)













A Batalha do Rio da Prata (1956); Sangue Sobre a Índia (1959); Salomão e a Rainha de Sabá (1959); Circo dos Horrores (1960); Robin Hood - O Invencível (1960); Lawrence da Arábia (1962); Jasão e o Velo de Ouro (1963); A Maldição da Múmia (1964); O Homem Que Não Vendeu Sua Alma (1966); Patton - Rebelde ou Herói? (1970); Cromwell, O Homem de Ferro (1970); Fúria de Titãs (1981); Encontro às Escuras (1987); Deu a Louca nos Monstros (1987); Uma Razão Para Viver (1991) e participação em vários seriados.  

Honor Blackman


 








A Filha das Trevas (1948); Traidor (1949); Angústia de uma Alma (1950); Somente Deus por Testemunha (1958); Brincando com a Morte (1961); Serena (1962); Jasão e o Velo de Ouro (1963); Os Vingadores (seriado 1962-1964); 007 Contra Goldfinger (1964); Shalako (1968); A Virgem e o Cigano (1970); Os Renegados (1971); Uma Filha para o Diabo (1976); A Idade da Inocência (1977); O Enigma de Talos (1998); Caminhando com Leões (1999); O Diário de Bridget Jones (2001); Jack Brown and the Curse of the Crown (2004); Eu, Anna (2012); Cockneys vs Zombies (2012) e participação em vários seriados.  

Nigel Green (1924–1972)


 









O Céu ao Seu Alcance (1956); Robin Hood - O Invencível (1960); A Trama Maldita (1961); O Terror dos Mares (1962); Jasão e o Velo de Ouro (1963); Zulu (1964); A Face de Fu Manchu (1965); A Maldição da Caveira (1965); Arma Secreta contra Matt Helm (1968); Condessa Drácula (1971); A Classe Governante (1972) e participação em vários seriados.

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